Greve de 40 dias na UEPA termina com grande vitória para os estudantes!

Diante do crescente sucateamento do ensino público universitário em nosso país, os estudantes do Brasil têm levantado, dia após dia, a bandeira pelo direito à educação pública. No Município de Conceição do Araguaia (situado no sul do Pará) isso não é diferente. Os discentes da UNIVERSIDADE DO ESTADO DO PARÁ (UEPA) depois de uma vigorosa Assembléia Geral realizada em 02 de Setembro decidiram entrar em greve principalmente por que não foram atendidas as reivindicações previstas na primeira paralisação que fizemos em 15 de Março, e pela retirada do Curso de Matemática (40 vagas) e 10 vagas de Pedagogia.

Diante disso, foram aprovadas na Assembléia Geral as seguintes reivindicações: 1-RE-OFERTA DO CURSO DE MATEMÁTICA E AS 10 VAGAS DE PEDAGOGIA. 2- ESTRUTURAÇÃO DOS LABORATÓRIOS DE CIÊNCIAS NATURAIS, MATEMÁTICA E LETRAS. 3- CONCLUSÃO DAS REFORMAS NA BIBLIOTECA. 4- AUMENTO DO ACERVO BIBLIOGRÁFICO. 5- PROFESSORES PARA AS TURMAS QUE ESTÃO SEM AULAS E COM HABILIDADE PARA ORIENTAR TCC’S. 6- REOFERTA DAS DISCIPLINAS PARALISADA NO NÚCLEO DE CONCEIÇÃO DO ARAGUAIA. 7- E A IMEDIATA ELEIÇÃO PARA O NÚCLEO.

Na Assembléia foi resolvido: 1- Paralisar totalmente as atividades do Núcleo de Conceição do Araguaia. 2- Trancar os portões do referido Núcleo a partir da 7:00 horas do dia 03/09/2004 até que as reivindicações sejam atendidas. 3- realização de uma passeata pelas ruas da cidade, a fim de conscientizar a população quanto aos problemas existentes deste Núcleo e apresentar as razões pelas quais Assembléia resolveu paralisar as atividades acadêmicas do Núcleo.

ORGANIZAÇÃO E COMBATIVIDADE

Com intensa combatividade, no dia 03 de setembro mais de 100 estudantes fizeram uma vigorosa passeata pelas ruas da cidade, mobilizando e conscientizando os estudantes secundaristas e a população de modo geral sobre a problemática existente. No final do percurso foi feito um ato público no centro da cidade com alguns alunos colocando suas posições referentes à importância da greve e afirmando o caminho da luta e não da conciliação. Para terminar o dia, foi realizados com muita animação um momento cultural de integração com os estudantes e apoiadores do movimento grevista.

Nos dias seguintes, foram realizadas várias Assembléias Gerais e Reuniões pelos companheiros que integram o Comando de Greve, juntamente com outros estudantes que não participam diariamente das tarefas e com nossos apoiadores. Aprovamos a separação dos estudantes em comissões com o intuito de desenvolver com mais êxito o trabalho. Sendo dividida as mesmas em: Comissão de Alimentação, Divulgação, Finanças e Mobilização, isso fez o trabalho que era bom ficar ainda melhor. O Companheirismo e a decisão pela luta estão sempre interligados em todos os momentos.

Com as Comissões divididas os companheiros foram à luta. A Comissão de Mobilização juntamente com a Comissão de Divulgação fizeram um excelente trabalho de divulgação sobre a greve na Universidade. Estiveram nas Escolas Estaduais, Particulares e Cursinhos, iniciando um trabalho bem mais politizado com a massa estudantil, descrevendo por quais razões decidimos entrar em greve, e falando aos estudantes como se encontra a Universidade Pública em Conceição do Araguaia. Outros trabalhos foram bem desenvolvidos como os contatos feitos com os meios de comunicação local e estadual e também em outros Estados. Sem falar que estávamos sempre em comunicação com as greves que acontecia em Redenção-PA e em Belém-PA.

No início, a Comissão de Finanças encontrou bastante dificuldade para realizar as atividades previstas, devido à falta de apoio dos Empresários e Comerciantes. Pensavam que o movimento grevista era um movimento político partidário devido ao período eleitoral e em nosso meio estavam alguns discentes que são candidatos a vereadores. Entretanto, foi algo de momento, pois a seriedade das pessoas envolvidas no processo foi preponderante e essencial para o êxito do trabalho.

Após alguns dias que iniciamos a greve, recebemos uma ligação do Reitor dizendo que ele não negociaria com os grevistas e por ele a greve iria até o final do ano. Recebemos também um ofício, no qual não descrevia minuciosamente as nossas reivindicações.

Entretanto, o Reitor não imaginava a dimensão que a greve estava tomando e o abacaxi que ele teria que resolver. Com os ótimos trabalhos de propaganda realizados pelos companheiros na comunidade, ganham apoio dos Empresários, Comerciantes, Professores das Escolas Municipais, Estaduais e Particulares, e da maioria dos discentes do Núcleo e de seus familiares, funcionários públicos e etc... E onde os companheiros passavam eram bem recebidos. A população comentava “é isso mesmo, vão a luta, não podemos perder mais nada”.

Assim modificava-se o equilíbrio de forças entre estudantes comprometidos com o desenvolvimento da Universidade Pública, com o desenvolvimento do Município e de outro lado um grupelho de “alunos” que na verdade servem à Reitoria e Coordenadora do Núcleo. Os professores não nos apoiaram, não moveram uma palha para nos ajudar. O exemplo dos docentes do Centro de Educação de Belém que decidiram corajosamente entrar de greve para reivindicar melhores salários e melhores condições de trabalho; não foi seguido pelos professores de Conceição.

FORA NILZA!

Na primeira Assembléia Geral realizada pelo Comando de Greve, foi decidido que a Coordenadora Geral do Núcleo, que é também Vice-Primeira Dama do Município, a Professora: Maria Nilza Marques Soares iria realizar somente trabalhos referente ao Processo Seletivo (atender as pessoas que foram contempladas com a Isenção Total) para não prejudicar as estudantes secundaristas.

Na Assembléia Geral realizada no dia 08/09 pelo Comando de Greve, juntamente com os estudantes e apoiadores, foi decidido interditar a PA 156, que liga os Estados do Pará e Tocantins. Ficamos nesse local das 6:00 às 8:40, queimamos pneus e dezenas de estudantes se concentraram na pista com faixas com intuito de mostrar para a Comunidade a real situação da Universidade do Estado Pará em Conceição do Araguaia. Esta interdição foi veiculada nos principais meios de comunicação de todo o Estado: Jornal Diário de Pará 09/09 e nos demais dias foram ao ar no Jornal O Liberal e TV Liberal de Belém, Jornal Opinião de Marabá, Rádio Cultura de Belém.

OCUPAR É O CAMINHO

Depois da ação conduzida com êxito pelos companheiros, retornamos todos à Universidade com o dever cumprido naquele momento. Não deu nem mesmo para avaliarmos a tarefa e logo tomamos a decisão de entrarmos e ocuparmos todo o Núcleo, principalmente o Administrativo. Outra decisão tomada foi que a Nilza não entraria mais no Núcleo, pois a mesma estava extrapolando as deliberações previstas pelo Comando de Greve. E durante a greve as autoridades são os estudantes.

Enquanto isso, uma aluna que servia a diretoria fez uma gravação, no qual colocava as características de nosso movimento, características essas que não fugiam nenhum pouco às apontadas pela Nilza. Seu objetivo não foi cumprido, o carro de som que estava divulgando a sua gravação, foi detectado por alguns companheiros que logo conversaram com o motorista do veículo e explicaram a real situação da Universidade. O motorista entendeu a problemática e contribuiu deixando que os companheiros “fechassem” seu carro com as seguintes frases: FORA NILZA, UEPA EM GREVE, SOS UEPA, UEPA PEDE SOCORRO. Isso criou uma grande contradição entre o que era falado e o que era visto.

Os Dias se passavam, e a Reitoria mantinha a sua palavra que não negociaria com Comando de Greve. Outra questão importante foi à luta entre o velho e novo no seio do movimento grevista. Sempre nas assembléias e reuniões internas a linha reformista queria predominar com suas propostas de cunho conciliatório-entreguista, entretanto, a maioria dos companheiros nunca concordou com esses ideais. Predominava em todos os momentos uma postura firme jogando de lado os oportunistas, afirmando dia após dia que o único e verdadeiro caminho é o luta, esmagando de vez os ideais oportunistas do movimento estudantil da UEPA, lembrando que o velho movimento estudantil “faleceu”, e agora o momento é da luta combativa.

Detectamos quais eram as principais pessoas que estavam dispostas a levar a greve até as últimas conseqüências e aqueles que seriam os traidores oportunistas que circulavam em nosso meio. Os nossos principais inimigos estavam no nosso meio. Sempre após as reuniões eles repassavam as informações para diretoria e reitoria. Tentava de todas as formas negociar o final da greve.

Com os estudantes eufóricos e com muita vontade de lutar, intensificamos nossas atividades tais como a confecção de dois panfletos (10.000) que continham todas as nossas reivindicações entre elas o FORA NILZA. Interessante é que o dono da gráfica deu um ótimo desconto. Essa diretora que emperra o desenvolvimento do núcleo, além de ser reacionária é caloteira, ela tem dívidas na gráfica e em vários outros locais. O dinheiro que ela pega da universidade não está sendo suficiente para sustentar os seus luxos.

NÃO ACEITAMOS ENROLAÇÃO

A comissão de mobilização realizou um bom trabalho de propaganda que foi a de “pichar” com nuguete os carros com as seguintes frases: SOS UEPA, UEPA PEDE SOCORRO, UEPA EM GREVE, FORA NILZA! Após alguns dias de ter realizado essa tarefa, recebemos a notícia que o Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação o Professor: Silvio Gusmão viria à Conceição, com o poder de “decisão”, para resolver nossas reivindicações. O Comando de Greve sabia o real objetivo dessa mão direita do Reitor, desmobilizar o movimento, não resolver nada e ainda desmoralizar os companheiros do Comando de Greve. Depois de tal notícia, as assembléias e as reuniões internas se multiplicaram, no qual participaram vários estudantes secundaristas apoiando a nossa ação e oferecendo todo suporte possível ao movimento grevista.

No dia 15/09 chegava em Conceição o Pró-Reitor, para iniciar o processo de “negociação” com o Comando de Greve. A princípio o professor pensava que a reunião seria realizada na Universidade, entretanto, a Coordenadora do Núcleo procurou meios para desmobilizar os estudantes, marcando a reunião em um Hotel. Conseguimos que se fizesse na Universidade, com uma grande participação dos estudantes secundaristas. Como o Pró-Reitor não queria debater os problemas com os estudantes, tentou enrolar, pois segundo ele estavam presentes no Núcleo estudantes que não eram acadêmicos e por isso, não iria falar de modo algum. Esqueceu que somos nós que pagamos o seu salário e são as secundaristas os interessados em saber por quais motivos foram retiradas 50 vagas do Núcleo de Conceição.

Depois de muita pressão o professor veio “conversar” com os estudantes, conversa que na verdade não passou de um papo furado, falou somente de sua vida como estudante de Medicina no período da ditadura, seu pós-doutorado; falácias nesse sentido e não relatou sobre a retirada do curso de Matemática e as 10 vagas de Pedagogia. Em sua saída foi ridicularizado pelos estudantes por não ter explicado nada de interesse dos mesmos. Esta reunião nada resolveu e mantivemos a greve firme

O Pró-Reitor foi à rádio e relatou algumas mentiras em relação ao C.G tais como: que o grupo não queria negociar e era um grupo radical e o que tinha para negociar já tinha “negociado”.O professor fez várias ameaças como a de: usar a força do aparelho repressivo do estado, que se não acabasse a greve não teria mais o processo seletivo e que os estudantes iriam perder o semestre, ((lembrando que o um° Ano de Letras ainda não terminou o um° semestre)).

AQUI NÃO É REDENÇÃO!

Em Redenção, cidade vizinha, o Pró-Reitor marcou uma assembléia relâmpago de última hora na Universidade com a intenção de amedrontar os estudantes. Nesta assembléia ele conseguiu acabar com a greve de Redenção com falsas promessas. Pensava que aqui daria o mesmo golpe. Enganou-se. Já sabendo do acontecido na cidade vizinha o CG se fortaleceu, distribuindo as tarefas em duas comissões: 1- comissão de divulgação interna que ficaria responsável pela circulação das informações internas com as pessoas do comando de greve e 2- comissão de divulgação externa que ficou responsável pela circulação das informações à comunidade.

A promessa de atender todas as reivindicações do comando de greve de Redenção foi uma forma que a reitoria encontrou para acabar com greve. Passados os 15 dias de prazo que deram, nada se resolveu.Abortaram a greve e continuaram sem professores e laboratórios. Agora os companheiros se organizam para paralisar novamente. Isso é prova que a melhor forma é resistir até o fim.

OPORTUNISTAS SÃO EXPULSOS

Enfrentamos na nossa greve oportunista de todo tipo, entre eles o Traidor-Oportunista-Pelego e Funcionário da Reitoria: REGINALDO, que ao iniciar a greve queria negociar o seu fim, somente pela vinda de quatro computadores. Ele conseguiu mostrar de que lado ele e o DCE estavam, sempre do lado da reitoria. Nunca puxou uma luta no núcleo, é pago pela diretoria para traficar com nossos interesses. Depois da reunião com o pró-reitor para não fugir da lógica dos traidores, esse oportunista, colocou-se contra as nossas principais reivindicações entre elas o fim da Rotatividade dos cursos e das vagas de Pedagogia, dizendo que o curso de Pedagogia estava saturado em nossa cidade e teria que sair mesmo! Mais o que esse oportunista-pelego e funcionário da Reitoria não sabia é que está saturado são os oportunistas no meio do movimento estudantil. Foi decidido em assembléia, que o Pelegão do Reginaldo não entraria na Universidade, enquanto a permanecesse a greve.

O TIRO SAIU PELA CULATRA

Pela segunda vez o oportunista representante do DCE tentou acabar com a greve. Desta vez ele marcou uma assembléia com o objetivo de desmobilizar os estudantes. Sabemos que sua assembléia foi financiada pela reitoria. O reitor não conseguindo nos enrolar e vendo nossa firmeza, teve mais uma vez que apelar para seu pelego. Mas os estudantes estão preparados! Na primeira vez que ele tentou usar da mesma tática o comando de greve se mobilizou e ele também teve que recuar, desmarcando sua assembléia. Desta segunda vez, quando está uma comissão em Belém, ele só consegue cavar sua cova, todos entendem que depois de 25 dias não podemos recuar sem uma vitória completa. Estamos preparados para isto! O comando de greve está preparando um enterro simbólico deste pelego e da diretora do núcleo. Os dois serão enterrados no mesmo jazigo, com uma manifestação em praça pública. A Assembléia que ele teve o trabalho de marcar votou em não mais reconhecer o DCE como representante dos estudantes deste núcleo. A tentativa de desmobilizar só serviu para desmascarar o oportunismo e fortalecer a greve.

O REITOR CEDEU

Mas esses problemas não enfraqueceram a greve, fortaleceu. Depois da expulsão do oportunismo do nosso meio, e da perda das ilusões na reitoria as atividades se intensificaram. Agora sabíamos que a única forma era a luta e organização. Fomos atrás da vice-governadora e entregamos documentos com nossas reivindicações; realizamos um show na praça para esclarecer os acadêmicos e a comunidade; intensificamos as propagandas com todos os estudantes. O comando de greve se reúne todos os dias, avaliam o dia e planejam novas ações.

Intensificamos a campanha de finanças para garantir a ida de uma comissão para conversar com o reitor. Ele tentou nos enganar enviando um documento com todas as nossas reivindicações, mas sem prazos definidos. Não engolimos esse papel e aumentamos nossa organização. Após levantarmos os recursos uma comissão de cinco companheiros foram à Belém reunir com o Secretário de Promoção Social, reitoria, e todos os meios que garantissem a vitória. No dia que chegaram foram recebidos mesmo sem audiência marcada. Os estudantes impuseram sua autoridade reafirmada pela greve.O reitor cedeu em vários pontos, aquele que não negociava teve que nos ouvir.

Depois de dez dias de negociações, temos garantido a construção dos laboratórios, o acervo bibliográfico, a reforma da biblioteca, a volta do curso de matemática para 2006, as vagas de pedagogia, a reposição das aulas e a eleição para coordenação. Temos ainda condição de conquistar mais: queremos a confirmação da vinda de Enfermagem para Conceição e a garantia de que não nos tirarão outros cursos.

GREVE VITORIOSA!

Esperamos que este seja o caminho seguido por todos os estudantes do Brasil. A luta contra o sucateamento do ensino público, a privatização das universidades e a contra reforma do Banco Mundial deve ser firme e decidida. Esse é o único caminho companheiros. Sabemos que está greve serviu para ficarmos alerta quanto ao que nos pertence. Queremos uma universidade de novo tipo, e esta só nós mesmos podemos construir. Temos certo que a condição para termos a pauta de reivindicações cumprida é permanecermos organizados e vigilantes. Esta greve foi um passo importante para o fortalecimento do DA e para aumentar a consciência de todos os estudantes de que o único caminho possível é o da luta combativa.

Muitos nos chamaram de radicais e de fato o somos, pois estamos tratando dos nossos direitos. No momento se diz muito que não é mais tempo de lutar, que a hora é de negociar e ter paciência. A vitória da greve, em mais de quarenta dias, foi mostra de que o momento é de combate. Necessitamos estar cada vez mais organizados e fortalecidos para seguir combatendo as políticas destruidoras que o Estado prepara para nossas universidades.

NÃO ARREDAREMOS PÉ DE NOSSOS DIREITOS!

VIVA A LUTA COMBATIVA DOS ESTUDANTES!

ABAIXO O OPORTUNISMO NO MOVIMENTO ESTUDANTIL!

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