Em maio deste ano completaram-se 30 anos do XXXI Congresso da União Nacional dos Estudantes, realizado em Salvador (Bahia). Este histórico congresso, marco da reconstrução da entidade, deve ser retomado não como uma bela moldura do passado mas como importante questionamento: de que movimento estudantil estamos falando?
Em Brasília, entre os dias 15 e 19 de julho últimos, foi realizado o suposto 51º Congresso da UNE. Devemos obrigatoriamente dizer suposto porque qualquer pessoa sensata há de reconhecer que entre os politizados e massivos congressos realizados pela verdadeira UNE nas décadas de 60, passando pela reconstrução em 79 e ainda durante boa parte da década de 80, e essas atuais micaretas, despolitizadas ao extremo e literalmente bancadas pelo governo, não há entre esses acontecimentos qualquer cadeia de continuidade. Dito de outro modo: essa UNE que aí está não representa de maneira nenhuma as tradições do movimento estudantil brasileiro, por mais que PCdoB/PT e seus sequazes reafirmem um milhão de vezes o contrário.
O orçamento desse 51º CONUNE ficou estipulado em 2,5 milhões de reais. Somente a PETROBRÁS “contribuiu” com R$100 mil para o Congresso. A julgar pelo tema central do evento ter girado em torno da “defesa da PETROBRÁS” ( essa empresa transnacional que não é brasileira já há algum tempo) é possível concluir que, como não poderia ser diferente, tal “contribuição” não foi tão desinteressada assim.
A bajulação ao “cara” do imperialismo Lula, e à sua presidenciável Dilma, tratou de dar um tom peculiar ao evento. Como não poderia ser diferente, as palavras-de-ordem do “congresso” giraram em torno da defesa da “reforma” universitária, do PROUNI, do REUNI e de tudo o que há de mais lesivo sendo aplicado pelo Estado brasileiro, a serviço do imperialismo, contra a juventude do nosso país.
O site da entidade, ao apresentar o novo presidente da mesma, um tal de Augusto Chagas, diz pomposamente que “ele passa a figurar entre o seleto grupo dos que chegaram à presidência da UNE, nomes peso-pesados como José Serra, Aldo Arantes, Aldo Rebelo, Lindberg Farias e Orlando Silva Jr”. É preciso mais? Seria impossível exigir uma declaração mais honesta do que essa que, ao ignorar que a UNE já foi composta por jovens revolucionários brilhantes como Honestino Guimarães, Helenira Rezende e tantos outros, classifica como “peso-pesados” ( de quem?) figurões da politicalha oficial do país, deixando claro e patente que essa UNE que aí está nada mais é que um medíocre parlamento juvenil- na menos pior das hipóteses.
A única tradição que esse bando prostituído chamado pecedobê representa é, isso sim, a da direita histórica que ia nos Congressos da UNE no pós-64 para representar o Estado e um movimento estudantil apadrinhado pelos governos de plantão.
O autêntico movimento estudantil
Há 30 anos, em Salvador, era realizado o congresso de Reconstrução da UNE. Marcado por intensa discussão política e por um importante processo de retomada das mobilizações populares, o congresso contou com a participação de mais de 10.000 estudantes. Tendo vencido inúmeras
dificuldades, inclusive o boicote da polícia (que apagou as luzes durante uma das plenárias, tendo sido necessário conduzir o Congresso à luz de faróis de carro e lanternas) aqueles jovens expressaram o sentimento de repúdio da massa estudantil ao regime militar-fascista e deram um importante passo na luta por reconstruir suas entidades nacionais e de base com o propósito de servir à transformação do nosso país.
Em que pese importantes limitações, principalmente tomar a luta por liberdades democráticas como um fim em si e não como um meio de preparar a juventude e o povo em geral para maiores saltos da luta revolucionária no País, e que estão na raiz do abandono completo pela UNE das suas tradições históricas, aquele foi sem dúvida um importante acontecimento. Naquele ano as universidades de todo o Brasil estavam em efervescência. Recentemente os estudantes da Universidade Federal de Juiz de Fora haviam realizado uma manifestação com 5.000 pessoas para derrubar o DCE ligado ao regime, e na USP travava-se intensa luta contra a ocupação militar dos campi universitários (imensa atualidade, não?).
Na passagem desses 30 anos impõe-se por si só a necessidade de debater os rumos que deve tomar o movimento estudantil. A que levou mais de duas décadas de predomínio do caminho reformista no ME brasileiro? À privatização da educação, à criminalização da juventude, ao apodrecimento completo e irreversível daquela UNE outrora reconstruída. E não é naquele congresso que mais parece uma sessão parlamentar, com direito à fraude e dinheiro farto, que se deve procurar aonde está a autêntica juventude estudantil brasileira. Ela está nas salas de aula, nas ruas, nas ocupações de reitoria e atrás das barricadas, nas greves e manifestações estudantis que, embora carecendo ainda de uma direção que as possa colocar em seu devido patamar, ganha força e ocupa cada vez mais o seu lugar.
Somente um processo como aquele ocorrido em 79, com auge das mobilizações a partir da base, fruto de um salto a novos patamares da luta de classes no país como um todo, é que possibilitará o surgimento de uma autêntica federação nacional dos estudantes, democrática-revolucionária. Pretender construir pseudo novas entidades mantendo intactas as velhas práticas reformistas eleitoreiras que conduziram a UNE a ser o que é hoje não pode deixar de ser, a essa altura do campeonato, nem sequer um engano e sim a mais aberta falsificação.
“Mais uma vez a União Nacional dos Estudantes assume a vanguarda do povo na luta contra as forças da opressão...Temos como objetivo a transformação revolucionária da estrutura sócio-econômica do país...Conscientes de nosso papel frente à realidade nacional, conclamamos para uma aliança todos os setores das classes populares, em torno de objetivos comuns”
Comparemos agora essa declaração do Congresso da UNE de 1966, realizado em Belo Horizonte, que fala em transformação revolucionária da estrutura sócio-econômica do país, com tudo o que é dito por essa esquerda oportunista que se arvora em continuadora daquela UNE e veremos que entre ambas há, na realidade, um abismo que nem o pior dos cegos poderá ignorar.
Retomar o caminho revolucionário no movimento estudantil é tarefa urgente e necessária. E dessa vez como em outras, estamos convictos, a juventude combativa saberá ocupar o seu lugar.
Viva o Novo Movimento Estudantil!
Abaixo a UNE governista, inimiga dos estudantes!
Cresce, cresce por todo o Brasil, o novo movimento popular estudantil!
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