Luzia e saga dos primeiros americanos

Walter A. Neves e Mark Hubbe

Até o final dos anos 90, a hipótese que predominava entre os especialistas sobre a ocupação do continente americano em tempos pré-históricos era denominada de Modelo Clovis. De acordo com esse modelo, o homem teria ocupado o Novo Mundo há não mais que 11.400 anos. A cultura Clovis é muito conhecida na América do Norte e se refere a grupos de caçadores especializados na matança de grandes mamíferos hoje extintos, como o mamute e o bisão. Esses intrépidos caçadores utilizavam arpões ou lanças dotadas de pontas de pedra muito peculiares, com uma acanaladura na base, para facilitar o encabamento. Como a cultura Clovis é a mais antiga encontrada na América do Norte, arqueólogos americanos defenderam por décadas que nenhuma outra cultura pré-histórica mais antiga poderia existir no Novo Mundo. Além disso, todos os paleoíndios, como são conhecidos os primeiros americanos, deviam ser especializados na matança dos grandes mamíferos extintos.

Ao defender o Modelo Clovis, a comunidade arqueológica norte-americana insistiu em ignorar duas informações que desde os anos 70 estavam claras na literatura sul-americana: primeiro, que na América do Sul vários sítios arqueológicos já apresentavam datações aceitáveis, no mínimo tão antigas quanto da cultura Clovis; segundo, que tanto na América Central, quanto na do Sul, nenhum sítio paleoíndio apresentava sinal alguma de pontas acanaladas, ou da exploração especializada da megafauna extinta, como recurso alimentar. Ao contrário, os sítios arqueológicos dos primeiros sul-americanos mostram claramente que aqui esses pioneiros tinham adotado uma estratégia de subsistência baseada na caça generalizada, de animais de pequeno e médio portes, que ainda estão presentes na paisagem. E, certamente, essa caça generalizada era muito bem suplementada pela coleta de recursos vegetais, abundantes nos climas tropicais e subtropicais.

A atitude americana, se por um lado obstaculizou durante décadas uma compreensão mais precisa sobre a chegada e as adaptações subseqüentes dos primeiros humanos ao Novo Mundo, por outro impediu que a barbárie intelectual dominasse o assunto. Não foram poucas as tentativas, nas últimas quatro décadas, de tentar assegurar que o homem já estava no Novo Mundo desde idades muito remotas, como 35, 150 ou até mesmo 300 mil anos (Modelo pré-Clovis). E, para o constrangimento dos cientistas sul-americanos – que tentavam, a duras penas, demonstrar que o homem já estava ao sul do equador pelo menos contemporaneamente à cultura Clovis –, essa pirotecnia de datas antigas foi convenientemente explorada pela comunidade norte-americana para desqualificar toda e qualquer informação que pudesse questionar a primazia temporal de Clovis.

Mas o Modelo Clovis teria data marcada para ser sepultado. Tom Dilehay, da Kentucky University, publicou, em 1997, alentado volume sobre suas pesquisas arqueológicas no sítio de Monte Verde, sul do Chile, demonstrando que o homem ocupava a região há pelo menos 12.300 anos. Produzida por um norte-americano e publicada nos Estados Unidos, a obra descrevendo e interpretando os achado em Monte Verde causou grande impacto na comunidade norte-americana e marca o sepultamento oficial da primazia Clovis. Nos últimos anos, os vestígios arqueológicos de Monte Verde também vêm sendo seriamente questionados. Apenas o tempo dirá se permanecerão de pé ou não. Entretanto, a publicação desses resultados serviu ao menos para “escancarar a porteira Clovis”, dando visibilidade a outros sítios seriamente estudados na América do Sul.

Outra grande contribuição para sepultar definitivamente a primazia Clovis foi apresentada po Anna Roosevelt, pesquisadora norte-americana até recentemente ligada ao Field Museum de Chicago, e colaboradores, também no final dos nos 90. Em escavações no sítio de Pedra Pintada, no município de Monte Alegre (Pará), Roosevelt demonstrou que os humanos já estavam assentados na floresta amazônica a partir de 11.300 anos atrás, portanto quase contemporaneamente à data da suposta entrada dos homens Clovis na América do Norte.

Os resultados apresentados por Roosevelt e colaboradores tiveram sabor especial para os pré-clovistas, uma vez que foram publicados na revista Science, um dos maiores periódicos científicos do planeta, e respaldados por nada menos que 56 datações absolutas, associadas a instrumentos de pedra lascada, indubitavelmente produzidos pelo homem.

Recentemente, a pesquisadora norte-americana sugeriu um novo modelo para a ocupação da América, denominado “Modelo Clovis em Contexto”, que nada mais é que uma variação mais tímida, e a nosso ver ajuizada, do “Modelo pré-Clovis”. De acordo com esse novo modelo, a cultura Clovis não representa mesmo a primeira manifestação humana no Novo Mundo, sendo apenas mais uma entre tantas adaptações iniciais do homem no continente americano. E, provavelmente, a única baseada na caça de grande mamíferos extintos. Assim, ela não pode ser vista de forma alguma como a cultura ancestral de todas as demais que floresceram no período do Pleistoceno nas Américas e nem como uma norma comportamental universal passível de ser estendida a todo o hemisfério ocidental.

Trajeto e Portas de Entrada

Excetuando algumas tentativas estabanadas e recentes de postular migrações transpacíficas (vindas do continente australiano) e transatlânticas (originárias da Penísula Ibérica e até mesmo da África), parece não haver dúvidas entre a comunidade científica de que todas as populações nativa que chegaram ao Novo Mundo partiram do noroeste da Ásia e aqui chegaram pelo Estreito de Bering. Entretanto, a forma de deslocamento ao longo do estreito de Bering foi bastante reformulada nos últimos cinco anos. No passado, acreditava-se que os primeiros americanos teriam cruzado o Estreito por uma ponte terrestre, quando o nível do mar esteve muito abaixo do atual, expondo toda uma faixa de terra – a Beríngia, que uniu a Sibéria ao Alasca no final do Pleistoceno (entre 12 mil e 11 mil anos atrás). Como a América do Norte, nessa época, estava coberta por duas geleiras, os primeiros americanos, após chegarem ao Alasca, teriam migrado para o Sul por um estreito corredor livre de gelo, tendo acesso a regiões climaticamente menos inóspitas. Por esse modelo, essa constelação de fatores favoráveis a uma migração da Ásia para a América e, uma vez na América, para regiões mais meridionais, teria ocorrido apenas durante um curto intervalo de tempo, coincidindo com o aparecimento da cultura Clovis.

Hoje, nossa compreensão sobre esse fenômeno mudou dramaticamente. Apesar de a maioria dos especialistas ainda defender o Estreito de Bering como única via de entrada dos primeiros americanos, aposta-se num deslocamento pelo litoral do Estreito e não mais pelo seu interior, com a navegação de cabotagem. O fato de os primeiros americanos dominarem rudimentos de navegação costeira não significa que fossem capazes de singrar águas oceânicas em mar aberto. Como a hipótese do corredor livre de gelo também foi contestada nos últimos anos, pensa-se que até mesmo o deslocamento em direção sul tenha de dado também pela costa, neste caso o litoral do Pacífico. A interiorização dos primeiros americanos teria ocorrido inicialmente ao sul das grande geleiras, de oeste para leste. Com o progressivo retraimento das massas glaciais, esses pioneiros teriam migrado para o norte, tendo dado origem, entre outras coisas, à famosa cultura Clovis.

O grande problema com este novo modelo é que ele jamais poderá ser testado diretamente. Se os sítio arqueológicos mais antigos estiverem na costa, não serão encontrados pelos métodos arqueológicos convencionais, porque estariam hoje submersos. Não podemos nos esquecer que o nível do mar subiu muito no final do Pleistoceno, com o derretimento de geleiras ao final da última glaciação. No entanto, o modelo litorâneo permite prever que se a costa pacífica (e, no caso da América do Sul, também a costa atlântica) foi utilizada como o primeiro grande eixo de deslocamento humano no Novo Mundo, a colonização de todo o continente pode ter ocorrido rapidamente. Esse cenário ganha cada vez mais força, sobretudo se aceitarmos a data de 12.300 anos para Monte Verde, extremo sul do Chile e a não mais que 60 km da costa. Isso também pode explicar porque não se encontram na América do Norte sítios arqueológicos muito mais antigos que os encontrados na América do Sul.

Os Primeiros Americanos

Respondido quando, de onde vieram e como entraram os primeiros humanos na América, convém discutir a biologia desses colonizadores. Aqui também há consenso entre os investigadores: eram biologicamente asiáticos. Extensos estudos sobre a variabilidade genética dos grupos indígenas norte, centro e sul americanos atuais mostram que todas as linhagens de DNA das mitocôndrias e do cromossomo Y encontradas no Novo Mundo são também encontradas na Ásia. Além disso, linhagens de DNA típicas de outras partes do planeta, como Europa, África, Polinésia e Austrália não são encontradas aqui.

O estudo da variabilidade dentária nas populações ameríndias também aponta para a mesma direção: todos os povos nativos que existiram no passado e os atuais, nas América, conectam-se a populações norte-asiáticas. Christy Turner, Arizona State University, com base em três décadas de estudo sobre a variabilidade da morfologia dos dentes (número de raízes, número de cúspides, presença ou ausência de pequenas cúspides acessórias) das populações de todo o leste da Ásia, do continente australiano e do americano, mostrou que no extremo oriental do planeta existem apenas dois tipos de dentição: a sundadonte e a sinodonte. A primeira caracteriza as populações do sul da Ásia e da Austrália, a segunda é típica das populações do norte da Ásia e da América.

Sem questionar a origem geográfica asiática dos primeiros americanos, estudos sobre a morfologia craniana desses imigrantes conduzidos sob a liderança de um dos autores (Walter Neves) desde o final dos anos 80 vêm questionando seriamente a idéia de homogeneidade biológica a eles atribuída.

A morfologia craniofacial dos nativos americanos atuais, apesar da enorme variabilidade, como ocorre em qualquer população humana, tende a neurocrânios curtos e largos, associados a faces altas, largas e retraídas, nas quais se alojam cavidades oculares e nasais altas e relativamente estreitas. Essas tendências são as mesmas observadas nas populações do norte da Ásia. Em conjunto, por falta de termo melhor, essas populações são referidas na literatura como populações mongolóides. Na América do Sul, esse padrão morfológico pode ser rastreado até cerca de 8 mil anos atrás. Antes disso, nossas pesquisas vêm demonstrando sistematicamente que esse padrão foi antecedido por uma morfologia craniana caracterizada por neurocrânios longos e estreitos, associados a faces baixas, estreitas e projetadas, nas quais se alojam cavidades oculares e nasais baixas e relativamente largas.

Essa morfologia é bem exemplificada por Luzia, esqueleto encontrado em 1974/1975 na região de Lagoa Santa, com antiguidade estimada entre 11 mil e 11.500 anos, e por nós estudada e divulgada cientificamente em 1998. Mas ela caracteriza também vários outros esqueletos antigos, tanto do Brasil, quanto do Chile, da Colômbia e do México. Curiosamente, essa segundo tendência morfológica, encontrada na América do Sul apenas entre paleoíndios, ocorre na África, na Austrália, na Melanésia, mas não na Ásia. Parte da mídia e alguns especialistas mal-intencionados têm interpretado nossos resultados de forma equivocada, atribuindo o fenômeno a migrações transoceânicas, principalmente da Austrália para a América. Desde o início de nossas pesquisas temos insistido no fato de que a presença de uma morfologia “austro-melanésia” (na falta de termo melhor) no continente americano não carece de migrações transoceânicas para ser explicada e pode ser perfeitamente compatibilizada com a idéia predominante de o Estreito de Bering ter sido a via de entrada, e o norte da Ásia, o ponto de partida dos primeiros americanos.

Sabemos que a diferenciação morfocraniana das populações hoje espalhadas pelo planeta se deu em momentos muito recentes, talvez no final do Pleistoceno ou mesmo no início do Holoceno, razão pela qual é muito incipiente, não tendo levado à formação daquilo que poderíamos chamar de raças biológicas. Dessa forma, é muito provável que antes das populações q eu agora conhecemos, grande parte do planeta tenha sido ocupada por populações humanas com morfologias cranianas mais generalizadas. Ou, em outros termos, mais próximas da morfologia original dos primeiros Homo sapiens, que surgiram e começaram a deixar a África por volta de 100 mil anos atrás. De acordo com Martha Lahr e Robert Foley, ambos d Cambridge University, Inglaterra, o sudeste da Ásia e a Austrália, por exemplo, foram colonizados por volta de 60 mil anos, a partir d populações que deixaram a África, pelo norte, muito provavelmente por volta de 70 mil anos. Essas populações de morfologia generalizada foram se dispersando em direção leste pelo sul da Ásia, abaixo do Himalaia, seguindo climas quentes similares àqueles a que já estavam adaptadas na África. Martha Lahr tem enfatizado q eu esta é a razão pela qual os africanos subsaarianos e os australianos atuais guardam até hoje a morfologia mais similar à dos primeiros Homo sapiens que qualquer outra população atual.

A hipótese que vimos defendendo para explicar nossas descobertas sobre a morfologia craniana peculiar dos primeiros americanos é que as mesmas populações que chegaram ao sudeste asiático e à Austrália também se expandiram em direção setentrional, tendo chegado ao centro e ao norte do extremo oriente da Ásia sem grandes mudanças morfológicas. Para que isso tenha ocorrido, essa dispersão em direção ao norte deve ter se dado rapidamente, permitindo a manutenção da morfologia “tropical” original mesmo em regiões frias. A via litorânea, por navegação de cabotagem, pode ter sido a estratégia adotada, exatamente como os cientistas acreditam hoje que tenha ocorrido na passagem da Ásia para a América.

Infelizmente, o registro fóssil humano no centro e no norte da Ásia oriental datado do final do Pleistoceno, período chave para os problemas aqui levantados, é ínfimo, constituindo-se apenas dois ou três crânios mensuráveis. Desses, os mais conhecidos sãos os três crânios encontrados na caverna superior de Zhoukoudian, perto de Pequim, na China, onde também foram encontrados, no início do século, na caverna inferior, restos generosos de Homo erectus (entre ele o Homem de Pequim). Os três crânios de Homo sapiens da caverna superior estão estimativamente datados entre 11 mil e 28 mil anos. Vários cientistas, incluindo um de nós (Walter Neves) e Richard Wright, da University of Sidney, Austrália, que estudaram esses crânios, chegaram à mesma conclusão: que eles não apresentam afinidades morfológicas com a população mongolóide que atualmente ocupa todo o centro e o norte da Ásia. Eles apresentam morfologia similar à dos “austro-melanésios” atuais, ou, em outras palavras, morfologia mais generalizada e mais similar à dos primeiros americanos.

De qualquer forma, nossas pesquisas parecem indicar fortemente que o continente americano foi colonizado por, pelo menos, duas populações biológicas diferentes, que se sucederam no tempo. A isso, temos nos referido mais recentemente como o “Modelo dos Dois Componentes Biológicos Principais”. Alguns colegas norte-americanos pensam de forma distinta. Para eles, não é completamente impossível que a transformação da morfologia generalizada (austro-melanésia) para uma morfologia (mongolóide) tenha se dado de forma independente, e paralela, na Ásia e na América. Neste caso, teria entrado no Novo Mundo apenas um tipo de população humana, que aqui se transformou evolutivamente em outro tipo.

A América do Sul, novamente, gerou outra informação que, em princípio, aponta favoravelmente em direção ao “Modelo dos Dois Componentes Biológicos Principais”. No meio da década de 90 um de nós (Walter Neves) e Danusa Munford, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, estudaram a variabilidade morfocraniana das populações nativas do subcontinente, desde cerca de 11 mil anos até o início da colonização européia. Esses estudos, ainda que preliminares e baseados num número restrito de crânios (cerca de 500), levando-se em consideração a escala continental da análise, mostraram que a passagem de uma morfologia não-mongolóide para uma morfologia mongolóide típica se deu, abaixo do equador, de forma abrupta, favorecendo a idéia de substituição populacional. Estudos similares para o subcontinente norte-americano estão sendo conduzidos no momento por nossos colaboradores Joseph Powell e Erik Ozolins, da University of New Mexico, EUA, e estamos aguardando os resultados das pesquisas desses dois colegas norte-americanos.

GRÁFICO DE COMPONENTES PRINCIPAIS comparando o crânio de Luzia com outras populações. Observe como ela se agrupa com os africanos atuais, enquanto os asiáticos e ameríndios atuais se encontram próximos no outro canto do gráfico.

GRÁFICO DE COMPONENTES PRINCIPAIS comparando o crânio de Palli Aike (Chile), também paleoíndio, com outras populações. Assim como Luzia, Palli Aike se encontra próximo aos africanos atuais, enquanto os ameríndios se encontram perto dos asiáticos e europeus.
GRÁFICO DE COMPONENTES PRINCIPAIS comparando crânios paleoíndios de Santana do Riacho (Minas Gerais), com outras populações. Mais uma vez o que se observa é uma associação de Santana do Riacho com africanos e australianos atuais, enquanto os ameríndios recentes se associam com asiáticos.
Crânio de Luzia >>>

Colonização diversificada

O Modelo dos Dois Componentes Biológicos principais defende a hipótese de que duas populações biologicamente distintas entraram nas Américas. A primeira (seta marrom), caracterizada por uma morfologia generalizada, semelhante à dos africanos e australianos atuais. Ela teria cruzado o Estreito de Bering antes do aparecimento dos primeiros grupos de morfologia mongolóide na Ásia. Após o surgimento dessa morfologia que atualmente caracteriza a maior parte das populações asiáticas, ocorreu uma nova expansão populacional (seta vermelha) para dentro das Américas, também via Estreito de Bering.

Calibração de Datações Radiocarbônicas

A datação radiocarbônica é calculada de acordo com a porcentagem de carbono 14 radioativo (C14) presente no material orgânico que está sendo datado, em relação ao C14 presente na atmosfera. Como a meia-vida do C14 é de 5.568 anos, pode-se obter uma estimativa da idade do material testado a partira da porcentagem de C14 nele remanescente.

O problema é que a quantidade de C14 atmosférico não foi constante ao longo do tempo geológico, de forma que isso pode alterar a porcentagem final de C14 remanescente em materiais orgânicos de diferentes períodos. Para resolver o problema, curvas de correção foram elaboradas para ajustar as datas radiocarbônicas, baseadas em materiais de idades conhecidas, como, por exemplo, séries de anéis de crescimento de árvores (dendrocronologia).

Existem, portanto, duas formas de expressar a idade de materiais datados pelo método do C14: não calibrada e calibrada. Apenas quando calibradas, as datações readiocarbônicas correspondem ao calendário convencional em anos, tal como conhecido por todos. Por uma série de razões que dificultam o processo de calibração (entre elas a falta de tabelas de correção confiáveis para a América do Sul), existe uma recomendação internacional para que datações sejam publicadas em anos não calibrados. Infelizmente, essa prática não tem sido seguida por alguns de nossos colegas na América do Sul, tendo gerado confusão, até mesmo entre os arqueólogos quando tentam comparar a cronologia de seus sítios. Isso é especialmente válido para materiais com mais de 8 mil anos, já que a correção neste caso joga as idades para cima, envelhecendo o material consideravelmente.

No presente artigo nenhuma datação foi calibrada conforme recomendação internacional. No caso de Luzia, por exemplo, a idade calibrada estaria entre 13 mil e 14 mil anos atrás.

“Raças” humanas vistas através da morfologia craniana

O principal argumento para derrubar de vez a noção de raças humanas foi construído nas últimas três décadas, quando vários geneticistas trabalhando de forma independente mostraram que há maior variabilidade genética dentro de uma mesma população humana que entre populações distintas. Em outras palavras, existe uma grande chance de que, ao escolher um indivíduo ao acaso, você não consiga dizer com certeza, por seus genes, a qual população humana ele pertence.

A alta variabilidade intrapopulacional também é claramente observada na morfologia craniana. Em média, apenas 60 de cada 100 crânios humanos seriam corretamente classificados se comparados com amostras das populações às quais pertencem. Walter Neves mede um crânio paleoíndio sul-americano.Assim, pela mesma razão da biologia molecular, a análise da morfologia craniana também sugere a ausência de algo que poderíamos chamar de raças distintas na espécie humana. Mas nem por isso existe homogeneidade morfológica entre todas as populações humanas do planeta. Observam-se tendências morfológicas específicas entre elas. Essas tendência são bem observadas em um crânio hipotético médio de cada população.

Ainda que discretas, essas tendências permitem ao antropólogo estabelecer quais populações são similares entre si e quais são dissimilares. Os distintos graus de similaridade morfológica nos permitem sugerir, com muita prudência, relações de ancestralidade-descedência entre populações, ou grupos de populações, que corresponderiam a linhagens evolutivas específicas.

Ainda que poucos crânios paleoíndios sejam conhecidos popularmente (sendo Luzia o mais famoso deles), já contamos, hoje em dia, com uma amostra de mais de 70 crânios paleoíndios sul-americanos medidos. Isso nos permite avaliar a tendência morfológica desse grupo em relação aos demais grupos humanos que viveram e que vivem no planeta, diminuindo o risco de se usar em indivíduos isolados para inferir as afinidades biológicas dos primeiros americanos. Nesse sentido, estamos numa posição bem mais confortável que nossos colegas norte-americanos, uma vez que nos EUA não existe mais que meia dúzia desses crânios.

A descoberta de Luzia

Um dos esqueletos mais antigos das Américas, senão o mais antigo, Luzia tem sido, desde 1998, o ícone das pesquisas de um dos autores (Walter Neves), por apresentar, junto com pelo menos outros 70 crânios paleoíndios sul-americanos, uma morfologia craniana distinta da das populações indígenas atuais.

Sua descoberta é um dos frutos da insistência e da perseverança da Missão Arqueológica Franco-Brasileira, liderada por Annete Lamming Emperaire. Entre 1974 e 1976 a Missão Francesa escavou a Lapa Vermelha IV, localizada no município de Pedro Leopoldo, Minas Gerais, descendo nada menos que 12 metros antes de encontrar os primeiros fragmentos de uma mulher jovem, que se consagraria mais tarde no meio científico como “Luzia”.

Luzia não foi enterrada formalmente, sendo mais provável que seu corpo tenha sido apenas depositado no fundo da fenda que caracteriza a Lapa Vermelha IV. Como não foi enterrada, seus ossos, após o apodrecimento dos tecidos moles que os uniam, foram espalhados ao longo da superfície inclinada na qual o corpo foi depositado, no fundo da lapa. Os ossos de Luzia foram encontrados dispersos ao longo de um plano inclinado entre os 10 e 11,5 metros de profundidade, à exceção do crânio e alguns poucos fragmentos que rolaram para níveis mais profundos, como pode ser observado no esquema abaixo, de autoria do professor André Prous, assistente de Annete Lamming Emperaire durante as escavações em Lapa Vermelha.

Os ossos de Luzia não conservaram o colágeno para permitir a realização da datação radiocarbônica, de modo que sua idade foi estimada de acordo com a posição estratigráfica do plano inclinado no qual se encontravam. Datações realizadas com materiais encontrados acima e abaixo dos fragmentos ósseos sugerem idade entre 11.000 e 11.500 anos para luzia. Carvões encontrados perto do crânio foram datados em mais de 12 mil anos, mas, essa parte do esqueleto deslocou-se verticalmente para níveis mais profundos, não podendo ser usada como marco cronológico para o espécime.

Em 1999, um reconstituição facial d Luzia feita por Richard Neave, da University of Manchester, Inglaterra, mostrou de forma complementar e independente aos estudos morfométricos realizados por um dos autores (Walter Neves), que Luzia apresentava morfologia muito distinta daquela dos ameríndios atuais, sendo mais semelhante aos aborígenes australianos e africanos. Como explicado no texto, essa semelhança com australianos e africanos atuais não significa, de forma alguma, que os primeiros americanos tenham cindo da Austrália ou da África.

Os Princípios da Estatística Multivariada

Ao longo da década de 80, o uso de estatística avançada em vários ramos da ciência, inclusive antropologia, foi impulsionado por computadores capazes de fazerem uma grande quantidade de cálculos em questão de instantes. A partir desse momento, as análises estatísticas multivariadas puderam finalmente deixar de ser abstrações teóricas e se tornaram uma ferramenta essencial para pesquisadores interessados em analisar um grande número de variáveis simultaneamente, como, por exemplo, quando se estuda a forma do crânio humano que, normalmente, é expressa por mais de 50 medidas diferentes.

A análise de Componentes Principais, uma das técnicas de estatística multivariada, cujos resultados vemos ao lado, é uma das ferramentas quantitativas capaz de diminuir a informação contida num grande número de variáveis altamente correlacionadas em poucas dimensões gráficas. Esses novos vetores, densos em informações comprimidas a partir de muitas variáveis originais, são denominados componentes principais.

Cada componente principal expressa uma grande porcentagem da informação contida em grupos específicos das variáveis originais. Os gráficos ao lado foram construídos com base apenas nos dois primeiros componentes principais de cada análise, que são os que agregam a maior porcentagem de informação contida nas medidas craniométricas fornecidas pelo antropólogo.

Em gráficos assim construídos, pode-se inferir o grau de similaridade entre as populações estudadas simplesmente através da observação visual da posição relativa que elas ocupam no espaço definido pelas duas dimensões (eixo X e Y). Quanto maior a proximidade no gráfico, mais similares morfológicamente são duas populações humanas, e vice-versa.


OS AUTORES

Walter Alves Neves é doutor em ciências pela Universidade de São Paulo (USP), especialista em antropologia evolutiva, coordenador do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos (Ibusp) do Departamento de Biologia do Instituto de Biociência da USP e bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Mark Oliver Rohrig Hubbe é mestrando pelo Programa de Biologia/Genética do Departamento de Biologia do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), desenvolvendo suas atividades de pesquisa no Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos (Ibusp).

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