Selecionamos
alguns trechos do capítulo I e III de O Estado e a
Revolução de Lenin como contribuição ao debate sobre
o que é o Estado e a Revolução, principalmente neste momento
eleitoral em que se verifica enorme falsificação do marxismo
para sustentar a mentira de que eleição constitui instrumento de
transformação. Iniciando este debate teórico, as citações abaixo
explicitam que o marxismo sustenta que a Revolução, a
transformação da sociedade, só é possível mediante a "destruição
da máquina do Estado".
"Decidir periodicamente, para um
certo número de anos, qual o membro da classe dominante que há
de oprimir e esmagar o povo no parlamento, eis a própria
essência do parlamentarismo burguês, não somente nas monarquias
parlamentares constitucionais, como também nas repúblicas mais
democráticas" (Lenin, O Estado e a Revolução)
Cap. I
1. O Estado É um Produto do
Antagonismo Inconciliável das Classes
Resumindo a sua análise histórica,
diz Engels:
"O Estado não é, de forma alguma,
uma força imposta, do exterior, à sociedade. Não é, tampouco, "a
realidade da Idéia moral", "a imagem e a realidade da Razão"
como pretende Hegel. É um produto da sociedade numa certa fase
do seu desenvolvimento. É a confissão de que essa sociedade se
embaraçou numa insolúvel contradição interna, se dividiu em
antagonismos inconciliáveis de que não pode desvencilhar-se.
Mas, para que essas classes antagônicas, com interesses
econômicos contrários, não se entre devorassem e não devorassem
a sociedade numa luta estéril, sentiu-se a necessidade de uma
força que se colocasse aparentemente acima da sociedade, com o
fim de atenuar o conflito nos limites da "ordem". Essa força,
que sai da sociedade, ficando, porém, por cima dela e dela se
afastando cada vez mais, é o Estado".
Eis, expressa com toda a clareza, a idéia fundamental do
marxismo no que concerne ao papel histórico e à significação do
Estado. O Estado é o produto e a manifestação do antagonismo
inconciliável das classes. O Estado aparece onde e na medida em
que os antagonismos de classes não podem objetivamente ser
conciliados. E, reciprocamente, a existência do Estado prova que
as contradições de classes são inconciliável das classes.
(...)
É precisamente sobre esse ponto de importância capital e
fundamental que começa a deformação do marxismo, seguindo duas
linhas principais.
De um lado, os ideólogos burgueses e, sobretudo, os da pequena
burguesia, obrigados, sob a pressão de fatos históricos
incontestáveis, a reconhecer que o estado não existe senão onde
existem as contradições e a luta de classes, "corrigem" Marx de
maneira a fazê-lo dizer que o Estado é o órgão da conciliação
das classes. Para Marx, o Estado não poderia surgir nem
subsistir se a conciliação das classes fosse possível. Para os
professores e publicistas burgueses e para os filisteus despidos
de escrúpulos, resulta, ao contrário, de citações complacentes
de Marx, semeadas em profusão, que o Estado é um instrumento de
conciliação das classes. Para Marx, o Estado é um órgão de
dominação de classe, um órgão de submisso de uma classe por
outra; é a criação de uma "ordem" que legalize e consolide essa
submissão, amortecendo a colisão das classes. Para os políticos
da pequena burguesia, ao contrário, a ordem é precisamente a
conciliação das classes e não a submissão de uma classe por
outra; atenuar a colisão significa conciliar, e não arrancar às
classes oprimidas os meios e processos de luta contra os
opressores a cuja derrocada elas aspiram.
(...)
3. O Estado, Instrumento de Exploração da Classe Oprimida
Como o Estado nasceu da necessidade de refrear os antagonismos
de classes, no próprio conflito dessas classes, resulta, em
princípio, que o Estado é sempre o Estado da classe mais
poderosa, da classe economicamente dominante que, também graças
a ele, se toma a classe politicamente dominante e adquire,
assim, novos meios de oprimir e explorar a classe dominada.
(...)
"Na República democrática" - continua Engels - "a riqueza
utiliza-se do seu poder indiretamente, mas com maior segurança",
primeiro pela "corrupção pura e simples dos funcionários"
(América), depois pela "aliança entre o Governo e a Bolsa"
(França e América).
(...)
É preciso notar ainda, que Engels definiu o sufrágio universal
de uma forma categórica: um instrumento de dominação da
burguesia. O sufrágio universal, diz ele, considerando,
manifestamente, a longa experiência da social-democracia alemã,
é o indício da maturidade da classe operária. Nunca mais pode
dar e nunca dará nada no Estado atual.
Os democratas pequeno-burgueses, do gênero dos nossos
socialistas-revolucionários e mencheviques, e os seus irmãos, os
social-patriotas e oportunistas da Europa ocidental, esperam,
precisamente, "mais alguma coisa" do sufrágio universal.
Partilham e fazem o povo partilhar da falsa concepção de que o
sufrágio universal, "no Estado atual", é capaz de manifestar
verdadeiramente e impor a vontade da maioria dos trabalhadores.
(grifo nosso)
Não podemos senão notar aqui essa falsa concepção e salientar
que a declaração clara, precisa e concreta de Engels é
desvirtuada a cada passo na propaganda e na agitação dos
partidos socialistas "oficiais", isto é, oportunistas.
Demonstraremos mais amplamente toda a falsidade da idéia que
Engels aqui repudia, desenvolvendo mais adiante as teorias de
Marx e Engels sobre o Estado "atual".
(...)
Cap. III
1. Onde Reside o Heroísmo da Tentativa dos Comunardos
A única "correção" que Marx julgou necessário introduzir no
Manifesto Comunista, ele a fez, segundo a experiência
revolucionária dos comunardos de Paris. O último prefácio do
Manifesto Comunista, assinado conjuntamente pelos dois autores,
data de 24 de junho de 1872. Karl Marx e Friedrich Engels dizem
ali que o programa do Manifesto "está hoje envelhecido em alguns
pontos".
A Comuna, especialmente, demonstrou que "não basta a classe
operária apoderar-se da máquina do Estado para adaptá-la aos
seus próprios fins."
(...)
É bastante característico que seja justamente essa modificação
essencial o que os oportunistas deturpam, a tal ponto que sem
dúvida os nove décimos, se não os noventa e nove centésimos dos
leitores do Manifesto, não perceberam seu alcance. Desta
deformação falaremos num dos capítulos seguintes, consagrado
especialmente às deformações. Aqui, bastará salientar a
"interpretação" corrente, vulgar, da famosa fórmula de Marx por
nós citada, segundo a qual a idéia acentuada por Marx seria a do
desenvolvimento lento em oposição à conquista do poder, etc.
Na realidade, é justamente o contrário. A idéia de Marx é que a
classe operária deve quebrar, destruir a "máquina do Estado",
não se limitando apenas a assenhorear-se dela.
Em 12 de abril de 1871, isto é, precisamente durante a Comuna,
Marx escrevia a Kugelmann:
"Reli o último capítulo do meu 18 de Brumário. Afirmo que a
revolução em França deve tentar, antes de tudo, não passar para
outras mãos a máquina burocrática e militar - como se tem feito
até aqui - mas quebrá-la (zerbrechen: a palavra é grifada
por Marx no original). Eis a condição preliminar para qualquer
revolução popular do continente. Eis também o que tentaram os
nossos heróicos camaradas de Paris (Neue Zeit, XX, 1,
19011902, p. 709)(6)".
Essas palavras - "quebrar a máquina burocrática e militar do
Estado" - condensam a grande lição do marxismo a propósito do
papel do proletariado revolucionário com relação ao Estado. E é
precisamente esta lição que se esquece completamente e que a
"interpretação" dominante do marxismo, obra de Kautsky, deturpa
completamente!
(...)
...Atualmente, tanto na Inglaterra como na América, "a condição
prévia para uma revolução verdadeiramente popular" é igualmente
a desmontagem, a destruição da "máquina do Estado" (levada, de
1914 a 1917, a uma perfeição européia, imperialista).
Em segundo lugar, o que merece uma atenção especial é essa
profunda observação de Marx de que a destruição da máquina
burocrática e militar do Estado é a "condição prévia de qualquer
revolução verdadeiramente popular". Essa expressão - "revolução
popular" - parece surpreendente na boca de Marx, e os adeptos de
Plekhanov na Rússia, assim como os mencheviques, esses
discípulos de Struve, desejosos de passar por marxistas,
poderiam torná-la por um "engano". Reduziram o marxismo a uma
doutrina tão mesquinhamente liberal que, afora a antítese -
revolução burguesa e revolução proletária - nada existe para
eles, e, ainda assim, só concebem essa antítese como uma coisa
já morta.
(...)
Em nenhum dos países da Europa continental de 1871, a maioria do
povo era constituída pelo proletariado. A revolução capaz de
arrastar a maioria do movimento só poderia ser "popular" com a
condição de englobar o proletariado e os camponeses, Essas duas
classes constituíam, então, "o povo". Essas duas classes são
solidárias, visto que a "máquina burocrática e militar do
Estado" as oprime, as esmaga e as explora. Quebrar essa máquina,
demoli-la, tal é o objetivo prático do "povo", da sua maioria,
dos operários e dos camponeses; tal é a "condição prévia" da
aliança livre dos camponeses mais pobres e do proletariado. Sem
essa aliança, não há democracia sólida nem transformação social
possível.