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Crônica: Mas vejam só que história...

Foi lá pros Nortes de Minas, próximo ao Verde Grande* ...

Os que chegaram primeiro, dizem que a coisa era tida como normal, que ninguém era a favor do fato... mas que sempre foi assim. Mas veja que história...! Todo o pavio tem uma ponta, e essa se acendeu aqui... bem na Unimontes**!

Foi num dia de janeiro, sol a pino... Gente chegando de todos os lados, já se formava uma fila, aí deu-se o rebuliço... A poeira subiu e veio até a reportagem.

- “NÃO PAGO!”

Estava feita a confusão, e a fila se acabou, virou uma multidão. – De onde veio o grito? Dizem que partiu de Maria, dizem que foi de João... Ninguém sabe ao certo... Mas veja que história... Foi um pessoal da Pedagogia, Economia e História. Assim começou o torvelinho, como nunca se viu.

- “Não pago! Me matei para ingressar na “Universidade de integração regional”, e agora querem me empurrar essa taxa ilegal? Pois agora vamos ver, vou juntar um pessoal, vamos nos matricular, seja por bem ou por mal...”

Matriculou-se e não pagou, como não pagaram dezenas de estudantes. Foi mais ou menos assim que a coisa se alastrou, destampou uma imundície, fedida como nunca viu... Não se podia cobrar taxa, até a lei garantia! Mas veja só que história... Foi assim que o primeiro movimento de luta contra as taxas aconteceu... Lembro-me bem: em janeiro de 2002.

Quem conta um conto... vai contando e a coisa vai longe! Rapidinho, rapidinho, pela Internet, rádio e jornal, a coisa chegou ligeiro pousando na Capital. Foi um pega pra capar,os estudantes da Fae, organizaram o boicote, decidiram não pagar. Puseram a boca no trombone, até um advogado se ofereceu pra ajudar. E os estudantes da UFMG entraram na justiça e conseguiram liminar, que obrigava a reitoria a fazer a matrícula sem os estudantes terem que pagar.

Pegaram a onça pela ponta do rabo... e ela ficou enfezada! A luta repercutiu e todos sabendo da novidade apressaram-se para se inteirarem do fato. A reitoria deu ordem de expulsar os que não pagaram a taxa! Mas veja só que história... Uma universidade pública expulsando estudantes por não pagarem taxa de matrícula! Pois a luta redobrou-se, alastrou-se para outros cursos, organizaram a defesa dos estudantes expulsos. A reitoria pressionada, teve que voltar atrás... teve que matricular os estudantes. Pois era o que precisava, pra animar o pessoal, já que o povo não pagava e se matriculava, provou-se por “A mais B”: essa taxa é ilegal!

Como tudo o que vai, um dia volta, só que mais forte... Tentaram também expulsar os estudantes que lutaram na Unimontes. Teve até uma sindicância interna com direito a interrogatório. A decisão da luta garantiu que isso não acontecesse. E mais forte também voltou o movimento, que agora tinha um “Comitê de luta dos universitários”. Êta que agora a coisa esquentou! O Comitê agiu ligeiro, organizou o movimento. Teve abaixo assinado, panfletagem lá na praça Dr. Carlos com carro de som, faixas e tudo mais... a população aplaudia atônita. Nem a chuva naquele dia apagou a animação do pessoal. Pelo contrário... a luta pegou fogo, muita gente aderiu, e a coisa explodiu: uma ordem do promotor deu o ultimato ao reitor: Ninguém paga mais a taxa de matrícula! Mas veja só que história... Foi uma surpresa geral, uma enorme vitória... Demonstrou que a luta e a força da união, são capazes de conseguir, qualquer reivindicação.

Daí a coisa ganhou o mundo! Se espalhou pro Brasil inteiro foi parar em Petrolina depois de cruzar juazeiro. A luta foi grande, mas os estudantes decidiram: “- Não pagamos mais a taxa!”

A reitoria, tentando intimidar ameaçou:

“ - Quem não pagar não vai se matricular! Alem do mais sem o dinheiro das taxas a universidade vai fechar, essa luta é sem sentido, como pagar os professores? e eles vão ser demitidos!”

Dona reitora, logo a senhora que tanto conhece a universidade, sabe muito bem que professor não se paga com o dinheiro das taxas! A resposta veio a galope:

“ - Não adianta ameaçar. Se é por falta de dinheiro, vamos nos organizar, mas pra cobrar do governo... que fique bem claro: os estudantes não vão pagar.

E não pagaram! Foi assim que a notícia, da Faculdade de Formação de Professores de Petrolina, chegou no Ceará. Querendo saber da luta apareceu um pessoal, vieram lá do sertão, da cidade de Sobral. Lá a luta fervia, porque os estudantes não aceitavam mais enriquecer a reitoria. Assim se deu a história: De terno e gravata entraram na festa do reitor. Abrindo os elegantes casacos, pra surpresa dos convidados, haviam centenas de panfletos muito bem acomodados. Assim dizia o boletim: “Universidade gratuita, mas nem tanto... Feliz aniversário, magnífico reitor! Esta festa está sendo financiada com o dinheiro das matrículas. Gostaríamos de entrar. Podemos?...” Ah... foi uma festa memorável...

E os estudantes de Sobral também não pagaram as taxas! Mas vejam só que história...!

E a história viaja a galope!

Na UFMG, a luta se avolumou... o DCE (dirigido pelo PcdoB) Mas vejam só que história... votou em uma reunião da sua diretoria, contra o boicote a taxa de matrícula. Essa foi a gota d’água... o DCE, representação dos estudantes, contra o boicote às taxas. Mas há muito, a direção do DCE não representava nada... e o Diretório Acadêmico dos estudantes de Engenharia, decidido a lutar, procurou os estudantes que junto do MEPR também iriam boicotar. Batata! Vitória dos 4500 estudantes que são representados pelo DA de Engenharia, que não pagaram as taxas! Mas vejam só que história... e o rastilho dessa luta segue aceso incendiando as universidades desse Brasilzão!

Todo pavio tem sua ponta... Mas vejam só que história... a ponta continua acesa, não se apagará tão cedo. A universidade é para o povo, para levar para seus filhos o conhecimento.

Me recordo daqueles dias de janeiro... sol a pino. A galope, a luta viaja e percorre o Brasil de ponta a ponta. Por onde passa, está feito o alvoroço... Aqui deixou rebentos fortes e vistosos, certeza de uma colheita farta. Todo conto, que se conte tem a “moral da história”. Essa deve ficar por conta da continuidade da luta dos estudantes. Dos debates e da nossa organização. Muito trabalho nos aguarda, e “esperar não é saber, quem sabe faz acontecer” Mas vejam só que história...


Crônica redigida pelos companheiros do Norte de Minas, publicado no jornal do DCE da Unimontes (gestão “Esperar não é saber, quem sabe faz acontecer” em outubro de 2003)

* Importante rio da região

** Universidade Estadual de Montes Claros