Durante todo o período que vai do século XIV até o século XVII, a burguesia revolucionária produziu muitas inovações científicas. Sua luta contra as instituições medievais clareava os olhos de grandes pensadores. No estudo das ciências humanas esse período produziu uma crítica severa a todas as concepções filosóficas obscuras e idealistas, especialmente da Igreja.
Mas logo que se solidifica o poder burguês, particularmente após a Revolução Francesa, a burguesia não mais necessitava lutar contra a nobreza feudal ou o clero papal; agora necessitava apenas manter seu poder político e sua ordem econômica. Nesse momento, todo o espírito revolucionário burguês é amordaçado pela necessidade imperativa de justificar o sistema político-econômico capitalista.
Forçada pela necessidade de organizar uma gigantesca massa de operários na nova produção industrial, a burguesia passou a reproduzir velhos sistemas filosóficos idealistas. Mais uma vez na história da Humanidade, todo o conhecimento científico seria lançado no obscurantismo de velhas idéias mergulhadas numa sociedade dirigida por classes que se utilizavam delas para oprimir e explorar. Terminava aí, a aurora da burguesia revolucionária das “luzes” do Iluminismo, ou da crítica revolucionária política de Diderot, Robespierre, Kant e Hegel, agora o pensamento estava aprisionado pela produção capitalista que não podia tolerar algo que interrompesse a produção lucrativa de mercadorias.
A burguesia volta a fazer as pazes com a Igreja, relega o Estado laico e por muitas vezes veste a roupagem dos antigos condes e duques medievais. Incrementa os aparelhos de repressão do Estado e sujeita todos os campos do conhecimento ao serviço de seu lucro, de sua produção de mercadorias e da justificação da escravidão assalariada.
Como não podia deixar de ser, a burguesia controla os meios de produção, o Estado, e também as universidades. Seria uma grande inocência acreditar que a Universidade pudesse estar fora de toda a ordem capitalista, ou mantida pelo Estado como uma ilha livre de todo controle dos grandes monopólios.
Os cursos de História durante o século XX, ora estiveram direcionados pela concepção positivista, metafísica, ora direcionados por uma concepção relativista, idealista. Ambas, representantes da concepção burguesa do mundo, combatendo o materialismo histórico, o marxismo, obscurecendo e negando o desenvolvimento da Humanidade enquanto luta pela produção e luta de classes.
Hoje a principal concepção que tem predominado no curso de História dentro das universidades brasileiras é a concepção idealista, relativista implementada principalmente a partir do final da década de 80. Essas concepções aparecem em várias formas, perpassam sutilmente por métodos dos mais variados nomes, e com um selo de esclarecidos e abrangentes como “novo paradigma da História”. Seus defensores se arvoram, com toda pompa, de “pós-modernos”, combatendo os “dogmas cientificistas” do século XIX. É neste bojo, normalmente com um característico pedantismo elitista, com uma afrancesada linguagem de “avançados” cosmopolitas, que dedicam-se à “história cultural”, “história das mentalidades”, “história da vida privada”, “história da religião, da noite na lua nova, dos gatos, dos biscoitos”, “do imaginário das pencas de balangandã”, e um monte de outras especificidades de um ou outro período da História. O interessante é que toda esta “nova história” se apresenta como coisa avançada, crítica e abrangente. Falam de interdisciplinaridade, olhar a cultura, verossimilhanças, juízo de valor, com o aparente desprendimento de dogmas e preconceitos, mas no fundo remontam, com novas roupagens, às velhas concepções idealistas do século XVII e XVIII do bispo Berckley e Hume.
Destacam-se três questões dentro desta corrente na História hoje. A história enquanto uma coleção de fatos desconexos, a história das idéias desligadas dos fatos e a história que explica a relação entre os homens de cada tempo a partir da superestrutura, da cultura, do desprezo pelas questões econômicas, sociais e políticas. Esta é a história cultural e o “pós-modernismo”, que transforma o estudo da História em apenas um hobby, “contação” de historinha, pura ficção. Essa é a História “descomprometida”, História das vaidades de seus autores, desligada da realidade, e sem nenhum compromisso com o mundo objetivo, até por que, acreditar que algo tenha acontecido e que exista alguma explicação para isso, é para seus autores, uma crença “cientificista do século XIX”.
O mosaico histórico
Dizendo-se opositores dos métodos mecanicistas do estudo da História política dos séculos XVIII-XIX, que consagravam reis e rainhas, leis, tratados ou guerras, que se bastavam com suas datas para descrever a história da Humanidade, esses “novos” historiadores passaram a suprimir qualquer sucessão cronológica, a dissociar um período do outro da História. A História hoje é considerada por muitos “autores” do chamado pós-modernismo, como um mosaico de acontecimentos, ou seja, ela nada mais é do que um montão de episódios sem um elo de ligação entre si: uma fábrica de fragmentos desconexos. Por isso fazem migalhas da História, especializando ao máximo o estudo, perdendo qualquer dimensão do geral em que um fato se relaciona com outro. Gastam-se anos em viagens, estudando tudo sobre questões extremamente específicas do indivíduo e das coisas, do tipo como o rei ou fulano de tal vivia, comia ou penteava o cabelo. Passaram a combater o que chamam de modelos “totalizantes”, os chamados “modelões” para explicar o desenvolvimento da sociedade. Tentam fazer-nos achar que a História não tem uma lógica e que cada vez é mais impossível de ser entendida. Como se cada vez estudássemos mais e menos conhecêssemos!
Para os pós-modernos o homem não é produto das relações sociais de seu tempo. As idéias vagam pela História sem correspondência com a realidade de cada período histórico. Quando estudamos a história da Revolução Francesa (1789) ao invés de analisar a estrutura e a crise econômica da França no período e as conseqüências dela na política e na cultura, caímos em discussões absolutamente abstratas, onde o debate fica estagnado e controlado por professores que têm como “supra sumo da sabedoria” autores que se consideram fundadores de uma “nova filosofia”, como Hannah Arendt, e François Furet, que fogem da realidade para justificar seu conservadorismo e reacionarismo. São na verdade os atuais representantes do velho idealismo. Deparamo-nos com idéias que não buscam a verdade nos fatos, na prática concreta dos homens em seu tempo histórico concreto.
A “História Cultural” é a história que só existe em livros, história que acredita não ter havido História na realidade.
Afundados no relativismo os escritores da “nova história” ou os “pós-modernistas”, estes que se alçam a acabar com o estudo científico da História intitulando-se historiadores, revelam uma total incoerência.
Partindo do pressuposto de que qualquer análise ou cronologia histórica é apenas uma representação que um ou outro historiador faz de um fenômeno do passado, a investigação histórica passa a ser a arte de ‘fazer história’. Assim cada historiador escreve sua história, representa, à sua maneira particular, algum fato específico e quando muito debate interminavelmente com outros intelectuais em revistas “especializadas”.
Acreditando não ser possível conhecer a realidade que se passou (alguns perguntam se de fato existiu), a História transformou-se em algo relativo e descomprometido com a verdade.
Assim esses relativistas, foram ao mais vulgar da filosofia agnóstica (que diz ser a razão humana limitada não podendo conhecer nada além das sensações) do século XVIII, passaram a escrever o que mais parecem romances ou coleções de curiosidades sobre a cultura dos povos, pensamentos e linguagens, o clima, mentalidades, etc.
Para os mais ousados dessa estirpe de historiadores, a ficção tomou conta de sua metodologia, e não uma investigação científica sobre o passado e o presente da Humanidade. Proclamam assim um novo tipo de pesquisa acadêmica anticientífica, que tenta impor a visão da nova história, da cultura, das mentalidades, da valorização da vida privada, do chamado “cotidiano”, dos utensílios mentais, como verdade.
São exatamente as necessidades materiais dos homens – em primeiro lugar – que lhes possibilitam ir compreendendo a natureza, a sociedade e o meio em sua volta e que, ao mesmo tempo, impulsionam seu pensamento para que sua compreensão se aprofunde cada vez mais. Foi a partir da necessidade de sobreviver ao frio e digerir proteínas animais que o homem primitivo dominou o fogo, como também foi das necessidades econômicas da burguesia do século XV de se libertar da opressão feudal e do obscurantismo da Igreja, que permitiram a Copérnico desenvolver a teoria do sistema heliocêntrico, derrubando o preconceito religioso de que a terra era o centro do universo, libertando o pensamento racionalista das trevas da Idade Média. E é também a necessidade de manutenção de determinada ordem vigente que impõe às classes exploradoras a necessidade de obscurecer, omitir e falsificar a realidade que está em sua volta. O pensamento do homem está intrinsecamente ligado ao tempo e à sociedade em que vive, é o reflexo em seu cérebro do mundo objetivo que o cerca e expressa suas contradições e suas aflições.
E o que são essas concepções relativistas, idealistas, senão o reflexo do mundo objetivo decadente capitalista de hoje por um lado, e por outro, uma das formas da desesperada luta ideológica que a reação tem que travar contra a superação dessa decadência? Isto quanto ao seu conteúdo pois, quanto à forma, não é mais que uma das “diferentes formas de interpretar o mundo, quando o que importa é transformá-lo”
As idéias, as concepções, tudo o que pertence à superestrutura, existe como o reflexo de uma base material sobre a qual se ergue, se reproduze, influencia.Tais idéias, concepções, teorias, etc., só podem desaparecer quando essas bases materiais desaparecerem. É perfeitamente compreensível que tantos absurdos, crendices, idiotices e charlatanices, povoem o cérebro e intoxiquem a atmosfera da sociedade atual. George W. Bush é o chefe do imperialismo, Sharon, chefe do Estado sionista de Israel, FHC governa o Brasil. Só para citar alguns exemplos de mediocridade, crise, guerras, fome, morte, decadência e putrefação do capitalismo.
Hoje, porém, no âmbito dessa história cultural, fica-se sabendo tudo sobre a sexualidade de senhores de escravos no Brasil Colônia e não se discute nada, ou quase nada sobre o problema da formação do latifúndio, do Estado brasileiro ou, como se dava no passado e nos dias atuais a exploração colonial e imperialista em nosso país. Isto enquanto é cada dia mais claro, para um número enorme de pessoas comprometidas com as lutas do povo, a necessidade da resolução imediata do problema secular do latifúndio. Não se entra profundamente nas polêmicas sobre a estrutura econômica e política do nosso país.
Por que estudar História
Além de todo o exposto, os intelectuais pós-modernos fazem a mais ampla propaganda contra aqueles que querem estudar a História para resolver de forma profunda os problemas da nossa sociedade. Quando entramos na sala de aula, desde o primeiro período, o que escutamos da maioria dos professores é um ataque às vezes direto, às vezes sutil, mas sempre constante ao marxismo, considerando um absurdo querer responder os problemas que a sociedade nos coloca através da História. Assim diz um desses intelectuais pedantes, Cornélius Castoriades:“Estes (os militantes) deveriam, talvez, parar um momento sua agitação e tentar mensurar o incalculável peso da metafísica ingênua que está contido na menor frase de seus panfletos, na idéia aparentemente mais simples e mais sólida que têm em suas cabeças.(...) pela simples razão de que estão tão imersos num oceano metafísico tão espesso (cheio dessas construções fantásticas que são as coisas, as “causas”, os “efeitos”, o “espaço” o “tempo”, a “identidade”, a “diferença”, etc.) que não podem enxergar através dele. Porém, é ainda mais grave o caso do militante que fala o tempo todo em classes, leis da história, revolução, socialismo, forças produtivas, Estado e poder, acreditando curiosamente que nesses vocábulos e no uso que fazem dos mesmos as idéias não tenham nenhum papel; que se tratam de estranhas coisas, ao mesmo tempo sólidas e transparentes – e, por causa disso, ele se encontra integralmente subjugado a concepções teóricas e filosóficas passadas, que fixaram o significado daqueles termos.”
Marx tinha razão
No prólogo de seu trabalho “Contribuição à Crítica da Economia Política”, Marx (bem mais modesto que esses intelectuais pós-modernos, intitula sua obra de contribuição), faz uma brilhante síntese sobre a relação entre a produção e o pensamento do homem.
“Em Bruxelas, para onde me transferi, em virtude de uma ordem de expulsão imposta pelo sr. Guizot, tive ocasião de prosseguir nos meus estudos de economia política, iniciados em Paris. O resultado geral a que cheguei e que, uma vez obtido, serviu de fio condutor aos meus estudos, pode resumir-se assim: na produção social da sua vida, os homens contraem determinadas relações necessárias e independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada fase de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. O conjunto dessas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta a superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas formas de consciência social. O modo de produção da vida material condiciona o processo da vida social, política e espiritual em geral. Não é a consciência do homem que determina o seu ser, mas, pelo contrário, o seu ser social é que determina a sua consciência. Ao chegar a uma determinada fase de desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade se chocam com as relações de produção existentes, ou, o que não é senão a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade dentro das quais se desenvolveram até ali. De formas de desenvolvimento das forças, estas relações se convertem em obstáculos a elas. E se abre, assim, uma época de revolução social. Ao mudar a base econômica, revoluciona-se, mais ou menos rapidamente, toda a imensa superestrutura erigida sobre ela. Quando se estudam essas revoluções, é preciso distinguir sempre entre as mudanças materiais ocorridas nas condições econômicas de produção e que podem ser apreciadas com a exatidão própria das ciências naturais, e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, numa palavra, as formas ideológicas em que os homens adquirem consciência desse conflito e lutam para resolvê-lo. E do mesmo modo que não podemos julgar um indivíduo pelo que ele pensa de si mesmo, não podemos tampouco julgar estas épocas de revolução pela sua consciência, mas, pelo contrário, é necessário explicar esta consciência pelas contradições da vida material, pelo conflito existente entre as forças produtivas sociais e as relações de produção.” (O negrito é nosso)
Os inimigos do marxismo, desde a época de sua formulação, andam à caça de um ponto débil para estocá-lo. Qualificam o marxismo de determinismo econômico, pensando assim ter encontrado a falha procurada.
Engels, companheiro de armas de Marx, em carta endereçada a J. Bloch, de 21-22 de setembro de 1890, foi enfático quanto a isso.
“Segundo a concepção materialista da história, o fator que em última instância determina a história, é a produção e a reprodução da vida real. Nem Marx nem eu, nunca afirmamos mais que isto. Se alguém tergiversa dizendo que o fator econômico é o único determinante, converterá aquela tese numa frase vaga, abstrata e absurda. A situação econômica é a base, porém, os diversos fatores da superestrutura que sobre ela se levantam, as formas políticas da luta de classes e seus resultados, as Constituições que, depois de ganha uma batalha, redige a classe triunfante, etc., etc., as formas jurídicas e, inclusive os reflexos de todas estas lutas reais no cérebro dos participantes, as teorias políticas, jurídicas, filosóficas, as idéias religiosas e o desenvolvimento posterior destas, até convertê-las num sistema de dogmas – exercem também sua influência sobre o curso das lutas históricas e determinam, predominantemente em muitos casos, sua forma.” (Obras Escolhidas Marx-Engels. As expressões em itálico são do próprio autor.)
Mas é exatamente esta capacidade de atuar no mundo, de querer responder aos anseios de nossos tempos, a ação apaixonante dos militantes, o que tanto incomoda estes “grandes teóricos” como Castoriades. E é exatamente por isso que desde o primeiro período na universidade os professores acusam os marxistas de militantes, fazem grandes discursos para confundir marxismo e positivismo. E eles o que são, senão militantes de uma posição reacionária e conservadora?
Precisamos sim de militantes no curso de História, militantes do materialismo histórico dialético, do marxismo! Não é correto ficarmos estudando feitiçarias no século tal ou qual, sodomias, etc, e deixar em segundo plano a verdadeira História da Humanidade, do país, que em nosso caso é a história das lutas do povo para libertar-se das amarras do latifúndio secular, da grande burguesia e do imperialismo. Para isto precisamos organizar um currículo paralelo às nossas disciplinas, para desenvolver o estudo e a pesquisa histórica para compreender a realidade, sem bloqueios ou limitações impostas pelos professores nas salas de aula. O mundo está conflagrado por guerras, cheio de fome e miséria . É preciso que tomemos uma posição clara diante disto, e usemos da nossa condição de estudantes para servir à luta do povo, que é quem faz a história, mas para fazê-la cada vez mais consciente.
Assim como qualquer idéia, a progressista e revolucionária tem uma base material que a sustenta. E essas idéias serão mais poderosas quanto mais se articulem e reflitam sua base material.
A luta das idéias, a luta teórica é uma das formas da luta de classes e da História.
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