Realizou-se entre os dias 12 e 18 de janeiro em Maceió o XVIII Encontro Nacional dos Estudantes de Geografia. Os Encontros de curso em geral, que apresentam amplas possibilidades de ser um espaço privilegiado de discussão política e definição de estratégias de luta uma vez que reúnem estudantes da maior parte das universidades do país, acabaram se tornando ao longo dos anos “mini-congressos da UNE” com a predominância de um espírito festivo e de puro turismo comercial e baixíssima participação política dos estudantes. Existem importantes exceções, que nos servem como exemplo, como é o caso do curso de Pedagogia mas, verdade seja dita, até aqui os Encontros de Geografia têm se mostrado dentro desse quadro geral de desmobilização.
Mas por que isso acontece? Será algo “inato aos estudantes”? Será porque o movimento estudantil “acabou”? Não é nada, absolutamente nada disso.
Na realidade tal clima de desmobilização tem prevalecido nos Encontros de curso em geral, e no movimento estudantil de Geografia em particular, devido à ação sabotadora das diversas correntes oportunistas que têm aparelhado as diferentes entidades dos estudantes, a fim de impedir que estas tomem o rumo da luta combativa e independente. Este tem sido particularmente o papel dos setores ligados à governista -e falecida- UNE, embora não apenas. Tendo vergonha de defender abertamente suas posições burocráticas e eleitoreiras as organizações como PT, PCdoB, PSOL (que participam da UNE) e PSTU (com sua pretensa nova entidade tão “legítima” que nem sequer eles próprios a defendem!) fazem de tudo para manter o clima de despolitização e festa enquanto, “por baixo dos panos”, encaminham as questões a seu modo.
É ou não é verdade que nos últimos anos tem havido uma importante retomada do movimento estudantil brasileiro, com ocupações de reitorias de norte a sul do País, enfrentamentos radicalizados com as reitorias e até com a polícia (como foi o caso da USP), assembléias com milhares de estudantes e greves estudantis? É ou não verdade que em todas essas lutas tem sido denunciada a ação desmobilizadora daquelas mesmas correntes que há mais de vinte anos atuam como verdadeiras camisas-de-força no movimento estudantil e popular em geral?
Sim, os estudantes brasileiros têm lutado. E é para articular e unificar essas diversas lutas que os Encontros de curso e suas respectivas executivas nacionais devem funcionar. E esse caminho deve ser também trilhado pelo movimento estudantil de Geografia.
A luta por um Novo Movimento Estudantil de Geografia:
Os números falam por si: de mais de 2.000 estudantes presentes na Universidade Federal de Alagoas (sede do ENEG) apenas 100, em média, participaram com regularidade das diferentes mesas e debates do Encontro. Isso num momento em que o curso de Geografia é severamente atacado pelas diferentes medidas que compõe a famigerada “reforma” universitária do governo Banco-Mundial/Lula. A histórica bandeira de defender a quantidade e qualidade dos trabalhos de campo, por exemplo (momento em que se pode aliar a teoria com a prática e utilizar o conhecimento adquirido na universidade verdadeiramente à serviço da transformação da realidade), vê-se ameaçada com a proliferação dos cursos de Geografia à distância. Ora, o que será um trabalho de campo “virtual”?
A crescente fragmentação do currículo, o verdadeiro abismo criado entre licenciatura e bacharelado tem sido igualmente nos últimos anos levado às raias do absurdo. Os estudantes que se voltam para a licenciatura têm seu curso encaminhado a ser cada vez mais uma vulgarização da pedagogia (pois a pedagogia autêntica também não pode se contentar a ser isto), com manuais prontos e acabados de “como ensinar” como se a difusão de conhecimento estivesse desvinculada da produção do mesmo; por outro lado os estudantes que optam pelo bacharelado se deparam com projetos nas áreas sobretudo de geoprocessamento e sensoriamento remoto completamente controlados por empresas e fundações privadas, sem o menor comprometimento em servir à imensa maioria do povo brasileiro e transformando o geógrafo num apêndice da engenharia ou da arquitetura, por exemplo.
Por tudo isso têm havido mobilizações em diferentes universidades do país, mobilizações que entretanto não são sequer divulgadas, e muito menos unificadamente articuladas, devido ao aparelhamento e à completa paralisia a que tem sido submetida a Confederação Nacional das Entidades dos Estudantes de Geografia-CONEEG, entidade nacional dos movimento estudantil de Geografia. Sob o discurso de “gestão participativa” um pequeno grupo de pessoas têm, na realidade, aparelhado o movimento estudantil de Geografia sem ter sido eleitos por ninguém e em lugar algum para isso. Sob o fácil discurso de se opor ao aparelhamento a que no passado o PCdoB impôs à CONEEG impõem agora a sua própria maneira de aparelhar. Ora, que “gestão participativa” é essa que longe de integrar desmobiliza e é incapaz de dar rumo às diferentes lutas dos estudantes de geografia? Que “gestão participativa” é essa que faz com que a maioria absoluta dos estudantes de Geografia presentes no ENEG (para não falar no Brasil) desconheça que existe uma entidade nacional dos estudantes de Geografia? Que “gestão participativa” é essa que tentou ao longo de todo o ENEG impedir que estudantes contrários à sua posição se posicionassem, não recuando ante a nenhum recurso inclusive o de tomar microfones, culminado numa plenária final bastante “participativa” de...14 horas e meia de duração?
Nós do MEPR nos opomos ao aparelhamento imposto pela UNE sobre o movimento estudantil brasileiro nos últimos vinte anos e defendemos que o caminho não é, entretanto, se opor à organização política em geral mas, pelo contrário, construir na prática um tipo novo e mais elevado de organização, baseado na independência e combatividade do movimento estudantil. É na realidade profundamente reacionário, sob a capa de um “ultra-individualismo”, se opor ao debate político no movimento estudantil e se opor que este tome parte ativa na luta de classes e nas diferentes lutas de nosso povo. Defender que não se discuta, num encontro nacional dos estudantes de geografia, que concepção de movimento estudantil nós queremos seguir, que não se discuta a situação política nacional e nem sequer a “reforma” universitária, ora, a quem tudo isto serve senão às posições do governo e à manutenção do quadro de apatia e dispersão que tantos prejuízos têm causado aos estudantes brasileiros? Tanto é assim que as diferentes organizações presentes no ENEG e que defendem a UNE não viram a menor necessidade de se posicionar claramente diante dessas questões, a não ser para defender que tudo permaneça exatamente como está atualmente...
Mas diante desse quadro vários estudantes se levantaram, de todas as regiões do País, exigindo a reorganização do movimento estudantil de Geografia. Toda camisa-de-força tem de se romper um dia e assim também acontecerá necessariamente com o movimento estudantil de Geografia. Praticamente todos os estudantes que participavam pela primeira vez do ENEG e que, saídos do recente clima de crescente agitação nas universidades, provados em piquetes, greves e ocupações de reitoria, sentem a necessidade de construir na prática um novo movimento estudantil, defenderam a necessidade de reorganizar o ENEG e a entidade nacional, em oposição à UNE e ao velho movimento estudantil e em defesa da educação pública e gratuita. Aprovou-se dentre outras resoluções a Semana Nacional de Lutas, entre os dias 24 e 28 de maio, que terá como eixo a defesa dos trabalhos de campo vinculada à luta contra o REUNI e o Ensino à Distância. Aprovou-se também que no próximo ENEG se discutirá o estatuto da CONEEG com vista a reorganizar de forma democrática a entidade nacional dos estudantes de Geografia.
Foi nesse clima de intenso debate e efervescência que se deu o XVIII ENEG. Certamente um marco do início da retomada da construção de um movimento estudantil de Geografia independente, democrático, combativo e à serviço do povo. Cada ativista que participou das discussões saiu de lá certamente convencido da necessidade de que é necessário mais do que nunca trabalhar e envolver nas mobilizações os milhares de estudantes espalhados por todas as universidades do país e, desde já, se lançar na construção de uma vitoriosa semana nacional de lutas.
Até o próximo ENEG, que ocorrerá daqui há um ano em Vitória, no Espírito Santo, não há dúvida que haverá muito a ser feito. E assim será.
Estudantes de Geografia saúdam a Revolução Agrária:
Mas o ponto alto do Encontro foi mesmo a visita de uma delegação de aproximadamente 25 estudantes, de todas as regiões do país, à uma Área Revolucionária dirigida pela Liga dos Camponeses Pobres no município de Capela, zona da mata de Alagoas.
Na véspera da visita um grupo de camponeses esteve no Encontro para falar das suas experiências aos estudantes. À noite os interessados em conhecer a Revolução Agrária se reuniram numa sala e, após assistir ao vídeo que retrata o Corte Popular, o ânimo era geral. A maior parte dos estudantes presentes não travara conhecimento até então com nenhum movimento que não fosse o MST e sua linha de “reforma agrária” e praticamente nenhum havia estado no campo. As perguntas se sucediam e a ansiedade pelo dia seguinte era geral.
E havia uma coisa que diferenciava este “trabalho” de todos os quase vinte demais: enquanto os demais trabalhos de campo eram na sua maior parte ou de um turismo escancarado (visita às ilhas de Alagoas ou a essa ou aquela praia) ou de um conhecimento “imparcial” e acadêmico da realidade fizemos questão de sublinhar desde o primeiro momento que aquela visita cumpria um importante papel político de estreitar os laços dos estudantes com o movimento camponês revolucionário e que, portanto, nada tinha de “imparcial” ou voltada a solucionar “curiosidades”.
E assim efetivamente aconteceu.
Logo cedo todos chegaram pontualmente no horário previsto e o ônibus partiu. Pouco a pouco o aspecto urbano do centro de Maceió foi dando lugar a uma paisagem rural, clássica, daquele tipo que muitos dizem “extinta” no País. E, mais do que isso, essa paisagem rural tem nome e sobrenome: latifúndio. Imensas áreas aparentemente desertas mas que, se ocupadas pelos camponeses em luta, não tardam a ser reivindicadas por um “dono”; ou as imensas e severas áreas da cana, aonde esta suga tudo o que é vivo inclusive o homem que a trabalha sem descanso.
Era sábado e o ônibus parou no centro do município de Capela, distante
E na feira a Liga dos Camponeses Pobres lançou um panfleto conclamando destruir o latifúndio, panfleto distribuído com entusiasmo pelos estudantes e lido com não menos entusiasmo pelos camponeses ali presentes, atentos à perspectiva de ganhar um pedaço de chão. Alguns camponeses que integram a LCP exclamavam com orgulho que estariam na Área “daqui a pouco”. Também houve quem virasse a cara, por medo ou interesse, mas nada que abalasse a caminhada. E até num bar onde estava estendida uma imensa fotografia com a figura do coronel Renan Calheiros a caravana da Revolução Agrária foi recebida com alegria e curiosidade.
Ao sair da feira com direção à Área Revolucionária vimos ainda um caminhão chamado “gaiolão”, que serve para transportar cana e que, segundo resolução do Ministério do Trabalho, está proibido de conduzir trabalhadores. Pois bem, a carreta de aspecto miserável, cercada por grades enferrujadas, estava bem “carregada”...com pessoas de todas as idades e o mesmo aspecto de miséria e exploração, tão comum àquela gente.
A chegada à Área foi uma verdadeira festa. Os camponeses nos receberam com fogos e muitos cumprimentos. No trajeto não era possível deixar de notar que toda aquela cidade, que para o IBGE constitui terreno “urbano” (por ser sede de município) gira em torno das várias usinas e que, não obstante o sol abrasador, simplesmente não existem árvores em toda uma extensão de perder de vista porque para os usineiros não importa os camponeses e toda polegada de solo é sagrada demais para não ser tomada pela cana...
No princípio havia um certo acanhamento de ambas as partes mas esse acanhamento não podia durar muito- como efetivamente não durou. Logo os relatos de vida dos camponeses, de uma vida de trabalho e luta dura se misturaram aos dos estudantes e o clima era de companheirismo absoluto. Após o almoço seguiu uma caravana de aproximadamente 50 pessoas para uma outra Área próxima. E foram todos com canções e bandeiras vermelhas erguidas, levando as boas novas da Revolução Agrária.
Por uma feliz coincidência o dia da visita dos estudantes foi também o dia em que chegou na Área a equipe do Corte Popular e em que os camponeses foram apresentados ao que há de mais moderno em topografia, um equipamento chamado Estação Total, comprado com o dinheiro cotizado mensalmente pelos próprios camponeses. É o Poder nascendo, fazendo suas decisões virarem realidade. A Assembléia do Poder Popular deliberou pelo Corte da terra e assim será feito.
Assim, ao chegar ao nosso destino final fomos recebidos com um animado forró pé-de-serra. Falaram estudantes e falaram camponeses e, se no princípio da música ninguém dançava, no final estavam todos misturados ao som de Asa Branca. Vale lembrar que essa Área visitada pela delegação de estudantes de Geografia foi acusada pela Gazeta de Alagoas (que pertence à família Collor de Mello), há pouco mais de um ano, de ser o epicentro da “guerrilha” em Alagoas...Guerrilha nós não vimos mas vimos sim um povo liberto da escravidão da cana e dos usineiros, aprendendo passo a passo a governar a sua vida com as próprias mãos.
E assim o dia passou, rápido como um minuto, e a hora de voltar chegou. A despedida foi demorada e, no ônibus e depois no Balanço da atividade, todos se mostraram contentes de ter participado não de mais um trabalho de campo, mas de um ato político, e mais de um estudante disse ter essa atividade mudado sua vida. Algumas pessoas haviam estado também em assentamentos do MST e se antes a demarcação entre reforma e revolução agrária não era clara agora era tamanha que eles a sublinhavam com as suas próprias impressões. A Revolução Agrária é para todos esses agora uma realidade e uma realidade que precisa ser defendida. Até o fim do ENEG se ouviu comentar sobre o trabalho “com o pessoal da Liga” e na plenária final aprovou-se uma moção em solidariedade aos companheiros assassinados recentemente em Rondônia, e exigindo a punição dos responsáveis.
Porque se todos os que participaram da visita à Área Revolucionária tiveram um dia inesquecível, sabem também que dias como esses não caem do céu. Que ainda são milhões os camponeses aprisionados pelo latifúndio em todo o País e o inimigo que ruge em sua decadência sabe ainda, e por isso mesmo, ser cruel.
E há ainda uma certeza maior, que não poderá ser esquecida: quando dissemos que ao movimento estudantil cabe servir ao povo de todo coração, não são essas palavras jogadas ao vento. Aos estudantes cabe servir ao povo de todas as maneiras possíveis, inclusive se deslocando ao campo para viver, trabalhar, lutar e aprender com os camponeses.
Assim foi no passado e, se depender daquele grupo, será no futuro como um elo de sólida aliança que jamais poderá ser rompido.
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