Friedrich Engels
V. I. Lénine
1895
A tradução está com português de Portugal
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Escrito:
no Outono de 1895.
- Primeira edição:
em 1896, na compilação
Rabótnik n.º
1 e 2.
Fonte: Obras Escolhidas em Três Tomos, 1977, Edições
Avante! - Lisboa, Edições Progresso - Moscovo
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Tradução:
Edições "Avante!" com base nas
Obras Completas
de V. I. Lénine, 5.ª
ed. em russo, t. 2, pp. 1-14.
- Transcrição e HTML:
Fernando A. S. Araújo,
junho 2006
- Direitos de Reprodução:
© Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por
Editorial "Avante!" - Edições Progresso Lisboa - Moscovo,
1977.
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Que chama do espírito se apagou,
Que coração deixou de bater![N56]
Friedrich Engels faleceu em Londres a 5 de Agosto (24 de
Julho) de 1895. A seguir ao seu amigo Karl Marx (que morreu em
1883), Engels foi o mais notável sábio e mestre do proletariado
contemporâneo em todo o mundo civilizado. Desde o dia em que o
destino juntou Karl Marx e Friedrich Engels, a obra a que os
dois amigos consagraram toda a sua vida converteu-se numa obra
comum. Assim, para compreender o que Friedrich Engels fez pelo
proletariado, é necessário ter-se uma ideia precisa do papel
desempenhado pela doutrina e actividade de Marx no
desenvolvimento do movimento operário contemporâneo. Marx e
Engels foram os primeiros a demonstrar que a classe operária e
as suas reivindicações são um produto necessário do regime
económico actual que, juntamente com a burguesia, cria e
organiza inevitavelmente o proletariado; demonstraram que não
são as tentativas bem intencionadas dos homens de coração
generoso que libertarão a humanidade dos males que hoje a
esmagam, mas a luta de classe do proletariado organizado. Marx e
Engels foram os primeiros a explicar, nas suas obras
científicas, que o socialismo não é uma invenção de sonhadores,
mas o objectivo final e o resultado necessário do
desenvolvimento das forças produtivas da sociedade actual. Toda
a história escrita até aos nossos dias é a história da luta de
classes, a sucessão no domínio e nas vitórias de umas classes
sociais sobre outras. E este estado de coisas continuará
enquanto não tiverem desaparecido as bases da luta de classes e
do domínio de classe: a propriedade privada e a produção social
anárquica. Os interesses do proletariado exigem a destruição
destas bases, contra as quais deve, pois, ser orientada a luta
de classe consciente dos operários organizados. E toda a luta de
classe é uma luta política.
Todo o proletariado que luta pela sua emancipação tornou
hoje suas estas concepções de Marx e Engels; mas nos anos 40,
quando os dois amigos começaram a colaborar em publicações
socialistas e a participar nos movimentos sociais da sua época,
eram inteiramente novas. Então, eram numerosos os homens de
talento e outros sem talento, honestos ou desonestos, que, no
ardor da luta pela liberdade política, contra a arbitrariedade
dos reis, da polícia e do clero, não viam a oposição dos
interesses da burguesia e do proletariado. Não admitiam sequer a
ideia de os operários poderem agir como força social
independente. Por outro lado, um bom número de sonhadores,
algumas vezes geniais, pensavam que seria suficiente convencer
os governantes e as classes dominantes da iniquidade da ordem
social existente para que se tornasse fácil fazer reinar sobre a
terra a paz e a prosperidade universais. Sonhavam com um
socialismo sem luta. Finalmente, a maior parte dos socialistas
de então e, de um modo geral, os amigos da classe operária, não
viam no proletariado senão uma chaga a cujo crescimento
assistiam com horror à medida que a indústria se desenvolvia.
Por isso todos procuravam o modo de parar o desenvolvimento da
indústria e do proletariado, parar a «roda da história».
Contrariamente ao temor geral ante o desenvolvimento do
proletariado, Marx e Engels punham todas as suas esperanças no
contínuo crescimento numérico deste. Quanto mais proletários
houvesse, e maior fosse a sua força como classe revolucionária,
mais próximo e possível estaria o socialismo. Pode exprimir-se
em poucas palavras os serviços prestados por Marx e Engels à
classe operária dizendo que eles a ensinaram a conhecer-se e a
tomar consciência de si mesma, e que substituíram os sonhos pela
ciência.
É por isso que o nome e a vida de Engels devem ser
conhecidos por todos os operários; é por isso que, na nossa
compilação, cujo fim, como o de todas as nossas publicações, é
acordar a consciência de classe dos operários russos, devemos
dar um apanhado da vida e da actividade de Friedrich Engels, um
dos dois grandes mestres do proletariado contemporâneo.
Engels nasceu em 1820 em Barmen, na província renana do
reino da Prússia. O pai era um fabricante. Em 1838, Engels teve
de abandonar por motivos familiares os estudos no liceu e de
entrar como empregado numa casa de comércio de Bremen. Este
trabalho não o impediu de completar a sua instrução científica e
política. Foi desde o liceu que ele ganhou ódio ao absolutismo e
à arbitrariedade da burocracia. Os seus estudos de filosofia
levaram-no ainda mais longe. Predominava então na filosofia
alemã a doutrina de Hegel, e Engels tornou-se seu discípulo.
Embora Hegel fosse, por seu lado, um admirador do Estado
prussiano absolutista, ao serviço do qual se encontrava na
qualidade de professor na Universidade de Berlim, a sua doutrina
era revolucionária. A fé de Hegel na razão humana e nos seus
direitos e o princípio fundamental da filosofia hegeliana
segundo o qual o mundo é teatro de um processo permanente de
mudança e desenvolvimento conduziram os discípulos do filósofo
berlinense, que não queriam acomodar-se à realidade, à ideia de
que a luta contra a realidade, a luta contra a iniquidade
existente e o mal reinante, também procede da lei universal do
desenvolvimento perpétuo. Se tudo se desenvolve, se certas
instituições são substituídas por outras, porque é que o
absolutismo do rei da Prússia ou do tsar da Rússia, o
enriquecimento de uma ínfima minoria à custa da imensa maioria,
o domínio da burguesia sobre o povo, hão-de perdurar
eternamente? A filosofia de Hegel tratava do desenvolvimento do
espírito e das ideias; era idealista. Do desenvolvimento do
espírito a filosofia de Hegel deduzia o desenvolvimento da
natureza, do homem e das relações entre os homens no seio da
sociedade. Retomando a ideia hegeliana de um processo perpétuo
de desenvolvimento(1), Marx e Engels rejeitaram a sua
preconcebida concepção idealista; analisando a vida real, viram
que não é o desenvolvimento do espírito que explica o da
natureza, mas que, pelo contrário, é necessário explicar o
espírito a partir da natureza, da matéria... Contrariamente a
Hegel e outros hegelianos, Marx e Engels eram materialistas.
Partindo de uma concepção materialista do mundo e da humanidade,
verificaram que, tal como todos os fenómenos da natureza têm
causas materiais, igualmente o desenvolvimento da sociedade
humana é condicionado pelo desenvolvimento de forças materiais,
as forças produtivas. Do desenvolvimento das forças produtivas
dependem as relações que se estabelecem entre os homens no
processo de produção dos objectos necessários à satisfação das
necessidades humanas. E são estas relações que explicam todos os
fenómenos da vida social, as aspirações do homem, as suas ideias
e as suas leis. O desenvolvimento das forças produtivas cria
relações sociais que se baseiam na propriedade privada; mas
vemos hoje esse mesmo desenvolvimento das forças produtivas
privar a maioria dos homens de toda a propriedade e concentrar
esta nas mãos de uma ínfima minoria; ele destrói a propriedade,
base da ordem social contemporânea, e tende ele próprio para o
objectivo que se fixaram os socialistas. Estes últimos devem
apenas compreender qual é a força social que, pela sua situação
na sociedade actual, está interessada na realização do
socialismo, e incutir nesta força a consciência dos seus
interesses e da sua missão histórica. Esta força é o
proletariado. Engels conheceu-o na Inglaterra, em Manchester,
centro da indústria inglesa, onde se fixou em 1842 como
empregado de uma firma comercial de que seu pai era um dos
accionistas. Aí Engels não se limitou a permanecer no escritório
da fábrica: percorreu os bairros sórdidos em que viviam os
operários e viu com os seus próprios olhos a miséria e os males
que os afligiam. Não se limitando à sua observação pessoal,
Engels leu tudo o que antes dele se tinha escrito sobre a
situação da classe operária inglesa e estudou minuciosamente
todos os documentos oficiais que pôde consultar. O resultado dos
seus estudos e observações foi um livro que saiu em 1845: A
Situação da Classe Operária em Inglaterra. Já atrás assinalámos
o principal mérito de Engels como autor dessa obra. É certo que
antes dele muitos tinham descrito os sofrimentos do proletariado
e indicado a necessidade de lhe prestar ajuda. Engels foi o
primeiro a declarar que o proletariado não é só uma classe que
sofre, mas que a miserável situação económica em que se encontra
empurra-o irresistivelmente para a frente e obriga-o a lutar
pela sua emancipação definitiva. E o proletariado em luta
ajudar-se-á a si mesmo. O movimento político da classe operária
levará, inevitavelmente, os operários à consciência de que não
há para eles outra saída senão o socialismo. Por seu lado, o
socialismo só será uma força quando se tornar o objectivo da
luta política da classe operária. Tais são as ideias
fundamentais do livro de Engels sobre a situação da classe
operária em Inglaterra, ideias hoje aceites por todo o
proletariado que pensa e luta, mas que eram então absolutamente
novas. Estas ideias foram expostas numa obra escrita num estilo
cativante onde abundam os quadros mais verídicos e
impressionantes da miséria do proletariado inglês. Este livro
era uma terrível acusação contra o capitalismo e a burguesia.
Produziu uma impressão muito grande. Em breve, por toda a parte
começaram a referir-se a ele como o quadro mais fiel da situação
do proletariado contemporâneo. E, com efeito, nem antes nem
depois de 1845 apareceu uma descrição tão brilhante e tão
verdadeira dos males sofridos pela classe operária.
Engels só se tornou socialista em Inglaterra. Em Manchester
pôs-se em contacto com os militantes do movimento operário
inglês de então e começou a escrever para as publicações
socialistas inglesas. Em 1844, ao passar por Paris de regresso à
Alemanha conheceu Marx, com quem se correspondia já há algum
tempo, e que se tinha igualmente tornado socialista durante a
sua estada em Paris, sob a influência dos socialistas franceses
e da vida em França. Foi aí que os dois amigos escreveram em
conjunto A Sagrada Família ou Crítica da «Crítica Crítica». Este
livro, escrito na sua maior parte por Marx, e saído um ano antes
de A Situação da Classe Operária em Inglaterra, contém as bases
do socialismo materialista revolucionário de que atrás expusemos
as ideias essenciais. A Sagrada Família é uma denominação jocosa
dada a dois filósofos, os irmãos Bauer, e aos seus discípulos.
Estes senhores pregavam uma crítica que se colocava acima de
toda a realidade, acima dos partidos e da política, repudiava
toda a actividade prática e limitava-se a contemplar
«criticamente» o mundo circundante e os acontecimentos que nele
se produziam. Os senhores Bauer qualificavam desdenhosamente o
proletariado de massa desprovida de espírito crítico. Marx e
Engels opuseram-se categoricamente a esta tendência absurda e
nefasta. Em nome da verdadeira personalidade humana, do operário
espezinhado pelas classes dominantes e pelo Estado, Marx e
Engels exigiam não uma atitude contemplativa, mas a luta por uma
melhor ordem social. Era, evidentemente, no proletariado que
eles viam a força capaz de travar esta luta e directamente
interessada em fazê-la triunfar. Já antes do aparecimento de A
Sagrada Família, Engels tinha publicado na revista Anais
Franco-Alemães editada por Marx e Ruge o seu Estudo Crítico
sobre a Economia Política[N58] em que analisava, de um ponto de
vista socialista, os fenómenos essenciais do regime económico
contemporâneo como consequências inevitáveis da dominação da
propriedade privada. As suas relações com Engels contribuíram
incontestavelmente para que Marx se decidisse a ocupar-se do
estudo da economia política, ciência em que os seus trabalhos
iriam operar uma verdadeira revolução.
De 1845 a 1847 Engels viveu em Bruxelas e em Paris, aliando
os estudos científicos com uma actividade prática entre os
operários alemães destas duas cidades. Foi aí que Marx e Engels
entraram em contacto com uma associação secreta alemã, «Liga dos
Comunistas», que os encarregou de expor os princípios
fundamentais do socialismo elaborado por eles. Assim nasceu o
célebre Manifesto do Partido Comunista de Marx c Engels,
publicado em 1848. Este pequeno livrinho vale por tomos
inteiros: ele inspira e anima até hoje todo o proletariado
organizado e combatente do mundo civilizado.
A revolução de 1848, que rebentou primeiro em França e se
propagou em seguida aos outros países da Europa ocidental,
permitiu a Marx e Engels regressarem à sua pátria. Aí, na
Prússia renana, tomaram a direcção da Nova Gazeta Renana, jornal
democrático que se publicava em Colónia. Os dois amigos eram a
alma de todas as tendências democráticas revolucionárias da
Prússia renana. Defenderam até ao fim os interesses do povo e da
liberdade contra as forças da reacção. Estas últimas, como é
sabido, acabaram por triunfar. A Nova Gazeta Renana foi
proibida. Marx, que enquanto se encontrava na emigração tinha
sido privado da nacionalidade prussiana, foi expulso. Quanto a
Engels, tomou parte na insurreição armada do povo e combateu em
três batalhas pela liberdade, e, após a derrota dos insurrectos,
fugiu para Londres através da Suíça.
Foi igualmente em Londres que Marx veio fixar-se. Engels em
breve voltou a ser empregado, e mais tarde sócio, da mesma casa
comercial de Manchester onde tinha trabalhado nos anos 40. Até
1870 Engels viveu em Manchester e Marx em Londres, o que não os
impediu de estar em estreito contacto espiritual; escreviam-se
quase todos os dias. Nessa correspondência, os dois amigos
trocavam as suas ideias e os seus conhecimentos, e continuaram a
elaborar em conjunto a doutrina do socialismo científico. Em
1870, Engels veio fixar-se em Londres, e a sua vida intelectual
conjunta, cheia de uma actividade intensa, prosseguiu até 1883,
data da morte de Marx. Esta colaboração foi extremamente
fecunda: Marx escreveu O Capital, a mais grandiosa obra de
economia política do nosso século, e Engels toda uma série de
trabalhos, grandes e pequenos. Marx dedicou-se à análise dos
fenómenos complexos da economia capitalista. Engels escreveu,
num estilo simples, obras muitas vezes polémicas em que
esclarecia os problemas científicos mais gerais e os diversos
fenómenos do passado e do presente, inspirando-se na concepção
materialista da história e na teoria económica de Marx. Dentre
esses trabalhos de Engels citaremos: a sua obra polémica contra
Dühring (onde analisa as questões capitais da filosofia, assim
como das ciências naturais e sociais)(2), A Origem da Família,
da Propriedade Privada e do Estado (tradução russa saída em São
Petersburgo, 3.a edição, 1895), Ludwig Feuerbach (tradução russa
anotada por G. Plekhánov, Genebra, 1892), um artigo sobre a
política externa do governo russo (traduzido em russo no
Sotsial-Demokrat de Genebra, n.° 1 e 2)[N61], notáveis artigos
sobre o problema da habitação[N62], e, finalmente, dois artigos,
curtos mas de grande interesse, sobre o desenvolvimento
económico da Rússia (Friedrich Engels sobre a Rússia[N63],
tradução russa de Vera Zassúlitch, Genebra, 1894). Marx morreu
sem ter conseguido completar a sua obra monumental sobre o
capital. Contudo esta obra estava já terminada em rascunho e
Engels, após a morte do amigo, assumiu a pesada tarefa de
redigir e publicar os tomos II e III de O Capital. Editou o tomo
II em 1885 e o tomo III em 1894 (não teve tempo de redigir o
tomo IV) [N64]. Estes dois tomos exigiram um trabalho enorme da
sua parte. O social-democrata austríaco Adler observou muito
justamente que, editando os tomos II e III de O Capital, Engels
ergueu ao seu genial amigo um grandioso monumento no qual,
involuntariamente, tinha gravado também o seu próprio nome em
letras indeléveis. Estes dois tomos de O Capital são, com
efeito, obra de ambos, de Marx e Engels. As lendas da
Antiguidade contam exemplos comoventes de amizade. O
proletariado da Europa pode dizer que a sua ciência foi criada
por dois sábios, dois lutadores, cuja amizade ultrapassa tudo o
que de mais comovente oferecem as lendas dos antigos. Engels, em
geral com toda a razão, sempre se apagou diante de Marx. «Ao
lado de Marx, escreveu ele a um velho amigo, fui sempre o
segundo violino.»[N65] O seu carinho por Marx enquanto este
viveu e a sua veneração à memória do amigo morto foram
ilimitados. Este militante austero e pensador rigoroso tinha uma
alma profundamente afectuosa.
Durante o seu exílio, depois do movimento de 1848-1849, Marx
e Engels não se dedicaram unicamente ao trabalho científico.
Marx fundou em 1864 a "Associação Internacional dos
Trabalhadores», de que assegurou a direcção durante dez anos.
Engels desempenhou nela, igualmente, um papel considerável. A
actividade da «Associação Internacional», que unia, de acordo
com os ideais de Marx, os proletários de todos os países, teve
uma enorme importância no desenvolvimento do movimento operário.
Mesmo após a sua dissolução, nos anos 70, continuou o papel de
Marx e Engels como unificadores da classe operária. Melhor: pode
dizer-se que a sua importância como dirigentes espirituais do
movimento operário não cessou de crescer, pois o próprio
movimento se desenvolvia sem parar. Após a morte de Marx, Engels,
sozinho, continuou a ser o conselheiro e o dirigente dos
socialistas da Europa. A ele vinham pedir conselhos e indicações
tanto os socialistas alemães, cuja força crescia contínua e
rapidamente apesar das perseguições governamentais, como os
representantes dos países atrasados, por exemplo, os espanhóis,
romenos, russos, que meditavam e mediam então os seus primeiros
passos. Todos eles corriam ao riquíssimo tesouro dos
conhecimentos e experiência do velho Engels.
Marx e Engels, que conheciam o russo e liam obras publicadas
nessa língua, interessaram-se vivamente pela Rússia, seguiam com
simpatia o movimento revolucionário do nosso país e mantinham
relações com os revolucionários russos. Ambos eram já democratas
antes de se tornarem socialistas e tinham profundamente
arraigado o sentimento democrático de ódio à arbitrariedade
política. Este sentimento político nato, aliado a uma profunda
compreensão teórica da relação existente entre a arbitrariedade
política e a opressão económica, assim como a sua riquíssima
experiência da vida, tinham tornado Marx e Engels
extraordinariamente sensíveis precisamente no sentido político.
Por isso a luta heróica de um pequeno punhado de revolucionários
russos contra o poderoso governo tsarista encontrou a mais viva
simpatia no coração dos dois experimentados revolucionários.
Inversamente, toda a veleidade de voltar as costas, em nome de
pretensas vantagens económicas, à tarefa mais importante e mais
imediata dos socialistas russos — a conquista da liberdade
política — parecia-lhes naturalmente suspeita, vendo mesmo nisso
uma traição à grande causa da revolução social. «A emancipação
do proletariado deve ser obra do próprio proletariado», eis o
que ensinavam constantemente Marx e Engels[N66]. E para lutar
pela sua emancipação económica, o proletariado deve conquistar
certos direitos políticos. Além disso, Marx e Engels viram com
toda a clareza que uma revolução política na Rússia teria também
uma enorme importância para o movimento operário na Europa
ocidental. A Rússia autocrática foi sempre o baluarte de toda a
reacção europeia. A situação internacional excepcionalmente
favorável em que a Rússia se encontrou depois da guerra de 1870,
que semeou durante muito tempo a discórdia entre a França e a
Alemanha, não podia evidentemente deixar de fazer aumentar a
importância da Rússia autocrática como força reaccionária. Só
uma Rússia livre, que não tivesse necessidade de oprimir os
Polacos, os Finlandeses, os Alemães, os Arménios e outros
pequenos povos, nem de lançar, incessantemente, a França e a
Alemanha uma contra a outra, permitiria à Europa contemporânea
respirar aliviada do peso das guerras, enfraqueceria todos os
elementos reaccionários da Europa e aumentaria as forças da
classe operária europeia. Por isso mesmo Engels advogou
calorosamente a instauração da liberdade política na Rússia no
próprio interesse do movimento operário do Ocidente. Os
revolucionários russos perderam nele o seu melhor amigo.
A memória de Friedrich Engels, grande combatente e mestre do
proletariado, viverá eternamente!
Notas de rodapé:
(1) Marx e Engels declararam várias vezes
que, em grande medida, o seu desenvolvimento intelectual era
devido aos grandes filósofos alemães, e designadamente a Hegel.
"Sem a filosofia alemã - declara Engels - o socialismo
científico nem sequer existiria."[N57]
(2) É um livro notavelmente rico de
conteúdo e altamente instrutivo[N59]. Lamentavelmente, apenas
foi traduzida em russo uma pequena parte, a que contém a
história do desenvolvimento do socialismo (Do Socialismo Utópico
ao Socialismo Científico, 2." ed.. Genebra, 1892[N60].
Notas de fim de Tomo:
[N56] Os versos em epígrafe foram extraídos
por Lénine do poema de N. Nekrássov À Memória de Dobroliúbov.
[N57] F. Engels, Prefácio a A Guerra
Camponesa na Alemanha.
[N58] Trata-se da obra de F. Engels Esboços
para a Crítica da Economia Política.
[N59] Trata-se do livro de F. Engels
Anti-Dühring. O Senhor Eugen Dühring Revoluciona a Ciência.
[N60] Com este título foi publicada em 1892
a edição russa da obra de F. Engels Do Socialismo Utópico ao
Socialismo Científico. Esta edição era composta por três
capítulos do Anti-Dühring.
[N61] Lénine refere-se ao artigo de F.
Engels A Política Externa do Tsarismo Russo, publicado nos dois
primeiros fascículos daSotsial-Demokrat com o título A Política
Estrangeira do Império Russo.
Sotsial-Demokrat: revista política e
literária editada no estrangeiro (Londres e Genebra) de 1890 a
1892 pelo grupo «Emancipação do Trabalho». Desempenhou um grande
papel na difusão das ideias do marxismo na Rússia; no total
saíram quatro cadernos. Colaboraram activamente na
Sotsial-Demokrat G. Plekhánov, P. Axelrod e V. Zassúlitch.
[N62] Lénine refere-se aos artigos de F.
Engels Sobre a Questão da Habitação. [N63] Trata-se do artigo de
F. Engels Sobre as Relações Sociais na Rússia e do epílogo deste
artigo, incluídos no livro Friedrich Engels sobre a Rússia,
Genebra, 1894.
[N64] Lénine, de acordo com a indicação de
Engels, assinala como t. IV de O Capital a obra de Marx Teorias
da Mais-Valia, escrita em 1862-1863. No seu prefácio ao t. II de
O Capital, Engels escreveu: «Reservo-me a publicação da parte
crítica deste manuscrito [Teorias da Mais-Valia. - N. Ed.] como
t. IV de O Capital; além disso, dela eliminar-se-ão numerosas
passagens que foram tratadas exaustivamente nos tomos II e III.»
No entanto, Engels não pôde preparar a edição do t. IV de O
Capital. A referida obra foi publicada pela primeira vez sob a
redacção de K. Kautsky em 1905-1910, em língua alemã. Esta
edição não respeitou as exigências fundamentais da publicação
científica do texto e foram adulteradas diversas teses do
marxismo.
O Instituto de Marxismo-Leninismo adjunto
ao CC do PCUS fez uma nova edição da obra Teorias da Mais-Valia
(t. IV de O Capital) em três volumes, segundo o manuscrito de
1862-1863.
[N65] Trata-se da carta de F. Engels a J.
F. Becker de 15 de Outubro de 1884.
[N66] Ver K. Marx, Estatutos Provisórios da
Associação dos Trabalhadores, Estatutos Gerais da Associação
Internacional dos Trabalhadores; F. Engels, Prefácio à edição
alemã de 1890 do Manifesto do Partido Comunista.