| Eu
me chamo João Brito
Sou poeta popular
E quero descrever um pouco
O meu belíssimo lugar
Na minha terra querida
Preciso agora falar
Mauriti é meu lugar
Eu vivo feliz aqui
Apesar da terra seca
Tem castanha e tem pêqui
Meu sítio é o Açude Velho
E a minha cidade Mauriti
Fico triste vendo aqui
Passar na televisão
Em novela ou mini-série
Fome aqui no meu sertão
Enquanto deixa de mostrar
A nossa evolução |
Porque
não mostra o sertão,
Com festa de vaqueijada
Com engenho moendo cana
Rapadura e carne assada
E os derivados do leite:
Manteiga, leite e coalhada
Porque não mostra toada
Do cantador de repente,
As belezas do Nordeste
Que encantam muita gente.
O São João em Mauriti
É muito mais atraente.
Mauriti é muito quente
Mas é belíssimo pra ver
Aonde lá reina a paz
O amor vai florescer
E quem visitar Mauriti
Nunca mais vai esquecer |
Eu
não consigo viver
Distante do meu setor
Açude Velho pra mim
Ele é de grande valor
Fica registrado aqui
Por ele meu grande amor.
João Brito |
| Mauriti
- derivado de MURI (espécie de coco) ÁTI (diminutivo),
“lugar de coco miúdo”. Cidade do interior do
Ceará, fundada em 1933, abriga um povo de uma humanidade
própria. Há nestes homens e mulheres uma grande
força motivadora, permitindo que sigam adiante, apesar
das difíceis imposições da terra.
Homem teimoso, feito pau de buriti, o sertanejo resiste. Pendendo
pra frente e para os lados, sobre o barro das estradas, faça
chuva ou sol, quase desmoronando, mas no dia seguinte firme outra
vez.
Em Mauriti ainda é possível encontrar um engenho
que foi construído no início do século passado.
E este engenho, que um dia funcionou à força animal,
ainda é uma máquina de moer cana, fornecedora de
garapa e rapadura. E, acima de tudo, ainda se encontra por lá
gente que deixa saudade.
Solo fértil, onde são plantadas as goiabas, mangas,
bananas, cana-de-açúcar, e a mandioca. Lá
o conceito de agricultura sustentável, feita de forma decente,
aproveitando recursos da técnica moderna, forma-se aos
poucos. Retiram da terra o que ela de melhor pode oferecer: a
vida. Lugar de um povo que vive longe dessa lógica capitalista,
que só pensa em se expandir, buscando lucros e mais lucros,
e que é baseada na exploração do homem pelo
homem.
Terra onde nasceu e se criou o poeta João Brito, tocador
de viola e repentista. Um exemplo da fibra do homem sertanejo.
Nascido no Sítio Açude Velho (Mauriti), este nordestino
é feito juriti, resistente às duras condições
da caatinga. E seja cantando “Casa Amarela” ou “Uirapuru
da Saudade”, ele impressiona. Filho de camponês, e
assim como as gerações passadas, é impulsionado
pelo sentimento à terra. E a ela está ligado, mesmo
quando esta freqüentemente se mostra dura e áspera.
É um artista do povo, sentindo-o nas lutas, nas injustiças
sociais, nos problemas ainda não solucionados. É
um profissional da poesia.
O nordestino é dotado de uma grande capacidade criadora.
O seu profundo sentimento regionalista revela-se na preocupação
com a terra. Preocupação com o homem que dela tira
o seu sustento. O mesmo homem que um dia precisou fugir da seca,
procurando as grandes cidades, mas que ainda deseja voltar pro
seu sertão. E com este sentimento ele consegue impregnar
suas canções, seus cordéis, seus versos improvisados
nas feiras-livres. São veículos que expressam a
visão do povo, o que ele acha certo ou errado, acerca da
realidade onde vivem. Um povo que luta pela busca de valores autênticos,
e donos de uma consciência aguçada.
Os versos improvisados do repentista se perdem no vento. E dificilmente
se encontra um que fixe em papel a sua poesia rústica,
os seus improvisos, os seus poemas cheios de autenticidade. Vivem
da cantoria, e cantando este folclore que não há
de morrer. Mas não são objetos meramente folclóricos.
A cantoria exprime a visão popular do mundo, suas necessidades
e aspirações.
Assuntos que um dia foram severamente proibidos, hoje são
cantados. A cantoria continua sendo um meio próprio de
se expressar, e merece ser ouvida e apreciada.
Pouco a pouco a sociedade de consumo vai fazendo desaparecer as
formas puras e espontâneas de cultura popular. Vai despejando
diariamente em nossa vida as banalidades da indústria do
Axé Music, das letras vazias. E não dá pra
tolerar o desperdício da inteligência tão
rica e plural da cantoria repentista. É preciso conservar
esta autêntica representação do artista popular,
do interior, com raízes rurais. Pois ela está bem
longe dessa cultura aburguesada que tentam nos enfiar goela abaixo. |