Recentemente, os camponeses acampados em Peri-Peri no município de Lagoa dos Gatos (PE), sofreram um despejo e tiveram suas plantações e casas destruídas. Já algum tempo, pistoleiros contratados pelo latifundiário e deputado federal Eduardo da fonte vinham fazendo ameaças aos acampados em Peri-Peri. Para intimidar ainda mais os camponeses, Nanal (um apoiador da luta pela terra), foi assassinado com oito tiros na manhã que os camponeses organizaram uma manifestação contra todas as ameaças que os pistoleiros vinham e seguem fazendo aos que lutam pela terra.
No dia 24 de abril, 10 estudantes da Universidade Federal de Pernambuco organizaram uma atividade de solidariedade a esta luta. Foram entregues 1.000 panfletos na feira e realizada uma reunião com a presidente do sindicato dos trabalhadores rurais logo na manhã que chegaram ao município. Pela tarde, foram conversar com os camponeses de Peri-Peri que estão em uma área próxima, sobre as dificuldades que estão enfrentando nesta luta e perspectivas do futuro. Logo depois seguiram para a Área revolucionária José Ricardo, que assim como Peri-Peri, é uma área organizada pela Liga dos Camponeses Pobres. Na área revolucionária José Ricardo, assistiram o vídeo sobre o corte popular, conheceram a lavoura e conversaram com outros camponeses que apóiam todos camponeses de Peri-Peri. Foi debatido qual o papel dos estudantes em divulgar e apoiar esta luta e denunciando todos esses crimes cometidos pelo latifúndio.
Segue abaixo o panfleto escrito pelos estudantes e um texto escrito por estudante que participou da atividade.
Estudantes da Universidade Federal apóiam os camponeses de Peri-Peri:
Nós estudantes da UFPE, Recife, estamos solidários com a luta dos camponeses de Peri-Peri pela conquista da terra. Neste ano de 2010, por três vezes, uma comissão de professores e estudantes visitou o Acampamento de Peri-Peri. Nestas visitas o que vimos foram muitas plantações, casas com tijolos feitos pelos próprios camponeses, crianças brincando na Escola Popular, muita alegria e esperança de um futuro melhor. Conhecemos homens e mulheres de muita garra, trabalhadores, conscientes e firmes. Pessoas que merecem ter um pedaço de terra para viver e criar seus filhos com dignidade.
Infelizmente, hoje voltamos à Lagoa dos Gatos após recebermos a triste notícia da destruição daquelas casas e daquelas plantações que nos foi mostrada com tanto orgulho. É triste saber que tanto suor e tantas horas de dedicação e trabalho vieram abaixo em poucos minutos pelo trator do latifundiário. Mais revoltante ainda foi saber das ameaças dos pistoleiros e do assassinato de um apoiador da luta de Peri-Peri. Por isto, voltamos aqui para trazer apoio a estas famílias que além de perderem tudo que plantaram e construíram estão sofrendo ameaças e perseguições constantes.
“Peri-Peri é do povo!” (Trechos de carta de uma estudante da UFPE)
Enquanto a cidade dorme com sua indiferença, mulheres, crianças, velhos, homens e jovens se revezam na vigília do acampamento. Temendo alguma investida dos capangas da família Da Fonte. A luta pelo direito de produzir o próprio alimento e o alimento para abastecer a cidade se esbarram no direito ilegal e injusto adquirido historicamente pelas posses da terra. O poder e a ganância dos fazendeiros recebem apoio incondicional de uma mídia vendida que criminaliza os que lutam pelo direito à terra. Enquanto isto, violência contra os camponeses é observada de maneira calma e tranqüila pelos três poderes que compõem o nosso Estado de Direito.
Pobres, miseráveis, analfabetos, desnutridos, desdentados, negros, sitiantes e camponeses não compõem os tais poderes. É claro que a história de nosso Ilustríssimo presidente, Luis Inácio da Silva, nos diz alguma coisa neste cenário social. Menino pobre sai de Garanhuns - PE vai para São Paulo com seus irmãos e mãe ao encontro do pai. E lá se dedicou ao Sindicato dos Metalúrgicos, sempre ressaltando a importância de sentar e negociar com o patrão. Depois de três tentativas ganha as eleições após alianças com setores sociais mais reacionários, inclusive com os latifundiários. Mas, o filho do Brasil nos prometeu que a reforma agrária se faria apenas com uma canetada, quando era candidato.
Então pergunto ao presidente, quantas desapropriações houve nestes 8 anos de governo, quantas famílias assentadas? Quantos camponeses mortos e quantos pistoleiros e mandantes presos? Quantos camponeses presos por acusações falsas ou porque foram defender suas famílias de pistoleiros, milícias e polícias a serviço de um Estado que defende o direito de propriedade privada dos latifundiários e não dos camponeses. Aliás, gostaria de saber se o Senhor presidente tem investido em alguma terrinha por aí.
Por isto quero dizer: companheiros de Peri-Peri se o latifúndio está contra vocês, se o Estado na amplitude dos três poderes é contra vocês, se a mídia é contra vocês, vale a pena estar do lado de vocês. Afinal quem tem tantos bons inimigos só pode ser nosso Amigo. Viva as mulheres, crianças, velhos, homens e jovens acampados em Peri-Peri, que velam pela nossa justiça social e pelo direito de plantar nossa janta, enquanto dormimos tranqüilos na cidade o sono da indiferença da luta pela terra no campo.
“A situação vivida no município de Lagoa dos Gatos, agreste pernambucano, contradiz visceralmente a crença na suposta consolidação da democracia brasileira, crença disseminada entre a maioria dos “ilustres” partidos brasileiros que reduzem democracia a eleição.
Pois bem, a história é a seguinte: o camponês Nanal foi assassinado com oito tiros enquanto exercia seu ofício de leiteiro. Ele era um valente apoiador da luta pela terra em Lagoa dos Gatos, e talvez por seu passado marcado por passagens na polícia e sua convicção ideológica perante uma autoridade constituída que serve de joelhos aos anseios da classe latifundiária, foi identificado como alvo. Sua morte foi anunciada e cumprida, sem qualquer interferência da justiça num país “democrático” tal qual o Brasil. Apesar do sucesso da empreitada o seu objetivo maior não foi alcançado: a intimidação dos camponeses e o decorrente enfraquecimento da luta. Falo dos camponeses que restam, pois dependendo da eficiência do poder público e da política bastante diplomática dos latifundiários, aqueles não terão tempo para ver uma terra dignamente repartida. No dia do citado homicídio estava “por coincidência” programada uma passeata pela cidade, direcionada para a questão agrária, apesar do clima de terror disseminado a mobilização aconteceu e foi até a prefeitura cobrar alguma atitude. O prefeito Reinaldo dos Santos Barros(PMDB) é um baluarte da consolidada democracia brasileira, não precisarei descrevê-lo, apenas citá-lo:- “Eu não tenho nada a ver com isso, a culpa é de vcs que ficam fazendo desordem, até pq e eu não preciso me preocupar pq tenho meus próprios seguranças”. Uma peça interessantíssima que comprova a riqueza da realidade política brasileira, talvez o mesmo não saiba como contribuiu para ilustrar a situação mesquinha em que se encontram os municípios brasileiros, lacaios da elite econômica e opressores das populações exploradas. Outro fato muito ilustrativo foi a participação de outro representante do povo. O Ilustríssimo deputado federal Eduardo da Fonte, herdeiro-proprietário de uma fazenda em Peri-Peri, área localizada nas cercanias de Lagoa dos Gatos. A citada fazenda, antes de fartura em termos de mato e pedra, tornou-se muito produtiva e até provocou uma sensível redução no preço do coentro na feira da cidade. Graças ao suado trabalho dos “terríveis” agricultores, que tem como único objetivo desenvolver uma agricultura de subsistência que propicie algum excedente para se conseguir alguma renda. Diante de tamanha ameaça o deputado procurou os meios legais e supostamente igualitários para retomar a posse do seu valioso patrimônio e retomar a plantação de mato e pedras e com isso conseguir vultuosos empréstimos do governo. O direito foi concedido e para garantir a efetividade da justa conquista Eduardo da Fonte enviou o seu irmão, Maurício da Fonte, para acompanhar o processo salvador da ordem, além disso, utilizou-se de extrema sutileza, já que é um sujeito civilizado, ao contrário da horda de bárbaros que querem parasitar sua terra, enviando um trator para passar por cima da horta que foi plantada através de enxada, foice e estrovenga em dias e dias de trabalho intenso. Talvez dessa forma ele conseguisse convencer os camponeses que enquanto houver justiça e trator, haverá pedra e mato no lugar de batata, feijão, milho, macaxeira, pimentão, coentro e todos os outros produtos dispensáveis na mesa brasileira. Mas não conseguiu, porque alguns despejados continuam na beira da fazenda esperando uma oportunidade para tomá-la novamente. Eduardo um tanto quanto desatento, apesar de não conseguir suportar a presença camponesa no seu celeiro, parece negligenciar a presença de pistoleiros ligados ao tráfico de crack na região. Que por incrível que pareça estão ameaçando e humilhando constantemente os agricultores despejados e ao mesmo tempo possuem uma mania, geralmente se efetiva de madrugada, de utilizarem o céu como alvo de tiro. Talvez em cada estrela seja visualizada a face de algum agricultor. Mas eu não acredito que uma personalidade como Eduardo da Fonte, grande expoente do combate as drogas, exímio conhecedor da dinâmica do tráfico e fazedor de leis maravilhosas que definitivamente fará a legislação antidrogas bombar, esteja por dentro disso. Eu prefiro acreditar numa desatenção. Da mesma forma que acredito na democracia brasileira. Da mesma forma que acredito na covardia dos camponeses de Lagoa dos gatos. Da mesma forma que acredito que outro camponês não morrerá. Esperemos e acreditemos. Viva a nova democracia!
Texto dedicado à Nanau e a todos os agricultores que arriscam sua vida por uma repartição digna da terra.
Diego V. /Estudante de ciências sociais da UFPE
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