Em Mauriti ainda é possível encontrar um engenho que foi construído no início do século passado. E este engenho, que um dia funcionou à força animal, ainda é uma máquina de moer cana, fornecedora de garapa e rapadura. E, acima de tudo, ainda se encontra por lá gente que deixa saudade.
Solo fértil, onde são plantadas as goiabas, mangas, bananas, cana-de-açúcar, e a mandioca. Lá o conceito de agricultura sustentável, feita de forma decente, aproveitando recursos da técnica moderna, forma-se aos poucos. Retiram da terra o que ela de melhor pode oferecer: a vida. Lugar de um povo que vive longe dessa lógica capitalista, que só pensa em se expandir, buscando lucros e mais lucros, e que é baseada na exploração do homem pelo homem.
Terra onde nasceu e se criou o poeta João Brito, tocador de viola e repentista. Um exemplo da fibra do homem sertanejo. Nascido no Sítio Açude Velho (Mauriti), este nordestino é feito juriti, resistente às duras condições da caatinga. E seja cantando “Casa Amarela” ou “Uirapuru da Saudade”, ele impressiona. Filho de camponês, e assim como as gerações passadas, é impulsionado pelo sentimento à terra. E a ela está ligado, mesmo quando esta freqüentemente se mostra dura e áspera. É um artista do povo, sentindo-o nas lutas, nas injustiças sociais, nos problemas ainda não solucionados. É um profissional da poesia.
O nordestino é dotado de uma grande capacidade criadora. O seu profundo sentimento regionalista revela-se na preocupação com a terra. Preocupação com o homem que dela tira o seu sustento. O mesmo homem que um dia precisou fugir da seca, procurando as grandes cidades, mas que ainda deseja voltar pro seu sertão. E com este sentimento ele consegue impregnar suas canções, seus cordéis, seus versos improvisados nas feiras-livres. São veículos que expressam a visão do povo, o que ele acha certo ou errado, acerca da realidade onde vivem. Um povo que luta pela busca de valores autênticos, e donos de uma consciência aguçada.
Os versos improvisados do repentista se perdem no vento. E dificilmente se encontra um que fixe em papel a sua poesia rústica, os seus improvisos, os seus poemas cheios de autenticidade. Vivem da cantoria, e cantando este folclore que não há de morrer. Mas não são objetos meramente folclóricos. A cantoria exprime a visão popular do mundo, suas necessidades e aspirações.
Assuntos que um dia foram severamente proibidos, hoje são cantados. A cantoria continua sendo um meio próprio de se expressar, e merece ser ouvida e apreciada.
Pouco a pouco a sociedade de consumo vai fazendo desaparecer as formas puras e espontâneas de cultura popular. Vai despejando diariamente em nossa vida as banalidades da indústria do Axé Music, das letras vazias. E não dá pra tolerar o desperdício da inteligência tão rica e plural da cantoria repentista. É preciso conservar esta autêntica representação do artista popular, do interior, com raízes rurais. Pois ela está bem longe dessa cultura aburguesada que tentam nos enfiar goela abaixo.
| Eu me chamo João Brito Sou poeta popular E quero descrever um pouco O meu belíssimo lugar Na minha terra querida Preciso agora falar Mauriti é meu lugar Eu vivo feliz aqui Apesar da terra seca Tem castanha e tem pêqui Meu sítio é o Açude Velho E a minha cidade Mauriti Fico triste vendo aqui |
Porque não mostra o sertão, Com festa de vaqueijada Com engenho moendo cana Rapadura e carne assada E os derivados do leite: Manteiga, leite e coalhada Porque não mostra toada |
Eu não consigo viver
Distante do meu setor Açude Velho pra mim Ele é de grande valor Fica registrado aqui Por ele meu grande amor. João Brito |
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(...) Eu andava mais na sombra Carreguei a espingarda, O velho disse: - "Senhor, |
Aquela Dose de Amor
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