O papel histórico das Forças Armadas nos crimes cometidos contra o povo brasileiro:
No contexto da polêmica do 3º PNDH o próprio Paulo Vannuchi chegou a declarar seu “profundo respeito às Forças Armadas” e repetiu a velha canção, que na verdade é o álibi de todos os fascistas de pijama, de que não foram as Forças Armadas as responsáveis pelas torturas e assassinatos cometidos mas sim órgãos “excepcionais” como o DOI-CODI, etc. E, diga-se de passagem, é o gerenciamento do PT mais do que todos os demais gerenciamentos recentes, quem tem ensalsado a postura “patrioteira” e reforçado, usando para isso a questão do Haiti, a imagem do Exército como força “democrática”, “amiga do povo”...
As Forças Armadas brasileiras, e particularmente o Exército (a mais numerosa e antiga), jamais foram democráticas ou amigas do povo brasileiro. Seu nada honroso adjetivo oficial de força “Pacificadora” remete ao massacre covarde de todos os levantes do povo brasileiro empreendidos exatamente no sentido de mudar a estrutura arcaica de nosso país e o seu próprio patrono, o bandido Caxias, não poderia ser melhor emblema desse miserável papel desempenhado por essas forças ao longo da História.
Basta lembrar que todas as revoltas populares que sacudiram o século XIX foram afogadas em sangue: A Confederação do Equador, a Guerra dos Farrapos, A Cabanagem, a Balaiada, a Revolta Praieira, dentre outras. Durante a Revolta Farroupilha o próprio Caxias preparou e comandou o episódio que ficou conhecido como “Massacre de Porongos” (1844) em que o Corpo de Lanceiros Negros, a mais combativa unidade dentre as tropas rebeldes, composta por escravos que lutavam por sua própria liberdade, foi atacada em seu acampamento, quando já acordado o armistício, e dessa forma covarde trucidada.
A Guerra do Paraguai (1864-1870), tida como episódio definitivamente marcante na conformação do Exército Brasileiro é, na verdade, acontecimento que exige repulsa por parte de nosso povo e que, diga-se de passagem, é totalmente falsificado pela historiografia oficial. A guerra, instigada pela Inglaterra para deter o potente processo de desenvolvimento econômico e social do Paraguai, resultou na morte de 300.000 cidadãos desse país (dentre uma população total estimada em 500.000!) e na sua ruína e devastação estrutural, cujas seqüelas fazem-se sentir até hoje. Basta para a comparação entre ambos os países dizer, por exemplo, que enquanto os soldados brasileiros eram, na sua maior parte, escravos mandados ou à força ou sob a promessa de alforria, e o índice de analfabetismo em seus contingentes elevava-se à 90%, no Exército Paraguaio não havia um único analfabeto! Dentre outros “despojos de guerra” o Paraguai viu-se subtraído em 40% de seu território. A prática da degola foi largamente empregada pelas tropas brasileiras a ponto de um livro que defende a versão oficial desse episódio (o livro chama-se “Maldita Guerra”, do autor Francisco Doratioto) assim descrever a execução do coronel paraguaio Caballero:
“Atado de pés e mãos às rodas de dois canhões, em frente à igreja e diante de sua esposa, também prisioneira, foi esticado até ficar no ar. Nessa postura, foi intimado a declarar-se rendido e, ao não aceitar, foi açoitado e degolado”.
Outro episódio, ocorrido já no período “Republicano”, foi o massacre à revolta de Canudos. Impulsionado por uma situação de miséria absoluta e pela necessidade de lutar contra o latifúndio, os camponeses de Belo Monte, no Estado da Bahia (cidade fundada por Antônio Conselheiro em 1893), começaram a se organizar de forma idependente do poder constituído, colocando em questão o poder dos latifundiários da região. Para esmagar a revolta o governo central envia quatro expedições do Exército. Apesar da imensa desigualdade os camponeses resistem heroicamente e chegam a matar em batalha o famigerado coronel Moreira César, que na Guerra do Paraguai ganhara o apelido de “corta cabeças”. Não obstante a tenaz resistência, as forças do governo acabam por vencer e promovem um massacre de enormes proporções: os prisioneiros são decapitados, as mulheres e crianças vendidas para a prostituição, os mortos são queimados...Assim seria também na guerra do Contestado....
...E na brutal repressão ao Tenentismo...e no glorioso Levante Popular de 1935...E em todos os episódios históricos em que o povo brasileiro lutou contra seus algozes! O senhor general Góis Monteiro, chefe do Estado-maior do Exército e Ministro da Guerra do Estado Novo, chegou a declarar publicamente a simpatia pelo nazismo. Esse velhaco nazista, aliás, será o formulador da chamada “Doutrina de Segurança Nacional” posta em ação por Vargas e tão cara ao regime militar fascista instaurado em 1964. É fato histórico que, apesar do grande prestígio dos comunistas em todo o mundo e do sentimento anti-fascista que prevalecia em meio ao povo, e se manifestava conseqüentemente em todos os setores da vida social incluídas as Forças Armadas, na cúpula desta reinava a mais ampla simpatia ao Eixo e seu anticomunismo fervoroso. Foram necessárias inúmeras manifestações populares para que o Brasil decretasse a guerra ao nazi-fascismo.
Aonde, senhores revisores da história, o tal Exército “democrático”, “amigo do povo”, e não as Forças Armadas como medula do velho e reacionário Estado brasileiro, o que verdadeiramente são?
1964: Um golpe à serviço dos ianques:
Outra lenda, que não tem qualquer embasamento histórico-factual, é a que os próprios gorilas, uma vez estabelecidos no poder, contaram a respeito de defender a “soberania brasileira”, a “Pátria”, contra agentes infiltrados de “potências estrangeiras”. E esse discurso cívico-patrioteiro é o que os fascistas de ontem e de hoje tentam usar para justificar seus nada honrosos crimes dentre os quais está, inegavelmente, o de lesa-pátria.
Vejamos alguns fatos emblemáticos:
A) O GOLPE EM SI:
O jornal do Rio de Janeiro, Tribuna da Imprensa, estampou, na primeira página de sua edição de 28 de setembro de 1965, fotografia de documento oficial, que havia “vazado” recentemente na imprensa norte-americana. Era um ofício datado de 15 de abril de 1964 –duas semanas após o golpe, portanto- em que J.Edgar Hoover, dirigindo-se a um Sr.Brady, assim se manifestava na qualidade de chefe do FBI:
“Caro Mr.Brady. Quero aproveitar a ocasião para expressar meu apreço especial a cada um dos agentes destacados no Brasil, pelos serviços prestados no cumprimento da Operação Overhaul. Minha admiração pela dinâmica e eficiente maneira como foi realizada essa tarefa em grande escala e em difíceis condições no estrangeiro inclina-me a expressar minha gratidão. O pessoal da CIA realizou muito brm sua parte e cumpriu uma grande tarefa; contudo, os esforços dos nossos agentes foram particularmente valiosos. Estou especialmente satisfeito de que a nossa participação no assunto se tenha mantido em segredo e de que o governo não tenha tido necessidade de fazer nenhum desmentido público. Todos devemos sentir-nos orgulhosos da participação que teve o FBI, ao proteger a segurança da Nação, mesmo longe de suas fronteiras. Estou informado de que com freqüência nossos agentes com freqüência fazem sacrifícios no cumprimento de seu dever. As condições de vida no Brasil não são provavelmente as melhores, mas estimula saber isso porque prova a lealdade com que V. As. está contribuindo para servir seu país de forma vital, se bem que nem sempre trabalhando nas melhores condições. Este é o espírito de nosso Bureau, para um vitorioso cumprimento de suas graves responsabilidades. Sinceramente seu, J.E. Hoover”. (1)
Recentemente investiu-se contra essa carta, afirmando ter sido obra da “contra-propaganda soviética”...Triste e inútil investida, pois que essa carta é um, apenas mais um fato, na exata proporção de uma gota em meio ao oceano.
Os co-irmãos Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) e Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), por exemplo, que nos anos anteriores ao golpe tiveram grande papel no financiamento de campanhas sobre a “penetração comunista no Brasil” e na defesa de valores tão caros aos gorilas de 64, como “Deus, Pátria, Família e Propriedade” foram, como se sabe, regados com o dólar da CIA e das empresas ianques instaladas no Brasil. Em seu famoso livro “Dentro da Companhia: Diário da CIA”, aparecido em 1975, o ex-agente da CIA Philip Agee inclui o IBAD, inclusive, na lista de organizações e “personalidades” ligadas à “Agência”. Informação essa confirmada, anos depois, em 1998, pelo general Hélio Ibiapina em entrevista à Folha de São Paulo.
No referido livro de Agee, aonde existem diversas passagens sobre as relações do serviço secreto ianque com o golpe de 1964, podemos encontrar testemunhos como esse:
“MONTEVIDÉU (1º de Abril de 1964)
No Brasil está tudo terminado com relação à Goulart, e muito mais depressa do que era de se esperar (...). O reconhecimento do novo governo militar pelos Estados Unidos foi quase que imediato, não mais discreto, mas acho que bastante sintomático da euforia que deve reinar agora em Washington, depois que dois anos e meio de operações (destinadas a evitar que o Brasil descambasse pra esquerda com Goulart) frutificaram auspiciosamente (...) a base do Rio e suas outras dependências estavam financiando as manifestações urbanas em massa contra o governo Goulart para provar que os velhos temas como Deus, pátria, família e liberdade sempre prevalecem”.
Ou como esse outro:
“MONTEVIDÉU (18 de abril de 1964)
“Holmam acaba de voltar de uma conferência com chefes de base e trouxe a convicção de que devemos dedicar mais atenção aos exilados brasileiros (2). A decisão, tomada aparentemente pelo próprio presidente Johnson, foi de que devemos fazer todos os esforços a fim de não apenas evitar um contragolpe e movimentos de revolta em futuro próximo no Brasil, mas também para fomentar suas forças de segurança tão rápida e eficientemente quanto seja possível. Não se deve permitir, nunca mais, que o Brasil se incline para a esquerda, pois aí comunistas e outros constutuem uma ameaça de domínio ou de, pelo menos, tornarem-se muito influentes”. (3) (Grifo nosso)
E, de fato, esse “fomento das forças de segurança” foi imediato: sabe-se que um dos instrutores em “modernas” táticas de tortura para oficiais das Forças Armadas e das polícias brasileiras foi o agente ianque Dan Mitrione, citado em diversos livros e documentários, que “lecionou” em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro. Posteriormente esse agente serviu também no Uruguai aonde foi capturado pela organização revolucionária Tupamaros e justiçado (esse episódio é relatado no filme “Estado de Sítio”). Ao enterro de Mitrione compareceram figuras como David Eisenhower e Richard Nixon –numa pequena amostra de a quem, de fato, valiam seus “serviços” de combate à “subversão”.
Ainda sobre o episódio do Golpe de abril de 1964, em seu referido e importantíssimo livro Nelson Werneck Sodré reproduz reportagem da conhecida revista norte-americana Newsweek (que ninguém terá coragem de proclamar como “comunista”!) de 14 de novembro de 1966:
“ No caso do golpe militar de 1964 no Brasil, o governo de Washington, habilmente, mandou o empreendedor e loquaz general Vernon Walters para o Rio de Janeiro, como adido militar, dois anos antes do golpe (...). À medida que o flutuante presidente João Goulart inclinou-se cada vez mais para a esquerda, Walters tornou-se confidente dos conspiradores militares contra Goulart e, finalmente, encorajou o general Humberto de Alencar Castelo Branco, que fora seu companheiro na Itália, a tomar o Poder. Uma semana antes do Golpe, Walters radiografou todos os detalhes da conspiração para Washington e, um dia depois da posse de Castelo Branco na presidência da República, almoçou com ele a sós no palácio presidencial. Desde então, Walters tornou-se um dos mais entusiásticos e influentes propugnadores do novo governo brasileiro”. Ao que acrescenta Sodré: “A força naval de apoio ao golpe de abril de 1964 –na celebrada operação Brother Sam- ficou à disposição da embaixada norte-americana aqui, até a vitória plena do golpe”. (4) (Grifo Nosso)
B) A verdadeira face do regime militar fascista:
“O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”
As primeiras medidas adotadas pelo regime instaurado em abril de 1964 não deixam dúvidas quanto ao caráter profundamente reacionário e, não apenas anti-comunista, senão tembém anti-nacional da administração oriunda do Golpe. Ora, uma das primeiras, senão a primeira medida adotada pelos milicos foi a revogação da Lei aprovada pelo Congresso Nacional em 1962 que limitava (não proibia, portanto, como chegam ao absurdo de afirmar alguns “historiadores”) a remessa da taxa de lucros de empresas transnacionais aqui instaladas para as suas matrizes. Tal medida, passando muito ao largo de ser qualquer postura “comunista” do governo Jango, era apenas uma atenuante da verdadeira sangria e pilhagem empreendidas pelos monopólios sobretudo ianques realizados no país. Esses monopólios, claro, na sua sede de lucro máximo, a encaravam como inaceitável. E, quando os seus milicos detonam o golpe, esta é emblematicamente uma das primeiras medidas que caem com João Goulart.
Também esdrúxula foram as medidas adotadas pelos milicos para “conter a inflação”: Arrocho salarial (acompanhado, claro, logo em seguida, da proibição do direito de greve), corte nos gastos públicos, enxugamento de créditos para empresas de capital nacional, aumento de impostos, etc. Estima-se que cerca de cinco mil empresas tenham fechado suas portas, somente em São Paulo, nos primeiros anos do regime. O tal “milagre econômico”, farsa montada pela propaganda oficialesca, foi simplesmente resultado dessas medidas de caráter aberta e inteiramente monopolista. No campo a repressão às Ligas Camponesas (sobre quem se abateu com mais força o golpe, nos seus primeiros momentos) foi imediatamente seguida pelo fortalecimento do decadente sistema latifundiário e agudização do caráter “essencialmente agrícola e exportador” de nossa economia. Após 1964 o Banco do Brasil tornou-se o maior banco rural do mundo financiando projetos destinados a uma produção agrícola que se restringia a gêneros alimentícios destinados à exportação. Aos grandes produtores foram disponibilizados créditos, assistência técnica, facilidades de transporte e armazenagem que levaram o Brasil a tornar-se o maior produtor de soja do mundo. Essa política de incentivos deixou em segundo plano a produção de produtos agrícolas que popularmente compunham a base alimentar dos brasileiros. (5) Nas Universidades também foram significativas as políticas de subserviência levadas a cabo. A cassação dos mais eminentes e capazes membros da intelectualidade democrática brasileira, como Darci Ribeiro, Josué de Castro, Anísio Teixeira e outros já seria por si só motivo de grande prejuízo para o País. Em 1965-1966 vêm a público os famigerados Acordos MEC-USAID (Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional). Tais acordos, representando o verdadeiro desmonte da educação superior do Brasil, a sua entrega crescente a fundações privadas e a aplicação da concepção tecnicista, segundo a qual as Universidades deveriam formar técnicos capacitados a trabalhar para e nas transnacionais ianques, foram fortemente denunciados pelos estudantes. E um dos fatos mais emblemáticos do caráter de subserviência nacional dos milicos foi o fato do regime fascista ter criado um tal Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras (CRUB) e empossando para o cargo de primeiro-secretário desse Conselho um tal Rudolph P.Atcon, ideólogo ianque para as universidades latino-americanas. É um entreguismo sem limites, claro e franco, em plena luz do dia! (6).
Esse mesmo USAID seria chamado a idealizar e dirigir um plano de alfabetização do governo federal, em oposição ao plano de alfabetizar 5 milhões de brasileiros do governo Goulart e que fora, evidentemente, paralisado pelo golpe. E eis apenas um exemplo da concepção que imperava o “auxílio” prestado por essa agência do voraz imperialismo ianque:
“Por exemplo, a revista REALIDADE, no ano passado, revelou que o Plano de Alfabetização de 50.000 adultos, no Recife, está vinculado, pela USAID, a um programa de controle da natalidade. (...) Funcionam no Brasil organizações norte-americanas sob o título de Planned Parenthood ou Family Planning que, segundo denúncias repetidas de jornais, de políticos e de sacerdotes católicos e, também, protestantes, induzem mulheres das classes mais pobres a utilizar um dispositivo intra-uterino, de matéria plástica (exibido pelo Sr. José Maria Magalhães da tribuna da Câmara).(...) Tais esforços são feitos por grupos da insústria química e farmacêutica que já investiram grandes quantias na pesquisa, na fabricação e na comercialização desses produtos”. (7)
(Grifo Nosso)
Todos os fatos relatados acima, e são apenas alguns poucos, são devidamente relatados e o leitor não só pode como deve ir até às fontes originais. São dados históricos incontestáveis. Mas, pode-se objetar (sempre se pode faze-lo!) que provém de críticos do regime. Pois bem. É exatamente por isso que as citações oficiais, provindas de indivíduos ligados diretamente ao regime, são particularmente úteis para escancarar o caráter desse regime inaugurado em 1964. Em junho de 1964, o mais novo embaixador brasileiro nos USA deu uma pitoresca declaração, divulgada amplamente pela imprensa daqui e de lá. Disse o “saudoso” embaixador Juraci Magalhães, vendilhão de longa data (este senhor, aliás, foi um dos líderes da “Marcha com Deus pela liberdade”, um dos pontos culminantes anteriores ao golpe): “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. E, em entrevista à revista Manchete, pouco tempo depois, ao ser indagado sobre o caso, respondeu: “Quis dizer mesmo que o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil. A frase se explica por si só (...) As relações entre o Brasil e os Estados Unidos, e o grau da necessidade da colaboração que desejamos receber do governo e do povo deste país, completam a explicação, para quem queira recusar-se a reconhecer a comunhão que existe entre os interesses dos dois países”. (8)
Também podemos, por notícia vinculada pela própria imprensa ianque, saber quem de fato ditava as regras do jogo. Em sua edição de 26 de setembro de 1964 a revista Hanson’s Letter, em meio à análise da situação do comércio Brasil-Estados Unidos, afirma que a aprovação de uma nova Lei de Remessa de Lucros, a compra da American Foreign Power Co., a abertura dos caminhos à Hanna Corporation e a aprovação de um tratado de garantias aos investimentos estrangeiros “dão o sentido da instalação do novo regime no Brasil, para a embaixada Americana no Rio”. Na continuação da matéria a revista afirmava também que a embaixada dos Estados Unidos no Rio “pressionou para que os dois primeiros itens fossem aprovados pelo Congresso e guarda a Hanna para ocasião propícia...E, quanto ao tratado de garantias de investimentos, já deu instruções ao Presidente Castelo Branco para que o faça aprovar de qualquer maneira”. (9) (Grifo Nosso)
Esses são fatos ligados diretamente à vida política e econômica do País. Vimos como o discurso anti-comunista foi utilizado para justificar a mais reles e baixa política de subjugação nacional, política levada à cabo e incessantemente aprofundada até os dias atuais. E o próprio discurso anti-comunista, a chamada “Doutrina de Segurança Nacional”, significando o terror das classes reacionárias brasileiras, a grande burguesia e o latifúndio, lacaias do imperialismo, ao levante das massas oprimidas e exploradas, também nada tinha de original e, muito menos, nacional. Também a mente da claque militar instalada pelo golpe de 64, podemos dizer, era mais um entre tantos artigos importados aos ianques.
C) A “Doutrina de Segurança Nacional”: nem tão “nacional” assim...
Sabe-se que a formulação da chamada “Doutrina de Segurança Nacional”, da qual o Serviço Nacional de Informações (SNI) foi um dos subprodutos, foi realizada pela Escola Superior de Guerra e que esta Escola forneceu, igualmente, os mais importantes quadros do regime militar. A ESG, criada em 1949 no contexto de esforço mundial ianque de tentar deter o avanço da revolução proletária mundial e justificar a sua elevação à gendarme do mundo, foi inspirada diretamente no National War College norte-americano. Não apenas o “intercâmbio” entre os oficiais brasileiros e ianques eram constantes como, não é difícil constatar, todo o discurso ideológico proferido pela ESG é uma pura e simples cópia dos manuais anticomunistas distribuídos aos milhões no USA pelo complexo militar-industrial que governa aquele país.
O descaramento era tamanho que tornou-se rotina a viagem anual, em fim de curso, das turmas da Escola Superior de Guerra aos Estados Unidos. No jornal Correio da Manhã, por exemplo, podemos encontrar a seguinte notícia a 15 de agosto de 1967:
“ESG manda estagiários para EUA. Atendendo a convite do Departamento de Defesa dos EUA, seguirá amanhã, em visita a organizações industriais e militares daquele país, uma turma de 65 integrantes da ESG, abrangendo 59 estagiários do Curso Superior de Guerra e 7 elementos do Corpo Permanente. A turma, que viajará sob direção do próprio comandante da Escola, general Augusto Fragoso, compreende 31 civis e 34 militares”. (10)
Uma vez que ninguém em sã consciência pode negar a profunda –e oficial-relação da ESG, e de toda sua política chamada “Doutrina de Segurança Nacional” com as Forças Armadas do imperialismo ianque, numa relação de filial e matriz, rejeitemos brevemente a casca para ir até o grão.
A tal “defesa da democracia” contra a “ameaça comunista”, doutrina oficial dos altos círculos ianques durante o período por eles denominado “Guerra Fria” era, por um lado, verdadeira na medida em que cada vez se tornava mais evidente o perigo da revolução e, por outro lado, mentirosa na medida em que o Estado Militarista que o complexo militar-industrial forjou no USA nada tinha de democrático. E, claro, como toda espécie de fascismo, estava a serviço dos mais vorazes interesses dos grupos monopolistas ianques.
Em um livro intitulado “O Estado Militarista”, aparecido em 1962, o jornalista estado-unidense Fred.J.Cook (que nada tem de comunista!) descreve à exaustão esse processo. Em um dos trechos, situa bem o papel da intensa propaganda sobre a “ameaça vermelha” levada à cabo naquele período e quais eram de fato os seus objetivos (qualquer semelhança com a atual “guerra ao terror” não será mera coincidência):
“A muleta do Estado Militarista é a propaganda. Temos de ser ensinados a recear e a odiar, ou não aceitaremos regimentar as nossas vidas, a suportar os enormes encargos de impostos ainda mais pesados para poder pagar o ainda mais dispendioso equipamento militar, e teremos de o fazer à custa de programas domésticos como a assistência médica, a educação e os desenvolvimentos urbanos de higiene. Como Goebbels tão bem demonstrou sob a direção de Hitler, a propaganda é a arte de induzir convicções”.
E o autor acrescenta, a respeito do frenesi anticomunista:
“O seu secreto objetivo era o estabelecimento daquela ‘economia permanente de guerra’ tão ardentemente desejada, tanto pelos militares como pelos industriais”.(11)
Tudo isso tinha um objetivo muito claro: os grandes monopólios ianques, que muito haviam ganho com a economia de guerra, não queriam e não podiam (assim como não querem e não podem) desfazer tal estado de coisas. Segundo o autor, no início da década de 60 entre um terço e um quarto de toda atividade econômica ianque girava em torno de despesas militares, percentagem prevista para saltar, em pouco tempo, à casa dos 50%. E é claro que tanto a propaganda sobre a “ameaça comunista” quanto as armas para governos “amigos” combaterem tal ameaça seriam igualmente fontes muito lucrativas...para a parte industrial do complexo. Não é à toa que no ano de 1965, do total de 70 milhões de dólares previstos como “ajuda” à América Latina (através do programa Aliança para o Progresso), 52% seriam destinados à “segurança interna”. Em treze anos os Estados Unidos repassaram (com o devido pagamento dos juros, claro) cerca de 750 milhões de dólares em armamentos aos países latino-americanos. E, a respeito desses Programas de Assistência Militar, disse à época o general Robert J.Wood:
“O Programa de Assistência Militar, desde a sua concepção, tem sido, predominantemente, no interesse próprio do nosso país...é um programa que financia compras da indústria americana e que traz ao nosso país cerca de 10 a 15 mil estudantes militares estrangeiros, anualmente, expondo tais estudantes não apenas ao conhecimento militar americano como, também, à maneira de viver americana”. (12) (Grifo Nosso)
E, diga-se de passagem, não apenas soldados e oficiais inferiores das Forças Armadas “Brasileiras” passaram por tal processo de aprender a “maneira de viver americana” senão muitos dos principais quadros do regime o fizeram. Dentre eles o próprio general Golbery do Couto e Silva, ex-aluno da Ranger School, em Fort Bennett. Calcula-se, aliás, que, apenas entre 1949 e o princípio dos anos 60 cerca de 17 mil suboficiais e oficiais de exércitos fantoches latino-americanos tenham cursado a famigerada “Escola das Américas” (Escola de Assassinos), situada em Fort Gullick, na zona do Canal do Panamá. Tal escola, que fez época na formação de assassinos e torturadores, certamente muitos dos quais cacarejam atualmente acerca de “segurança nacional”, dizia em seu folheto de apresentação, firmado pelo Coronel Vincent Elmore Jr, que “a missão da Escola para as Américas, do Exército dos Estados Unidos, é a de apoiar o Comando Meridional, do Exército dos Estados Unidos, nas Américas Sul e Central”. Ao que o jornal Correio da Manhã, repercutindo tal pronunciado, concluía em 2 de março de 1966:
“Se a missão da Escola é ‘apoiar o Comando Meridional do Exército dos Estados Unidos’, está claro que os instrutores (e muitos são brasileiros, nos últimos anos) e alunos (entre os quais numerosos brasileiros) estão, simplesmente, cumprindo essa missão, isto é, apoiando o Comando Meridional do Exército dos Estados Unidos. Não há como fugir. E é gente deste procedimento, ostensivo é claro, que pretende acusar outros brasileiros de estarem a serviço de uma ‘potência estrangeira”...(13)
Para quem pensa, aliás, que isso é coisa do passado, dizemos que não apenas a Escola das Américas continua funcionando, batizada agora com o nome de Instituto do Hemisfério Ocidental para a Cooperação em Segurança (situado na fronteira dos Estados norte-americanos da Geórgia e do Alabama) como as forças de repressão do Estado brasileiro enviam até os dias de hoje soldados e oficiais para treinamento nessa escola de terrorismo. Em matéria publicada em
22/03/2008 a revista Isto É dizia:
“Um levantamento feito por ISTOÉ revela que pelo menos 12 militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, dois bombeiros do Rio de Janeiro e um do Espírito Santo foram mandados nos últimos quatro anos para o Whinsec (sigla em inglês do instituto). Entre eles há um general, Augusto Heleno Pereira, atual comandante militar da Amazônia, que foi palestrante em 2006, e vários coronéis, como Antonio Monteiro, que foi instrutor em 2003 e hoje é responsável pelo Centro de Instrução de Guerra na Selva. Na gestão de Fernando Henrique Cardoso, que também lutou contra a ditadura e foi exilado político, ao menos três oficiais foram enviados à instituição.
Além dos convidados, o Brasil mantém no Whinsec um corpo permanente de instrutores, a Oficina Duque de Caxias, onde atuam um coronel e dois sargentos do Exército e um sargento da Marinha. Os representantes do Brasil no instituto seguem a doutrina militar americana, fazem parte da preparação para o combate ao narcotráfico (principalmente voltado para a situação na Colômbia), ação antiterror e guerra no Iraque. Militantes que defendem os direitos humanos ficaram surpresos. “É absurdo que o Brasil continue enviando militares para uma escola com esse histórico”, reclama Cecília Coimbra, do grupo Tortura Nunca Mais. “O governo deve esclarecer por que usa nossos impostos para treinar homens num centro formador de torturadores e assassinos.”(Grifo nosso).
Pois bem, eis aí um duro golpe para quem acredita na “democracia brasileira”...Aliás, não pode passar despercebido o fato de o general Augusto Heleno, ex-comandante militar da Amazônia e uma das mais queridas figuras da extrema-direita das Forças Armadas ter desfilado por um órgão que tem como missão apoiar o Comando Meridional do Exército dos Estados Unidos! E, segundo a própria reportagem da Isto É cita, por lá também passou o responsável pelo Centro de Instrução de Guerra na Selva, coronel Antônio Monteiro. Este Centro, criado para ser um corpo de excelência em operações de contra-guerrilha, tem mesmo antiga relação com a Escola das Américas e o Exército ianque. No boletim militar “A Defesa Nacional”, de março-abril de 1967, um oficial brasileiro escreveu a respeito do CIGS:
“As peculiaridades da luta na selva, aliadas à possibilidade de termos, no Brasil ou alhures, de enfrentar situações de guerra em ambiente semelhante, de há muito vinham preocupando nossas autoridades militares que desejavam possuir, em nosso Exército, especialistas nesse tipo de operações. O número de oficiais e sargentos que fizeram o curso no Panamá e os esforços feitos, em certas GU e Unidades, para formar elementos com noções básicas dessa especialidade estão aí para demonstrar o que afirmamos acima”.
E acrescenta:
“A instrução no Centro obedece a um programa calcado nos últimos ensinamentos desse tipo de guerra [irregular], pois a maioria do corpo de instrutores e monitores é constituída de oficiais e sargentos já especializados na Escola existente no Panamá e, além disso, a correspondência mantida com essa Escola e a da Malásia permitem manter atualizados os currículos”. (14) (Grifos Nossos).
Por aí se vê que os tempos não mudaram tanto assim...A propósito, há alguma chance de pensar que os milicos foram “enganados” ou que foram convencidos de fato que a relação mantida com o governo e as forças de repressão dos USA se baseavam em uma “comunidade de interesses” (para usar o jargão tão ao gosto de toda a canalha oficial)? Eis o que dizia o primeiro presidente pós-golpe, o Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, já em 1962:
“…O nacionalismo é uma posição decisiva para uma nação, sobretudo na época atual. Não pode ser uma panacéia para os seus males, nem uma operação de guerra, e muito menos uma conspiração de sentido internacional. Seus grandes males atuais são principalmente dois nos países subdesenvolvidos: um, o desvinculamento com o meio; outro, o de ser, às vezes, um instrumento nacional e internacional do comunismo soviético. É também um grande penacho dos ditadores e candidatos a ditador...As Forças Armadas não podem atraiçoar o Brasil. Defender privilégios de classes ricas está na mesma linha antidemocrática de servir a ditaduras fascistas ou sindico-comunistas”. (15).
Nacionalismo, combate ao comunismo, não defesa dos privilégios...Eis o que dizia o sr. Castelo Branco. Há quase duas décadas antes eis o que dizia, de maneira direta e cristalina, o presidente do USA Truman, ultra-reacionário precursor da “Guerra Fria”, em um discurso proferido a 9 de agosto de 1945 por ocasião do genocídio atômico cometido contra a cidade japonesa de Hiroxima:
“Temos de nos constituir depositários desta nova força [a de polícia do mundo]. É uma grande responsabilidade que nos foi imposta. Agradecemos a Deus que tenha sido a nós...Pedimos então a Deus que nos ajude a usa-la nos Seus desígnios e para os Seus objetivos”.(16)
Por aí vemos que não é lícito afirmar que, após 18 anos de proferido esse discurso de Truman, de que a supremacia do imperialismo ianque é uma “vontade divina”, o Marechal Castelo Branco não soubesse que, na verdade, o que ele defendia não era nem nacionalismo, nem o fim de privilégios de qualquer tipo e nem mesmo o resguardo do país contra uma suposta “influência de Moscou”. Como bom cão de guarda e traidor que era, por trás de seu sincero (e justificado) anticomunismo, o que existia era mesmo a consciente e bem remunerada defesa da supremacia ianque no mundo. Tarefa essa cumprida por ele e por todos os poltrões da sua claque, incluindo aí o atual gerenciamento oportunista do operário-padrão do FMI, o sr. Luis Inácio.
Em Conclusão:
Que o leitor perdoe a extensão do texto. Mas não é pouco necessário, antes pelo contrário, é fundamental aproveitar qualquer oportunidade para trazer à tona a verdadeira face (e é uma face monstruosa e desprezível) daqueles que perseguiram, torturaram e assassinaram milhares de comunistas, revolucionários e democratas brasileiros a fim de resguardar os privilégios daquelas mesmas classes exploradoras que oprimem nosso povo há séculos, servindo ao saqueio e pilhagem do nosso país e do nosso povo pelo apetite do imperialismo rapace, nesse caso do imperialismo ianque principalmente.
O texto se tornou extenso pela quantidade de fatos que temos à mão e, na verdade, nem meio por cento de questões igualmente escandalosas foram aqui abordadas. E se nós temos às mãos tantos fatos isso significa também que os historiadores os têm ainda muito mais, os jornalistas os têm ainda muito mais, os arquivos secretos mantidos à sete-chaves os têm ainda muito mais e o governo e sua capa burocrática os têm ainda muito mais. Se à imensa maioria da juventude esses fatos conhecidos por todos são escondidos, se silencia-se sobre eles, se é a mesma esquerda canalha que capitulou e que hoje gerencia o velho e reacionário Estado brasileiro que encobre os crimes do regime militar fascista, isso só pode significar, em primeiro lugar, que esta esquerda canalha é cúmplice e partícipe desses crimes que ora acoberta e, em segundo lugar, esses crimes seguem sendo praticados até os dias atuais e servindo aos mesmos interesses que serviam anteriormente. Porque esse arremedo de democracia que temos aí nada mais é que uma brutal e sanguinária ditadura sobre as massas populares, especialmente sobre os operários e camponeses, ditadura essa exercida pela grande burguesia (em suas frações burocrática e compradora) e pelo latifúndio, ambos serviçais do imperialismo.
Desmentir esses mitos sobre o caráter “democrático” das Forças Armadas, sobre o seu suposto “nacionalismo” (o nacionalismo sempre foi a roupagem ideológica favorita para se justificar os mais retrógrados interesses, inclusive os de traição nacional), pôr a nu seus crimes de tortura e assassinato, denunciar a farsa da Lei de Anistia,é uma das mais importantes tarefas das nossas gerações. Dizer em alto e bom som que Não perdoamos nem perdoaremos, não anistiamos nem anistiaremos!
Assim, quando vemos uma ongzinha do nível de um “Terrorismo Nunca Mais” (!), com todo o seu séqüito de fascistóides de pijama, falar que a campanha pela punição dos torturadores não passa de uma tentativa de “denegrir e reduzir a aceitação das Forças Armadas pelo povo, cujo papel histórico pacificador, sempre visou a defesa do Estado, da Nação, da Soberania e do Regime” isso não pode soar mais do que como uma fanfarronada daqueles que tremem ante o julgamento das massas e se apegam à malfadada doutrina de Goebbels (que certamente lhes é muito cara!) de que uma mentira repetida mil vezes pode se tornar uma verdade. E, de fato, esses senhores passaram a vida defendendo um regime de violenta opressão das massas e, igualmente, intensa desnacionalização de tudo o que autenticamente nosso povo conquistou e construiu. Embora, diga-se de passagem, isso não seja grande coisa, pois a vida desse tipo de gente não vale tanto assim.
Por fim citaremos ainda uma vez um trecho de Nelson Werneck Sodré, extraído de seu livro “O governo militar secreto”, e que mantêm toda a sua atualidade:
“Esta a essência do problema, realmente: toda a parafernália militar, com FIP, CIGS, Fort Gullick, Westmorelands, etc.,etc., serve apenas para dar cobertura à entrega de nossas riquezas, à dilapidação de nosso patrimônio material (para não falar do cultural), à desnacionalização do País. O general Westmoreland, o general Porter, o general Bruce Palmer são, na verdade, meros empregados de outros generais, a General Electric, a General Motors, cuja força é, realmente, imensa e em confronto com a qual a de seus funcionários fardados é brinquedo infantil”.
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