Pode Guardar As PanelasComposição: Paulinho da Viola Você sabe que a maré
Não está moleza não E quem não fica dormindo de touca Já sabe da situação Eu sei que dói no coração Falar do jeito que falei Dizer que o pior aconteceu Pode guardar as panelas Que hoje o dinheiro não deu Dei pinote adoidado
Pedindo emprestado e ninguém emprestou
Fui no seu Malaquias Querendo fiado mas ele negou Meu ordenado apertado, coitado, engraçado Desapareceu Fui apelar pro cavalo, joguei na cabeça Mas ele não deu |
Você sabe que a maré
Não está moleza não
E quem não fica dormindo de touca
Já sabe da situação
Eu sei que dói no coração
Falar do jeito que falei
Dizer que o pior aconteceu
Pode guardar as panelas
Que hoje o dinheiro não deu
Para encher a nossa panela, comadre
Eu não sei como vai ser
Já corri ora todo lado
Fiz aquilo que deu pra fazer
Esperar por um milagre
Pra ver se resolve essa situação
Minha fé já balançou
Eu não quero sofrer outra decepção
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Já que mais acima falamos sobre a economia do nosso país, nada melhor que uma bela canção brasileira para ilustrar a vida de batalha que nosso povo encara para poder ganhar o pão de cada dia. E uma das mais belas canções sobre essa batalha foi escrita por um autêntico representante, dos maiores certamente, da nossa música popular:
“Você sabe que a maré não está moleza não”...
Que bela frase, quanta verdade contém, e também tantas possibilidades de interpretação! De fato, para aqueles dispostos a encarar a vida honestamente, isto é, aos que não pretendem ser políticos, policiais, desembargadores ou qualquer outro ramo criminoso, e pelo contrário, batalham diariamente sua existência com a dignidade que caracteriza todos os trabalhadores, o que se reserva é o trem superlotado, as contas altíssimas no final do mês, o salário de fome que diminui incessantemente em relação às despesas.
E, claro, ao lado de todos esses problemas, a alegria e a confiança na vida de que amanhã será diferente. E como será!
“Meu ordenado apertado, coitado, engraçado
Desapareceu”...
Frases escritas há muitos anos, e quanta atualidade! Sim, olhando o salário mínimo de fome, coitado, não do salário, evidentemente, mas daqueles que contam com ele para se alimentar, vestir, manter os filhos...Olhando dessa maneira, podemos ver que diante dessa realidade descrita na música, tão atual, as bilionárias propagandas eleitorais veiculadas na televisão todos os dias não passam de pura enganação. Porque o ordenado encolhe todo os dias, a vida está cada vez mais cara. E, quando advém o desemprego, o fantasma da fome bate à porta:
“Eu sei que dói no coração
Falar do jeito que falei
Dizer que o pior aconteceu
Pode guardar as panelas
Que hoje o dinheiro não deu”...
Só os milhões de operários e camponeses que tem que lutar diariamente pra levar comida pra casa, e que já passaram pela situação de ver essa verdadeira luta pela sobrevivência esbarrar na muralha do desemprego, repentinamente, deixando as panelas e dispensas vazias, poderão dizer o que essa situação representa, como “dói no coração”. E a sociedade capitalista em que vivemos, responsável por esse desemprego, não descansa em qualificar as vítimas dessa tragédia como “desocupados”, “preguiçosos”, “incompetentes”, exatamente para que estes milhões de oprimidos não compreendam que a causa de todos esses males não é individual mas sim social e que, portanto, só a destruição dessa ordem social existente pode por um termo a esse estado de coisas. Vã ilusão porque, como dizia o gigante Marx, essa sociedade capitalista caduca criou não só todas as condições para sua derrubada como também os coveiros que a levarão à sepultura: a classe operária, unida a todos os demais trabalhadores.
“Esperar por um milagre
Pra ver se resolve essa situação
Minha fé já balançou
Eu não quero sofrer outra decepção”
O vídeo que reproduzimos é um trecho do especial "Paulo Cesar Batista de Faria" exibido pela Rede Globo em junho de 1980 dentro da série Grandes Nomes. No vídeo, Paulinho da Viola canta acompanhado pelo conjunto "Rosa de Ouro", formado, imaginem só, simplesmente por Elton Medeiros, Nelson Sargento, Anescarzinho do Salgueiro e Jair do Cavaco e a "Velha Guarda da Portela"!
Naquele momento a economia do país vivia a ressaca do tal “milagre econômico” do regime militar, num momento crítico de inflação e desemprego. Politicamente, as massas se mobilizavam contra o regime militar fascista, reclamando transformação nas estruturas do País. Muitos se iludiram que a substituição da forma de governo resolveria os males de nosso povo. A atualidade da bela canção, por si mesma, já dispensa qualquer outro comentário a respeito...
Viva a música popular brasileira!
Não é nosso objetivo aqui traçar a trajetória artística de Paulinho da Viola, nem tampouco fazer uma discussão mais profunda sobre a autêntica música popular brasileira. Isso não se faz, como se diz, “de qualquer jeito”, e por isso reservamos essa questão para outra ocasião. Queremos apenas saudar o papel da produção artística verdadeiramente comprometida com a realidade de nosso povo, em dias em que a tal “indústria cultural” entulha lixo e enlatados goela abaixo, sobretudo da juventude, difundindo maciçamente uma ideologia colonizadora e individualista.
Uma vez que um tal conteúdo reacionário, mistificador de uma sociedade em franca decadência, não pode ter qualquer valor artístico, o imperialismo e seus “veículos de difusão” fazem de tudo por substituir a qualidade pela quantidade, pela repetição pura e simples. Basta olhar, entretanto, a superioridade da cultura popular, em forma e conteúdo, da expressão artística oriunda do seio do povo, cheia de vida, esperança, vibrante e alegre exatamente porque expressa a existência daqueles que tem por missão acelerar e levar à frente a roda da história, e não trava-la, para nos dar conta de que não há e não pode haver maior e melhor fonte e inspiração para o [verdadeiro] artista, seja músico, escritor, cineasta, enfim, que não seja o povo.
Paulinho da Viola nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 12 de Novembro de 1942. Foi lançado por Cartola, quando se apresentou no Zicartola, no Rio. Integrante e filho da Portela - teve uma desavença com os diretores da escola quando compôs Sei Lá Mangueira, gravada por Elizeth Cardoso. Provando a quem pertencia seu coração, compôs a antológica canção “Foi Um Rio que Passou em Minha Vida”, reconciliando-se com a tradicional agremiação de Madureira.
Saudamos esse autêntico representante do samba brasileiro, um dos seus maiores expoentes mesmo, e saudamos igualmente a toda a classe operária, camponeses e demais trabalhadores, os verdadeiros protagonistas das mais belas páginas tanto na arte, como na vida.
Viva a Música Popular Brasileira!
Resistir, lutar, com a cultura popular!
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