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Fala a resistência iraquiana: "A libertação de Bagdá não está distante"

iraque11 Desde o início da guerra de resistência à invasão ianque ao Iraque, já foram mortos mais de 1000 efetivos das tropas invasoras, dentre eles mais de 800 soldados norte-americanos. A resistência nacional se unificou e grandes enfrentamentos estão se dando por todo o país. A incapacidade dos invasores de erradicar ou frear as ações da resistência demonstra a força e o apoio social dos insurgentes. O Jornal Estudantes do Povo, reproduz agora uma entrevista recente, feita em Bagdá, com generais da resistência. O quadro de organização e força que eles apresentam é verdadeiramente animador. Mostra que esta luta está longe de terminar e que os ianques se arrependerão muito. Estão metidos neste atoleiro.

Por Alix de la Grange Asia Times

Às vésperas da chamada transferência da soberania ao novo governo provisório do Iraque, em 30 de junho, ex-generais de Saddam Hussein, transformados em membros da vanguarda do movimento de resistência iraquiana, abandonaram por um momento suas posições clandestinas para explicar sua versão dos acontecimentos e falar sobre seus planos. Segundo estes funcionários de Baath, "a grande batalha" no Iraque ainda não aconteceu.

"Os estadunidenses prepararam a guerra, nós preparamos o pós-guerra. E a transferência do poder em 30 de junho não mudará nada em nossos objetivos. Do nosso ponto de vista, o novo governo provisório, nomeado pelos estadunidenses, não possui legitimidade. Não são mais do que títeres."

Por que esperaram tanto estes antigos oficiais para aparecer em público? "Porque agora estamos seguros de que vamos vencê-la".

Encontro secreto

Hotel Palestina, terça-feira, 15 horas. Uma semana depois de um pedido formal, a possibilidade de falar com a resistência parece mais remota. Chegamos a uma série de pontos mortos – até que um homem, que jamais havíamos visto, se aproxima discretamente de nossa mesa. "Ainda querem se encontrar com membros da resistência?", fala dirigindo-se a companheira que estava comigo, uma jornalista árabe que esteve muitas vezes no Iraque. A conversação é breve. "Nos encontramos amanhã pela manhã no Hotel Babel", disse o homem antes de desaparecer. Contra todas as expectativas, este contato parece ser mais confiável que os que tivemos antes.

Hotel Babel, quarta-feira, 9 horas. Na entrada do cibercafé, freqüentado por mercenários estrangeiros, o homem que vimos no dia anterior apresenta a situação: "Amanhã, às 10, na al-Saadoun Street, em frente ao Palestina. Venham sem chofer".

Chegamos ao local do encontro quinta-feira pela manhã, em um táxi. O contato nos espera. Depois de um breve "Salam Alekum" entramos em seu carro. "Aonde vamos?" Não responde.

Viajamos durante mais de duas horas. Em Bagdá, inclusive quando o tráfego não está totalmente bloqueado por postos de controle militar, os engarrafamentos são permanentes. Em um ano, mais de 300 mil veículos foram contrabandeados para o país. Um em cada dois carros não tem registro e a maioria dos motoristas nem sequer sabem o que significa "licença para dirigir".

"Chegaremos logo. Conhecem Bagdá?", pergunta nosso homem. A resposta é um não categórico. Para orientarmos na cidade, crescida em total desordem, é necessário circular livremente, e a pé. A criminalidade se propaga como um vírus: uma onda de seqüestros, 50 ou 60 ataques diários contra as forças de ocupação e a reação indiscriminada dos militares do EUA: não anima verdadeiramente a caminhar.

O carro estaciona em uma ruela, perto de um micro-ônibus com vidros embasados. Uma de suas portas se abre. A bordo, estão três homens e um motorista que vigiam atentamente todas as ruas e casas em nosso redor. Sim, nós ignoramos por completo o que é que nos espera, nossos interlocutores parecem saber perfeitamente com quem falam. "Antes de qualquer discussão, não queremos que vocês tenham dúvida alguma sobre nossas identidades", dizem, enquanto retiram alguns papéis de uma empoeirada bolsa de plástico: carteiras de identidade, identificação militar e várias fotos que os mostram em uniforme junto a Saddam Hussein. São dois generais e um coronel do dissolvido exército iraquiano, que agora fogem há meses, perseguidos pelos serviços de inteligência da coalizão.

"Queríamos retificar certa informação que circula atualmente nos meios ocidentais, por isto tomamos a iniciativa de reunir-nos com vocês." Nossa discussão dura mais de três horas.

De volta à queda de Bagdá

"Sabíamos que se o Estados Unidos decidisse atacar o Iraque, não teríamos possibilidade alguma diante de seu poder tecnológico e militar. A guerra estava perdida de antemão, assim preparamos o pós-guerra. Em outras palavras: a resistência. Contrariamente ao que se tem dito, não desertamos depois que as tropas do EUA entraram no centro de Bagdá, em 5 de abril de 2003. Combatemos uns poucos dias pela honra do Iraque – não por Saddam Hussein – logo recebemos ordens para dispersarmo-nos." Bagdá caiu em 9 de abril: Saddam e seu exército haviam desaparecido.

"Como havíamos previsto, as zonas estratégicas caíram rapidamente sob o controle dos estadunidenses e seus aliados. Por nossa parte, era hora de executar nosso plano. Já haviam sido organizados os movimentos de oposição à ocupação. Nossa estratégia não foi improvisada depois da queda do regime." Este plano B, que parece haver escapado por completo aos estadunidenses, foi cuidadosamente organizado, segundo estes oficiais, durante meses, talvez anos antes de 20 de março de 2003: o começo da Operação Liberdade Iraque.

O objetivo era "libertar o Iraque e expulsar a coalisão. Recuperar nossa soberania e instalar uma democracia laica, porém não a imposta pelo EUA. Iraque sempre foi um país progressista, não queremos voltar ao passado, queremos avançar. Temos gente muito competente", disseram os três estrategistas. É claro, que não se tratará de nomes nem números precisos sobre a rede clandestina. "Temos a quantidade necessária, uma coisa que não diminui são os voluntários".

Fallujah

A mortal ofensiva das tropas do EUA em Fallujah, em março, foi o momento crucial da resistência. O saque indiscriminado realizado pelos soldados estadunidenses durante suas missões de vasculhamento de casas (segundo numerosas testemunhas) e a humilhação sexual infligida aos prisioneiros, incluindo Abu Ghraib em Bagdá, somente serviram para multiplicar a fúria sentida pela maioria dos iraquianos. "Já não há confiança, será muito difícil recuperá-la". Segundo estes dirigentes da resistência: "Chegamos a um ponto de onde não se pode voltar".

sadam2 É exatamente o mesmo ponto de vista de uma mulher xiita que havíamos encontrado dois dias antes – uma ex-militante clandestina da oposição contra Saddam: "O maior erro das forças de ocupação foi desprezar nossas tradições e nossa cultura. Não se dando por contentes em haver bombardeado nossa infra-estrutura, trataram de destruir nosso sistema social e nossa dignidade. E isso não podemos permitir. As feridas são profundas, tardarão a cicatrizar. Preferimos viver sob o terror de um dos nossos que sob a humilhação da ocupação estrangeira."

Segundo os generais de Saddam: "mais de um ano depois do começo da guerra, a insegurança e a anarquia seguem dominando o país. Devido a sua incapacidade de controlar a situação e manter suas promessas, os estadunidenses se indispuseram de forma antagônica com o conjunto da população. A resistência não se limita a uns poucos milhares de ativistas. Uns 75 % da população nos apóia e nos ajuda, direta e indiretamente, oferecendo informação, ocultando combatentes e armas. E tudo isto, apesar dos danos colaterais que muitos civis sofrem em operações contra a coalizão e os colaboracionistas."

A quem consideram como "colaboracionistas"? "Todo iraquiano ou estrangeiro que trabalha para a coalizão é um alvo. Empregados dos ministérios, mercenários, tradutores, empresários, cozinheiros ou criadas, não importa o nível de sua colaboração. Se assinas um contrato com o invasor, assinas teu atestado de óbito. Iraquianos ou não, são traidores. Não se esqueçam que estamos em guerra."

Os meios de dissuasão da resistência levaram a uma lista cada vez mais limitada de candidatos aos postos chaves no governo propostos pela coalizão, e isto em um país arrasado por 13 anos de embargo e duas guerra, onde o desemprego tem sido um problema crucial. O caos geral não é a única razão pela qual o povo não reinicia sua atividade profissional. Se os estadunidenses, rapidamente assombrados por toda a situação, tiveram que tomar a decisão de restituir a seus cargos antigos baathistas (polícias, agentes do serviço secreto, militares, funcionários do ministério do petróleo), isto não vale para todos.A maioria das vítimas do decreto do administrador L. Paul Bremer, de 16 de maio de 2003, onde se aplica a des-baathificação do país continua na clandestinidade.

A rede

Essencialmente composta por baathista (sunitas e xiitas), a resistência agrupa atualmente "a todos os movimentos de luta nacional contra a ocupação, sem distinção religiosa, étnica ou política. Contrariamente ao que se imagina no Ocidente, não há uma guerra fratricida no Iraque. Temos uma frente unida contra o inimigo. De Fallujah a Ramadi, incluindo Najaf, Karbala e os subúrbios xiitas de Bagdá, os combatentes falam uma só voz. Quanto ao jovem líder xiita Muqtada al-Sadr, ele está conosco, a favor da unidade do povo iraquiano, multi-religioso e árabe. O apoiamos desde uma perspectiva tática e lógica."

Cada região iraquiana tem seus próprios combatentes e cada facção é livre para escolher seus alvos e seus modus operandi. Mas a medida que passa o tempo, suas ações são crescentemente coordenadas. Os generais de Saddam insistem que não há disputas entre essas diferentes organizações, com exceção de um ponto: qual eliminará o maior número de estadunidenses.

As armas preferidas

iraque13"Os ataques são meticulosamente preparados. Não devem durar mais de 20 minutos e operamos de preferência a noite ou muito cedo pela manhã para limitar o risco de afetar civis iraquianos." Antecipam nossa próxima pergunta: "Não, não temos armas de destruição em massa. Por outra parte, temos mais de 50 milhões de armas convencionais." Por iniciativa de Saddam, um verdadeiro arsenal foi ocultado em todo o Iraque muito antes do começo da guerra. Não se trata de artilharia, nem de tanques, ou helicópteros, mas sim de Katiuchas, morteiros (que os iraquianos chamam haoun), minas anti-tanque, lança-granadas com impulsão por foguetes e outros lança-foguetes de produção russa, mísseis, rifles automáticos AK-47 e reservas importantes de todo o tipo de munição. E esta lista está longe de ser completa.

Porém as armas mais eficazes seguem sendo os kamikazes [mulheres/homens-bomba]. Unidade especial, composta em 90% por iraquianos e em 10% por estrangeiros, com mais de 5 mil homens e mulheres bem treinados, não é preciso mais que uma ordem verbal pra conduzir um veículo carregado de explosivos.

O que acontecerá se as reservas de armas diminuírem? "Não existe preocupação a este respeito, faz tempo que produzimos nossas próprias amas." É tudo o que estão dispostos a revelar.

Reivindicação de autoria

"Sim, executamos os quatro mercenários estadunidense em Fallujah em março passado. Por outro lado, os soldados estadunidenses esperaram quatro horas antes de retirar os corpos, quando o fazem normalmente em menos de 20 minutos. Dois dias antes, uma jovem mulher casada havia sido arbitrariamente presa. Para a população de Fallujah, esta foi a última gota, desta forma expressaram toda a sua cólera contra os quatro cadáveres. Os estadunidenses, fizeram coisa muito piores com prisioneiros iraquianos vivos."

iraque12O ataque suicida que provocou a morte de Akila al-Hashimi, diplomata e membro do conselho Governante do Iraque, em 22 de setembro de 2003, foi também perpetrado pela resistência, assim como o carro bomba que matou o presidente do órgão executivo iraquiano, Ezzedin Salim, em 17 de maio, na entrada da Zona Verde (que os iraquianos chamam de Zona Vermelha, devido a quantidade de ofensivas da resistência).

Também são responsáveis pelos seqüestros de estrangeiros. "Nos damos conta de que os seqüestros de estrangeiros afeta nossa imagem, porém tratem de compreender a situação. Nos vemos obrigados a controlar a identidade das pessoas que circulam por nosso território. Se temos provas de que são humanitários ou jornalistas os liberamos. Se são espiões, mercenários ou colaboradores os executamos. A propósito, sejamos claros, não somos responsáveis pela morte de Nick Berg, o estadunidense que foi decapitado."

Sobre o ataque contra a central da ONU em Bagdá, em 20 de agosto de 2003: "Jamais demos uma ordem de que se ataque a ONU e tínhamos grande estima pelo brasileiro Sérgio Vieira de Mello [representante especial da ONU que morreu no ataque], porém não é impossível que os autores do ataque suicida venham de outro grupo da resistência. Como temos explicado, não controlamos tudo. E não devemos esquecer que a ONU é responsável pelos 17 anos de embargo que temos sofrido."

E o ataque de 27 de outubro de 2003 contra a Cruz Vermelha em Bagdá? "Este não teve nenhuma relação conosco, sempre temos tido muito respeito por esta organização e pela gente que trabalha nela. Qual poderia ser nosso interesse em atacar a uma das poucas instituições que estão ajudando à população do Iraque durante anos? Sabemos que pessoas de Fallujah tem reivindicado este ataque, porém podemos assegurar-lhes que não fazem parte da resistência. E também temos que agregar: por razões políticas e econômicas, existem muitos que têm interesse em desacreditar-nos."

Depois do 30 de junho

"A resolução 1546, adotada em 8 de junho, não passa de outra rede de mentiras de acordo com o ponto de vista de muitos iraquianos. Primeiro, porque termina oficialmente a ocupação por tropas estrangeiras enquanto autoriza a presença de uma força multinacional sob o controle estadunidense, sem estipular a data de sua partida. Segundo: porque se rechaçou o direito iraquiano de vetar operações militares importantes, exigido por França, Rússia e China. Washington concedeu somente uma vaga noção de associação com a autoridade iraquiana e não pensou em nada em caso de desentendimento. Os iraquianos não são estúpidos: a manutenção de tropas do EUA no Iraque depois de 30 de junho e o dinheiro da ajuda que receberão do Congresso do EUA não deixam dúvidas sobre a identidade de quem governará realmente o país."

E sobre um possível papel da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN)? "Se a OTAN intervém, não é para ajudar nosso povo, é para ajudar aos estadunidenses a saírem deste atoleiro. Se quisessem nosso bem-estar, o haveriam feito antes", dizem os três oficiais enquanto controlam seus relógios. É tarde e ultrapassamos em muito o tempo combinado.

"O que as tropas do EUA não podem fazer atualmente, as da OTAN não poderão fazer mais tarde. Todos devem sabê-lo: As tropas ocidentais serão consideradas pelos iraquianos como ocupantes. É algo em que George W. Bush e seu fiel aliado, Tony Blair, farão bem em pensar. Ganharam uma batalha, porém não ganharam a guerra. A grande batalha apenas começou. A libertação de Bagdá não está distante."

25 de junho de 2004