ESTUDANTES E CAMPONESES NA LUTA POR UMA NOVA DEMOCRACIA

“Meu sonho é ter um pedaço de terra e saber ler e escrever. Com minha terra eu planto, colho, como e vivo porque trabalho, e sabendo ler e escrever, ninguém mais me humilha, nem rir de mim. Quando fui no comércio o homem de lá riu de mim e ainda fez conta errado com o pouquinho de dinheiro que eu ganho. Vou querer também fazer carta e deixar escrito tudo que eu penso, vou até fazer música”.(depoimento de um aluno de 58 anos da escola popular)

No acampamento "Nova Esperança”, localizada a 6 KM do município de Conceição de Araguaia – PA há 6 meses, deu-se início a construção de mais uma escola de novo tipo. Estudantes de diferentes cursos a partir de necessidades objetivas iniciaram com os camponeses pobres um projeto de alfabetização, em que o caráter de politização antecede as primeiras letras, contribuindo para que os camponeses entendam a fundo o porque das condições em que se encontram para avançarem no domínio das técnicas do letramento, dessa forma, melhor elaborar e potencializar a sua justa luta pela terra.

Logo que os camponeses acamparam próximos a cidade, companheiros do MEPR fizeram uma visita para reforçar seu apoio colocando-se juntos na luta pela destruição do latifúndio no nosso país, fomos recebidos calorosamente e logo percebemos a necessidade de construirmos nova escola popular. Os primeiros passos foram agitados. Iniciamos passando de barraco em barraco para incentivar adultos que não sabiam ler e escrever a participar da escola. Foi uma festa só. 73 adultos e 60 crianças se inscreveram, dentre os adultos a maioria não sabia fazer o seu próprio nome, se inscreveu até uma senhora de 75 anos.

Realizamos uma ampla propaganda na universidade em busca de professores que estivessem dispostos a apoiar a luta contra o latifúndio, derrubando os muros da universidade e participando do processo de alfabetização que é um primeiro passo para a politização, pois, sem saber ler e escrever terão maiores dificuldades para melhor compreender a realidade e a origem desta opressão de classe. Seis estudantes se dispuseram para dar aula, além dos que ajudam na estruturação e processo didático.

O trabalho de propaganda incluiu também uma arrecadação na universidade, onde os alunos juntamente com uma comissão de companheiros do acampamento e um coral de crianças passaram de sala em sala colocando a importância da construção da escola popular e pedindo contribuição para sua construção material. Todos contribuíram, foi um momento impar na universidade as crianças cantando o “conquistar a terra", muitos até se emocionaram. Com o dinheiro arrecadado, compramos os quadros, lona para o barraco, cadernos, lápis e outros materiais didáticos. A escola já estava pronta, agora era só começar.

Antes do início das aulas os professores se reuniram para discutir como se portar, que deveriam imprimir um conteúdo considerando a realidade da vida dos camponeses, e de sua necessidade imediata que era ler e escrever.

No rol academicista em especial nos cursos de licenciatura plena, o termo "interdisciplinaridade" (aplicação de um tema em diversas disciplinas) é discutido e encaminhado em uma suposta prática educacional pelo ensino do velho tipo que colocam os alunos distantes de sua realidade encobrindo as contradições de classes, porém, na escola de novo tipo o ensino é no antagonismo, seja na luta das nações oprimidas contra o Imperialismo ou do proletariado sobre a burguesia, seja na combativa guerra dos camponeses pobres contra o latifúndio. E a interdisciplinaridade que sirva ao povo é bem claramente exemplificada em uma aula na escola popular.

Sala com aproximadamente doze alunos e variação de escolaridade em níveis avançados, outro atrasado, ou mesmo intermediário; um quadro; dois professores; falta de recursos didáticos – pedagógicos e humanos: Eis a questão: como pode alfabetizar vários alunos em diferentes níveis de aprendizado? Sendo que a necessidade de Joaquim é de identificar as representações gráficas; da Cristina, aprender a implementar em seu cotidiano as quatro operações e a do Amarildo é melhorar a leitura e as técnicas gramaticais para assim cantar as músicas populares. O professor a serviço do povo e munidos das técnicas educacionais pede ao aluno Amarildo que copie no quadro a música "Cipó de aroeira" (Geraldo Vandré), todos cantam em uníssono e Joaquim identifica as letras uma a uma, a Cristina, conta quantas vezes aparece à letra a, c, t, e b – m formando a operação numérica act vezes bm e a partir deste processo ela pode em um sistema de conversão cubar um barraco e saber quantas palhas serão necessárias para cobrir o mesmo. Nisto, temos então ao mesmo tempo o português, matemática, cultura e a arte.

Pretendemos desenvolver um novo processo ensino/aprendizagem fundado no companheirismo, na realidade cotidiana do camponês, respeitando seu conhecimento prévio que é baseado em toda uma vida de muito trabalho e luta. A escola institucionalizada (como aparelho ideológico do estado) procura reafirmar conceitos de igualdade de classes, competição, além de não considerar as opiniões dos alunos. Na escola popular devemos desenvolver novas formas: fazer avaliações conjuntas com os alunos, professores e coordenação do acampamento; reuniões periódicas dos professores e acima de tudo levar em conta as necessidades cotidianas e experiências de vida das pessoas.

Nestes 6 meses temos tido vários avanços, muitos camponeses já aprenderam a fazer o nome e agora caminham para a leitura, produção textual e matemática. Temos também dado aulas de violão para os jovens e para melhorar a leitura de alguns lemos juntos em sala de aula poemas revolucionários, literatura de cordel e trechos de livros como "Os subterrâneos da liberdade". As crianças tem tido aulas de reforço, já que estudam na cidade. Ajudamos nos deveres da escola, reforçamos a matéria dada com mais exercícios e utilizamos brincadeiras, sempre exaltando a luta do nosso povo. Elas costumam brincar de sem-terra e fazendeiro, na brincadeira o fazendeiro sempre apanha; fazem interpretação de textos que falam da guerra no Iraque e temas parecidos.

Encontramos também dificuldades, vários professores que começaram não seguiram até o fim, desanimando assim alguns alunos. A distância é também um fator que atrapalha, pois não temos transporte. No início planejamos aulas durante toda a semana nos 3 turnos, depois vimos que não dava e foi reduzido para 3 vezes por semana. A incerteza em relação à posse da terra desanimou alguns professores e alunos, pois toda semana o INCRA aparecia dizendo que ia assentar, o acampamento virava um rebuliço e não tinha aulas. Até agora só saiu um grupo de 20 famílias para um assentamento em outra localidade do mesmo município.

Temos certo que a persistência e dedicação é o caminho para seguir em frente. O compromisso que os estudantes devem ter com a luta do povo pela destruição completa do latifúndio é bem maior que as dificuldades.

Recentemente realizamos um vigoroso encontro do MEPR e a coordenação do acampamento, foi um dia inteiro de intenso debate, estudamos a questão da luta pela terra no Brasil e sobre a escola popular. O encontro foi marcado por um grande sentimento de companheirismo e decisão de seguir lutando. Entre os debates sempre era exaltada a importância desta nossa aliança para a construção de uma nova democracia.

VIVA A JUSTA LUTA PELA TERRA!

PELA CONSTRUÇÃO DE ESCOLAS POPULARES!

TERRA, PÃO, JUSTIÇA E UMA NOVA DEMOCRACIA!

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