O governo Lula apresentou um projeto da deputada Esther Grossi (PT-RS) planejando alfabetizar 5 milhões de brasileiros por ano. Com isso, este problema seria resolvido ainda no primeiro mandato do atual presidente. É uma reivindicação de longa data que se tome atitudes quanto a essa situação. Esse projeto será o 25º nesse sentido desde o Brasil colonial. Por que então esse problema ainda está por resolver?
Educação como plano do FMI/Banco Mundial
A educação do povo sempre foi um grande problema para as classes dominantes resolverem. Não se pode deixar o povo na total ignorância pois é necessário que se tenha mão-de-obra qualificada. Em contrapartida, uma verdadeira democratização do conhecimento é algo revolucionário, e por isso perigoso para essas classes. O FMI vem implantando em toda a América Latina projetos que procuram atingir esse objetivo. No Brasil esse projeto é implantado pelas auto-denominadas prefeituras populares. Trata-se da "Escola Plural" em Belo Horizonte, "Escola Candanga" em Brasília e muitos outros nomes pomposos espalhados por todo o Brasil. São diferentes denominações para um mesmo projeto: aprovação automática, sem necessidade de nenhum aprendizado. As instituições que seguem esse modelo criam formandos do 2º grau que ainda são semi-analfabetos. A figura do professor passa a ser algo quase descartável, pois aprendendo ou não alguma coisa com ele, no fim do ano o aluno é aprovado. Esse sistema de ensino associado aos cursos sequenciais pós-médios (simplificação grosseira dos cursos superiores), servem para criar um exército de pessoas minimamente aptas ao mercado de trabalho. Esse amplo exército de reserva serve para manter os salários no nível mais baixo possível, já que a oferta de trabalhadores será maior. Esse plano é para toda a América Latina e vem sendo nesse momento discutido no Uruguai uma variante dele, aplicada às condições daquele país.
UNE: os novos "Amigos da Escola"
A rede "Globo" criou a algum tempo o programa "Amigos da Escola". Consistia em convencer as pessoas a oferecer seus préstimos às instituições de ensino, melhorando assim as condições dessas escolas. Esse projeto tirava do governo a responsabilidade pela manutenção da educação e a transmitia para a sociedade: para que se melhorasse o ensino fazia-se necessário o trabalho voluntário de pais de alunos. O principal problema educacional vem da relação que os diversos governos brasileiros tiveram com o tema. É necessário muito investimento para a estruturação da educação, e esse investimento deve vir do dinheiro que hoje é passado aos bancos internacionais através do pagamento da dívida. Esse programa pretende "tapar o sol com peneira": um pai deve trabalhar de graça em uma reforma do prédio onde o filho estuda e se esquecer de exigir que o governo pague pela manutenção das escolas. A UNE (União Nacional dos Estudantes) criticava esse projeto, falando desse efeito funesto que ele causava. Havia até um slogan que essa entidade apoiava: "Amigos da Escola = Inimigos da Educação". É interessante como agora eles apóiam o projeto "Analfabetismo Zero" que não difere em nada de essencial ao projeto da Globo. O programa "Amigos da Escola" só mudou de nome e endereço: agora é no MEC e chama-se "Analfabetismo Zero", tendo como principais atores os integrantes UNE. Além do apoio verbal, comprometeram-se em reunião com Cristóvam Buarque a mobilizar 100 mil estudantes para trabalhar de graça.
A farsa da Concessão de Bolsas
Para conseguir tantos voluntários, o governo vai associar as bolsas de estudantes de escolas particulares ao trabalho obrigatório em seu programa. Todo estudante que receber esse benefício deverá participar do trabalho "voluntário obrigatório". O governo diz que fornecerá 30 mil bolsas associadas ao programa, mas isto não significa que haverá aumento no número dessas bolsas. Na verdade, vincularão as já existentes à participação no projeto. O Estado vai usar um dinheiro que já era gasto para conseguir mão-de-obra não remunerada para seu projeto. Colocarão esses "voluntários" para cobrir os buracos que existem e continuarão existindo pois serão apenas disfarçados. Ao mesmo tempo em que o governo faz esse esforço educacional de obrigar estudantes a trabalhar de graça, arrochará os salários de professores e funcionários, sucateando ainda mais as escolas.
A questão do voluntariado
Estas idéias têm uma boa acolhida no seio das massas, pois elas perderam há muito tempo a esperança de que o governo vá fazer algo por elas. Mas se o Estado não dá o que deveria, devemos deixar que faça o que bem queira, nos virarmos sozinhos e continuarmos pagando impostos? Chegando a conclusão de que o Estado não está servindo ao povo devemos então trabalhar para destruí-lo e construir algo novo que atenda a esses interesses. O trabalho voluntário deve servir não para tirar a responsabilidade deste podre Estado, e sim para uma perspectiva revolucionária.
Por uma educação que sirva ao povo!
Não podemos nos deixar enganar por essa embromação que é o "Analfabetismo Zero". Temos claro que esse é um projeto educacional que serve ao FMI/ Banco Mundial e às classes dominantes de nosso país. Devemos trabalhar não para ensinar as pessoas a escrever seu nome: isso não é alfabetização. Trabalhemos por uma verdadeira democratização do conhecimento que sirva ao povo em sua luta pelo fim da exploração. Para que a ciência sirva plenamente ao povo, é ele que deve produzi-la, e é para isso que devemos nos esforçar. A verdadeira democratização do conhecimento só pode ser levada a cabo em uma perspectiva revolucionária, e é sob ela que devemos nos esforçar.
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