A população do Egito, cerca de 80 milhões de pessoas, cresce 2% ao ano e cerca de 60% da população – e 90% dos desempregados – têm menos de 30 anos. 40% dos cidadãos vivem com menos de dois dólares por dia, e 30% são analfabetos.
A deterioração acentuada das condições de vida de seu povo, com amplo desemprego, falta de moradia, farta corrupção, são conseqüência direta do regime de terror de Hosni Mubarak, o sanguinário que se manteve por 30 anos no poder, com incondicional apoio do governo sionista de Israel e do imperialismo ianque.
Esse o pano de fundo da rebelião protagonizada pelo povo egípcio, ocorrida no esteio dos levantamentos na Tunísia e Argélia, que culminou com a renúncia de Mubarak no dia 11 de fevereiro último.
Derrota do Imperialismo ianque:
O levantamento das massas egípcias tem sido vergonhosamente deturpado e mistificado pelos monopólios de imprensa e, também, pela esquerda oportunista na sua interpretação anti-marxista da realidade. As causas do levantamento popular foram cinicamente deixadas de lado (talvez para esconder que estas causas existem em todos os países dominados pelo imperialismo), substituiu-se a luta de classes e os confrontos abertos nas ruas por uma pacífica “revolta pela internet”, chegando ao cúmulo de chamar tal revolta de “revolução”. Aqui, como sempre, embora devamos saudar com entusiasmo a revolta do povo, é preciso colocar os devidos pingos nos “is”.
Não obstante, antes de tudo, o maior cinismo dos monopólios de imprensa (particularmente da sua principal sucursal no Brasil, a rede Globo) foi não dizer o
que estava estampado em todos os acontecimentos naquele país: o caráter antiimperialista das mobilizações, o fato de Mubarak ter sido durante três décadas um fiel peão norte-americano na geopolítica daquela região. Não é à toa que vários renomados veículos de propaganda do imperialismo, como a CNN por exemplo, foram alvo da fúria dos manifestantes.
Tanto é assim que no dia 25 de janeiro a famigerada Hillary Clinton declarou que “Em nossa avaliação, o governo de Hosni Mubarak é estavel e está procurando responder às necessidades e interesses legitímos do povo egípcio”. Ainda no dia 27 de janeiro o genocida Barack Obama disse cinicamente que “Hosni Mubarak deve concretizar suas promessas de reformas com atos concretos. Os Estados Unidos continuarão a defender os direitos do povo egípcio e a trabalhar com seu governo para obtenção de um futuro mais livre, justo e luminoso”. Ou seja, com o governo de Mubarak, construir tal futuro luminoso! Porém, diante da implacável luta do povo egípcio e, também, do aguçamento das contradições no interior das classes e grupos dominantes egípcias, o imperialismo ianque mudou de tática, adotando o seu velho receituário de “transição pacífica” e “eleições”, aplicado com esmero na América Latina quando da derrocada dos regimes militares fascistas no fim da década de 70.
Como colocado pelo Comitê de Apoio à luta do povo Palestino, em nota de janeiro último, “os EUA e Israel buscam uma saída que seja uma transição pacífica e moderada para uma ‘democracia’, onde o povo do Egito e da Tunísia continue sofrendo os horrores impostos por uma situação de total submissão aos interesses do império. Por outro lado, a população nas ruas não desiste de exigir uma mudança radical e o rompimento com os EUA e Israel. Nesse sentido, as manifestações do povo no Egito cumprem um papel muito importante na emancipação e autodeterminação do povo no Oriente Médio. O Egito é o país que concentra a maior força de trabalho do Oriente Médio”.
Podemos chamar de Revolução os acontecimentos no Egito?
Aqui é importante demarcar campos, sem o que acabaremos por jogar água no moinho da reação, que luta todos os dias e a todo momento para desinformar as massas populares no mundo, substituindo pela mistificação grotesca a compreensão científica da realidade. Essa mistificação, aqui como sempre, é endossada e realizada em grande parte pela “esquerda” oportunista.
Uma revolução é a derrubada violenta da ordem social existente, a substituição de uma velha superestrutura por uma nova, a derrocada da dominação das classes dominantes e a tomada do poder pelas classes revolucionárias, a destruição cabal da máquina estatal que garantia a dominação das classes então derrocadas (particularmente de sua medula, as forças armadas). No caso do Egito, país dominado pelo imperialismo, sua necessária revolução democrática, pendente como nos demais paises dominados, exige a derrocada da estrutura econômica apoiada no domínio do latifúndio, da grande burguesia e do imperialismo, a distribuição das terras para o campesinato pobre principalmente, a confiscação de todo capital monopolista, imperialista e burocrático, abrindo caminho para a edificação de uma nova economia, nova política e nova cultura. Uma nova democracia, enfim, baseada não no exército reacionário ou no parlamento venal, mas no poder das massas armadas. E, como é evidente, os partidos da velha ordem, representantes das classes dominantes e seus grupos de poder, mesmo aqueles que se dizem “os mais democráticos”, etc., não poderão jamais aplicar tal programa, o que coloca como condição para sua realização a existência de um autêntico partido revolucionário do proletariado.
Isso é o abc do marxismo, e pedimos perdão aos leitores demorar nesta explicação, mas em dias de intensa contra-propaganda da reação, em dias em que o marxismo é atacado todos os dias, aberta ou sutilmente, e particularmente à juventude é vedado o acesso à concepção científica do mundo, não é possível compreender o que ocorre atualmente no Egito, e desmascarar toda a falsificação da realidade, sem colocar a discussão no terreno dos princípios.
É evidente que, no Egito, não há uma revolução. É evidente que há sim uma intensa luta de classes, é evidente que as massas não estão satisfeitas apenas com a queda de Mubarak e a ascensão de uma junta militar ou de um novo títere eleito nas próximas eleições, a luta das massas representa aí sem dúvida o caminho democrático que não tem logrado até agora, entretanto e infelizmente, se impor, pela ausência de uma direção conseqüente para esse processo.
Indo aos fatos concretos, não é difícil constatar o que dizemos. O arqui-reacionário Conselho Supremo Militar do país, que governa atualmente o Egito, é presidido pela sinistra figura do general Mohamed Hussein Tantawi, ministro de Mubarak desde 1991, tido como um homem de confiança do USA e de Israel, e que estaria em contato permanente com o ministro da Defesa ianque Robert Gates (segundo a agência de notícias Reuters). Na sexta-feira última, dia 18, no mesmo instante em que dezenas de milhares de pessoas celebravam uma semana da queda de Mubarak, o Exército enviou um comunicado à população, via televisão, dizendo que não toleraria a continuação das greves no país. O velho Ministério de Mubarak continua de pé, e os militares ainda “estudam” sua remodelação. A prometida “nova Constituição” é considerada pelo Conselho Militar como uma “meta de longo prazo”. Ainda não caiu o estado de emergência e há centenas de presos políticos mantidos em seus cárceres.
Luta do povo egípcio ainda está longe de um desfecho:
Tudo isso indica que, longe de ter alcançado seu ápice vitorioso, como pinta a imprensa dos monopólios, a luta do povo egípcio ainda está longe de um desfecho. É evidente que as radicalizadas e politizadas massas populares do Egito (a revolução ensina as massas e as ensina rapidamente, como nos ensinou Lênin), que demonstraram grande disposição de luta e, particularmente, a reivindicação da total ruptura com o imperialismo, não aceitarão pacificamente que o seu levantamento seja transformado numa miserável composição das classes dominantes, mantendo inalteradas as velhas estruturas do país.
Há, além da revolta popular propriamente dita, outros complicadores para a estratégia de “transição” do imperialismo ianque. A Irmandade Muçulmana, por exemplo, o maior grupo político organizado do país, é hoje a maior preocupação do imperialismo, que não está disposto a vê-la no controle do país. Mohamed Badie, chefe político da Irmandade, declarou, sobre a rebelião popular e suas conseqüências, que os egípcios “não deveriam dar brechas a oportunistas para sequestrá-la e às suas realizações".
Devemos, enfim, saudar a rebelião das massas populares do Egito e não permitir que os seus maiores inimigos (o imperialismo ianque e o sionismo, por um lado, e seus lacaios internos, por outro) se apresentem agora como seus defensores e protagonistas. Não há dúvida que a rebelião não só naquele país mas em toda a região estão longe de um desfecho e o heróico povo árabe saberá levar a luta até o final, com o mesmo heroísmo com que a começou.
VIVA A REBELIÃO POPULAR NO EGITO!
MORTE AO IMPERIALISMO!
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