Algumas
semanas atrás publicamos um artigo que relatava trechos de uma
carta de Einstein, datada de 1954, recém leiloada em Londres,
onde o cientista expressava sua concepção sobre religião, o povo
judeu, mostrando uma profunda afinidade com a concepção
materialista do mundo. Publicamos esse texto que demonstra que o
cientista que desenvolveu a teria da relatividade, restrita e
geral, da teoria do efeito fotoelétrico, do movimento browniano,
dentre outras importantes descobertas era também um entusiasta
do socialismo.
Movimento Estudantil Popular Revolucionário
Por que Socialismo?¹
Albert Einstein
Maio 1949
Retirado de www.marxists.org
É aconselhável que alguém que não
é um especialista em assuntos econômicos e sociais expresse suas
opiniões acerca do tema do socialismo? Creio, por uma quantidade
de razões, que sim.
Consideramos primeiramente a
questão desde o ponto de vista do conhecimento científico.
Poderia parecer que não há diferenças metodológicas essenciais
entre a astronomia e a economia: os cientistas de ambos os
campos tentam descobrir leis de aceitabilidade geral para um
grupo circunscrito de fenômenos com o objetivo de fazer a
interconexão destes fenômenos tão claro quanto for possível. Mas
na realidade tais diferenças existem. O descobrimento de leis
gerais em economia se complica pela circunstância de que os
fenômenos econômicos observados são freqüentemente influenciados
por muitos fatores que são muito difíceis de avaliar
separadamente. Além disso, a experiência que se acumulou desde o
princípio do chamado período civilizado da história humana tem
sido — como é sabido — grandemente influenciada e limitada por
causas cuja natureza não são de nenhum modo exclusivamente
econômicas. Por exemplo, a maior parte dos Estados na história
devem sua existência à conquista. Os povos conquistadores se
estabeleceram, legal e economicamente, como a classe
privilegiada do país conquistado. Atribuíram-se o monopólio da
posse da terra e designaram para o sacerdócio alguém de suas
fileiras. Os sacerdotes, com o controle da educação, fizeram da
divisão de classes da sociedade uma instituição permanente e
criaram um sistema de valores mediante o qual dali em diante o
povo foi, em grande medida inconscientemente, guiado em sua
conduta social.
Mas a tradição histórica é, por
assim dizer, de ontem; em nenhuma parte temos realmente superado
o que
Thorstein Veblen
chamou de “a fase depredadora” do desenvolvimento humano. Os
feitos econômicos observáveis pertencem a esta fase e suas leis
não são aplicáveis a outras fases. [Primeiro] Dado que o
propósito real do socialismo é superar e avançar além da fase
depredadora do desenvolvimento humano, a ciência econômica em
seu estado atual não pode deixar muita luz sobre a sociedade
socialista do futuro.
Segundo, o socialismo está
dirigido para um fim social-ético. A ciência, sem embargo, não
pode criar fins nem, ao menos, induzí-los nos seres humanos. Mas
os fins em si mesmos são concebidos por personalidades com
elevados ideais éticos — estes propósitos não são rígidos senão
vitais e vigorosos — são adotados e levados adiante por aqueles
muitos seres humanos que — quase inconscientemente — determinam
a lenta evolução da sociedade.
Por estas razões, deveríamos estar
atentos a não sobrestimar a ciência e os métodos científicos
quando se trata de problemas humanos, e não deveríamos assumir
que os especialistas são os únicos que têm direito e
expressar-se sobre as questões da organização da sociedade.
Inumeráveis vozes têm afirmado
desde já algum tempo que a sociedade humana está passando por
uma crise, que sua estabilidade está gravemente prejudicada. É
característico desta situação que alguns indivíduos se sintam
indiferentes, ou integrados, ou hostis ao grupo que pertencem,
seja ele grande ou pequeno. Para ilustrar este ponto, deixem-me
registrar aqui uma experiência pessoal. Recentemente discuti com
um homem inteligente e bem disposto a ameaça de outra guerra, a
que em minha opinião colocaria seriamente em perigo a existência
da humanidade, e comentei que somente uma organização
supranacional poderia proteger-nos daquele perigo. Depois, o
homem, calmamente e friamente, me disse: “Por que você se opõe
tão profundamente ao desaparecimento da raça humana?”
Estou seguro que apenas um século
atrás ninguém teria afirmado tão levianamente algo semelhante. É
a declaração de um homem que se esforçou em vão para alcançar um
equilíbrio interior e basicamente perdeu a esperança de
alcançá-lo. É a expressão de uma solidão e isolamento de que
muita gente sofre hoje em dia. Qual é a causa? Tem uma saída?
É fácil fazer estas perguntas, mas
é difícil respondê-las com alguma segurança. Devo tratar,
contudo, da melhor maneira que se pode, mesmo eu sendo
consciente da ação de nossos sentimentos e esforços que podem
ser contraditórios e obscuros e que não podem ser expressados em
fórmulas fáceis e simples.
O homem é, ao mesmo tempo, um ser
solitário e um ser social. Como ser solitário, busca proteger
sua própria existência e aqueles que são mais próximos, para
satisfazer seus desejos pessoais e desenvolver suas habilidades
inatas. Como ser social, busca conquistar o reconhecimento e o
afeto de seus semelhantes para compartilhar o seu prazer,
confortá-los com sua solidariedade e melhorar suas condições de
vida. Só a existência destes esforços, freqüentemente em
conflito, podem dar conta do caráter especial do homem, e sua
combinação específica determina até que ponto um indivíduo pode
alcançar o equilíbrio interior e contribuir para o bem estar da
sociedade. É bem possível que a força relativa destes dois
impulsos diversos esteja, basicamente, fixada pela herança. Mas
a personalidade que finalmente emerge está em grande medida
formada pelo entorno em que o homem se encontra durante o seu
desenvolvimento, pela estrutura da sociedade em que cresce, pela
tradição desta sociedade, e por sua valoração de diversos tipos
de condutas. O conceito abstrato “sociedade” significa para o
indivíduo a soma de suas relações, diretas e indiretas, desde os
seus contemporâneos até as gerações anteriores. O individuo é
capaz de pensar, sentir, atuar, e trabalhar por si mesmo, mas
sua dependência da sociedade é tanta — em sua existência
emocional e intelectual — que é impossível pensar nele, ou
compreendê-lo, fora do marco da sociedade. É a “sociedade” quem
lhe proporciona comida, roupas, ferramentas de trabalho,
linguagem, as formas de pensamento, e a maior parte do conteúdo
do pensamento; sua vida se faz possível graças ao trabalho e às
conquistas dos muitos milhões, contemporâneos e antepassados,
que estão escondidos detrás da pequena palavra “sociedade”.
É evidente então que a dependência
do indivíduo pela sociedade é um feito natural que não pode ser
abolido — exatamente como no caso das formigas e das abelhas.
Sem dúvida, enquanto todas as ações das formigas e das abelhas
estão fixadas até o menor detalhe por instintos rígidos e
hereditários, os capatazes sociais e as interrelações dos seres
humanos são muito variáveis e suscetíveis à mudança. A memória,
a capacidade de realizar novas combinações, o dom da comunicação
oral têm feito possíveis desenvolvimentos nos seres humanos que
não são ditados por necessidades biológicas. Estes
desenvolvimentos se manifestam nas tradições, nas instituições e
nas organizações; na literatura; nos avanços científicos e nos
engenhos; nas obras de arte. Isto explica como ocorre que, em
certo sentido, o homem possa influir sobre sua vida através de
sua própria conduta e que neste processo o pensamento e os
desejos conscientes são muito importantes.
O homem adquire ao nascer, por
meio de herança, uma continuação biológica que é fixa e
inalterável, que inclui os impulsos naturais que são
característicos da espécie humana. Ademais, adquire durante sua
vida uma constituição cultural que adota da sociedade por meio
da comunicação e através de muitas outras formas. É esta
constituição cultural que, com o passar do tempo, está sujeita
às mudanças e que determina em grande medida a relação entre o
indivíduo e a sociedade. A antropologia moderna nos ensinou,
usando o estudo das chamadas culturas primitivas, que o
comportamento social dos seres humanos pode apresentar grandes
diferenças, dependendo dos padrões culturais prevalecentes e dos
tipos de organização que predominam na sociedade. É nisto que
podem fundar suas esperanças aqueles que se esforçam em melhorar
as condições dos homens: os seres humanos não estão condenados,
por sua constituição biológica, a aniquilarem-se uns aos outros,
ou à mercê de um destino cruel e de castigos.
Se nos perguntamos como deveriam
ser transformadas a estrutura da sociedade e a atitude do homem
para fazer a vida tão satisfatória como possível, deveríamos
estar conscientes de que somos incapazes de modificar certas
condições. Como foi mencionado antes, a natureza biológica do
homem não está, a todos efeitos práticos, sujeita à mudanças.
Ademais, as condições criadas pelos desenvolvimentos
tecnológicos e demográficos dos últimos séculos chegaram para
ficar. Nos locais com população relativamente densa, com os
produtos que são necessários para sua existência, uma profunda
divisão do trabalho e um aparato altamente centralizado são
absolutamente necessários. Os tempos – que em perspectivas
parecem tão idílicos – em que homens ou grupos pequenos podiam
ser completamente auto-suficientes se foram para sempre. É
apenas um leve exagero dizer que a humanidade já constitui uma
comunidade planetária de produção e consumo.
É alcançado agora o ponto aonde
posso indicar brevemente o que para mim constitui a essência da
crise de nosso tempo. Está relacionado com o individuo e sua
relação com a sociedade. O indivíduo está mais consciente do que
nunca de sua dependência da sociedade. Mas não sente esta
dependência como um traço positivo, como um laço orgânico, como
uma força protetora, mas uma ameaça a seus direitos naturais, ou
a sua existência econômica. Por outro lado, sua posição na
sociedade é tal que os impulsos egocêntricos de sua constituição
são constantemente acentuados, enquanto que seus impulsos
sociais, naturalmente mais débeis, se deterioram
progressivamente. Todos os seres humanos, em qualquer posição da
sociedade, sofrem este deterioramento progressivo. Involuntários
prisioneiros de seu próprio egocentrismo se sentem inseguros e
privados do mais inocente e simples desfrute da vida. O homem só
pode encontrar o sentido da vida, curta e perigosa como é,
consagrando a sociedade.
A anarquia econômica da sociedade
capitalista de hoje em dia é, em minha opinião, a verdadeira
fonte dos males. Vemos diante de nós uma enorme comunidade de
produtores cujos membros se esforçam incessantemente em privar o
outro dos frutos de seu trabalho coletivo — não pela força mas
cumprindo inteiramente as regras legalmente estabelecidas. A
este respeito é importante dar-se conta de que os meios de
produção — isto é: toda a capacidade produtiva necessária para
produzir bens de consumo assim como bens de capital adicionais —
podem ser — e em sua maioria o são efetivamente — a propriedade
privada de alguns indivíduos.
Para simplificar, na discussão que
se segue chamarei “trabalhadores” os que participam na
propriedade dos meios de produção, apesar de isto não
corresponder ao uso corrente do termo. Usando os meios de
produção, o trabalhador produz novos bens que transformam-se em
propriedade do capitalista. O ponto essencial deste processo é a
relação entre o que o trabalhador produz e o que lhe pagam,
ambos medidos em termos de valor real. Em quanto o contrato do
trabalho é “livre”, o que o trabalhador recebe está determinado
não pelo valor real dos bens que produz mas por suas
necessidades mais básicas e pela necessidade de força de
trabalho por parte dos capitalistas em relação ao número de
trabalhadores competindo por empregos. É importante entender que
nem sequer na teoria o salário do trabalhador é determinado pelo
valor do que produz.
O capital privado tende a se
concentrar em poucas mãos, em parte devido à competência entre
os capitalistas, e em parte porque o desenvolvimento tecnológico
e a crescente divisão do trabalho alentam a formação de unidades
maiores de produção em detrimento das menores. O resultado
destes desenvolvimentos é uma oligarquia do capital privado cujo
enorme poder não pode ser controlado efetivamente nem sequer por
uma sociedade política democraticamente organizada. Isto é assim
porque os membros dos corpos legislativos são selecionados pelos
partidos políticos, em grande medida financiados ou de alguma
maneira influenciados por capitalistas privados que, por todos
efeitos práticos, separam o eleitorado da legislatura. A
conseqüência é que os representantes do povo não protegem
suficientemente os interesses dos grupos não privilegiados da
população. Por outra parte, nas condições atuais os capitalistas
privados controlam, direta ou indiretamente, as principais
fontes de informação (imprensa escrita, rádio, educação). É
então extremamente difícil, e por certo impossível na maioria
dos casos, que cada cidadão possa chegar às conclusões objetivas
e fazer uso inteligente de seus direitos políticos.
A situação prevalecente em uma
sociedade baseada na propriedade privada do capital está então
caracterizada por dois princípios mestres: primeiro, os meios de
produção são propriedade de indivíduos, e estes dispõem deles
como melhor lhes parecer; segundo, o contrato de trabalho é
livre. Supostamente, não existe sociedade capitalista pura,
neste sentido. Em particular, deve-se assinalar que os
trabalhadores, por meio de grandes e amargas lutas políticas,
tem conseguido uma forma um tanto melhorada do “livre contrato
de trabalho” para certas categorias de trabalhadores. Mas,
tomada como um todo, a economia atual não difere muito do
capitalismo “puro”.
Esta mutilação dos indivíduos é o
que considero o pior mal do capitalismo. Nosso sistema educativo
como um todo sofre este mal. Uma atitude exageradamente
competitiva se inculca no estudante, que é treinado para adorar
o êxito da aquisição como uma preparação para sua futura
carreira.
Estou convencido de que há somente
uma forma de eliminar estes graves malefícios: através do
estabelecimento de uma economia socialista, acompanhada por um
sistema educacional que seja orientado para fins sociais. Em tal
economia, os meios de produção são propriedade da própria
sociedade e utilizados de maneira planejada. Uma economia
planejada, que ajuste a produção às necessidades da comunidade,
distribuiria o trabalho entre todos aptos a trabalhar e
garantiria os meios de vida de todos, homem, mulher e criança. A
educação do indivíduo, além de promover suas próprias
habilidades inatas, intentaria desenvolver em um sentido de
responsabilidade por seu próximo, em lugar da glorificação do
poder e do êxito em nossa sociedade atual.
Sem embargo, é preciso recordar
que uma economia planificada não é todavia o socialismo. Uma
economia planificada como tal pode ser acompanhada pela completa
escravização do indivíduo. A realização do socialismo requer a
solução de alguns problemas sócio-políticos extremamente
difíceis: “como é possível, considerando a muito abarcadora
centralização do poder, conseguir que a burocracia não seja todo
poderosa e arrogante? Como podem proteger os direitos do
indivíduo e mediante ele assegurar um contrapeso democrático ao
poder da burocracia?”
Ter claras as metas e problemas do
socialismo é de grande importância nesta época de transição.
Dado que, nas circunstâncias atuais, a discussão livre e sem
travas destes problemas são um grande tabú, considero a fundação
desta revista² um importante serviço público.
Notas:
[1] Este
texto, originalmente intitulado “Why Socialism?”, foi escrito
por Einstein para o primeiro número (1949) da revista marxista
estadunidense Monthly Review. O texto, em sua versão na língua
inglesa, pode ser consultado pelo
http://www.monthlyreview.org/598einst.htm.
Também há uma versão em espanhol disponível em
http://www.rebelion.org/noticia.php?id=24924.
(Nota do Tradutor)
[2] A revista marxista estadunidense “Monthly
Review”.