Bárbara e Pollyana, a grande imprensa noticiou que vocês ficaram com medo de ir para Bangu 6. Isto foi verdade?
Pollyana. Bom, a repórter de "O Dia" apareceu na delegacia e começou a fazer diversas perguntas. Denunciamos a polícia e falamos contra a guerra imperialista, mas quando a gente falava das coisas mais políticas ela praticamente não escrevia; ela queria saber mais a respeito da nossa reação, a respeito dos sentimentos. Nos perguntou se a gente teria medo de ser agredida, que a gente ia para o presídio onde ficavam pessoas perigosas, que tinham cometido crimes. Os policiais estavam dizendo que iríamos ser estupradas, que íamos ser machucadas. Denunciamos estas ameaças no jornal e ela perguntou se a gente não teria medo ser estuprada. É lógico que tínhamos, só que ela colocou como se nós estivéssemos com medo em geral, medo de estar ali, medo das presas. A gente estava muito feliz, inclusive porque a manifestação tinha sido gloriosa, tinha sido muito importante. A gente sabia que os companheiros estavam todos empenhados e que a nossa prisão ia ter repercussão. A postura que tivemos deixou os policiais bravos. Ao ver a gente responder com tranqüilidade, diziam: "vocês não têm medo, não? Vocês vão pegar 6 anos de cadeia." Nós dissemos que estávamos com a serenidade dos justos, não fizemos nada além do que é justo, por isso não estávamos preocupadas. Falamos isso com os delegados e com a imprensa também, acontece que a imprensa colocou da maneira que quis.
Como vocês foram recebidas pelas detentas?
P. Em Bangu 6, quando a gente chegou as presas começaram a bater palmas, sabiam que éramos manifestantes e estudantes, já tinham visto na TV. Já chegamos conversando e contando como foi, elas ficaram indignadas com o caso da Bárbara, que foi machucada pelos policiais, ficaram com muita raiva. Contaram também da vida delas, como elas tinham sido presas, a maioria foi por coisas bobas. Uma tinha roubado 5 reais para comprar comida pra casa e estava presa há dois anos. Por causa de 5 reais! A gente viu que quem está lá dentro é o povo, os verdadeiros ladrões não estão lá.
Você que estava machucada, Bárbara, como elas te trataram?
Bárbara. Elas me trataram muito bem, ficaram muito preocupadas porque várias ali tiveram acidentes com queimaduras. Chamaram a enfermeira do presídio, uma presa que é enfermeira. Aí cuidaram do meu ferimento o tempo todo, me deram total apoio, deram roupa pra gente porque a gente estava sem tomar banho e sem se cuidar, pois ficamos praticamente a noite inteira acordadas com os policiais fazendo hora com a nossa cara. Elas dividiram a comida delas, nos deram colchões, ofereceram as camas, nos trataram muito bem; tinham umas que tinham ventilador e colocaram lá pra mim por causa da queimadura.
Qual a situação das presas e como elas se organizam?
B. A situação das presas é muito ruim, porque elas são jogadas ali dentro do xadrez, não têm a menor assistência médica, a alimentação é horrível. Durante a manhã recebem, às 7 horas, uma marmita que muitas vezes está azeda, com a comida estragada. E também, dois pães, dois dedos de café e dois dedos de leite. Não recebem mais nenhuma alimentação durante o dia e têm que guardar para a hora do almoço. Elas tentam manter a cela organizada, uma disciplina, apesar de toda a sujeira em que eles deixam elas lá. A gente estava com 54 presas, tem uma escala de limpeza e todo o dia é dia de arrumação; tem a divisão das faxinas do banheiro e do xadrez.
Recebem o almoço às 7 horas da manhã?!
B. É, às 7 horas da manhã, e esta mixaria de comida. O banheiro é um buraco praticamente uma fossa, que dá para o corredor do xadrez, é totalmente desconfortável porque ali passam vários policiais, que ficam olhando; elas têm que tomar banho e fazer suas necessidades nesta situação. Elas recebem castigo, quando a gente estava lá uma disse: "o bicho vai pegar, o bicho vai pegar", aí uma menina começou a gritar lá, foi espancada lá dentro. É uma situação horrível, elas têm só uma hora de sol por semana, a visita também é uma hora por semana. Uma presa que chama Eliane, 20 anos, tem 2 filhos, morava com a avó, estava lá por um crime ridículo, um pequeno furto. Ela preferia nem ter visita porque o custo da passagem da avó para visitá-la era muito caro, e preferia que seus filhos nem fossem, por que eles iam ficar muito tristes, a criança não entende aquilo e ela preferia nem ver. Era um sofrimento muito grande das presas e elas não desejam isto para ninguém.
P. Teve uma presa que disse que nenhuma delas estava lá porque queria. Ela contou que o que tinha feito era por necessidade, era uma luta pela vida, que todas ali dentro eram batalhadoras. Ela até usou a expressão que elas andavam com a espada desembainhada, estavam na luta do dia a dia e ali dentro, também, era uma luta muito grande. Foi uma coisa muito importante pra mim o relato desta presa, elas mesmas se vendo como batalhadoras.
Tudo aquilo que a repórter havia falado sobre os perigos de Bangu 6, foi desmentido na experiência que vocês tiveram lá?
P. Certo! Inclusive quando falaram que a gente ia embora ficamos paralisadas. Aí o carcereiro falou: "Ah não, vocês não querem ir embora não?" Elas começaram a abraçar a gente, choravam, bateram palmas, foi emocionante. E os policiais com raiva: "As meninas ficam despedindo, que povo doido!". Fomos despedindo uma por uma, e elas falavam "vem visitar a gente". Elas pediram que a gente denunciasse o problema da comida, o problema do banheiro, a falta de assistência médica, o problema das grávidas, que somente bem próximo do dia em que vão ganhar é que são levadas para outro lugar e também o caso de uma presa que ficou louca lá dentro por não receber visita e a própria situação de não ter perspectiva.
Bárbara, o que você pensou quando viu que seu rosto havia sido queimado?
B. Os policiais vieram correndo e agredindo todo mundo, dando cassetada em todos os estudantes e no povo que estavam ali. Um dos policiais veio e me empurrou em cima das chamas dos molotovs no chão. Levantei rápido e vi que estava pegando muito fogo na minha cabeça. Joguei a blusa que eu tinha no rosto, outros companheiros também imediatamente me ajudaram a apagar o fogo. Olhei numa banca de revista e vi uma pele solta no meu rosto. Pensei "nós temos que continuar nossa luta". Prossegui e mais adiante, no final da manifestação, os policiais me prenderam. Nessa hora, um médico indignado apareceu e quis me levar com ele para cuidar da queimadura, mas a polícia não deixou. Eles tentaram maquinar de toda a forma um crime contra nós, forjaram vários flagrantes na delegacia, eles estavam muito desesperados com nossas prisões, a repercussão, o apoio da população e principalmente, com a situação que eles haviam criado lá, de pancadaria sobre os estudantes. Tivemos que fazer uma pressão grande pra cuidarem do meu machucado, fui levada para o Hospital Souza Aguiar. O policial chegou todo arrogante falando com todo o mundo que eu estava na manifestação que tumultou a cidade. Nisso uma estagiária muito humilde perguntou "tu tava no protesto?", "sim, estava no protesto contra a guerra imperialista". Ela falou para o médico: "Pode deixar que eu vou cuidar dela", e ela cuidou de mim com um carinho muito grande e falou "eu estou muito orgulhosa de você ter feito este protesto, eu acho que você tem que continuar firme na luta mesmo". Várias pessoas do Hospital deram apoio dizendo: "é isto mesmo, você tem que lutar, não liga para o que esse policial falou, a população do Rio de Janeiro odeia esses policiais, que sempre agridem os camelôs". Quando eu estava saindo ela olhou pra mim e falou "pode ir tranqüila, entendeu? Tu tá linda". Eu fiquei tranqüila em relação a isto e continuei cuidando dos ferimentos com apoio das companheiras e de outras presas.
Pollyana, seu companheiro Marcelo também foi preso. O que mudou no relacionamento de vocês depois desta manifestação?
P. Eu fui a primeira a ser presa, depois as outras companheiras. Achava que éramos só nós três. Quando fomos para a delegacia, dentro do elevador, vi o companheiro entrando e um falou para o outro: "você também", "você também". Logo ficamos sabendo que iríamos nos separar, ele ia para o presídio masculino e eu para o feminino. Nós tivemos um orgulho muito grande de ter o outro como companheiro. Aquela manifestação tinha sido muito importante para o nosso movimento, as prisões não significavam nada, eles queriam amedrontar, nos jogar para trás e não conseguiram. E pra gente aquilo era importante. Sempre ressaltava que estando longe, o tempo que fosse, a gente sabia da firmeza do outro. E isso só nos fortaleceu, naquele momento nos fortaleceu mais ainda. Quando eu estava em Bangu e a advogada levou o jornal, foi uma felicidade muito grande ler a reportagem de que o companheiro estava dando aulas, foi uma alegria muito grande. Nossa relação não é um só pelo outro simplesmente, aquela relação fechada em si mesma, mas uma relação que tem algo maior, que tem uma perspectiva de uma união proletária. Lutamos por um mundo novo, de homens e mulheres novos; é a luta que vai nos guiar e unir.
Como foi escutar a manifestação de libertação que os companheiros fizeram em frente a BPtrans?
P. A gente ficou muito triste de sermos transferidas para a BPtrans que só tinha duas presas, deixando aquele monte de companheiras lá em Bangu 6. Uma era juíza e a outra era advogada, elas tinham sido presas por desvio de verbas do INSS. Elas ficaram sem entender porquê gostamos de Bangu. Aí teve um dia que uma das presas, que ficava em regime semiaberto, chegou com um panfleto: "Os companheiros de vocês estão lá fora, com um monte de bandeira vermelha e estão gritando, ‘liberdade para os nossos companheiros’, escuta, escuta, aí". A gente ficou muito feliz. Aí a gente chegou na janela tentando escutar bem de longe e era bem de longe, a gente ouvia e via aquela bandeirinha pequenininha e ficamos numa alegria muito grande. Subimos na cama de um lugar que dava pra ver, ficamos muito empolgadas. A gente sabia que aquilo era um marco para o nosso movimento e a gente estava muito feliz, muito feliz mesmo.
Como as famílias de vocês reagiram às prisões?
B. A reação foi uma surpresa grande. Minha mãe ficou particularmente muito preocupada, é claro eu estava num outro estado e não conhecia nada lá, eu tinha sido machucada e maltratada pelos policiais. Inclusive eu não pude falar com minha mãe em nenhum momento, eles proibiram que falassem com os familiares, falaram que não podia ligar porque era interurbano. Minha família ficou sabendo pela repórter, que sem perguntar nossa opinião, foi lá falar com nossa família. Então isso assustou um pouco os meus familiares, mas depois que eles viram que os companheiros já estavam olhando tudo, que tinha o apoio dos advogados e os companheiros do movimento muito preocupados, indo lá para ver a nossa família, esclarecer a situação, eles ficaram mais tranqüilos.
P. Eu fiquei muito surpresa com uma irmã, a Marly, ela correu para tudo quanto é imprensa, queria falar, denunciar, procurou os companheiros do movimento e foi com eles nos Direitos Humanos e em tudo quanto é lugar. Ficou muito firme, ficou muito orgulhosa. Ela deu uma entrevista para uma rádio falando que a gente tinha feito um ato heróico e que nós tínhamos feito o que todo mundo tem vontade de fazer e que não tem coragem. Fiquei muito feliz com isso. Minha mãe também deu entrevista na imprensa falando que tinha certeza que a gente ia sair, se mostrou muito firme, falou que eu "era muito gente boa". Ficou muito preocupada não só comigo mas com os companheiros também, ficou muito preocupada com a Bárbara, tinha visto que ela havia se machucado e sempre que falava se referia a todos os companheiros. Isto alegra muito a gente.
Para encerrar nossa entrevista gostaríamos primeiramente de parabenizar vocês pela firmeza e exemplo que dão a juventude revolucionária. Em segundo que enviassem um recado para os estudantes de todo o Brasil.
B. Gostaria de dizer a todos que é muito importante o apoio dos estudantes à luta dos povos do mundo inteiro, à luta popular de nosso país, à luta revolucionária e isto ficou expresso na nossa manifestação, com todo o povo reagindo contra esta situação de opressão no nosso país e no mundo. Que os estudantes não se sintam intimidados com as pressões que a burguesia e o imperialismo tenta colocar para impedir a nossa organização. Não nos intimidamos com isso, nem com a campanha que o imperialismo faz de que são os melhores do mundo. É importante e justa toda rebelião dos estudantes em defesa do povo, contra o imperialismo e contra todo este sistema de opressão. Que os companheiros do Brasil inteiro se organizem cada vez mais e defendam a luta dos povos e a luta antiimperialista, que ingressem nesta luta para destruir este sistema de exploração.
P. Não devemos nos intimidar com as cadeias em que este Estado quer nos colocar, porque o sofrimento do povo é muito maior, muito mais intenso e não vai ser nenhuma prisão, nenhum cárcere, nenhuma pressão da burguesia ou deste Estado atrelado ao imperialismo que vai nos intimidar. A gente sabe que o povo luta todos os dias, que ele sofre muito e é este sofrimento que deve nos impulsionar pra frente, impulsionar pra luta, não deixar a gente esmorecer de jeito nenhum nem nos amedrontar. Devemos ter cada vez mais coragem porque as prisões que a gente vive de opressão e de subjugação são muito mais terríveis. Nenhuma cadeia que a burguesia pode nos colocar vai conter a revolta da juventude. Nós sabemos que mesmo se prenderem milhares de nós, o povo todo vai estar lá fora lutando. Tem uma música que diz "quando eu estou livre eu canto, mas quando estou preso escuto a voz do povo que canta melhor do que eu". É assim: não vão conseguir nos conter e não vão conseguir conter a voz do povo. Então não precisamos temer, mas ir sempre para frente, a caminho da revolução.
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