"Viva o povo brasileiro!"
Com um viva o povo brasileiro, o artista resiste levantando a cultura popular. Este é Rubinho do Vale, artista de nosso povo. Direto do Vale do Jequitinhonha, semi-árido mineiro, vem mostrar toda a grandeza e beleza da vida do povo sofrido, da sua luta e labuta diária, através da cultura popular. Por onde passa, enche a gente de sonhos, esperança e alegrias.
Em entrevista exclusiva ao Jornal Estudantes do Povo, o artista fala do começo de sua carreira, do seu atual trabalho e das perspectivas para o futuro, e revela seu desejo de ser um cantor dos operários e dos trabalhadores. "Eu sou companheiro, mas também sou artista!", declara Rubinho em um emocionante e animado bate-papo que transcrevemos para os estudantes de todo o Brasil.
JEP - Como você começou sua carreia, como você começou a cantar com o povo e quais foram as dificuldades que você encontrou?
Rubinho - Há bem mais de 20 anos eu estou na música, e profissionalmente há uns 21 anos. Eu comecei a cantar de uma forma muito espontânea, não houve nenhum ascenso de uma hora pra outra, não fiquei correndo atrás de gravadora e produtor, ou como a meninada fala hoje: "vamos montar uma banda que dê certo e vamos estourar, e aparecer na Rede Globo". Meu processo foi totalmente diferente, foi começando a tocar violão, depois comecei a compor, e a recordar canções folclóricas. E o processo foi assim devagar e quando menos esperei eu estava dentro da música de forma profissional. O caminho que eu encontrei foi esse, de ser um artista independente, que na verdade é mais dependente do que independente, pois a gente depende de muita coisa, corre atrás de patrocínio, às vezes não tem recurso pra bancar o trabalho da gente. A indústria fonográfica não tem tanto interesse em investir nos artistas que estão do lado de fora, em quem não tem uma linguagem pop. Então você vê vários artistas que vêm do povo mais simples no Brasil que tem dificuldade de mostrar o seu trabalho e muitas vezes não têm nem essa oportunidade. De vez em quando aparece um Luiz Gonzaga.
JEP - Um dos seus discos se chama "Viva o povo brasileiro!". Por que "Viva o povo brasileiro!"?
Rubinho - Eu tinha lançado um LP em 1986 que tinha uma faixa que se chamava "Viva o povo brasileiro!" que é uma música minha em parceria com o Wesley e o João Evangelista. Então quando veio a "era do CD", de 90 pra cá, eu quis fazer algum trabalho em CD e enveredei muito no mundo da criança e deixei meu trabalho "adulto" meio de lado. Então as pessoas começaram a cobrar muito esse trabalho que estava meio de lado. Foi quando eu resolvi lançar CD "Viva o povo brasileiro!" que é quase inteiro de cações antigas que foram regravadas. Como o próprio nome dele diz é um disco de saudação ao Brasil, ao povo, aos trabalhadores, aos que sonham com um Brasil melhor, aos que não tem terra, ás pessoas que trabalham e não têm acesso aos bens materiais. O Brasil é muito injusto. Eu quis cantar essas coisas e então eu fiz esse disco. Ele tem essa coisa do próprio Brasil, primeiramente ele é um disco alegre, um disco de ritmo, de batuque.
JEP - Muitas das suas músicas têm a marca da relação do homem com a terra. O que você está querendo resgatar com isso?
Rubinho - Primeiro porque eu sou da terra, fui do meio rural até adulto, eu vim morar na cidade porque eu queria continuar meus estudos. Creio que minha relação com a terra vem daí, eu fui criado na terra, na roça. Então eu quis trazer isso pra minha música, pro meu trabalho, essa coisa rural, acho que ele assume essa identidade rural. E depois, eu acho que o Brasil, apesar da maioria da população morar na cidade, é um país rural, é um país de interior, as grandes cidades aqui são coisas novas. Essa grande quantidade de população morando na cidade é uma pena, porque isso é sinal de concentração de terra nas mãos de poucos. Está todo mundo na cidade, e quem vai plantar pra esse povão? Quem vai produzir alimentos pra eles? Então precisa ter o homem do interior , que está morando no campo pra plantar, pra preservar a natureza. O homem que mora na terra preserva mais a natureza do que o homem da cidade e o dono da agroindústria. Tudo que eu vejo, tudo que eu sinto, que tiver idéia, transformo em música. Então, não tem como fugir.
JEP - Por que você decidiu fazer músicas para crianças?
Rubinho - Eu estava cansado dessas coisas que tinham no mercado por aí, eu tenho filho, na época eu ficava indignado. Você tem que comprar os 50 discos daquela cantora tal. As vezes você nem curte aquela música, mas tem que comprar, porque é um consumismo violento. Aí eu pensei, "podia começar a compor para crianças". Eu gostava de cantar, de ficar brincando com meus filhos, viajar cantando dentro do carro, lembrando das cantigas do meu tempo de infância e cantando coisas engraçadas. Aí eu comecei a compor brincando. Nessa brincadeira já foram 4 CD´s pra criança. Adoro fazer esse trabalho.
JEP - O que você acha da dominação cultural imperialista que existe em nosso país?
Rubinho - Na verdade, teve uma época em que a música estrangeira ocupou muito mais espaço nas rádios do Brasil. Hoje menos que antes, mas as musicas brasileiras que tocam nas rádios copiam os estilos dos norte-americanos e dos europeus. Acho que valorizamos muito a cultura que vem de fora e não valorizamos a nossa cultura. Um dia eu vou fazer uma música que se chamará "Fechar fronteiras". Fechar fronteiras da cultura, por que se você tem essa coragem, o povo vai valorizar a nossa cultura e o pessoal de fora vai buscar o que você tem de bom, aí terá a troca. Nós temos ritmos variadíssimos, temos poesia. O rock n´roll é uma coisa só, aqui tem samba, frevo, xote, baião, xaxado, catira... tem coisa demais, cada um diferente do outro, dançante pra caramba, e eles não sabem dançar. Esse problema que eu falo de fechar fronteiras, é essa coragem de ser mais a gente.Nós temos que parar de querer buscar tudo lá fora e dar um jeito de construir um país mais justo pra todos. Inclusive na cultura.
JEP - Vamos falar um pouco de educação. Existe um projeto de lei pra ser votado na câmara que caso aprovado, passará a ser cobrado no imposto de renda de quem estudar em universidades públicas. Nós vemos nas universidades publicas cada vez mais taxas. Tem mais estudantes em universidades particulares do que públicas.Não há investimento por parte do governo. O que você acha disso?
Rubinho - Eu acho que o ensino deve ser público e gratuito, principalmente pra quem precisa dele. Não aumentou o número de universidade públicas, não aumentou o número de vagas e se abrem faculdades particulares igual abrem botecos hoje em dia. Isso é um comércio tremendo e não se preocupam com a qualidade do ensino. Isso acontece porque existe uma grande parte dos estudantes que não conseguem entrar nas universidades públicas, porque não tem vaga pra todo mundo. Uma grande parte de estudantes tem que ralar o dia inteiro pra poder pagar uma faculdade particular. Talento se acha em qualquer lugar, mas o pobre que tem talento não tem oportunidade.
JEP - Você já se referiu à relação que o movimento estudantil tinha com a música e a cultura popular, e parece que havia uma aproximação maior. Queria que você falasse mais sobre isso. Por que você acha que isso diminuiu?
Rubinho - Quando eu vim para Belo Horizonte, eu tinha duas opções: ou ir para o Rio de Janeiro e São Paulo atrás de produtor e gravadora, ou ficar tocando aqui. Tocar aonde? Em bares, nas noites? Eu não queria. Aí comecei a ver que nas universidades e escolas tinha espaço, tinha eventos culturais. Rodei muito essas escolas, a PUC e a UFMG principalmente, em vários cursos diferentes, fazendo shows, nas calouradas.Isso foi no início dos anos 80, era uma coisa muito legal. Estava acabando aquele movimento do Chico Buarque, Gonzaguinha, Fagner e muitos deles tocaram dentro das universidades junto com o movimento estudantil. E eu achei que isso ia continuar. Aí as calouradas começaram a ter mais rock n´roll, ou fazer uma grande festa eu acho que assim essa relação que existia diminuiu, porque o grande artista não tem um envolvimento, uma troca de cultura bacana, ele vem pega o dinheiro dele e vai embora. Então perde-se a troca: o movimento incentivar o artista e o artista incentivar o movimento. Eu acho que é interessante para o movimento estar próximo do artista, que também traduz o sentimento do movimento através da arte. O Vandré foi muito importante na época da ditadura, a música do Chico Buarque também. Eu acho que é interessante o movimento estudantil abrir espaço pros artistas mais comprometidos com o nosso país e nosso povo. A arte é também uma mola propulsora dentro das pessoas, de fé dentro das pessoas, de resistência, então eu acho que não pode dissociar.
JEP - Você acha que o movimento popular tem deixado a desejar na sua relação com os artistas populares?
Rubinho - Eu já tive uma grande decepção. Eu não digo com os movimentos populares, mas sim com os partidos políticos. Porque eu queria ser um artista popular, eu achava que no meio sindical, eu ia tocar , arrasar por aí e vender muitos discos pra fazer minha carreira sem precisar de televisão nem nada. Depois eu descobri que as pessoas que nos chamavam pra tocar, nos manipulavam. A gente cantava nas greves, nas atividades e na hora de nossos shows não prestigiavam a gente. Na hora que precisávamos fazer um disco não tínhamos apoio. Por exemplo, o sindicalismo da Petrobrás em BH, eu toquei em duas greves deles. Eu nunca fiz nada profissionalmente com eles. Eu queria ser um cantor dos operários, de trabalhadores, mas eu não consegui ser. Então eu descobri outra coisa, quando eles começam a crescer,ocupar o poder e ter uma condição melhor, eles vão aos shows de outros caras e aí nos ficamos sendo só companheiros. Eu sou companheiro, mas também sou artista!
JEP - Tem uma música sua muito bonita, que se chama "Livre Hermana", nos conte mais sobre ela...
Rubinho - Quando eu fiz essa música estavam acontecendo os movimentos da Nicarágua e de El Salvador. A letra não é minha, eu mexi nela, ajudei a fazer, mas ela é do Wesley Pioest, meu parceiro. Eu ouvi muito Violeta Parra, Mercedes Sosa, Pablo Milanesa, Silva Rodrigues, Geraldo Vandré, Victor Jara. Eu fiz essa música nessa época, dos movimentos na América Latina, e eu imaginava que esse movimento pudesse estender-se para termos uma América Latina livre. Nós somos muito mais parecidos na América Latina do que com os EUA. Agora com a ALCA, então eles vão fazer disso aqui um mercado cativo e de mão de obra barata. Eles estão de olho nas nossas riquezas. Eu gosto muito dessa música.
JEP - Qual é o recado que você gostaria de deixar para a juventude?
Rubinho - Acho que as pessoas nunca devem perder as esperanças. O movimento de vocês é muito importante, é uma energia dentro das escolas, uma energia dentro da sociedade, e é necessário. É muito importante existirem pessoas que tenham esperança, que tenham coragem, desprendimento, que sonhem com um país melhor com uma universidade melhor. Vou tentando cumprir o meu papel, sem perder a esperança, na medida do possível. E a arte é uma boa forma de despertar as pessoas de que se pode ter um mundo melhor pra viver.
Livre Hermana(Rubinho do Vale e WesleyPioest)
Americana eterna colônia Campo de sangue e morte geral Onde deságua o rio da medonha Dança de sonhos guerra central Brava hermana! Terra latina, foz de ternura Outros te bebem força e poder E o povo dobrando a mão da tortura Tomando a terra pra poder viver Sempre hermana! Gravado a fogo nunca se esqueça Da liberdade ao preço da dor Para que a paz um dia amanheça Banhando os olhos de outro salvador Doce hermana! Pelo direito de todos meninos Sem o suplício da escravidão Há de se unir o povo latino Pela bandeira de uma nação Livre hermana! |
Contato com Rubinho do Vale: R. Conselheiro Lafaiete, 1839, Sala 24 Telefone: (31) 3466-1000 Internet: www.rubinhodovale.com.br E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.
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