| Luzia
e saga dos primeiros americanos
Walter A. Neves e Mark Hubbe
Até
o final dos anos 90, a hipótese que predominava entre os
especialistas sobre a ocupação do continente americano
em tempos pré-históricos era denominada de Modelo
Clovis. De acordo com esse modelo, o homem teria ocupado o Novo
Mundo há não mais que 11.400 anos. A cultura Clovis
é muito conhecida na América do Norte e se refere
a grupos de caçadores especializados na matança
de grandes mamíferos hoje extintos, como o mamute e o bisão.
Esses intrépidos caçadores utilizavam arpões
ou lanças dotadas de pontas de pedra muito peculiares,
com uma acanaladura na base, para facilitar o encabamento. Como
a cultura Clovis é a mais antiga encontrada na América
do Norte, arqueólogos americanos defenderam por décadas
que nenhuma outra cultura pré-histórica mais antiga
poderia existir no Novo Mundo. Além disso, todos os paleoíndios,
como são conhecidos os primeiros americanos, deviam ser
especializados na matança dos grandes mamíferos
extintos.
Ao
defender o Modelo Clovis, a comunidade arqueológica norte-americana
insistiu em ignorar duas informações que desde os
anos 70 estavam claras na literatura sul-americana: primeiro,
que na América do Sul vários sítios arqueológicos
já apresentavam datações aceitáveis,
no mínimo tão antigas quanto da cultura Clovis;
segundo, que tanto na América Central, quanto na do Sul,
nenhum sítio paleoíndio apresentava sinal alguma
de pontas acanaladas, ou da exploração especializada
da megafauna extinta, como recurso alimentar. Ao contrário,
os sítios arqueológicos dos primeiros sul-americanos
mostram claramente que aqui esses pioneiros tinham adotado uma
estratégia de subsistência baseada na caça
generalizada, de animais de pequeno e médio portes, que
ainda estão presentes na paisagem. E, certamente, essa
caça generalizada era muito bem suplementada pela coleta
de recursos vegetais, abundantes nos climas tropicais e subtropicais.
A
atitude americana, se por um lado obstaculizou durante décadas
uma compreensão mais precisa sobre a chegada e as adaptações
subseqüentes dos primeiros humanos ao Novo Mundo, por outro
impediu que a barbárie intelectual dominasse o assunto.
Não foram poucas as tentativas, nas últimas quatro
décadas, de tentar assegurar que o homem já estava
no Novo Mundo desde idades muito remotas, como 35, 150 ou até
mesmo 300 mil anos (Modelo pré-Clovis). E, para o constrangimento
dos cientistas sul-americanos – que tentavam, a duras penas,
demonstrar que o homem já estava ao sul do equador pelo
menos contemporaneamente à cultura Clovis –, essa
pirotecnia de datas antigas foi convenientemente explorada pela
comunidade norte-americana para desqualificar toda e qualquer
informação que pudesse questionar a primazia temporal
de Clovis.
Mas
o Modelo Clovis teria data marcada para ser sepultado. Tom Dilehay,
da Kentucky University, publicou, em 1997, alentado volume sobre
suas pesquisas arqueológicas no sítio de Monte Verde,
sul do Chile, demonstrando que o homem ocupava a região
há pelo menos 12.300 anos. Produzida por um norte-americano
e publicada nos Estados Unidos, a obra descrevendo e interpretando
os achado em Monte Verde causou grande impacto na comunidade norte-americana
e marca o sepultamento oficial da primazia Clovis. Nos últimos
anos, os vestígios arqueológicos de Monte Verde
também vêm sendo seriamente questionados. Apenas
o tempo dirá se permanecerão de pé ou não.
Entretanto, a publicação desses resultados serviu
ao menos para “escancarar a porteira Clovis”, dando
visibilidade a outros sítios seriamente estudados na América
do Sul.
Outra
grande contribuição para sepultar definitivamente
a primazia Clovis foi apresentada po Anna Roosevelt, pesquisadora
norte-americana até recentemente ligada ao Field Museum
de Chicago, e colaboradores, também no final dos nos 90.
Em escavações no sítio de Pedra Pintada,
no município de Monte Alegre (Pará), Roosevelt demonstrou
que os humanos já estavam assentados na floresta amazônica
a partir de 11.300 anos atrás, portanto quase contemporaneamente
à data da suposta entrada dos homens Clovis na América
do Norte.
Os
resultados apresentados por Roosevelt e colaboradores tiveram
sabor especial para os pré-clovistas, uma vez que foram
publicados na revista Science, um dos maiores periódicos
científicos do planeta, e respaldados por nada menos que
56 datações absolutas, associadas a instrumentos
de pedra lascada, indubitavelmente produzidos pelo homem.
Recentemente,
a pesquisadora norte-americana sugeriu um novo modelo para a ocupação
da América, denominado “Modelo Clovis em Contexto”,
que nada mais é que uma variação mais tímida,
e a nosso ver ajuizada, do “Modelo pré-Clovis”.
De acordo com esse novo modelo, a cultura Clovis não representa
mesmo a primeira manifestação humana no Novo Mundo,
sendo apenas mais uma entre tantas adaptações iniciais
do homem no continente americano. E, provavelmente, a única
baseada na caça de grande mamíferos extintos. Assim,
ela não pode ser vista de forma alguma como a cultura ancestral
de todas as demais que floresceram no período do Pleistoceno
nas Américas e nem como uma norma comportamental universal
passível de ser estendida a todo o hemisfério ocidental.
Trajeto
e Portas de Entrada
Excetuando
algumas tentativas estabanadas e recentes de postular migrações
transpacíficas (vindas do continente australiano) e transatlânticas
(originárias da Penísula Ibérica e até
mesmo da África), parece não haver dúvidas
entre a comunidade científica de que todas as populações
nativa que chegaram ao Novo Mundo partiram do noroeste da Ásia
e aqui chegaram pelo Estreito de Bering. Entretanto, a forma de
deslocamento ao longo do estreito de Bering foi bastante reformulada
nos últimos cinco anos. No passado, acreditava-se que os
primeiros americanos teriam cruzado o Estreito por uma ponte terrestre,
quando o nível do mar esteve muito abaixo do atual, expondo
toda uma faixa de terra – a Beríngia, que uniu a
Sibéria ao Alasca no final do Pleistoceno (entre 12 mil
e 11 mil anos atrás). Como a América do Norte, nessa
época, estava coberta por duas geleiras, os primeiros americanos,
após chegarem ao Alasca, teriam migrado para o Sul por
um estreito corredor livre de gelo, tendo acesso a regiões
climaticamente menos inóspitas. Por esse modelo, essa constelação
de fatores favoráveis a uma migração da Ásia
para a América e, uma vez na América, para regiões
mais meridionais, teria ocorrido apenas durante um curto intervalo
de tempo, coincidindo com o aparecimento da cultura Clovis.
Hoje,
nossa compreensão sobre esse fenômeno mudou dramaticamente.
Apesar de a maioria dos especialistas ainda defender o Estreito
de Bering como única via de entrada dos primeiros americanos,
aposta-se num deslocamento pelo litoral do Estreito e não
mais pelo seu interior, com a navegação de cabotagem.
O fato de os primeiros americanos dominarem rudimentos de navegação
costeira não significa que fossem capazes de singrar águas
oceânicas em mar aberto. Como a hipótese do corredor
livre de gelo também foi contestada nos últimos
anos, pensa-se que até mesmo o deslocamento em direção
sul tenha de dado também pela costa, neste caso o litoral
do Pacífico. A interiorização dos primeiros
americanos teria ocorrido inicialmente ao sul das grande geleiras,
de oeste para leste. Com o progressivo retraimento das massas
glaciais, esses pioneiros teriam migrado para o norte, tendo dado
origem, entre outras coisas, à famosa cultura Clovis.
O
grande problema com este novo modelo é que ele jamais poderá
ser testado diretamente. Se os sítio arqueológicos
mais antigos estiverem na costa, não serão encontrados
pelos métodos arqueológicos convencionais, porque
estariam hoje submersos. Não podemos nos esquecer que o
nível do mar subiu muito no final do Pleistoceno, com o
derretimento de geleiras ao final da última glaciação.
No entanto, o modelo litorâneo permite prever que se a costa
pacífica (e, no caso da América do Sul, também
a costa atlântica) foi utilizada como o primeiro grande
eixo de deslocamento humano no Novo Mundo, a colonização
de todo o continente pode ter ocorrido rapidamente. Esse cenário
ganha cada vez mais força, sobretudo se aceitarmos a data
de 12.300 anos para Monte Verde, extremo sul do Chile e a não
mais que 60 km da costa. Isso também pode explicar porque
não se encontram na América do Norte sítios
arqueológicos muito mais antigos que os encontrados na
América do Sul. |
Os
Primeiros Americanos
Respondido
quando, de onde vieram e como entraram os primeiros humanos na
América, convém discutir a biologia desses colonizadores.
Aqui também há consenso entre os investigadores:
eram biologicamente asiáticos. Extensos estudos sobre a
variabilidade genética dos grupos indígenas norte,
centro e sul americanos atuais mostram que todas as linhagens
de DNA das mitocôndrias e do cromossomo Y encontradas no
Novo Mundo são também encontradas na Ásia.
Além disso, linhagens de DNA típicas de outras partes
do planeta, como Europa, África, Polinésia e Austrália
não são encontradas aqui.
O
estudo da variabilidade dentária nas populações
ameríndias também aponta para a mesma direção:
todos os povos nativos que existiram no passado e os atuais, nas
América, conectam-se a populações norte-asiáticas.
Christy Turner, Arizona State University, com base em três
décadas de estudo sobre a variabilidade da morfologia dos
dentes (número de raízes, número de cúspides,
presença ou ausência de pequenas cúspides
acessórias) das populações de todo o leste
da Ásia, do continente australiano e do americano, mostrou
que no extremo oriental do planeta existem apenas dois tipos de
dentição: a sundadonte e a sinodonte. A primeira
caracteriza as populações do sul da Ásia
e da Austrália, a segunda é típica das populações
do norte da Ásia e da América.
Sem
questionar a origem geográfica asiática dos primeiros
americanos, estudos sobre a morfologia craniana desses imigrantes
conduzidos sob a liderança de um dos autores (Walter Neves)
desde o final dos anos 80 vêm questionando seriamente a
idéia de homogeneidade biológica a eles atribuída.
A
morfologia craniofacial dos nativos americanos atuais, apesar
da enorme variabilidade, como ocorre em qualquer população
humana, tende a neurocrânios curtos e largos, associados
a faces altas, largas e retraídas, nas quais se alojam
cavidades oculares e nasais altas e relativamente estreitas. Essas
tendências são as mesmas observadas nas populações
do norte da Ásia. Em conjunto, por falta de termo melhor,
essas populações são referidas na literatura
como populações mongolóides. Na América
do Sul, esse padrão morfológico pode ser rastreado
até cerca de 8 mil anos atrás. Antes disso, nossas
pesquisas vêm demonstrando sistematicamente que esse padrão
foi antecedido por uma morfologia craniana caracterizada por neurocrânios
longos e estreitos, associados a faces baixas, estreitas e projetadas,
nas quais se alojam cavidades oculares e nasais baixas e relativamente
largas.
Essa
morfologia é bem exemplificada por Luzia, esqueleto encontrado
em 1974/1975 na região de Lagoa Santa, com antiguidade
estimada entre 11 mil e 11.500 anos, e por nós estudada
e divulgada cientificamente em 1998. Mas ela caracteriza também
vários outros esqueletos antigos, tanto do Brasil, quanto
do Chile, da Colômbia e do México. Curiosamente,
essa segundo tendência morfológica, encontrada na
América do Sul apenas entre paleoíndios, ocorre
na África, na Austrália, na Melanésia, mas
não na Ásia. Parte da mídia e alguns especialistas
mal-intencionados têm interpretado nossos resultados de
forma equivocada, atribuindo o fenômeno a migrações
transoceânicas, principalmente da Austrália para
a América. Desde o início de nossas pesquisas temos
insistido no fato de que a presença de uma morfologia “austro-melanésia”
(na falta de termo melhor) no continente americano não
carece de migrações transoceânicas para ser
explicada e pode ser perfeitamente compatibilizada com a idéia
predominante de o Estreito de Bering ter sido a via de entrada,
e o norte da Ásia, o ponto de partida dos primeiros americanos.
Sabemos
que a diferenciação morfocraniana das populações
hoje espalhadas pelo planeta se deu em momentos muito recentes,
talvez no final do Pleistoceno ou mesmo no início do Holoceno,
razão pela qual é muito incipiente, não tendo
levado à formação daquilo que poderíamos
chamar de raças biológicas. Dessa forma, é
muito provável que antes das populações q
eu agora conhecemos, grande parte do planeta tenha sido ocupada
por populações humanas com morfologias cranianas
mais generalizadas. Ou, em outros termos, mais próximas
da morfologia original dos primeiros Homo sapiens, que surgiram
e começaram a deixar a África por volta de 100 mil
anos atrás. De acordo com Martha Lahr e Robert Foley, ambos
d Cambridge University, Inglaterra, o sudeste da Ásia e
a Austrália, por exemplo, foram colonizados por volta de
60 mil anos, a partir d populações que deixaram
a África, pelo norte, muito provavelmente por volta de
70 mil anos. Essas populações de morfologia generalizada
foram se dispersando em direção leste pelo sul da
Ásia, abaixo do Himalaia, seguindo climas quentes similares
àqueles a que já estavam adaptadas na África.
Martha Lahr tem enfatizado q eu esta é a razão pela
qual os africanos subsaarianos e os australianos atuais guardam
até hoje a morfologia mais similar à dos primeiros
Homo sapiens que qualquer outra população atual.
A
hipótese que vimos defendendo para explicar nossas descobertas
sobre a morfologia craniana peculiar dos primeiros americanos
é que as mesmas populações que chegaram ao
sudeste asiático e à Austrália também
se expandiram em direção setentrional, tendo chegado
ao centro e ao norte do extremo oriente da Ásia sem grandes
mudanças morfológicas. Para que isso tenha ocorrido,
essa dispersão em direção ao norte deve ter
se dado rapidamente, permitindo a manutenção da
morfologia “tropical” original mesmo em regiões
frias. A via litorânea, por navegação de cabotagem,
pode ter sido a estratégia adotada, exatamente como os
cientistas acreditam hoje que tenha ocorrido na passagem da Ásia
para a América.
Infelizmente,
o registro fóssil humano no centro e no norte da Ásia
oriental datado do final do Pleistoceno, período chave
para os problemas aqui levantados, é ínfimo, constituindo-se
apenas dois ou três crânios mensuráveis. Desses,
os mais conhecidos sãos os três crânios encontrados
na caverna superior de Zhoukoudian, perto de Pequim, na China,
onde também foram encontrados, no início do século,
na caverna inferior, restos generosos de Homo erectus (entre ele
o Homem de Pequim). Os três crânios de Homo sapiens
da caverna superior estão estimativamente datados entre
11 mil e 28 mil anos. Vários cientistas, incluindo um de
nós (Walter Neves) e Richard Wright, da University of Sidney,
Austrália, que estudaram esses crânios, chegaram
à mesma conclusão: que eles não apresentam
afinidades morfológicas com a população mongolóide
que atualmente ocupa todo o centro e o norte da Ásia. Eles
apresentam morfologia similar à dos “austro-melanésios”
atuais, ou, em outras palavras, morfologia mais generalizada e
mais similar à dos primeiros americanos.
De
qualquer forma, nossas pesquisas parecem indicar fortemente que
o continente americano foi colonizado por, pelo menos, duas populações
biológicas diferentes, que se sucederam no tempo. A isso,
temos nos referido mais recentemente como o “Modelo dos
Dois Componentes Biológicos Principais”. Alguns colegas
norte-americanos pensam de forma distinta. Para eles, não
é completamente impossível que a transformação
da morfologia generalizada (austro-melanésia) para uma
morfologia (mongolóide) tenha se dado de forma independente,
e paralela, na Ásia e na América. Neste caso, teria
entrado no Novo Mundo apenas um tipo de população
humana, que aqui se transformou evolutivamente em outro tipo.
A
América do Sul, novamente, gerou outra informação
que, em princípio, aponta favoravelmente em direção
ao “Modelo dos Dois Componentes Biológicos Principais”.
No meio da década de 90 um de nós (Walter Neves)
e Danusa Munford, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais,
estudaram a variabilidade morfocraniana das populações
nativas do subcontinente, desde cerca de 11 mil anos até
o início da colonização européia.
Esses estudos, ainda que preliminares e baseados num número
restrito de crânios (cerca de 500), levando-se em consideração
a escala continental da análise, mostraram que a passagem
de uma morfologia não-mongolóide para uma morfologia
mongolóide típica se deu, abaixo do equador, de
forma abrupta, favorecendo a idéia de substituição
populacional. Estudos similares para o subcontinente norte-americano
estão sendo conduzidos no momento por nossos colaboradores
Joseph Powell e Erik Ozolins, da University of New Mexico, EUA,
e estamos aguardando os resultados das pesquisas desses dois colegas
norte-americanos.
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| GRÁFICO
DE COMPONENTES PRINCIPAIS comparando o crânio de Luzia
com outras populações. Observe como ela se
agrupa com os africanos atuais, enquanto os asiáticos
e ameríndios atuais se encontram próximos
no outro canto do gráfico. |
GRÁFICO
DE COMPONENTES PRINCIPAIS comparando o crânio de Palli
Aike (Chile), também paleoíndio, com outras
populações. Assim como Luzia, Palli Aike se
encontra próximo aos africanos atuais, enquanto os
ameríndios se encontram perto dos asiáticos
e europeus. |
GRÁFICO
DE COMPONENTES PRINCIPAIS comparando crânios paleoíndios
de Santana do Riacho (Minas Gerais), com outras populações.
Mais uma vez o que se observa é uma associação
de Santana do Riacho com africanos e australianos atuais,
enquanto os ameríndios recentes se associam com asiáticos. |
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| Colonização
diversificada
O
Modelo dos Dois Componentes Biológicos principais defende
a hipótese de que duas populações biologicamente
distintas entraram nas Américas. A primeira (seta marrom),
caracterizada por uma morfologia generalizada, semelhante à
dos africanos e australianos atuais. Ela teria cruzado o Estreito
de Bering antes do aparecimento dos primeiros grupos de morfologia
mongolóide na Ásia. Após o surgimento dessa
morfologia que atualmente caracteriza a maior parte das populações
asiáticas, ocorreu uma nova expansão populacional
(seta vermelha) para dentro das Américas, também
via Estreito de Bering.
Calibração
de Datações Radiocarbônicas
A
datação radiocarbônica é calculada
de acordo com a porcentagem de carbono 14 radioativo (C14) presente
no material orgânico que está sendo datado, em relação
ao C14 presente na atmosfera. Como a meia-vida do C14 é
de 5.568 anos, pode-se obter uma estimativa da idade do material
testado a partira da porcentagem de C14 nele remanescente.
O
problema é que a quantidade de C14 atmosférico não
foi constante ao longo do tempo geológico, de forma que
isso pode alterar a porcentagem final de C14 remanescente em materiais
orgânicos de diferentes períodos. Para resolver o
problema, curvas de correção foram elaboradas para
ajustar as datas radiocarbônicas, baseadas em materiais
de idades conhecidas, como, por exemplo, séries de anéis
de crescimento de árvores (dendrocronologia).
Existem,
portanto, duas formas de expressar a idade de materiais datados
pelo método do C14: não calibrada e calibrada. Apenas
quando calibradas, as datações readiocarbônicas
correspondem ao calendário convencional em anos, tal como
conhecido por todos. Por uma série de razões que
dificultam o processo de calibração (entre elas
a falta de tabelas de correção confiáveis
para a América do Sul), existe uma recomendação
internacional para que datações sejam publicadas
em anos não calibrados. Infelizmente, essa prática
não tem sido seguida por alguns de nossos colegas na América
do Sul, tendo gerado confusão, até mesmo entre os
arqueólogos quando tentam comparar a cronologia de seus
sítios. Isso é especialmente válido para
materiais com mais de 8 mil anos, já que a correção
neste caso joga as idades para cima, envelhecendo o material consideravelmente.
No
presente artigo nenhuma datação foi calibrada conforme
recomendação internacional. No caso de Luzia, por
exemplo, a idade calibrada estaria entre 13 mil e 14 mil anos
atrás.
“Raças”
humanas vistas através da morfologia craniana
O
principal argumento para derrubar de vez a noção
de raças humanas foi construído nas últimas
três décadas, quando vários geneticistas trabalhando
de forma independente mostraram que há maior variabilidade
genética dentro de uma mesma população humana
que entre populações distintas. Em outras palavras,
existe uma grande chance de que, ao escolher um indivíduo
ao acaso, você não consiga dizer com certeza, por
seus genes, a qual população humana ele pertence.
A
alta variabilidade intrapopulacional também é claramente
observada na morfologia craniana. Em média, apenas 60 de
cada 100 crânios humanos seriam corretamente classificados
se comparados com amostras das populações às
quais pertencem. Assim,
pela mesma razão da biologia molecular, a análise
da morfologia craniana também sugere a ausência de
algo que poderíamos chamar de raças distintas na
espécie humana. Mas nem por isso existe homogeneidade morfológica
entre todas as populações humanas do planeta. Observam-se
tendências morfológicas específicas entre
elas. Essas tendência são bem observadas em um crânio
hipotético médio de cada população.
Ainda
que discretas, essas tendências permitem ao antropólogo
estabelecer quais populações são similares
entre si e quais são dissimilares. Os distintos graus de
similaridade morfológica nos permitem sugerir, com muita
prudência, relações de ancestralidade-descedência
entre populações, ou grupos de populações,
que corresponderiam a linhagens evolutivas específicas.
Ainda
que poucos crânios paleoíndios sejam conhecidos popularmente
(sendo Luzia o mais famoso deles), já contamos, hoje em
dia, com uma amostra de mais de 70 crânios paleoíndios
sul-americanos medidos. Isso nos permite avaliar a tendência
morfológica desse grupo em relação aos demais
grupos humanos que viveram e que vivem no planeta, diminuindo
o risco de se usar em indivíduos isolados para inferir
as afinidades biológicas dos primeiros americanos. Nesse
sentido, estamos numa posição bem mais confortável
que nossos colegas norte-americanos, uma vez que nos EUA não
existe mais que meia dúzia desses crânios.
A
descoberta de Luzia
Um
dos esqueletos mais antigos das Américas, senão
o mais antigo, Luzia tem sido, desde 1998, o ícone das
pesquisas de um dos autores (Walter Neves), por apresentar, junto
com pelo menos outros 70 crânios paleoíndios sul-americanos,
uma morfologia craniana distinta da das populações
indígenas atuais.
Sua
descoberta é um dos frutos da insistência e da perseverança
da Missão Arqueológica Franco-Brasileira, liderada
por Annete Lamming Emperaire. Entre 1974 e 1976 a Missão
Francesa escavou a Lapa Vermelha IV, localizada no município
de Pedro Leopoldo, Minas Gerais, descendo nada menos que 12 metros
antes de encontrar os primeiros fragmentos de uma mulher jovem,
que se consagraria mais tarde no meio científico como “Luzia”.
Luzia
não foi enterrada formalmente, sendo mais provável
que seu corpo tenha sido apenas depositado no fundo da fenda que
caracteriza a Lapa Vermelha IV. Como não foi enterrada,
seus ossos, após o apodrecimento dos tecidos moles que
os uniam, foram espalhados ao longo da superfície inclinada
na qual o corpo foi depositado, no fundo da lapa. Os ossos de
Luzia foram encontrados dispersos ao longo de um plano inclinado
entre os 10 e 11,5 metros de profundidade, à exceção
do crânio e alguns poucos fragmentos que rolaram para níveis
mais profundos, como pode ser observado no esquema abaixo, de
autoria do professor André Prous, assistente de Annete
Lamming Emperaire durante as escavações em Lapa
Vermelha.
Os
ossos de Luzia não conservaram o colágeno para permitir
a realização da datação radiocarbônica,
de modo que sua idade foi estimada de acordo com a posição
estratigráfica do plano inclinado no qual se encontravam.
Datações realizadas com materiais encontrados acima
e abaixo dos fragmentos ósseos sugerem idade entre 11.000
e 11.500 anos para luzia. Carvões encontrados perto do
crânio foram datados em mais de 12 mil anos, mas, essa parte
do esqueleto deslocou-se verticalmente para níveis mais
profundos, não podendo ser usada como marco cronológico
para o espécime.
Em
1999, um reconstituição facial d Luzia feita por
Richard Neave, da University of Manchester, Inglaterra, mostrou
de forma complementar e independente aos estudos morfométricos
realizados por um dos autores (Walter Neves), que Luzia apresentava
morfologia muito distinta daquela dos ameríndios atuais,
sendo mais semelhante aos aborígenes australianos e africanos.
Como explicado no texto, essa semelhança com australianos
e africanos atuais não significa, de forma alguma, que
os primeiros americanos tenham cindo da Austrália ou da
África.
Os
Princípios da Estatística Multivariada
Ao
longo da década de 80, o uso de estatística avançada
em vários ramos da ciência, inclusive antropologia,
foi impulsionado por computadores capazes de fazerem uma grande
quantidade de cálculos em questão de instantes.
A partir desse momento, as análises estatísticas
multivariadas puderam finalmente deixar de ser abstrações
teóricas e se tornaram uma ferramenta essencial para pesquisadores
interessados em analisar um grande número de variáveis
simultaneamente, como, por exemplo, quando se estuda a forma do
crânio humano que, normalmente, é expressa por mais
de 50 medidas diferentes.
A
análise de Componentes Principais, uma das técnicas
de estatística multivariada, cujos resultados vemos ao
lado, é uma das ferramentas quantitativas capaz de diminuir
a informação contida num grande número de
variáveis altamente correlacionadas em poucas dimensões
gráficas. Esses novos vetores, densos em informações
comprimidas a partir de muitas variáveis originais, são
denominados componentes principais.
Cada
componente principal expressa uma grande porcentagem da informação
contida em grupos específicos das variáveis originais.
Os gráficos ao lado foram construídos com base apenas
nos dois primeiros componentes principais de cada análise,
que são os que agregam a maior porcentagem de informação
contida nas medidas craniométricas fornecidas pelo antropólogo.
Em
gráficos assim construídos, pode-se inferir o grau
de similaridade entre as populações estudadas simplesmente
através da observação visual da posição
relativa que elas ocupam no espaço definido pelas duas
dimensões (eixo X e Y). Quanto maior a proximidade no gráfico,
mais similares morfológicamente são duas populações
humanas, e vice-versa.
OS
AUTORES
Walter Alves Neves é doutor em ciências pela Universidade
de São Paulo (USP), especialista em antropologia evolutiva,
coordenador do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos
(Ibusp) do Departamento de Biologia do Instituto de Biociência
da USP e bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico (CNPq).
Mark
Oliver Rohrig Hubbe é mestrando pelo Programa de Biologia/Genética
do Departamento de Biologia do Instituto de Biociências
da Universidade de São Paulo (USP), desenvolvendo suas
atividades de pesquisa no Laboratório de Estudos Evolutivos
Humanos (Ibusp). |
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