Como já assinalávamos em matéria publicada em nosso site, e que se encontra disponível no Jornal Estudantes do Povo nº 11, a fundação de uma pretensa “nova entidade estudantil” pelo PSTU e algumas organizações satélites não representa em realidade um passo sequer na construção de um autêntico novo movimento estudantil brasileiro, à altura das tradições de luta da juventude em nosso país.
Toda a postura dos fundadores dessa suposta entidade nas diversas ocupações de reitoria que sacudiram as universidades públicas nos últimos anos são prova cabal do caráter limitado, vacilante e, no final de contas, traidor jogado pelo centrismo no movimento popular em geral e estudantil em particular. Na USP em 2007, por exemplo, tiveram a coragem de votar pelo fim da ocupação em uma dezena de assembléias consecutivas e, uma vez atropelados pela massa estudantil, correram a convocar uma Plenária Nacional na USP (diga-se de passagem, não construída pelos setores que realmente estavam à frente da ocupação daquela universidade) a fim de capitalizar os logros do movimento. Esse ano, novamente, o DCE da USP, aparelhado por PSOL/PSTU, foi decisivo na desmobilização da greve e no encerramento da onda de manifestações ali ocorridas. Na UnB também não foi diferente. Aonde quer que tenham ocorrido ocupações a história se repetiu. Os atos contra a “crise econômica” ocorridos em 30 de março e 14 de agosto últimos, em conjunto com os mega-pelegos da CUT, da Força Sindical e CTB (exatamente os setores governistas que dizem combater) falam por si, assim como os insistentes chamados para que a “esquerda da UNE” se incorpore ao processo de construção da dita entidade.
Seria possível que do seio de tais práticas surgisse algo novo? Evidentemente, não. E o curto tempo de existência da tal Assembléia Nacional dos Estudantes-Livre comprova cabalmente o que dizemos. Mas, do ponto de vista político, o que seja talvez mais emblemático e significativo a respeito de a quê veio essa “nova entidade” seja a primeira campanha nacional realizada pela mesma: o “Fora Sarney”.
Numa clara tentativa de galvanizar respaldo e afirmar seu espaço a ANEL protagonizou a tentativa de reeditar o “Fora Collor”. Ora, tal movimento, todos sabem, não foi nada mais nada menos que a substituição de um gerente por outro, sem alterar o mínimo que fosse a estrutura arcaica e anti-democrática do velho Estado brasileiro. Na verdade tal movimento marca a degenerescência completa da UNE e da UBES e a “vitória” de um estilo de movimento estudantil pacifista e festivo em oposição ao movimento estudantil combativo e revolucionário das décadas de 60 e 70. O recurso de impeachment de Collor por parte das classes dominantes serviu, em última instância, para reafirmar a tal “democracia” das eleições. Para o reformismo do PT, que na época incluía as correntes que conformam o que são hoje PSTU e PSOL, tratou-se de uma boa oportunidade de alçar a candidatura Luís Inácio. É esse episódio que tentou a ANEL reeditar, sem sucesso.
E o fato de ninguém mais levar a sério o tal “Fora...” significa ao mesmo tempo a prova da nova situação que vivemos e o caráter retrógrado e ultrapassado que o reformismo se esforça por imprimir à luta de classes no nosso país.
Isso porque a eleição do PT marca o auge e desmascaramento de todo um projeto de conciliação de classes e traição levado a cabo por décadas pelo oportunismo em nosso país, atuando como verdadeira camisa de força do povo brasileiro. Hoje, quando a tal crise do Senado vem à tona revelando o PT ao lado das figuras que mais representam o atraso, a semifeudalidade e o reacionarismo em nosso país, como são Sarney, Collor, Calheiros e outros párias, hoje quando a criminalização crescente da pobreza e dos movimentos populares em geral empurram o povo para lutas cada vez mais radicalizadas, hoje quando o movimento estudantil consegue em cada vez maior número de frentes romper as amarras colocadas sobre ele nos últimos vinte anos, hoje quando nenhum brasileiro honesto leva minimamente a sério o Senado ou qualquer outra instância do Estado brasileiro, hoje é não apenas ridículo como criminoso pretender através de pretensas substituições de uns membros das classes dominantes por outros, através de discursos e choramingos “éticos” renovar a ilusão com as instituições desse dito “Estado democrático de direito”, brutal ditadura burocrática-semifeudal sobre a imensa maioria do nosso povo.
Tanto é assim que tal “Fora Sarney” não pôde engrenar de forma alguma. Pelo contrário, serviu apenas para desmascarar o conteúdo político da ANEL e da força política que a dirige. Não apenas como “novo” movimento estudantil, mas também como cópia do velho, a ANEL mostrou ser um fracasso. E não é só isso. Também podemos ler em seu blog que “a ANEL está formulando um projeto de lei que garanta verbas para as universidades públicas, possibilitando a expansão com qualidade e, consequentemente, decretando a revogação do REUNI” (negrito nosso). Ou seja, dizem textualmente que a revogação do REUNI não será conseqüência da mobilização e das lutas estudantis mas, sim, de um “brilhante” projeto de lei por eles elaborado, claro!
O fato de, por um lado, o desmascaramento das forças oportunistas que compõe o governo já ter atingido um alto grau e, por outro, ainda persistir certa fragmentação nas diferentes lutas que sacodem o movimento estudantil brasileiro, permite que tais forças centristas (PSOL/PSTU) ainda consigam iludir uma parcela dos ativistas que se destacam nas mobilizações que vêm acontecendo e seguirão a se desenvolver. Isso, porém, não pode deixar de ser um fenômeno absolutamente passageiro e relativo. Porque, ao cabo e ao fim, o desmascaramento do PT/PCdoB representa o seu desmascaramento também (porquanto compartilham do mesmo projeto reformista eleitoreiro) e a sua postura conciliadora destaca-se com tanto maior nitidez conforme buscam alcançar maior evidência. Tanto é assim que a “mãe” da ANEL, a CONLUTE, foi sepultada silenciosamente, sem maiores satisfações e sem nunca ter dito ao mundo a que veio.
Temos certeza de que a geração de ativistas forjados nas ondas de luta contra a Reforma Universitária, contra o REUNI, pela democratização das universidades e contra os diferentes ataques ao ensino público em geral saberão identificar quais são as posições verdadeiramente conseqüentes e a direção que mais corretamente aponta o caminho a ser trilhado. Esse processo já começou e, uma vez que o movimento estudantil brasileiro reencontre seu caminho e seu papel nas lutas pela transformação não só das escolas e universidades mas do nosso país de maneira geral, aí então é que do oportunismo (com qualquer máscara que se apresente) não sobrará nem sequer pedra sobre pedra.
Abaixo o velho Movimento Estudantil eleitoreiro e reformista!
Viva o Novo Movimento Estudantil independente e combativo!
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