O
especialista em herpetologia Miguel Trefaut Rodrigues, professor
do Instituto de Biociências da Universidade de São
Paulo (USP), nem imaginava que uma leitura das aventuras do famoso
explorador britânico Richard Francis Burton (1821-1890)
poderia ajudá-lo no futuro. Um das frases que marcou o
cientista foi a seguinte: "Encontrei nas margens do rio São
Francisco, no Brasil, uma espécie de pequeno Saara",
disse o aventureiro. O europeu que se notabilizou por grandes
excursões pela África e pelo Oriente Médio,
além de vários feitos, esteve no Brasil como cônsul
na cidade de Santos, São Paulo, em 1865. E aproveitou para
fazer uma grande exploração pelo Velho Chico, desde
Minas Gerais até a sua foz, na divisa dos estados de Sergipe
e de Alagoas.
Mais
de um século depois, o herpetólogo da USP, interessado
principalmente em lagartos, assunto que lhe chama atenção
há várias décadas, lembrou-se da observação
de Burton e concluiu: onde existe deserto existe duna e, conseqüentemente,
o pequeno Saara brasileiro poderia abrigar espécies de
lagarto que prefeririam areia em vez de pedra. As pesquisas realizadas
na dunas do rio São Francisco, perto da pequena localidade
de Santo Inácio, no norte do estado da Bahia, em plena
caatinga, continuam a revelar achados científicos absolutamente
inéditos em se tratando de Brasil e de América do
Sul. Os reptéis que vivem nas areias às margens
de um dos mais importantes rios brasileiros são apenas
um exemplo, entre dezenas de casos, que estão ajudando
a mudar a visão do único ecossistema totalmente
inserido nas fronteiras do território nacional.
"A
caatinga - que, por causa das sete unidades de vegetação
já identificadas pelos botânicos, deveria ser sempre
chamada pelo seu plural, caatingas - é uma região
rica em diversidade", afirma Rodrigues, que chegou até
os lagartos, ofídios e anfisbenídeos das dunas do
São Francisco baseado também em uma extensa literatura
científica. A frase do especialista em lagartos também
vai ser repetida por todo cientista que continua enveredando por
uma região ainda bastante desconhecida do nordeste do Brasil.
O mito de que a caatinga é pobre em biodiversidade caiu.
O
acúmulo e a sistematização dos novos conhecimentos
científicos que estão mudando a visão das
caatingas ocorreu muito recentemente, do ano 2000 para cá.
Os números de espécies impressionam até mesmo
os acadêmicos "caatingueiros". Rodrigues, por
exemplo, após confirmar sua hipótese de que onde
havia areia deveria, muito provavelmente, existir alguma nova
espécie de lagarto, deparou com um fato realmente surpreendente.
"Entre os lagartos e anfísbenídeos das dunas,
50% do total ocorre apenas naquela região próxima
a Santo Inácio. Como 37% das espécies desses dois
grupos encontradas em toda a caatinga são endêmicas
das dunas, podemos perceber que a região é uma verdadeira
bomba de especiação." Rodrigues lembra ainda
que, em termos geográficos, as áreas das dunas,
que chegam a ter até 60 metros de altura, não ocupam
mais do que 7 mil km2 do sertão brasileiro. Isso representa
apenas 0,8% da área total das caatingas.
Em todo o ecossistema semi-árido, que ocupa área
de 800 mil km2, são conhecidas atualmente 47 espécies
de lagartos, dez de anfisbenídeos, 52 de serpentes, quatro
de quelônios e 48 de anfíbios - para ficar apenas
entre os principais grupos. Mais do que quantidade de espécies
de lagarto, a zona de endemismo descoberta nas dunas do São
Francisco guarda histórias científicas ainda mais
saborosas em relação ao processo de formação
daquelas espécies.
No
início dos anos 1980, os herpetólogos conheciam
uma única espécie de lagarto na região de
Santo Inácio, situada na margem direita do Velho Chico.
Foi exatamente no mesmo local que Rodrigues, em uma de suas expedições,
encontrou outro réptil semelhante, mas não idêntico
ao que já havia sido identificado. Batizados naquela época
de Tropidurus nanuzae e Tropidurus amathites, respectivamente,
hoje eles são conhecidos por um novo gênero, o Eurolophosaurus.
Os nomes das espécies permaneceram os mesmos. Um detalhe
interessante chamou a atenção do pessoal de campo.
Enquanto o E. nanuzae tinha preferência por regiões
pedregosas, a nova espécie sobrevivia melhor em solos arenosos.
Ela estava lá por causa das dunas.
Ainda
sob o sol do semi-árido brasileiro, uma observação
feita a distância, do outro lado do rio São Francisco
- Santo Inácio fica próximo à cidade de Xique-Xique,
bastante ao sul de Sobradinho e ao norte do município da
Barra -, atiçou a curiosidade científica de Rodrigues.
Será que a fauna de lagartos do outro lado do rio era idêntica?
Será que haveria também por lá aqueles lagartos
um pouco achatados, de até 30 cm de comprimento?
Alguns anos depois, descobriu-se que realmente existiam diferenças.
Na margem esquerda havia outras espécies. Uma delas, a
E. divaricatus, foi considerada irmã da E. amathites. Ambas
viviam em lados opostos do rio, mas mantinham traços morfológicos
semelhantes. As diferenças significativas estavam no campo
genético e, portanto, não observáveis a olho
nu. Com base na análise do clima e da geomorfologia da
região, Rodrigues construiu uma hipótese para aquele
centro específico de diferenciação de espécies
da caatinga brasileira. Ainda existem mais perguntas do que respostas,
mas o modelo básico, com a continuidade dos estudos, ganha
embasamento cada vez maior. Não existe apenas um único
par de espécies irmãs - outros grupos também
têm espécies semelhantes vivendo nas margens direita
e esquerda do São Francisco, onde as dunas persistem. É
o caso de outro lagarto, do gênero Calyptommatus, e de um
par de anfisbenas, répteis muito similares às serpentes
e por isso chamados de cobras-cegas ou cobras-de-duas-cabeças.
É
sabido que há cerca de 12 mil anos o São Francisco
não corria para o mar. Naquele tempo, que coincide com
o final do último período de glaciação,
havia um grande lago natural na área onde o rio desaguava.
Só depois as águas do Chico conseguiriam transpor
as serras do norte da Bahia e chegar até o oceano Atlântico.
Quando correu para o mar, o São Francisco separou as espécies
de lagarto que viviam todas juntas ao redor do grande lago - hoje
a barragem de Sobradinho voltou a criar um lago artificial na
região. Algumas espécies ficaram do lado esquerdo
e outras do direito. Uma das hipóteses é que isso
tenha acelerado a diferenciação entre as espécies
irmãs, que segundo o zoólogo da USP, data de 1 milhão
a 3 milhões de anos.
Para
Rodrigues, muito mais do que descobrir um grande centro de endemismo
na caatinga, poder medir e praticamente sentir a diferenciação
daquelas espécies de lagartos nas dunas do rio São
Francisco é uma satisfação profissional muito
grande. "E nada garante que não possa haver várias
outras regiões iguais a essa, em termos de endemismo, em
outros pontos das caatingas", diz o pesquisador.
A
grande biodiversidade das dunas da região conhecida como
Médio São Francisco é tão significativa
que Rodrigues defende a criação de um parque nacional
no local o mais rápido possível. Segundo o livro
Avaliação Prioritária para a Conservação
da Caatinga, lançado no fim de abril em seminário
realizado em Petrolina, Pernambuco, no coração da
caatinga, pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), a zona
das dunas é uma das 82 identificadas como prioritárias
para conservação em todo esse ecossistema. "O
número de áreas protegidas está muito aquém
das reais necessidades", afirma Mônica Fonseca, bióloga
e pesquisadora da organização não-governamental
Conservação Internacional.
De acordo com a pesquisadora, uma das autoras do livro, apenas
2% da zona do semi-árido do Brasil estão protegidos
legalmente. Os estudos apresentados na obra, publicada em conjunto
pelo MMA, ONGs, Universidade Federal de Pernambuco e Embrapa Semi-Árido,
defendem que as áreas de proteção deveriam
cobrir hoje 59,4% do bioma caatinga. As de extrema relevância
para a conservação da biodiversidade, segundo Mônica,
representariam 24,7% de todas as caatingas brasileiras.
Se os números de répteis e anfíbios já
chamam a atenção, outros grupos de animais estão
ricamente representados em todas as zonas do sertão, inclusive
nos ambientes aquáticos, como é o caso dos peixes
de água doce. A composição da ictiofauna
das caatingas, segundo o especialista Ricardo Rosa, da Universidade
Federal da Paraíba, revela a existência de 240 espécies
espalhadas por sete ordens taxonômicas. A peculiaridade
dos peixes é que, como o hábitat deles não
está restrito a um determinado padrão de vetegetação,
muitas das espécies não vivem apenas nas caatingas.
Como os rios chegam até outros biomas, os peixes costumam
também atravessar determinadas barreiras biogeográficas,
algumas intransponíveis para quem vive nos ambientes secos
do sertão.
O exemplo das aves é idêntico, no sentido de derrubar
o mito de que o sertão é árido e sem vida.
Nenhuma estimativa anterior àquela feita no ano 2000 havia
encontrado tantas espécies na região. A lista de
aves feitas pelos especialistas apresenta 510 espécies.
Grande parte delas (91,96%) se reproduz dentro da própria
região, ou seja, não são migratórias
e não usam os espaços do Nordeste apenas por alguns
dias do ano. Os pesquisadores também já sabem que
a maior parte das espécies identificadas, 185, são
independentes da floresta. Elas estão associadas apenas
a regiões de vegetação aberta. Enquanto ainda
125 são semi-dependentes, 159 tipos de aves só foram
encontradas em florestas semi-perenes, estacionais, caatingas
arbóreas e cerradões (ver quadro sobre vegetação
na pág. 28). A ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) faz parte
desse grupo. Mas, como não foi mais vista na Natureza desde
outubro do ano 2000, os ornitólogos passaram a listar essa
espécie, que teve como último refúgio o estado
da Bahia, na categoria extinta. Estima-se que em cativeiro ainda
existam 60 exemplares da ararinha-azul.
As
exuberantes aves das caatingas brasileiras são apenas uma
das grandes justificativas que os cientistas apontaram para a
necessidade de se criarem as 82 áreas prioritárias
de conservação. Segundo a bióloga da Conservação
Internacional, entre as 27 áreas classificadas como de
extrema importância biológica, duas merecem destaque
ainda maior: as dunas do São Francisco, com as especiações
em curso, e o Parque Nacional da Serra da Capivara. Lá,
nos municípios de São João do Piauí,
Coronel José Dias, São Raimundo Nonato e Canto do
Buriti, no Piauí, ainda restam aves ameaçadas não
apenas na caatinga, mas praticamente em todo o mundo. A lista
de aves em extinção conta com nomes conhecidos como
o do maracanã (Ara maracana), do pica-pau-anão-de-pernambuco
(Picumnus fulvescens) e do pintassilgo-do-nordeste (Carduellis
yarelli).
Da
Onça ao Tatu
Na
mesma região , que conta com o também rico em diversidade
Parque Nacional das Confusões, vivem grupos importantes
de mamíferos. A fauna desses vertebrados, em domínios
das caatingas, também não é monótona
como a mitologia brasileira desenhou ao longo das décadas.
Na Serra da Canastra vivem exemplares de onça-pintada (Panthera
onca), da onça-parda (Puma concolor), do tamanduá-bandeira,
(Myrmecophaga tridactyla), do tatu-bola (Tolypeutes tricinctus),
da jaguatirica (Leopardus pardalis), do gato-maracajá (Leopardus
wiedii) e do gato-do-mato (Leopardus tigrinus).
Um
grande inventário sobre os mamíferos das caatingas,
apresentado no ano passado por João Alves de Oliveira,
zoólogo do Museu Nacional do Rio de Janeiro, revelou que
existem na região 143 espécies. Nesse universo,
19 foram consideradas exclusivas do ecossistema da caatinga. Marsupiais,
tatus, morcegos, roedores e representantes da ordem dos carnívoros
(onças e jaguatiricas, por exemplo) estão distribuídos
por várias localidades. Em relação aos primatas,
descobertas feitas na região de Canudos, na Bahia, na segunda
metade da década de 1990, ampliaram a lista de espécies
agora conhecidas. Existem no ecossistema do semi-árido
do Brasil dois tipos de macaco guariba, o já famoso macaco-prego
e, agora, o macaco-sauá (Callicebus barbarabrownae).
A
ciência já provou: não é apenas nas
dunas do Velho Chico ou nos canyons do Piauí que o padrão
de riqueza de espécies, tanto vegetal como animal, ainda
se mantém. Nas outras 80 áreas presentes no mapa
de conservação das caatingas ocorre o mesmo. Para
que esse quadro seja mantido, algumas estratégias foram
apresentadas pelos cientistas. Não é possível
analisar as áreas prioritárias em termos de biodiversidade
de forma isolada. As caatingas formam um ecossistema único.
E nesse ambiente vivem 20 milhões de pessoas, na maioria
das vezes em situação bastante desfavorável.
A
Embrapa Semi-Árido vem desenvolvendo técnicas que
permitem o uso da terra sem conseqüências ambientais
graves. Além da educação ambiental para a
população do sertão, o aprimoramento da gestão
pública na conservacão da biodiversidade da caatinga
e da geração de recursos humanos nos meios técnicos
e acadêmicos, uma proposta bem palpável foi apresentada
em livro recém-lançado em Petrolina. "O necessário
seria ampliar a área total protegida por unidades de conservação
na caatinga para 10%, no prazo de 10 anos", defendem os cientistas.
Principalmente em relação às chamadas unidades
de conservação integral, o ideal seria que crescessem
3% nos primeiros cinco anos e 6% em até sete anos e meio.
Isso sem esquecer as dunas do São Francisco e da Serra
da Canastra no Piauí.
José
Maria Cardoso da Silva, ornitólogo, professor licenciado
da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e vice-presidente
da Conservação Internacional, monta o seguinte cenário.
O Brasil tem cinco grandes biomas: Amazônia, Pantanal, Caatinga,
Cerrado e Mata Atlântica. Aqui, eles foram ordenados do
mais conservado para o menos. Se esses cinco elementos forem colocados
em um gráfico que tenha no eixo x a porcentagem de fragmentação
das suas vegetações e no y a perda de hábitat
para as espécies animais, fica claro que a Amazônia
vai estar mais abaixo e do lado esquerdo do gráfico, enquanto
a mata atlântica estará acima e do lado direito.
"O
que vai ocorrer se for tomada a decisão de deixar as coisas
como estão", pergunta o ambientalista? A resposta
é do próprio Cardoso da Silva. "Em alguns anos,
todos os ecossistemas vão se aproximar da mata atlântica,
que tem alta fragmentação vegetal e uma alta perda
de hábitats naturais." No caso específico da
caatinga, os ambientalistas e pesquisadores costumam dizer que
ela está, em termos de conservação, em plena
encruzilhada. "Ela aparece no meio do gráfico. Não
é mais conservada que a Amazônia e o Pantanal, mas
está mais intacta que o cerrado e a mata atlântica.
Resta saber o que vamos querer para ela amanhã."
As
estimativas mais recentes, e otimistas, mostram que 30% de todas
as caatingas já foram alteradas pelo homem, principalmente
em função da agricultura. O problema maior, segundo
os cientistas, é que as áreas não impactadas
não formam uma mancha única: estão divididas
em 1.043 ilhas de vegetação. Apenas 172 delas apresentam
mais do que 10 quilômetros de largura.
Ao
contrário da história evolutiva das espécies
sobre a Terra, cem anos é muito tempo. O cenário
visto por Euclides da Cunha, no interior da Bahia, no século
19, mudou bastante, e poderá se tornar ainda muito mais
raro daqui a outros cem anos. Apesar de constatar a aridez do
sertão, o jornalista e escritor brasileiro não deixou
de revelar a exuberância da caatinga nas páginas
de seu clássico Os Sertões.
"E
o sertão é um paraíso... Ressurge ao mesmo
tempo a fauna resistente das caatingas: disparam pelas baixadas
úmidas os caititus esquivos; passam em varas, pelas trigueiras,
num estrídulo estrepitar de maxilas percutindo, os queixadas
de canela ruiva; correm pelos tabuleiros altos, em bandos, esporeando-se
com os ferrões de sob as asas, as emas velocíssimas;
e as seriemas de vozes lamentosas, e as sericóias vibrantes,
cantam nos balsedos, à fímbria dos banhados onde
vem beber o tapir estacando um momento no seu trote, brutal, inflexivelmente
retilíneo, pela caatinga, derribando árvores, e
as próprias suçuaranas, aterrando os mocós
espertos que se aninham aos pares nas luras dos fraguedos, pulam,
alegres, nas macegas altas, antes de quedarem nas tocaias traiçoeiras
aos veados ariscos ou novilhos desgarrados..."
Retirado
de Scientific American Brasil |