Onde a luz fez uma curva

O clima seco de Sobral, no Ceará, permitiu a observação de um eclipse que comprovou as previsões da relatividade geral

Por Reinaldo José Lopes

A história oficial não costuma registrar estas coisas, mas é não provável que o astrônomo britânico Arthur Stanley Eddington tenha resmungado um bocado na manhã do dia 29 de maio de 1919. Caía uma chuva dos diabos na ilha de Príncipe, na costa ocidental da África, para onde o pesquisador se dirigira justamente para observar e fotografar um eclipse do Sol. E não era uma ocultação qualquer: imagens precisas do eclipse poderiam permitir a verificação de uma das previsões mais controversas da teoria da relatividade geral, a curvatura dos raios de luz pela ação da gravidade. Eddington deve ter se considerado muito azarado por ter escolhido a África e não a cidade de Sobral, no Ceará, onde estavam seus assistentes Andrew Crommelin e Charles Davidson, com o mesmo propósito.

No fim das contas, as duas duplas conseguiram fotografar o fenômeno, mas o clima seco da cidade cearense permitiu que fotos muito mais nítidas fossem obtidas. A análise das imagens mostrou que, de fato, a luz de estrelas do grupo das Híades parecia ser curvada pela ação gravitacional, confirmando as previsões de Einstein e levando o cientista alemão à fama mundial. “Foi essa experiência que transformou Einstein em pop star”, afirma o físico Alberto Saa, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Talvez seja esse aspecto simbólico o principal responsável pela fama do eclipse até hoje, já que, a rigor, a relatividade geral já tinha sido comprovada dois anos antes, como conta Saa. “Dados mais preciosos que os do eclipse foram obtidos em 1917, com análise do avanço do periélio do planeta Mercúrio”, diz o pesquisador. O periélio é o ponto da trajetória de um planeta em que ele chega mais perto do Sol, e o de Mercúrio parecia sofrer avanços um tanto esquisitos. A velha mecânica newtoniana conseguia explicar isso postulando a existência de mais um planeta além de Mercúrio (que ganhou até o nome de Vulcano), mas foi o uso da relatividade geral que permitiu encerrar o caso.

O problema da curvatura da luz, no entanto, era outra história. A teoria previa que corpos de massa muito grande, como o Sol, deformam a geometria do espaço-tempo, quase como uma bola de metal colocada sobre uma lâmina de borracha. A manifestação dessa deformação é a força gravitacional, e nenhuma forma de matéria ou energia deixaria de ser afetada – afinal, não seria a luz que se curvaria, mas sim o próprio espaço, e ela meramente se conformaria a essa curvatura. Um eclipse total seria a ocasião ideal de avaliar isso porque esse é um dos raros momentos em que o sol e as estrelas aparecem no céu ao mesmo tempo. Assim, uma estrela que devesse estar aparentemente atrás do Sol poderia na verdade, revelar sua luz, caso a gravidade solar “dobrasse” o espaço-tempo de maneira a curvar os raios vindos da estrela. O astrônomo real do Reino Unido, Frank Dyson, sugeriu que o eclipse de 1919 seria propício por causa de sua duração bastante grande (dez minutos) e o do fato de que o Sol estaria bem em frente das Híades, que constituem um grupo brilhante de estrelas.

Eddington não perdeu tempo e despachou com muita antecedência Crommelin e Davidson para o Brasil (a dupla chegou em Belém do Pará, de navio, ainda no mês de março daquele ano), enquanto partia para a ilha africana, então uma possessão portuguesa, ao lado do colega E. T. Cottingham. O astrônomo Henrique Morize, do Observatório Nacional do Rio de Janeiro, também foi para sobral com uma equipe brasileira, pronta para ajudar os colegas britânicos e fazer sua próprias observações do eclipse. Na época, Sobral contava com apenas 2 mil habitantes, mas a cidade se esforçou para preparar uma recepção de gala, e os visitantes ilustres foram hospedados na casa de um deputado sobralense, em frente ao Jóquei Clube de Sobral. “Os jornais da época não chegaram a fazer muito barulho antes do experimento, mas alguns diziam coisas do tipo ‘Cientistas vêm ao Brasil para provar teoria do homem mais inteligente do mundo’”, conta Saa.

Os instrumentos (basicamente telescópios e material fotográfico) foram instalados na atual Praça do Patrocínio, local que hoje abriga um museu e um observatório. O dia amanheceu nublado, mas as nuvens logo se abriram, de forma que, durante o eclipse total, o Sol (ou melhor, sua coroa, já que a Lua encobria o astro) e as estrelas em volta estavam bastante visíveis. Do outro lado do Atlântico, Eddington e Cottingham, apesar da chuva inicial, conseguiram bater algumas chapas, mesmo que atrapalhados pelas nuvens. A própria dupla de Sobral também enfrentou problemas técnicos, já que Crommelin cometeu o erro de calibrar se telescópio na noite anterior sem levar em conta as mudanças de temperatura, que poderiam afetar a precisão das medições. Por sorte, ele contava com um telescópio reserva, do qual vieram os melhores resultados.

Ainda levaria algum tempo para que as fotos fossem reveladas e analisadas. Era preciso levar em conta uma série de fatores e margens de erro antes de dizer se o desvio observado era mesmo consistente com predito por Einstein. Finalmente, a Royal Society, principal órgão da ciência britânica, se reuniu em 9 de novembro, e o próprio Frank Dyson anunciou o triunfo da relatividade. O jornal The Times noticiou nas proverbiais letras garrafais: “ REVOLUÇÃO NA CIÊNCIA – NOVA TEORIA DO UNIVERSO – IDÉIAS NEWTONIAS DERRUBADAS”. Os achados de Sobral tiveram até seu impacto geopolítico, afirma Saa: “O eclipse também ajudou a mostrar que a Primeira Guerra Mundial estava superada, já que as idéias de um cientista alemão tinham sido comprovadas por uma equipe britânica”.

Orgulhosa do legado e com cera de 150 mil habitantes hoje, Sobral inaugurou seu Museu do Eclipse em 1999, parcialmente subterrâneo e em forma de duas meias-luas. O visitante pode ver instrumentos usados por Crommelin e Davidson, fotografias, recortes de jornais da época e saber mais sobre a importância científica dos eclipses.

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