No dia 17 de setembro de 2011 completaram-se 40 anos da execução de Carlos Lamarca, capturado com vida e depois assassinado pela repressão ditatorial no pequeno povoado de Pintado, sertão da Bahia. Capitão do Exército Brasileiro, Lamarca abandonou a farda em 1969, tornando-se um dos comandantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização que combateu a ditadura militar brasileira através das armas.
Filho de pai sapateiro e mãe dona de casa, ele viveu até os 17 anos no Morro de São Carlos, no Estácio, no Rio de Janeiro, um entre sete irmãos. Fez o curso primário na Escola Canadá e o ginasial no Instituto Arcoverde. Em 1955, ingressa na Escola Preparatória de Cadetes, em Porto Alegre, e dois anos depois é transferido para a Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende (RJ), onde forma-se como aspirante a oficial em 1960. Em 1962, integrou o Batalhão Suez, nas Forças de Paz da ONU na região de Gaza, Palestina, onde serviu na 7ª Companhia, e de onde retornou dezoito meses mais tarde, com as primeiras idéias socialistas, graças à pobreza que testemunhou no local e ao começo da leitura de clássicos do marxismo. Numa carta a amigos, afirmou que se fosse preciso entrar em combate, entraria ao lado dos árabes, impressionado com a realidade deste povo na região, que considerava cruel. De volta ao Brasil em 1963, estava servindo à 6ª Companhia de Polícia do Exército, em Porto Alegre, quando ocorreu o golpe militar de 1964. Em dezembro do mesmo ano, ainda servindo no sul, deu fuga a um capitão brizolista que estava sob sua guarda, por admirar a tentativa de resistência de Leonel Brizola após o golpe.
Retornando a Quitaúna em 1965, transferido à pedido de Porto Alegre, foi promovido ao posto de capitão em 1967. Lá ele reencontra Darcy Rodrigues, um antigo companheiro, sargento do exército preso em 1964, mas que havia sido reintegrado à força. Darcy era o homem que fazia o trabalho político no quartel e com ele Lamarca começou a tomar contato com as obras de Lenin e Mao Tsé-Tung. Disposto a se retirar do exército e juntar-se à luta armada, Lamarca começou a organizar uma célula comunista dentro do 4º Regimento, que incluía o sargento, um cabo e um soldado. Em setembro de 1968, ele conseguiu encontrar-se com o líder da ALN (Ação Libertadora Nacional), Carlos Marighella, que ajudou-o a colocar sua mulher e seus filhos fora do Brasil - foram viver em Cuba - como salvaguarda da família para o que pretendia fazer. Demonstrando seu sentimento com relação ao Exército e antecipando a explicação por abandonar aquela instituição e ingressar na guerrilha, Lamarca escrevia em 1966: “Eu vim servir ao Exército pensando que o Exército estava servindo ao povo, mas quando o povo grita por seus direitos é reprimido. Aqui, o Exército defende os monopólios, os latifundiários, a burguesia. O povo é sempre reprimido. Esse Exército é podre e eu não agüento mais...”
Carlos Lamarca participou e comandou diversas ações revolucionárias ao longo de sua vida. Exímio atirador e estrategista militar, contribuiu decisivamente para o sucesso de muitas delas. Conseguiu escapar de uma mega-operação montada pelas forças da repressão para capturá-lo no Vale do Ribeira, sul do estado de São Paulo, região na qual permaneceu até meados do ano de 1970, realizando treinamento político-militar. A “Operação Registro”, maior mobilização da história do II Exército, envolveu cerca de 2500 homens, entre militares e policiais. Lamarca escapou com mais quatro companheiros. Também participou do seqüestro do embaixador da Suíça no Brasil, Giovanni Bucher, no Rio de Janeiro, em 1970, em troca da libertação de 70 presos políticos.
De sua postura abnegada e de seu compromisso com os que lutavam fala melhor um de seus companheiros: “...nunca impôs a ninguém sacrifícios que ele mesmo não fizesse. Chegava a ser comovente seu zelo com os companheiros, via-se como responsável pelo destino de cada um dos quadros da Organização e, quando ocorria uma baixa, deixava transparecer pesar comparável ao de quem acaba de perder um ente querido.” (1) No que diz respeito aos recorrentes apelos de seus companheiros para deixar o país diante da repressão que se intensificara e do furor dos militares em capturá-lo, Lamarca era enfático, afirmava com convicção que permaneceria no país, mesmo tendo em vista as condições desfavoráveis; lutaria até o fim pela revolução: “Conhecendo-o como conheci, tenho a certeza absoluta de que não perseverou por acreditar numa reviravolta milagrosa. Em termos militares, suas análises eram as mais realistas e acuradas. Nunca iludia a si próprio. O motivo certamente foi à incapacidade de conciliar a idéia de fuga com todos os horrores já ocorridos, a morte e os terríveis sofrimentos infligidos a tantos seres humanos idealistas e valorosos. Fez questão de compartilhar até o fim o destino dos companheiros, honrando a promessa, tantas vezes repetida, de vencer ou morrer.” (2)
Em abril de 1971, em discordância com a VPR, ingressou no Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). No mês de junho, Lamarca foi para o sertão da Bahia, no município de Brotas de Macaúbas, com a finalidade de estabelecer uma base desta organização no interior. Com a prisão em Salvador, em agosto, de um militante que conhecia seu paradeiro, os órgãos da repressão iniciam o cerco à região. Um tiroteio travado entre a polícia e os irmãos de José Campos Barreto, o Zequinha, que acompanhavam Lamarca, obrigou-os a iniciar uma longa e penosa rota de fuga, de 28 de agosto a 17 de setembro, com um percurso de quase 300 quilômetros. Ao descansarem à sombra de uma baraúna, foram surpreendidos pela repressão. Lamarca estava desnutrido, asmático, provavelmente com a doença de Chagas. Aqueles que o caçavam pelos sertões da Bahia com certeza temiam o vigor, a atilada inteligência, os reflexos precisos, o esmerado preparo militar do Capitão Lamarca, e jamais entrariam em sua linha de tiro. Limitaram-se a matar em silêncio um homem desfalecido.
O exemplo de luta e de abnegação do Capitão Lamarca, difamado e agredido pelos militares fascistas que instituíram um regime de terror e traição nacional, pela burguesia, por lacaios imperialistas e todos os reacionários, deve sempre ser lembrado e enaltecido pelos verdadeiros democratas e revolucionários. A luta dos combatentes do povo, dos que ousaram enfrentar a repressão e dos que deram suas vidas pela revolução brasileira deve sempre nos guiar em nossas batalhas diárias, nosso exercício de construção de organizações e pessoas que se dediquem a causa luminosa da emancipação do povo trabalhador e da eliminação de toda opressão e exploração.
VIVA O CAPITÃO CARLOS LAMARCA!
VIVA TODOS OS HERÓIS DO POVO BRASILEIRO!
Notas:
- Depoimento de Celso Lungaretti, jornalista, escritor, ativista e ex-preso político.
- Idem.
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