Dia 09/06, o movimento estudantil voltou a ser notícia em todo o País. Os estudantes da USP, em combativa manifestação, exigiram a retirada imediata da inaceitável presença da Polícia Militar do campus universitário. Numa atitude típica do regime militar a PM interviu com forte repressão mas, longe de intimidar os estudantes, a atitude apenas serviu para deixar claro que desse velho Estado a juventude nada tem a esperar e que os esforços por erguer um novo movimento estudantil devem ser elevados a novos patamares.
O que está acontecendo?
A nova onda de mobilizações na USP teve início no dia 05 de maio quando os funcionários da Universidade deflagraram greve exigindo, dentre outras coisas, a readmissão do funcionário Claudionor Brandão. Brandão é diretor do Sindicato dos Trabalhadores da USP (SINTUSP) e teve combativa atuação nas manifestações de 2007. Sua demissão, além da série de processos administrativos contra vários professores, funcionários e estudantes em virtude de suas atuações em defesa da universidade pública, significa um claro caso de perseguição política e demonstra a estratégia dos diferentes governos estaduais e federal de criminalização dos movimentos populares em geral.
No dia 04 de junho os estudantes, em assembléia com mais de 1.000 pessoas, somaram-se à luta dos funcionários e também deflagraram greve. As principais reivindicações são o fim imediato da ocupação militar da Universidade e a suspensão da criação da UNIVESP (Universidade Virtual do Estado de São Paulo), que ratifica a implementação dos cursos à distância e abre o caminho para o desmonte total do ensino público. Desde então a tensão entre os grevistas e a polícia aumentou dia a dia, culminando na primeira ação repressiva da PM dentro do campus da USP desde 1979. Vale lembrar que em 2007 os 51 dias de ocupação da reitoria da USP serviram para detonar o processo de ocupações que sacudiu o País e botou em questão o modelo antidemocrático das universidades brasileiras. Atualmente, além da própria USP, também a UNESP e a UNICAMP encontram-se em greve estudantil. A UnB, outro reduto histórico do movimento estudantil, tem sua reitoria ocupada novamente. Não há dúvida de que, mais uma vez, a combatividade demonstrada nessa nova jornada de lutas pavimenta o caminho para mais uma tempestade de mobilizações que já acontecem por todo o País e tendem a se alastrar como um rastro de pólvora.
Não há democracia na Universidade
Para quem ainda acreditava na existência de democracia nas Universidades brasileiras as bombas da polícia paulista significaram, sem dúvida, um “argumento” definitivo. Mas o caso da USP não é nem um acontecimento isolado e nem tampouco o primeiro.
Na vitoriosa luta dos estudantes contra o REUNI as reitorias vendidas ao governo federal fizeram todo o possível para aprovar de qualquer forma aquele projeto demagógico do governo Banco Mundial/Lula. Desde cordões de isolamento impedindo que conselheiros universitários participassem da votação do projeto até casos agudos como da UNIR, em Rondônia, em que a votação foi encaminhada dentro da SIVAM (Serviço de Inteligência e Vigilância da Amazônia), ou seja, literalmente em uma base militar. Na Universidade Federal da Bahia a polícia interviu para cumprir a reintegração de posse exigida pela reitoria.
Assim fica claro que o que acontece atualmente em São Paulo não é um caso exclusivo da REItora da USP, Sueli Vilela, nem do fascistóide José Serra. A ausência completa de democracia não é exceção mas regra nas universidades brasileiras. Impedir a livre manifestação dos diversos setores da comunidade acadêmica é um recurso indispensável para ampliar o controle da iniciativa privada sobre as universidades (através das fundações) e liquidar com os mínimos resquícios de uma autonomia universitária que, no caso de um país semicolonial como o Brasil, nunca passou de mera fachada.
Não é à toa que todas as greves, ocupações, manifestações e todo tipo de pronunciamento feito pelos estudantes desde o processo de ocupações em 2007 colocam como reivindicação fundamental a democratização das eleições para os órgãos colegiados e a ampliação da participação estudantil nos conselhos universitários, que atualmente possui esdrúxulos índices de, em média, 1/10.
Unificar as lutas com Greve geral!
O que fica claro na atual onda de manifestações nas Universidades paulistas é que a luta de todas as universidades públicas, sejam estaduais ou federais, é na verdade uma só: a luta contra a “reforma” universitária aplicada paulatinamente no ensino superior brasileiro.
Vejamos um fato: uma das principais reivindicações da greve estudantil na USP é a abolição da UNIVESP, ou seja, da criação dos famigerados cursos à distância. É essa uma política do governo José Serra especificamente? De forma nenhuma! Na verdade o que faz atualmente o governo de São Paulo é simplesmente seguir as pegadas do Ministério da Educação e do governo Lula. O modelo que se tenta implementar com a chamada UNIVESP é nada mais nada menos que a cópia do que vem aplicando o governo federal com a chamada “Universidade Aberta do Brasil”.
Atualmente no Brasil, das 174 instituições de ensino superior consideradas Universidades, 76 (43,67%) oferecem cursos a distância. No ano 2000 haviam 10 cursos e um total de 1.682 estudantes cadastrados em algum tipo de EaD. Em 2006 eram já 349 cursos totalizando 207.206 matriculados ( Fonte: IPAE- Instituto de Pesquisas aplicadas em Educação, vinculado ao MEC. Ver dados em http://ensinoadistancia.wikidot.com/crescimento:estatistica-dados-brasileiros). Essa explosão do ensino superior à distância, longe de significar uma democratização do acesso à universidade, significa a mais absoluta destruição da mesma como um centro de produção científica que deve conjugar o tripé ensino-pesquisa-extensão. Significa milhões de reais no bolso dos tubarões do ensino privado e a desresponsabilização do Estado com a manutenção do ensino público e gratuito. Tal medida, aliada a outras como o PROUNI,REUNI etc., qualquer que seja a roupagem que tome é a aplicação de uma só política: a contra-reforma em curso em todas as universidades brasileiras. A conclusão dos velhos acordos MEC-USAID, em pleno governo PT/PCdoB.
E, uma vez que o adversário a ser batido é o mesmo, é fundamental coordenar as diferentes explosões em uma só luta unificada nacionalmente. E não há outra bandeira que possa unificar a luta de todos os estudantes, professores e funcionários que não seja a Greve Geral contra as “reformas” antipovo em curso. Construir a greve geral como resposta contundente aos ataques ao ensino público e, não apenas isso, mas contra a crescente militarização das Universidades e repressão desenfreada do movimento estudantil! Ocupar as universidades e construir a greve geral em todo o país: esse é o único caminho capaz de unificar as lutas e conduzir os estudantes à vitórias!
Construir na prática um novo Movimento Estudantil!
Mas só será possível avançar nesse sentido combatendo o velho movimento estudantil que serve como uma verdadeira camisa de força que, a cada dia que passa, revela de maneira mais clara sua verdadeira face. O oportunismo sem precedentes da UNE dirigida pelo PT/PCdoB e seu vergonhoso papel de agência do ministério da educação dentro das universidades, sua traição aberta e declarada a todas as lutas estudantis nos últimos anos, deixa patente que a UNE é inimiga de qualquer mobilização independente que realizem os estudantes brasileiros. Quanto a isso não pode haver dúvidas.
Mas também é necessário não manter qualquer tipo de ilusão com PSOL e PSTU que tentam capitalizar a oposição à UNE dentro do movimento estudantil. O PSOL (que permanece naquela entidade) e o PSTU, com sua política eleitoreira (que em nada se diferencia da prática que conduziu a UNE à bancarrota) e sua traição a diversas ocupações e greves estudantis nos últimos anos (inclusive a própria deflagração da greve na USP) deixam claro que se opõem ao governismo da UNE e não à sua prática eleitoreira e reformista, da qual aquele é uma mera conseqüência. Inclusive na manifestação nacional realizada dia 30/03 último estavam todos lá, PT, PcdoB, PSOL, PSTU e Força Sindical de braços dados celebrando a “unidade da esquerda”.
Por isso construir o novo movimento estudantil, novo na concepção e na prática, é tarefa inadiável para todos os estudantes brasileiros. Um movimento estudantil que se oponha às velhas práticas eleitoreiras e que afirme o caminho da luta inconciliável por uma universidade verdadeiramente científica, à serviço da emancipação do povo brasileiro. A luta por democratizar as universidades é uma demanda histórica da juventude estudantil e teve seu auge na década de 60, na famosa greve em defesa de 1/3 das cadeiras dos conselhos universitários para os estudantes. Retomar portanto o caminho revolucionário no movimento estudantil brasileiro, combatendo qualquer tipo de ilusão com o mesmo Estado reacionário que leva cabo a repressão em escala cada vez maior às lutas não só dos estudantes como do povo brasileiro em geral é o único caminho capaz de conduzir o movimento estudantil aos mais elevados níveis de consciência e organização, condições indispensáveis para vencer a luta em defesa da Universidade Pública e da construção de uma nova sociedade.
Vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=umPd5Sz9tjQ
Exigimos Democracia nas Universidades!
Greve Geral contra as "Reformas" do Imperialismo!
Viva o Novo Movimento Estudantil!
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