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- Afonso Henriques
de
-
Lima Barreto
Literatura
que desmascara a falsa democracia no Brasil e suas eleições
corruptas.
Ele viveu de 1881 a 1922 e
deixou importante contribuição ao povo e à nação com seus ensaios,
contos e crônicas. Reproduzimos alguns escritos seus que, embora
datem do início do século passado, são ainda atualíssimos.
Esta estupenda democracia
(...) O
verdadeiro trabalhador, mesmo quando não é um simples assalariado, é
quem mais sofre com esse nefasto estado de cousas e vê todo o seu
esforço, por todos os motivos, respeitável, anulado pela
incapacidade e concussões dos que governam esta estupenda
democracia, cujo chefe tem dois palácios de inverno e não sei
quantas casas de verão.
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O PREFEITO E O POVO
O senhor doutor Carlos
Sampaio é um excelente prefeito, melhor do que ele só o Senhor de
Frontin. Eu sou habitante da cidade do Rio de Janeiro, e, até, nela
nasci; mas, apesar disso não sinto quase a ação administrativa de
Sua Excelência. Para mim, Sua Excelência é um grande prefeito, não
há dúvida alguma; mas de uma cidade da Zambézia ou da Cochinchina.
Vê-se bem que a
principal preocupação do atual governador do Rio de Janeiro é
dividi-lo em duas cidades: uma será a européia e a outra, a
indígena.
É isto que se faz ou
se fez na Índia, na China, em Java, etc.; e em geral, nos países
conquistados e habitados por gente mais ou menos amarela ou negra.
Senão, vejamos.
Todo o dia, pela
manhã, quando vou dar o meu passeio filosófico e higiênico, pelos
arredores da minha casa suburbana, tropeço nos caldeirões da rua
principal da localidade de minha residência, rua essa que foi
calçada há bem cinqüenta anos, a pedregulhos respeitáveis.
Lembro-me dos silhares
dos caminhos romanos e do asfalto com que a Prefeitura Municipal
está cobrindo os areais desertos de Copacabana.
Por que será que ela
não reserva um pouquito dos seus cuidados para essa útil rua das
minhas vizinhanças, que até é caminho de defuntos para o cemitério
de Inhaúma? Justos céus! Tem acontecido com estes cada cousa
macabra! Nem vale a pena contar.
Penso que, nessa
predileção dos prefeitos por Copacabana, há milonga; mas nada digo,
porquanto tenho aconselhado aos meus vizinhos proprietários que a
usem também.
Outro cuidado que me
faz meditar sobre as singulares cogitações do atual prefeito, é a
sua preocupação constante dos hotéis e hospedarias.
No tempo em que o
Senhor Calmon foi ministro da Indústria, quase se criou uma
diretoria geral, na sua secretaria, para tratar de hotéis,
hospedarias, albergues, pousos e quilombos; atualmente, cogita-se na
criação de um Ministério de Festas, Bailes, Piqueni- ques,
Funçonatas, Charangas e Football; mas essas criações são, ou serão,
levadas a efeito pelo Governo Federal, cuja riqueza é ilimitada e
pode arcar com as despesas respectivas e bem empregadas na defesa da
Pátria.
A prefeitura, a
municipalidade, porém, não tem, como ele, o privilégio de fazer
dinheiro à vontade, donde se pode concluir que ela não poderá arcar
com os pesados gastos de hotéis luxuosos para hospedar grossos e
médios visitantes ilustres.
De resto,
municipalidade supõe-se ser, segundo a ori gem, um governo popular
que cuide de atender, em primeiro lugar, ao interesse comum dos
habitantes da cidade (comuna) e favorecer o mais possível a vida da
gente pobre. Esses hotéis serão para ela?
Pode-se, entretanto,
admitir, a fim de justificar o amor do prefeito aos hotéis de luxo,
que quer construir à custa dos nossos magros cobres; pode-se admitir
que, com isso, Sua Excelência pretenda influir indiretamente no
saneamento do morro da Favela.
Municipalidades de
todo o mundo constroem casas populares; a nossa, construindo hotéis
chies, espera que, à vista do exemplo, os habitantes da Favela e do
Salgueiro modifiquem o estilo das suas barracas. Pode ser...
O Senhor Sampaio
também tem se preocupa do mui to com o plano de viação geral da
cidade.
Quem quiser, pode ir
comodamente de automóvel da avenida à Angra dos Reis, passando por
Botafogo e Copacabana; mas, ninguém será capaz de ir a cavalo do
Jacaré a Irajá.
Todos os seus esforços
tendem para a educação do povo nas coisas de luxo e gozo. A cidade e
os seus habitantes, ele quer catitas. É bom; mas a polícia é que vai
ter mais trabalho. Não havendo dinheiro em todas as algibeiras, os
furtos, os roubos, as fraudes de toda a natureza hão de se
multiplicar; e, só assim, uma grande parte dos cariocas terá “gimbo”
para custear os esmartismos sampainos.
A recrudescência do
aparecimento de notas falsas está fornecendo um excelente pano de
amostra.
Contudo, não é
conveniente censurar o doutor Sampaio por isso. O Teatro Municipal é
uma demonstração de como a municipalidade pode educar o povo, muito
a contento.
Construiu, ali, na
avenida, aquele luxuoso edifício que nos está por mais de vinte mil
contos. Para se ir lá, regularmente, um qualquer sujeito tem que
gastar, só em vestuário, dinheiro que dá para ele viver e família,
durante meses; as representações que lá se dão, são em línguas que
só um reduzido número de pessoas entende; entretanto, o Teatro
Municipal, inclusive o seu porão pomerizado, está concorrendo
fortemente para a educação dos escriturários do Méier, dos mestres
de oficina do Engenho de Dentro e dos soldados e lavadeiras da
Favela.
Careta, Rio, 15/1/1921
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ÀS URNAS
Eu também sou candidato a deputado. Nada mais justo. Primeiro: eu
não pretendo fazer coisa alguma pela Pátria, pela família, pela
humanidade. Um deputado que quisesse fazer qualquer coisa dessas,
ver-se-ia bambo, pois teria, certamente, os duzentos e tanto
espíritos dos seus colegas contra ele.
Contra as suas idéias levantar-se-iam duas centenas de pessoas do
mais profundo bom senso. Assim, para poder fazer alguma coisa útil,
não farei coisa alguma, a não ser receber o subsídio. Eis aí em que
vai consistir o máximo da minha ação parlamentar, caso o preclaro
eleitorado sufrague o meu nome nas urnas.
Recebendo os três contos mensais, darei mais conforto à mulher e aos
filhos, ficando mais generoso nas facadas aos amigos. Desde que
minha mulher e os meus filhos passem melhor de cama, mesa e roupas,
a humanidade ganha. Ganha, porque, sendo eles parcelas da
humanidade, a sua situação melhorando, essa melhoria reflete sobre o
todo de que fazem parte.
Concordarão os nossos leitores e prováveis eleitores, que o meu
propósito é lógico e as razões apontadas para justificar a minha
candidatura são bastante ponderosas.De resto, acresce que nada sei
da história social, política e intelectual do país; que nada sei da
sua geografia; que nada entendo de ciências sociais e próximas, para
que o nobre eleitorado veja bem que vou dar um excelente deputado.
Há ainda um poderoso motivo, que, na minha consciência, pesa para
dar este cansado passo de vir solicitar dos meus compatriotas
atenção para o meu obscuro nome.
Ando mal vestido e tenho uma grande vocação para elegâncias. O
subsídio, meus senhores, viria dar-me elementos para realizar essa
minha velha aspiração de emparelhar-me com a “deschanelesca”
elegância do Senhor Carlos Peixoto. Confesso também que, quando
passo pela rua do Passeio e outras do Catete, alta noite, a minha
modesta vagabundagem é atraída para certas casas cheias de luzes,
com carros e automóveis à porta, janelas com cortinas ricas, de onde
jorram gargalhadas femininas, mais ou menos falsas. Um tal
espetáculo é por demais tentador, para a minha imaginação; e, eu
desejo ser deputado para gozar esse paraíso de Maomé sem passar pela
algidez da sepultura.
Razões tão ponderosas e justas, creio, até agora, nenhum candidato
apresentou, e espero da clarividência dos homens livres e orientados
o sufrágio do meu humilde nome, para ocupar uma cadeira de deputado,
por qualquer Estado, província ou emirado, porque, nesse ponto, não
faço questão alguma.
Às urnas.
Correio da Noite, Rio, 16/1/1915
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Contra a República
Sempre fui contra a república. Tinha
sete anos e vinha do colégio primário, do grande colégio de que me
lembro sempre com ternura e cheio de saudades da minha boa
professora, Dona Teresa Pimentel do Amaral, quando me disseram que
se havia proclamado a república.
Não tinha naqueles tempos outras
cogitações que não fossem a de glória, a da grande, imensa glória,
feita por mim sem favor, nem misericórdia, e vi que a tal república,
que tinha sido feita, espalhava pelas ruas soldados embalados, de
carabinas em funeral
Nunca mais a estimei, nunca mais a
quis.
Sem ser monarquista, não amo a
república.
O nosso regímen atual é da mais brutal
plutocracia, é da mais intensa adulação aos elementos estrangeiros,
aos capitalistas internacionais, aos agentes de negócios, aos
charlatães tintos com uma sabedoria de pacotilha.
Não há entre os ricos, entre os
poderosos, nenhuma generosidade; não há piedade, não há vontade, por
parte deles, desejo de atenuar a sua felicidade, que é sempre uma
injustiça, com a proteção dos outros, com o arrimo aos necessitados,
com o fervor religioso de fazer bem.
Têm medo de ser generosos, têm medo de
dar uma esmola, têm medo de ser bons.
Se a dissolução de costumes que todos
anunciam como existente, há, antes dela houve a dissolução do
sentimento, do imarcessível sentimento de solidariedade entre os
homens.
Eu, já mais de vinte anos, vi a
implantação do regímen. Via-a com desgosto e creio que tive razão.
Correio da Noite, Rio, 3/3/1915.
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Eleição Não! Revolução
Sim!
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