Na madrugada do dia 9 de agosto de 1995, centenas de policiais fortemente armados e pistoleiros fardados invadiram um acampamento de camponeses pobres na fazenda Santa Elina, município de Corumbiara, Sul de Rondônia. Foi uma ação covarde arquitetada por latifundiários, juízes, PM e pelo governo do estado. Um grande aparato de mais de 500 policiais e para-militares foi montado para reprimir as cerca de 350 famílias que lá estavam acampadas desde julho do mesmo ano. Estas famílias eram todas de camponeses pobres da região que, sem mais nenhuma alternativa de sobrevivência, se organizaram para ocupar a fazenda Santa Elina.
O estado de Rondônia tem um histórico de enfrentamentos entre camponeses e latifundiários; centenas de pobres já foram assassinados na luta pela terra. Na invasão ao acampamento da fazenda Santa Elina 12 camponeses foram assassinados, entre eles uma mulher e uma criança de 7 anos - Vanessa Santos Silva. O massacre só não foi ainda maior devido a forte resistência imposta pelos camponeses, que se defenderam com destemor. Além dos assassinatos a polícia montou um campo de concentração e por um dia inteiro torturou, violentou mulheres e humilhou os trabalhadores, com toda a selvageria e ódio reacionários. Durante a investida na madrugada, em que os camponeses rechaçaram os ataques, a tropa de assassinos não avançou, o que somente conseguiu fazer quando o dia já clareava e esgotara a munição da resistência camponesa. Ainda assim, para penetrarem no acampamento utilizaram mulheres e crianças como escudo. No acampamento, os assassinos praticaram todo tipo de barbaridades contra pessoas imobilizadas, chegando ao cúmulo de obrigar um jovem a comer pedaços do cérebro de um outro camponês que tivera a cabeça esfacelada por golpes de porretes.
Tal selvageria desenfreada foi cometida com intuito de amedrontar as massas camponesas para que elas não ousassem mais tomar terras. Porém “o sangue não afoga a revolução, senão que a rega”; isto foi comprovado pelos camponeses pobres de Rondônia que, após a Batalha de Santa Elina, intensificaram a luta pela terra, espalhando as tomadas de terras por todo o estado e por todo o Brasil.
Há exatamente um ano atrás, o julgamento do caso Corumbiara revelou toda farsa da justiça quando se trata de julgar os crimes do Estado e das classes dominantes. Como era de se esperar nenhum dos conhecidos responsáveis pelas atrocidades cometidas contra as massas pobres de Rondônia foi condenado e preso. Como no caso de Eldorado de Carajás as autoridades que ordenaram o massacre, os latifundiários que ajudaram coordená-lo e os oficiais da polícia que comandaram as operações nada sofreram. Um dos que participaram diretamente na coordenação do crime, o latifundiário Antenor Duarte, conhecido organizador de paramilitares, famoso por seus crimes contra camponeses e indígenas, não teve seu nome sequer citado na fase final do processo.
Mas nada se pode esperar desta justiça a serviço do latifúndio e da burguesia; a verdadeira vingança dos assassinados em Santa Elina está sendo feita na luta. Hoje, neste estado, uma forte tempestade começa a se levantar; são os homens e mulheres organizados na Liga dos Camponeses Pobres que, como continuadores dos que caíram em combate, seguem bravamente a luta contra o latifúndio. Os camponeses de Rondônia, com seu sangue derramado na fazenda Santa Elina abriram uma nova fase na luta camponesa em nosso país. Com suas pesadas e calejadas mãos mostrarão que o único caminho para a conquista da terra é a revolução agrária, com a destruição de todo o latifúndio e a entrega imediata da terra para quem nela trabalha. Como um grande e violento tufão as massas camponesas vão se levantar e varrer todo o latifúndio e toda a repressão contra o povo para as páginas mortas da história. O ódio represado de camponeses e operários por anos de exploração, como uma torrente se voltará contra a burguesia e o latifúndio, contra seu Estado podre e sanguinário. As mortes de milhares de companheiros lutadores e de massas pobres de nosso país será vingado!
As classes dominantes tremem de ódio, mas principalmente de medo dos camponeses pobres de Rondônia, que do meio da selva em suas pequenas choupanas - com seus chinelos de dedo e braços fortalecidos pelo duro trabalho de sol a sol - fazem suas “contas para o dia que vai chegar”. “É a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar!”
Aumenta a repressão, cresce a resistência
Atualmente os latifundiários têm intensificado a perseguição aos dirigentes da Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia. Com a desculpa de evitar novas tomadas de terras no sul do estado, policiais militares prenderam e agrediram diversos camponeses, invadiram casas sem mandato judicial, pressionam as pessoas por informações e invadiram a Escola Família Camponesa que se localiza na zona rural de Corumbiara. Esta invasão ocorreu no dia 15 de maio deste ano, quando um grupo de 9 homens, composto por 4 policiais e três elementos civis ( eram policiais que participaram do assassinato de camponeses na Fazenda Santa Elina em 1995) entrou na escola durante a aula disparando tiros em várias direções. Na presença das crianças o professor Carlos foi espancado com golpes de coronhada na cabeça e detido juntamente com outros funcionários da Escola. Assustadas, as crianças foram levadas para fora da Escola, enquanto os policiais seguiram gritando palavrões e agredindo a todos; quebraram o piso do banheiro aos berros de “cadê as armas?” além pressionarem o professor e os demais funcionários para que eles revelassem as casas onde estava sendo preparada uma suposta ocupação. Antes de ir embora os policiais roubaram fitas de vídeo, livros e outros materiais da Escola. A Escola foi construída com o esforço das famílias camponesas e é mantida por elas.
Tais arbitrariedades não ficarão impunes. Os camponeses e as organizações de trabalhadores no estado exigem a apuração dos fatos e punição para o bando de policiais/pistoleiros agressores, a reparação dos estragos na Escola e a devolução dos materiais roubados pelos criminosos.
Neste momento cabe a nós, estudantes, fazermos de nossas escolas verdadeiras caixas de ressonância para a voz dos camponeses pobres de Rondônia. Mesmo sob situações extremamente difíceis eles seguem lutando pela conquista da terra. Devemos organizar campanhas de solidariedade dando apoio mais efetivo à luta dos camponeses pobres!
Viva a heróica Batalha de Santa Elina!
Glória aos camponeses que tombaram na luta!
Abaixo o terrorismo policial em Rondônia!
Viva a Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia!
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