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93 anos após Córdoba, agora ruge o Chile:

Publicamos abaixo texto do professor e ativista político José Ignacio Ponce López, do Departamento de História Política da Universidade de Valparaíso. O texto faz um paralelo entre a atual jornada de luta dos estudantes chilenos, que levou dezenas de milhares de pessoas às ruas, e a histórica rebelião estudantil de Córdoba na Argentina, em 1918. O fio condutor tanto de uma como de outra é um sistema educacional retrógrado, arcaico, anti-democrático, correspondente às estruturas de nossas sociedades latino-americanas, crescentemente dominadas pelo imperialismo. Como diferença, o fato de que, atualmente, a luta contra a privatização das instituições de ensino e a mercantilização da produção de conhecimento adquiriu papel central nessas mobilizações. Também é interessante a retomada de vários pontos do Manifesto de Córdoba.

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“Os estudantes de toda América Latina, ainda que levados à luta por protestos peculiares à sua própria vida, parecem falar a mesma linguagem”. (José Carlos Mariátegui)

“A partir de hoje temos no país um vergonha a menos e uma liberdade a mais. As dores que restam são as liberdades que faltam. Acreditamos não equivocar-nos, as ressonâncias do coração nos advertem, pisamos sobre uma revolução”. (Manifesto de Córdoba, 1918).

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Em 21 de junho de 1918, os estudantes da Universidade de Córdoba na Argentina estremeciam todo o continente americano com um grito que demandava o fim da estrutura oligárquica das instituições universitárias daquele país e de todo o continente. Este fenômeno esteve permeado por todas as lutas transformadoras que começava a viver o mundo. As décadas de 1910 e 1920 foram os anos da crise capitalista expressa na Primeira Guerra Mundial, com a qual grande parte da humanidade começou a se ver caminhando para o precipício. Obviamente, os primeiros a cair no inferno seriam os setores populares e médios da sociedade. Eram os que deviam ir à guerra, os que passavam fome e que morriam diariamente. No contexto daquela crise mundial, esses mesmos condenados da terra serão os que dirão: Basta! No decorrer dessas décadas, quando tudo parecia arruinar-se, foram os trabalhadores, os camponeses, os estudantes e os setores médios empobrecidos que impulsionaram as maiores reformas sociais e políticas do século XX. Desde a América Latina, comandados por Emiliano Zapata, emergia a Revolução Mexicana; na Rússia liderados por Lênin os trabalhadores e camponeses desse país apontavam as armas entregues pelo czar para a guerra, contra o próprio czar.

Marcha_da_Federao_Universitaria_de_CrdobaImbuídos desse mundo que tratava de nascer enquanto o velho morria, os estudantes cordobenses alçavam a voz sustentando que “as universidades têm sido até aqui o refúgio secular dos medíocres, a renda dos ignorantes,  hospitalização segura dos inválidos e –o que é pior ainda –o lugar onde todas as formas de tiranizar e de insensibilizar acharam a cátedra onde lecionar”. A lucidez dos universitários argentinos ficou demonstrada na compreensão do problema das instituições nas quais se formavam, vendo que estas haviam chegado a ser “o reflexo destas sociedades decadentes, que se empenham em oferecer o triste espetáculo de uma imobilidade senil”. Colocando assim a necessidade de transformar completamente as Universidades, com fortes tons revolucionários.

Baseando-se nisso, lutaram por “um governo estritamente democrático e [sustentaram] que o DEMOS universitário, a soberania, o direito de dar-se um governo próprio radica principalmente nos estudantes”, o que possibilitaria que a partir desse momento “só poderiam ser professores na futura república universitária os verdadeiros construtores de almas, os criadores de verdade, de beleza e de bem”. Para elucidar bem o tema, sustentaram que “a juventude universitária de Córdoba afirma que jamais fez questão de nomes nem de empregos. Se levantou contra um regime administrativo, contra um método docente, contra um conceito de autoridade. As funções públicas se exercitavam em benefício de determinadas camarilhas”. Como vemos, os estudantes viam como principal horizonte de sua luta a democratização da Universidade para poder remover os obstáculos que as impediam de ser instituições que cumprissem um real papel científico a serviço da comunidade.

Ademais, o Manifesto de Córdoba destacava: o papel transformador dos jovens e o profundo sentido latino-americanista de seu chamado. Viam claramente que a juventude do continente e da Argentina estava chamada a impulsionar mudanças e revelar os problemas sociais, para eles “a juventude vive sempre em transe de heroísmo. É desinteressada, pura. Não tem tido tempo ainda de contaminar-se”. Atribuindo-se um papel político, sustentavam que “A juventude universitária de Córdoba acredita que tem chegado a hora de colocar este grave problema para a consideração do país e de seus homens representativos”. É assim como os estudantes de Córdoba se concebiam como atores do desenvolvimento social e que podiam ajudar a construir uma sociedade melhor. Por outro lado, retomando uma longa linha de pensamento continental, os líderes desse movimento compreenderam as similitudes dos países latino-americanos no marco do sistema mundial e quais as causas dos obstáculos para lograr um maior bem-estar social. É assim que desde Córdoba se lhes dizia aos demais americanos que “aprendamos a lição, companheiros de toda a América; acaso tenha o sentido de um presságio glorioso, a virtude de um chamamento à luta suprema pela liberdade”. Para terminar, manifestando que “a juventude universitária de Córdoba, por intermédio de sua federação, saúda os companheiros de toda a América e lhes incita a colaborar na obra de liberdade que se inicia”. É importante mencionar isto, porque grande parte dos que geraram este movimento universitário tanto na Argentina como em Cuba, Peru e Chile passaram a engrossar as fileiras dos movimentos sociais e políticos anticapitalistas durante os anos 20.

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As causas desse enorme movimento universitário de caráter grandemente rebelde e que terminou sendo continental, foi a crescente pauperização da vida que atingiu grande parte das sociedades latino-americanas da época. Os setores médios ou mesocráticos, com expectativas nas universidades para o ascenso social, as encontraram típico produto da incapacidade das instituições educacionais para reagir à débâcle que começava a experimentar o sistema capitalista e que terminou desatando-se em 1929.  Com isto, ficaram expressas as contradições desse sistema econômico e a impossibilidade de um sistema educacional democrático, de excelência e à serviço do desenvolvimento autônomo das sociedades latino-americanas no marco do capitalismo desigual e dependente no qual estavam imersas. Não obstante, a luta pela reforma que se expressou durante quase toda a década de 20 em muitos países do continente se fundiu com distintos conflitos anti-oligárquicos e anticapitalistas liberais dessa época, demonstrando o impulso que deram as lutas universitárias e juvenis às dos operários e camponeses para pôr em questão a dominação das classes no poder. Ainda que as revoluções nas quais terminaram ditos processos não tenham sido triunfantes em toda sua magnitude, lograram sim enormes mudanças, quanto a avanços democratizantes tanto nos direitos políticos como sociais, provocando o Estado a garantir muitos deles, tais como a educação.

Os ensinamentos do Grito de Córdoba para os universitários chilenos do século XXI:

A importância de comemorar este fato radica na necessidade de refletir sobre as perspectivas do movimento estudantil que se desenvolve hoje em nosso país. Estudantes_e_professores_manifestam_em_frente_ao_Palcio_La_Moneda_sede_do_governo_em_manifestao_em_Santiago_no_Chile Primeiro, devemos dizer que o contexto no qual estamos difere enormemente ao dos princípios do século XX. Não obstante, devemos retomar que ao longo desse mesmo século e também na reforma de 67-68, os estudantes jogaram um papel importantíssimo nas lutas reivindicativas e democráticas de todos os países do mundo. De fato, os estudantes sempre estiveram nas ruas contra as classes dominantes demandando que se terminasse com as desigualdades sociais, propendendo a uma cada vez maior democratização, de maneira pluralista e libertária. E mais, sempre os universitários buscaram ligar-se aos setores populares para apoiar suas reivindicações, já que viam que a solução do problema radicava em poder superar o sistema capitalista no qual estamos imersos, entendendo que nesse contexto os trabalhadores jogavam um papel central. Assim, se concebeu que uma educação democrática, de excelência e a serviço das comunidades em geral não se podiam lograr em um sistema onde estivesse controlada pela minoria da sociedade, senão que pela grande maioria social, expressa nos setores populares e médios. Com o qual, podemos ver que os estudantes tem jogado um papel dinamizador nas lutas sociais, fazendo ver aos trabalhadores o nível de exploração aos qual estão submetidos e que eles também são parte de um sistema opressor, do qual devem desfazer-se. Por outro lado, não devemos desconhecer que as demandas estudantis do século XXI são diferentes as do século XX e que se bem a democratização joga um papel primordial, o raquítico estado das Ues (Universidades) chilenas conduz a que o tema do financiamento seja outro grande elo do problema. O último, só confirma que na atualidade mais do que nunca as Universidades estão a serviço do sistema capitalista, superando o mero papel reprodutor deste e passando a ser diretamente empresas onde se lucra com elas. O sistema capitalista tem levado a que os anteriormente valorizados funcionários da área de serviços agora não sejam mais que a expressão moderna da classe trabalhadora com precárias condições laborais e que seja o futuro de grande quantidade de pessoas nas Universidades, assim como dos chamados ilustres desempregados. Tudo causado pela enorme inversão de capitais para lucrar com o sonho das famílias de ter um trabalho digno para seus filhos.

Jornada_de_junho_no_Chile Porém, o importante é que os estudantes chilenos se têm aborrecido desse sistema, têm dito novamente: JÁ BASTA! Cada vez é mais forte a consciência dos universitários pela profunda transformação do sistema educacional, quando se coloca a necessidade de dar um novo sentido ao conjunto das instituições. Hoje são estudantes universitários e secundários, como também professores os que se unem nessa luta. Porém também durante a última semana, se somaram distintos atores do mundo do trabalho para apoiar e aprofundar a demanda dos estudantes. De fato, os dias 15 e 16 de junho de 2011 passaram à história por ter representado dois importantes marcos. O primeiro, por haverem saído mais de 20.000 estudantes, trabalhadores do âmbito privado e subcontratados de El Teniente[1] marchando juntos nas ruas da capital do país. O segundo, por haverem-se manifestado quase 200 mil pessoas em toda a nação por um melhor sistema educacional. Isto ratifica a progressiva generalização da luta estudantil e a enorme transcendência que estão logrando com seu estado de ânimo combativo que está irradiando para o conjunto da sociedade. Contudo, se pode elucidar que a única forma para construir uma sociedade melhor no contexto atual está criticando, propondo e também lutando nas ruas.

Depois de 93 anos, os estudantes chilenos voltam a gritar que se necessita uma mudança profunda em nossa sociedade, para desperta-la do sonho neoliberal e que só a logrará por uma luta conjunta da cidadania, porém que depende fundamentalmente do nível de unidade que possam alcançar os trabalhadores com os estudantes, porém também que possam manifestar uma crescente radicalidade nas suas demandas. Por isso, a consigna de NACIONALIZAR o COBRE para uma EDUCAÇÃO GRATUITA para todos os CHILENOS , é a expressão mais potente e passará para a história do GRITO chileno de 2011.

Porque tem chegado a hora do Chile, tem chegado o momento em que os estudantes devam LUTAR, UNIR E VENCER.

José Ignacio Ponce López, Departamento de História Política, Faculdade de Humanidades, Universidade de Valparaíso, membro do Coletivo Estudantes Mobilizados, Universidade de Valparaíso.

Retirado do sítio Rebelion. Traduzido para o português pelo MEPR.




 





[1] Divisão El Teniente, pertencente à Corporação Nacional do Cobre do Chile, é responsável pela exploração da maior mina subterrânea de cobre do mundo, localizada a 80 km de Santiago. (Nota do MEPR).

 

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