| Olga
Benário Prestes
Olga Benário Prestes, mulher de cabelos escuros e olhos
azuis, nasceu em Munique, cidade alemã. Desde cedo participou
de atividades comunistas e, graduada pelo Comintern, recebeu a
mais importante tarefa de sua vida: realizar uma Revolução
Comunista no Brasil.
No
Brasil, já casada com Luís Carlos Prestes, chefe
da chamada "Intentona Comunista", Olga foi fundamental
para o andamento da revolução. Morando no Rio de
Janeiro, através das inúmeras reuniões, Olga
conviveu com todos os integrantes da liderança do movimento
no meio do qual nasceram grandes amizades.
Com
o fracasso da revolução e a sua conseqüente
prisão, Olga, grávida de sete meses, é entregue
a Hitler por Vargas. Sendo deportada para a Alemanha e longe do
Brasil, país por qual aprendeu a admirar e a amar, Olga
Benário tem sua primeira e única filha, Anita Leocádia,
uma alegria no meio de tanto sofrimento.
Em
um dos campos de concentração da Alemanha nazista,
Olga vivência os últimos dias de sua vida. Morta
por um gás letal, ela ainda vive, mas como uma importantíssima
pessoa que deixou o seu valor na história do comunismo
mundial e que fez do seu ideal de vida um sonho para vários
povos de todo o mundo.
Tempos
de Conspiração
Tudo
aconteceu conforme o esperado. Pontualmente, às 09:00 horas
da manhã do dia 11 de abril de 1928, Otto era levado para
o salão de audiências, quando um grupo de jovens,
disfarçados de estudantes de direito, portadores de pistolas
descarregadas, dominaram os policiais e soltaram o preso. Olga
foi a única da operação que foi reconhecida,
mas ela e Otto conseguiram fugir imediatamente para Moscou.
Ao
chegarem na capital soviética, Olga e Otto Braun foram
para o Hotel Desna, onde ela logo notou que, por curiosa coincidência,
exatamente há cinco anos atrás ela entrara pela
primeira vez numa organização comunista.
Esta
primeira vez foi em Munique, sua cidade natal, em 1923, logo depois
de seu 15ª aniversário, quando a Juventude Comunista
entrara na clandestinidade. Olga teria sido recebida, a princípio,
com muita desconfiança, por ser filha do advogado Léo
Benário, um burguês de personalidade influente no
Partido Social-Democrata local, porém destacou-se como
a mais eficiente da turma, se integrando em pouco tempo.
Olga
foi apresentada à Otto Braun por uma amiga. Ele trabalhava
secretamente como agente soviético. Olga encantou-se com
Otto e começaram a encontrar-se com mais freqüência,
o que resultou no namoro. Com as longas conversas entre os dois,
decidiram-se mudar para Berlim, especificamente para Neukolln,
o bairro operário de Berlim, a "Fortaleza Vermelha"
da esquerda alemã.
Foram
quase três horas de discussão com seu pai. O beijo
de despedida que ele lhe deu à porta de casa dizia que,
no fundo, ele talvez fizesse o mesmo em seu lugar.
Durante
o café da manhã, Otto explicou que o seu trabalho
clandestino para o partido implicava certos cuidados que envolveriam
a ambos e, então, comunicou que os dois teriam uma nova
identidade. Otto Braun se chamaria Arthur Behrendt e Olga Benário
passou a ser chamada de Frieda Wolf Behrendt, sua esposa.
Durante
o dia, reuniões, passeatas e atividades de rua; e à
noite, assembléias nos fundos do velho prédio da
rua Zieten, onde funcionava a cervejaria da família Muller
que, à noite, se transformava em sede da Juventude Comunista
do bairro. Esse mesmo salão dos fundos, onde se realizavam
atos políticos duas vezes por semana, era transformado
em sala de aula.
Raramente
na semana Olga e Otto conseguiam ficar juntos. O pouco tempo disponível
que tinham era gasto em trabalho. Olga conseguiu, após
muita insistência, ser sua secretária. Era ela quem
datilografava os textos teóricos que Otto ditava ou deixava
prontos. Esse trabalho ajudou-a a compreender melhor a estrutura
interna do Partido Comunista alemão.
Olga,
aos poucos, ia deixando de lado seus preconceitos moralistas devido
às conversas com Otto, que a convencia a se tornar uma
mulher mais tolerante. Ela associava a idéia do casamento
ao que considerava a pior deformação burguesa: a
dependência da mulher, o sexo obrigatório, a convivência
forçada. Mas, essa face rígida demonstrada por Olga
não impede que ela continuasse a despertar a paixão
dos jovens.
Surgem
dificuldades
Em
1926, Olga foi promovida ao cargo de Secretária de Agitação
e Propaganda da Juventude Comunista, não só do bairro
de Neukolln, mas de toda a capital alemã.
A
atividade política da esquerda crescia na mesma proporção
em que a direita se organizava. O grau de estruturação
do Partido Comunista na sociedade é comparável ao
de um Estado. A segurança das sedes do partido, dos documentos
dos dirigentes, era garantido por uma espécie de Ministério
da Defesa em miniatura. Para cada área de produção
da sociedade, existia um departamento correspondente na estrutura
partidária, com especialistas de todos os tipos.
O
trabalho realizado pelo núcleo de Neukolln era sempre um
exemplo de eficiência e dedicação a cada comunista.
Neste, destacava-se a figura da jovem Olga Benario. Temendo que
a Polícia desconfiasse da dupla identidade de Otto e que
tentasse chegar a ele por intermédio da namorada, o partido
aumentou a segurança em torno dela.
Certo
dia, começo de outubro de 1926, Olga voltou para casa mais
tarde. Um tempo depois que chegou, ouviu baterem à porta
e imaginou que Otto tivesse esquecido a chave. Abriu e deparou-se
com 2 policiais. O mais velho exibiu-lhe um documento, comunicou-a
que estava presa e pediu-lhe para os acompanhar. Na verdade, quem
eles, de fato, procuravam era Otto Braun.
Logo
que a incomunicabilidade foi suspensa, Olga recebeu a primeira
visita. A Juventude Comunista de Neukolln elegeu Gabor Lewin,
um dos membros da direção, para visitá-la
e levar-lhe um riquíssimo farnel.
Na
manhã de 2 de dezembro, exatos 2 meses após sua
prisão, o carcereiro abriu a porta da cela e ordenou-lhe
que arrumasse suas coisas, pois ela estava em liberdade por ordem
do promotor do Supremo Tribunal. Agora, ela sentia um forte pressentimento
que ficaria sem Otto por muito tempo. Entretanto, a atividade
política era o melhor remédio para a angústia
e a ansiedade.
A
saudade e a preocupação eram, contudo, muito fortes
e foram fulminantes para que ela decidisse ousar a falar com o
diretor da prisão, abdicando o direito de visitá-lo
pelo menos uma vez por mês, de levar-lhe alimentação
especial regularmente e, por fim, requeria licença para
uma visita extra no Natal que se aproximava. A resposta foi dada
no mesmo dia. Seu pedido foi negado por não se tratar de
um preso político apenas, mas sim, um acusado de alta traição
e, portanto, não teria direito a privilégios. Só
no Natal, segundo a lei, ele poderia, como qualquer preso, receber
visitas e alimentos num pacote de 5 kg, no máximo. Quanto
ao pedido de visita regular, estava recusado. Com isso, Olga,
enfurecida, afirmou que Otto só sairia da prisão
à força.
Por
meio de um ofício "ultra-secreto", o Ministério
do Interior transmite à direção da Polícia
Nacional a suspeita de que Frieda Wolf Behrendt e Arthur Behrendt
fossem, na verdade, Olga Benário e Otto Braun, "amantes
e cúmplices" em um processo de alta traição.
O
agravamento da situação judicial da filha logo chegou
aos ouvidos do advogado Léo Benário, em Munique,
que decidiu agir. Através de um requerimento dirigido ao
Chefe dos promotores públicos do Supremo Tribunal de Justiça
do procurador Neumanar, o pai formulou um comovente apelo, solicitando
a exclusão da filha do processo movido contra Otto Braun.
A resposta seca do promotor chefe dava mostras de que o Judiciário
alemão não se sensibilizara com os argumentos paternos
do Dr. Benário.
Olga
apavorou-se, pois sabia que aquele não seria jamais um
processo regular devido à nomeação de um
homem de extrema direita para a chefia do tribunal. Com o julgamento,
o que se pretendia era comprometer o partido comunista aos olhos
da opinião pública. Logo, Olga pensou que Otto não
poderia ser julgado. Contudo, a prisão de Moabit não
era uma prisão qualquer, era uma fortaleza de alta segurança.
Olga sabia que, caso existisse uma única chance de arrancar
Otto de Moabit, esta seria quando Otto fosse transferido da sala
de espera para o salão de audiências. Então,
houve todo um planejamento junto ao partido, de como eles agiriam
no dia 11 de abril.
A
difícil missão de fazer a segurança do legendário
"Cavaleiro da Esperança"
Depois
de se instalarem no Hotel Desna, Olga e Otto foram transferidos
para um edifício destinado aos jovens estrangeiros do KIM.
Duas
semanas após ter chegado a Moscou, eles vão assistir
ao enceramento de um curso político dado pelo KIM. Quando
a cerimônia chegava ao fim, Olga foi chamada ao palco, muito
aplaudida, ela confessou:
-Eu
gostaria que soubessem que ali eu cumpri duas tarefas: uma do
partido e outra do meu coração.
Após
isso, Olga se consagra. Ela progride cada vez mais e com isso
a carga de trabalho aumenta. Não mais sobrava tempo para
Otto, então, este sugeriu que partissem para as férias,
que haviam sido concedidas pelo partido, após a operação
de Moabit. Ela surpreendentemente negou, devido a carga trabalhista
e Otto reagiu com explosiva crise de ciúmes.
Como
seu passaporte havia vencido, Olga procurou saber como estava
sua ficha policial em Berlim. Ela soube que todas as acusações
de "alta traição à pátria",
impostas a Otto Braun, foram transferidas para ela, mas que apesar
de ser uma "comunista procurada" e de "alta periculosidade",
ela ainda era uma cidadã alemã e, por isso, um mês
depois chegou seu novo passaporte.
No
final de 1931, Olga seria escalada para sua primeira missão
internacional, em Paris. A notícia de que Olga ficaria
fora por tempo indeterminado devido a uma operação
internacional, foi a gota d'água para Otto. Eles romperam
o romance e Otto contou que tinha outra mulher. Foi quando Olga
percebeu em si, pela primeira vez, o sentimento que tanto condenava
no companheiro: ciúme. E é remoendo-se de ciúme
que ela viaja para Paris.
Voltando
a Moscou, recebeu a notícia de que lhe haviam dado o mais
alto cargo da hierarquia de uma organização comunista.
Tinham acabado de aclamá-la como membro de seu Presidium,
por unanimidade. Um prêmio veio logo em seguida: Olga foi
escolhida para um curso de pára-quedismo e pilotagem de
aviões. Após uma simulação de vôo,
ela ouviu um latino-americano contando o caso da "Coluna
Prestes" e ficou impressionada com sua desenvoltura: havia
percorrido 25 mil quilômetros a pé, enfrentando tropas
regulares de um governo "ditatorial", com o fim de derrubar
o governo, e que terminou sem conseguir o intento, mas também
sem sofrer uma única derrota. Não imaginavam eles
que Prestes estava ali mesmo, em Moscou, a poucas quadras de distância
donde se encontravam.
Prestes
estava trabalhando como engenheiro. A vida de sua família
era muito difícil, devido a recusa de várias regalias
oferecidas a ele pelo governo soviético. Nas horas vagas,
ele visitava conferências ou reuniões do partido
comunista e foi num desses encontros que ouviu falar em Olga pela
primeira vez.
Os
momentos de divertimento da família Prestes eram raríssimos.
Contudo, no final de 1934, foi promovida uma festa na casa de
Prestes para comemorar a entrada deste no partido comunista brasileiro,
o mesmo que o cortejara e depois o rejeitara em seguida, e que
agora havia sido obrigado a aceitá-lo devido a um telegrama
enviado de Moscou. Então, brevemente partiria ao Brasil
para realizar uma Revolução Comunista.
Olga
foi chamada pelo secretário à sede do Comirtern
e soube que viajaria com Prestes para o Brasil para a segurança
do mesmo durante a viagem.
O
Primeiro Amor de Prestes
Prestes
e Olga vão para Leningrado, onde chegam às 8 horas
da manhã do dia seguinte. À noite, partem para Helsinque,
e de lá, para Estocolmo. Olga, por medida de segurança
por causa dos passaportes, decide que irão passar a noite
em Amsterdã onde um contato poderia fornecer-lhes documentação
segura. O casal ficou três semanas a espera do contato em
Amsterdã, e achando perigoso ficar tanto tempo em um só
lugar, decidiram partir assim mesmo para Bruxelas.
As
três primeiras semanas de viagem permitiram que o casal
se conhecesse melhor. O medo de serem descobertos e presos, levou
Olga a querer sair também de Bruxelas, tomariam um trem
até Paris. Viajariam como um rico casal em lua-de-mel.
O
contato que perdera em Amsterdã e Bruxelas finalmente apareceu
em Paris. No dia 8 de março, receberam documentos novos
e foram feitos mais alguns ajustes para que parecessem mais na
legalidade. E nada melhor para isso como um visto de entrada nos
EUA. O consulado norte-americano em Paris concedeu o visto sem
problemas, e na terceira semana de março, Olga e Prestes
estavam prontos para partir, usando as identidades falsas de Antônio
Vilar e Maria Bergner Vilar.
A
fachada obrigava Olga e Prestes a intimidades imprevistas. Um
casal em lua-de-mel não apenas dorme no mesmo quarto, mas
na mesma cama. Além disso, aproximava-os a afinidade intelectual
e política, cada vez maior entre os dois, além do
fato de serem jovens, bonitos e entusiasmados com a perspectiva
de estarem às portas da revolução. Para um
homem de 37 anos, Prestes vivera precocemente toda a sorte de
experiências políticas: liderara uma rebelião
militar, conspirara contra governos, fora preso e exilado, convivera
com os mais importantes dirigentes comunistas na União
Soviética. Mas, o rigor, a disciplina e a dedicação
à causa tinham cobrado dele um preço alto: até
então, Luís Carlos Prestes nunca tinha estado com
uma mulher. A orfandade prematura levou-o, aos dez anos de idade,
a tornar-se o chefe da família. O pouco tempo que lhe sobrava
da escola militar era dedicado aos estudos. A mãe não
permitira que ele trabalhasse: preferia ela fazê-lo, com
a condição de que o filho se entregasse aos livros
e fosse o primeiro aluno da classe. A vida da família suburbana
do Rio de Janeiro era tão difícil que ele teve que
obter permissão especial para andar fardado fora da Escola
Militar": Prestes não tinha trajes paisanos para vestir.
Durante a Coluna ele se sentira na obrigação. enquanto
comandante, de dar o exemplo de disciplina. E, ao contrário
de muitos de seus comandados, não se envolveu com as mulheres
que acompanharam a marcha. A política e a preocupação
com a educação das quatro irmãs tinham-lhe
roubado todo o tempo. E se Prestes chegara aos 37 anos sem ter
tido uma namorada, uma paixão, uma mulher, não poderia
haver circunstância mais propícia para começa:
estava em alto mar, num camarote luxuoso, acompanhado de uma belíssima
mulher, comunista e revolucionária como ele. Quando o Ville
de Paris atracou no porto de Nova York, na manhã de 26
de março de 1936, o que até então era uma
ficção, montada pela Internacional Comunista, tinha
virado realidade: Como seus personagens Antônio Vilar e
Maria Bergner, Prestes e Olga eram marido e mulher. Passaram a
lua-de-mel em Nova York. Pegaram um trem para Miami, onde iniciaram
a viagem para o Brasil, passando por San Tiago e Buenos Aires,
via aérea. Na Argentina, arrumaram toda a documentação
para entrar no Brasil. Assim, na madrugada do dia 15 de abril,
os dois embarcaram no Santos Dumond. Quando o dia amanheceu o
avião já voava baixinho. Ele não possuía
janelas, mas pequenas escotilhas, e foi através delas que
Olga teve seu primeiro alumbramento com o Brasil. Habituada à
Europa, ela nunca imaginara tal luminosidade - um sol fortíssimo
batia sobre o verde escuro da mata e o azul do mar, divididos
pelo risco branco e interminável da areia da praia.
Prestes
e Olga desembarcaram em Florianópolis, onde passaram a
noite e pegaram um taxi até Curitiba. De lá pegaram
outro, com destino a São Paulo, onde se hospedaram num
confortável hotel no largo do Arouche. Mais tarde Olga
se encontrou com o excêntrico milionário Pavarenti,
o qual levou-os para a sua casa de campo no bairro de Santo Amaro.
No dia seguinte, Miranda, secretário-geral do partido comunista,
recebia a notícia de que Prestes estava no Brasil.
Ao
Brasil, atravessando percalços
Anúncios
em jornais, de esquerda e de direita, dizendo que Prestes estaria
retornando ao país, obrigaram Getúlio Vargas a exigir
da polícia política redobrada e rigorosa precaução.
Não eram apenas os órgãos de segurança
que aguardavam ansiosamente a volta de Prestes. Desde que a viagem
dele e Olga fora decidida, um pequeno grupo de estrangeiros iniciava
em várias partes do mundo viagens discretas e sinuosas.
Inclusive um dos membros da equipe, Arthur Ewert, Olga conhecia
bem. Junto com ele estava sua mulher Elise, apelidada de Sabo;
o argentino Rodolfo Ghioldi, com o pseudônimo de Luciano
Busteros, e sua mulher Carmem Ghioldi, que inexplicavelmente viajava
com seu nome verdadeiro; o norte-americano Victor Allen Barron;
os belgas León-Jules Vallée e sua mulher Alphonsine,
com os nomes verdadeiros; o alemão Paul Gruber e sua mulher
Érika. A larga experiência da equipe enviada ao Brasil
era a prova da credulidade que a União Soviética
tinha na insurreição no Brasil.
Mãos
à Obra!
Assim
que chegaram ao Rio de Janeiro, Olga e Prestes se hospedaram num
hotel e logo procuraram uma casa para morar. Escolheram uma na
Rua Barão da Torre, nas imediações da casa
dos Ewert. Devidamente instalados, encontraram-se pela primeira
vez com seus companheiros na casa dos Ewert, e ali mesmo distribuíram
as tarefas iniciais: Erika trabalharia como datilógrafa
na casa de Ewert e, quando necessário, como motorista dos
Villar; Gruber, técnico em explosivos, instalaria num pequeno
cofre da casa de Prestes e Olga um violento sistema de alarme,
para impedir o acesso de estranhos ao dinheiro e à documentação
ali depositada; Victor , especialista em radiotelegrafia, ficava
com a tarefa de construir um radiotransmissor para que os revoltosos
pudessem comunicar-se entre si, internamente, no Brasil e com
o Comintern, em Moscou; e León-Jules Vallée e sua
mulher cuidariam das finanças.
Na
década de 20, o Movimento Revolucionário da recém
fundada Aliança Nacional Libertadora ganhava adeptos das
classes desfavorecidas da sociedade da época.
Seus
ideais eram baseados na luta contra o fascismo, imperialismo,
subdesenvolvimento e grandes latifúndios. Levavam em conta
os interesses dos operários, comunistas, socialistas, liberais,
cristãos e o grande número de militares que já
tinham experiências de revoltas entre 1922 e 1924. Tinha
como líder Prestes, que na presidência estimulava
a agitação aliancista. O movimento ganhava força
de uma verdadeira revolução. Os aliancistas iam
para as ruas, faziam passeatas demonstrando o propósito
de atingir o governo.
O
avanço incontrolável da ANL começou a assustar
o governo. Uma carta enviada por Luís Carlos Prestes que
propunha uma revolução foi o pretexto para Vargas
decretar a ilegalidade enquanto partido. A polícia tentava
descobrir o paradeiro do presidente da Aliança (LCP) que
devido a um golpe comunista, conseguiu simular a sua estadia no
exterior, o que fez o governo desviar as atenções
dos manifestantes.
Começa
a mobilização
O
golpe desferido pelo governo abalou o movimento. Vários
dos revoltosos abandonaram a Aliança. A A.N.L. passara
a ser um aparelho clandestino mantido basicamente pelos comunistas
revolucionários. Cabia a Prestes executar na A.N.L. as
decisões que o partido tomava.
A
predominância do Partido Comunista sobre a Aliança,
juntamente com a linha insurrecional, que passou a orientar o
movimento, acarretaria a perda de alguns dos mais valiosos aliados
de Prestes.
O
tom da carta de Miguel Costa, companheiro da Coluna, é
de despedida. Ele propõe a continuação da
luta na legalidade, dando sugestões: a criação
de organizações partidárias em cada estado,
com programas iguais a da A.N.L. só que com outra denominação.
Prestes envia uma carta para Miguel pedindo para que ele permaneça
na A.N.L. e mantém a defesa intransigente da tomada do
poder. Prestes achava que a revolução estava próxima,
apesar de não haver o menor indício de revolução.
Jornais
conservadores denunciavam a presença de Prestes em vários
pontos do país. O jornal que apoiava os comunistas defendiam-no,
dizendo que eles estavam na Europa. O início da revolução
foi cedo e de forma imprevisível.
Em
23 de novembro, soldados e sargentos do vigésimo primeiro
batalhão de caçadores de Natal tomavam a guarnição
militar da cidade. O jornal Liberdade anunciava que o poder estava
nas mãos da A.N.L., estava instalado o Governo Popular
Revolucionário. Vários fatos se sucederam. Foi um
misto de Insurreição política e carnaval.
A revolução só durou 5 dias. Houve também
uma revolução em Recife, que durou 48 horas. Olga,
Prestes e o resto dos companheiros se reuniram, para decidirem
o que fazer, a respeito das revoltas. Todos eram contra a insurreição,
com exceção de Prestes. Depois de uma grande discussão,
foi decidido que se faria a insurreição no Rio de
Janeiro, pois Prestes dizia que a Marinha estava ao seu lado.
Decidiram o plano da revolução. Prestes despachou
mensageiros para todas as guarnições onde haviam
oficiais esperando pela ordem dele para iniciar o levante. Decidiu
também que era necessário uma nova casa para ele
e Olga, na zona norte e, de fácil acesso ao complexo da
vila militar. Mandou Miranda orientar Barron, para pôr o
rádio em funcionamento e poderem informar ao Comintern
sobre a decisão do levante. No momento que os revoltosos
tomassem as unidades, bastariam poucos minutos para que Prestes
assumisse, da vila militar, o comando do país.
Prestes
redigiu um manifesto que foi distribuído à população,
convocando-a para a revolta. Com isso foi admitida pela primeira
vez a presença dele no país. Ele e Olga encaminharam-se
para a nova casa. À noite do dia 26 de novembro, Barron
ligou a estação de rádio e transmitiu ao
Comintern a desencadeação do levante. A revolução
comunista brasileira iria começar às 3 horas da
madrugada do dia 27 de novembro.
Mesmo
entre companheiros, todo o cuidado é pouco...
A
revolução começou às 3hs da madrugada
e acabou às 1:30p.m. Nenhuma das guarnições
da Vila Militar se levantou. A revolta ficou restrita ao 3º
Regimento de Infantaria, e foi sufocada em poucas horas.
A
rebelião teve suas poucas horas de aparente glória,
o que não impediu a intensa repressão por parte
das forças do governo de Getúlio.
O
estado de sítio que foi decretado antes da rebelião,
se estendeu prolongando consigo a repressão aos comunistas,
que era tão grande que lotou as cadeias em pouco tempo.
Mesmo assim, um mês depois de desencadeada a repressão
aos comunistas, os cabeças ainda estavam soltos.
A
primeira apreensão destes ocorreu apenas no dia 26/12,
foram eles: Arthur Ewert e Sabo. Ao saber de tal fato Olga e Prestes
mudaram de endereço, pois receavam que também tivessem
descoberto o lugar onde moravam.
Ewert
tinha esperança de que a polícia brasileira não
conhecesse sua verdadeira identidade, porém o general Filinto
Muller já a conhecia. Ele a conseguiu com a ajuda do Serviço
de Inteligência Britânica.
Junto
com uma montanha de papéis, documentos, manuscritos, cartas
e bilhetes apreendido na casa de Ewert, a polícia obteve
da doméstica Deolinda Elias informações sobre
todos os freqüentadores da casa. Conseguiram o endereço
de Prestes, invadiram sua casa e abriram o cofre, falhando os
dinamites colocados neste por Paul Gruber.
Depois
deste fato, confirmaram-se a suspeita de Gruber ser um agente
duplo à serviço da Inteligência Britânica.
A verdade é que tanto ele como Erika, sua mulher, tinham
conhecimento de praticamente todos os planos da insurreição
de 27 de novembro.
Filinto
Muller folheou, triunfante, os documentos apreendidos na casa
de Olga e Prestes em Ipanema. O acervo encontrado pela polícia
na casa de Arthur Ewert não era menos abundante. No entanto,
alguns documentos chamaram especialmente a atenção
dos policiais: os relatórios minuciosos sobre a vida pessoal
e as atividades de delegados da polícia política
e o salvo conduto dado por Prestes a Berger na véspera
da revolta.
Muller
passou mais uma vez pela casa de Olga e Prestes, e deu uma enigmática
ordem aos investigadores:
-
Antes de fechar a casa, desamarrem aquele cachorro que está
no quintal e leve-o para o meu gabinete - referindo-se ao cachorro
que Prestes havia dado a Olga.
Muller
comunicou a Vargas e ao ministro da justiça o resultado
da operação e decidiu confirmar junto ao Departamento
de Estado norte americano a verdadeira identidade de Harry Berger
(Arthur Ewert), porém não obteve muito sucesso apelando
para o cônsul dos EUA em Berlim.
Ewert
e Sabo resistiam milagrosamente à violência dos policiais
alemães e brasileiros que se revezavam incessantemente.
Eles tinham o corpo coberto pelas marcas das torturas. Os policiais
brasileiros surpreendiam-se com a resistência dos presos.
No
dia 6 de janeiro, Muller anunciou à imprensa a prisão
efetuada 11 dias antes, como sendo resultado das investigações
brasileiras, e negando torturas.
Sucessivamente
prenderam Miranda (secretário-geral do partido comunista)
e Elza, sua mulher, notícia divulgada 4 dias depois do
efetuado. Assim, Olga e Prestes decidiram mudar-se novamente,
e desta vez escolheram o Meyer, um bairro operário que
aparentava ser o lugar ideal: longe da polícia. Lá
eles morariam junto com um casal também comunista foragidos
da polícia: Manoel dos Santos e Júlia dos Santos.
Valeram-se da ajuda de Victor Barron, que ainda não havia
sido importunado pela polícia. Levavam uma bagagem discreta
e Prestes passaria a manter contato com Lauro da Rocha, (o Bangu
- novo diretor do partido), através de mensageiros.
O
governo norte americano entrou para valer nas investigações
sobre a "conexão brasileira", enviando um investigador:
Xanthaky, que falava fluentemente português e espanhol.
A
primeira tarefa de Xanthaky foi interrogar Ewert e Elise. Esse
ficou impressionado com o que viu na cela. Ewert dramaticamente
enfraquecido, porém ele não acrescentou nada ao
investigador, só procurou tirar proveito da situação,
pois sabia que enquanto a visita durasse não haveriam torturas.
Xanthaky,
na saída, pediu aos policiais que transferissem Elise para
a cela de Ewert, atendendo ao pedido deste, e procurou saber mais
sobre Prestes, porém, a única informação
dada pelos policiais, é de que eles tinham ordens de não
trazê-lo vivo.
O
investigador transmitiu um minucioso telegrama ao Departamento
de Estado sobre a conversa que mantivera com Ewert e Elise.
É
possível resistir à tortura física?
A
polícia descobriu Ghioldi através de Elvira, mulher
de Miranda, que o havia reconhecido e denunciado através
de uma foto. Rodolfo, desconfiado de que estava sendo vigiado,
estava ajudando, e sua esposa Carmem foram presos no trem quando
estava parado em Jacareí. Na prisão, percebe que
Miranda estava ajudando os policiais e que por isso de nada adiantava
mentir. Então ele identifica León-Vallée
numa foto. Com isso, os policiais León na esperança
de que ele os levasse até Prestes, mas isso não
se concretizou. Rodolfo também deu o nome e endereço
de um americano, Victor Allen (que ainda não dispertava
nenhuma suspeita dos policiais), e que foi preso mais tarde. Tentou
se defender mas não conseguiu explicar como tinha tanto
dinheiro sendo representante da John Reiner & CO, fábrica
de motores de Nova York, e não tinha vendido uma só
unidade. Ele foi terrivelmente torturado.
A
prisão de um autentico cidadão norte-americano caiu
do céu para a embaixada dos Estados Unidos, que ganhava,
assim, um pretexto legalmente indiscutível para intrometer-se
ainda mais nas investigações da polícia brasileira.
A embaixada americana destacou Xanthaky para que pudesse interrogar
Allen Barron, e encontrou-lo em estado lastimável. Ele
exigiu da polícia brasileira melhores tratos a ele, mas
isso não aconteceu.
Por
fim, Ghioldi ofereceu de presente aos policiais uma informação
absolutamente nova: Prestes estava casado com uma mulher clara,
provavelmente estrangeira - pois sempre se comunicava com ele
em francês - e que ficava permanentemente a seu lado. Ghioldi
ignorava o sobrenome da mulher, mas tinha absoluta certeza de
seu nome: Olga.
A Ignorância do Poder constituído...
O
delegado Antônio Canavarro, a partir das informações
dadas pelo dirigente comunista argentino, Rodolfo Ghioldi, enviou
um ofício ao capitão Miranda Correia solicitando
a presença de Olga de Tal no cartório, para prestar
declarações.
Ao
receber o recado e as novas informações, Miranda
Correia logo as transmitiu ao chefe da polícia, Filinto
Muller, que era inimigo de Prestes desde a época da Coluna.
Chegou
a época do carnaval. O carnaval daquele ano foi transformado
para se adaptar às ordens do chefe da polícia: não
se podia usar máscara ou fantasias e a festa não
deveria passar das 22:00 horas. Mesmo assim, Olga, que nunca havia
visto um carnaval antes, ficou deliciada com as marchinhas. Foi
uma descontração dentro de uma situação
penosa, que só lhe permitia ir ao banheiro à noite,
já que este se localizava fora da casa em que morava, e
toda precaução era pouca para que ela e Prestes
não fossem descobertos.
Olga
e Prestes ficavam por dentro do assunto dos comunistas quando
Manoel, companheiro de moradia, trazia-lhes jornais incluindo
anotações feitas por espiões comunistas infiltrados
dentro dos presídios. Um deles chamou-lhes a atenção:
os policiais começavam a desconfiar da existência
de espiões na polícia. Enquanto isso a polícia
continuava a rastrear Prestes por toda a cidade.
Depois
que ela não obteve sucesso na procura de Prestes na Boca
do Mato, partiram a vasculhar o bairro do Meyer, onde Prestes
se encontrava. A chuva era intensa quando os "cabeças
de tomate", nome dado aos soldados que usavam um chapéu
vermelho, chegaram à Rua Honório. Eles revistavam
todas as casas por onde passavam. Ao baterem à porta de
Prestes, dona Júlia foi atender. Ao saber que era a polícia,
Prestes tentou fugir, mas a casa estava cercada. Ele logo é
reconhecido, e os policiais recebem a ordem de entrarem atirando.
Um número indefinido de soldados e policiais civis avançou
sobre dona Júlia, de metralhadoras engatilhadas, em direção
ao pequeno corredor por onde Prestes entrara. Foi então
que aconteceu algo inesperado. Uma mulher alta pula na frente
de Prestes, protegendo-o com seu corpo, e dá um berro para
os soldados. Não era um pedido de clemência, mas
uma ordem dada por Olga: - Não atirem! Ele está
desarmado! O gesto inesperado deixou-os paralisados. Talvez por
ser mulher, talvez por ter gritado com tanta energia, a verdade
é que se houve oportunidade para levar Prestes morto, ela
não tinha sido aproveitada. Depois foi só trazerem
o cachorro para reconhecer seus donos. Sem revelar medo, Prestes
pediu a Galvão para trocar de roupa mas não conseguiu:
- O senhor vai assim mesmo. Na rua, tentaram colocá-los
em carros separados, mas Olga percebeu que aquilo significaria
a morte de Prestes. Agarrou-se ao marido com tamanha força
que não houve outra alternativa senão permitir que
os dois fossem transportados juntos para a sede da Polícia
Central. Havia tantos policiais guardando-os dentro do veículo
que Olga teve que ir sentada no colo do marido. O comboio atravessou
a cidade despertando os moradores das ruas por onde passava: sirenes
ligadas, tiro para o alto, garrafas de cachaça correndo
nos caminhões que transportavam os 200 soldados molhados.
Quando
desembarcaram no saguão do edifício, Olga e Prestes
foram separados. Miranda Correia informou que eles seriam ouvidos
em salas diferentes. Prestes foi colocado dentro de um pequeno
elevador, sempre acompanhado por policiais armados, e ela levada
para outra sala. Quando a porta gradeada do elevador se fechou,
os dois se olharam pela última vez.
"Suicidado"
pela polícia política
Logo
ao chegar na policia central, Prestes foi informado de que Barron
havia denunciado ele e depois se suicidado, mas este negava-se
em acreditar. Perguntas como alguém poderia ter morrido
pulando de uma janela que não dá para o solo e sim
para um pátio que reduz a queda em um pavimento, só
aumentaram a desconfiança. Prestes ficou indignado com
a notícia do "suicídio" de Barron e quando
fora interrogado, apenas respondia com monossílabos, quando
respondia.
Filinto
encontrou pilhas de documentos na casa em que Prestes fora preso
e algum dinheiro. Em um desses documentos surgiu o nome "tribunal
vermelho": o processo pelo qual Elvira ou Garota teria sido
assassinada. Elvira fora acusada de traição pelo
partido comunista. Ela foi interrogada por León-Jules Vallée
e logo depois executada por dirigentes do partido. Isso piorou
muito a situação de Prestes, agora acusado também
de assassinato.
A
morte de Barron não era questionada pela imprensa brasileira.
O governo americano monta uma comissão para apurar a verdade
dessa enigmática morte.
Após
o esfriamento do caso Barron, a notícia de que Ewert e
Elise estavam sendo torturados vazou à imprensa. Logo caiu
nos jornais e revistas de todo o mundo, que cada vez mais crucificavam
o Brasil pelo tratamento aos estrangeiros. Mesmo assim os policiais
reagiam sinicamente afirmando que eles eram bem tratados.
Alianças
do Estado Novo com o Eixo
A
esposa de Prestes, nos interrogatórios, insistia em dizer
que era brasileira e que se chamava Maria Vilar. Porém,
após as investigações da polícia brasileira
junto à GESTAPO, Polícia Secreta Nazista, descobriu-se
tratar de Olga Benário, uma agente comunista da Terceira
Internacional.
Descoberta
sua verdadeira identidade, Olga Benário foi mandada para
outro presídio. Lá ficou numa cela coletiva junto
à sua amiga Sabo e outras mulheres que haviam participado
direta ou indiretamente da revolta de 27 de novembro. Ao lado
de sua cela ficava uma cela masculina. Homens e mulheres trocavam
através de um orifício na parede, informações
secretas e também palavras de amor. Inclusive nesta prisão
encontrava-se o escritor Graciliano Ramos.
Nesse
período de estadia na cadeia, Olga conviveu com uma gestação
inesperada, estava para nascer o filho de Luís Carlos Prestes.
Um fato, entretanto, impedia que ela e seus companheiros de prisão
pudessem desfrutar a perspectiva da maternidade. A ameaça
de expulsão do Brasil era cada vez mais concreta, e logo
seria entregue ao governo nazista.
Xenofobia
e medo
A
ameaça de expulsão incomodava muito Olga. Primeiro
por que ela queria que seu filho nascesse no Brasil e segundo
porque ela correria risco de vida na Alemanha, uma vez que fosse
judia e também comunista.
Num
dos dias de visita na cadeia, Olga soube que iriam definitivamente
expulsá-la e não perdeu tempo em conseguir um advogado,
Heitor Lima, que três dias após a aceitação
da defesa proposta por ela entrou com pedido de habeas corpus.
Ele pretendia com isso evitar que Olga fosse entregue ao governo
nazista.
O
desfecho do pedido não podia ser mais trágico. O
pedido de habeas corpus foi negado e com isso Olga e seu filho
se encaminhariam para a morte.
Moscou
não se conforma!
Em
função da notícia da não aceitação
do pedido de habeas corpus de Olga, o presídio entrou em
depressão. Tornou-se transparente, a partir daí,
o ambiente de conspiração na Casa de Detenção.
A rebelião era fato esperado pôr ambas as partes,
policiais e detentos, porém esta começou de maneira
curiosa, uma ratazana provocou barulho nos móveis alertando
os policiais, que logo agiram e sofreram reação
por parte dos detentos.
Prestes,
mesmo preso em um cubículo, ficou sabendo da rebelião,
assim como de tudo o que ocorrera a Olga. A mãe e a irmã
dele, Leocádia e Lígia, em Moscou, souberam da prisão
deste e de Olga e partiram para a Espanha. Organizaram campanhas
pela liberação de seus passaportes para o Brasil
e pela libertação dos presos políticos deste
mesmo país.
A
campanha foi levada a vários outros países da Europa
e do mundo, mas não alcançou os EUA, o que seria
de fundamental importância para repercussão no Brasil.
A
temida expulsão de Olga, assim como a de Elise Ewert e
Carmen Ghioldi, foram decretadas por Getúlio Vargas. Porém
a deportação não foi imediata, dando oportunidade
a uma última tentativa de salvar Olga. Através de
cartas e pedidos de habeas corpus, Maria e Luiz Werneck de Castro
tentaram adiar a extradição de Olga, o que não
conseguiram. Heitor Lima também tentou, ele escreveu uma
carta à esposa do presidente, mas de nada adiantou.
A
demora da deportação era justificada pelo fato deles
estarem esperando um navio que fosse direto à Alemanha,
pois nos outros países inúmeras revoluções
libertavam os presos dos navios durante as escalas. O La Coruña,
navio que seria encarregado de levar Olga à Alemanha, atracaria
no cais do porto do Rio de Janeiro no dia 23/09/36. Sabendo disso,
Filinto Muller organizou toda uma estratégia para transportar
Maria Prestes ao navio.
Carlos
Brandes vai até a Casa de Detenção e convida
Olga a sair do presídio com o pretexto de levá-la
ao hospital, para que esta tivesse o filho em segurança.
Os detentos não acreditam em Brandes e passam a abrir as
celas, com as gazuas, espécies de chaves confeccionadas
por um dos presos, que estava reservada para casos especiais,
ou arrombando-as. Sem poderem resistir, os presos aceitaram o
acordo mas somente se junto a Olga fossem dois outros presos.
Isto de nada adiantou. Olga sequer chegou a descer no hospital.
O comboio militar seguiu até o cais do porto sob uma chuva
fina e insistente. Quando foi retirada da ambulância, ainda
deitada na maca, a caminho da escada do navio, Olga pôde
ver, rapidamente, entre os pingos de chuva, o nome La Coruña
gravado no casco. Por um instante, teve esperanças de estar
sendo embarcada num navio espanhol. Mas ela moveu a cabeça
um pouco, virou os olhos para cima e viu, tremulando no mastro
principal, uma bandeira com a suástica negra no centro.
Era a bandeira da Alemanha de Adolf Hitler.
Uma
heroína entre prostitutas e ladras...
Dez
quilos mais magra, Olga, grávida, foi levada para o La
Coruña, navio alemão. O investigador João
Guilherme Neuman foi encarregado de escoltá-la durante
a viagem. Ele contou a Olga que Elise Ewert também estava
sendo embarcada, na cabine vizinha a ela.
Olga
foi embarcada contra as leis da navegação por estar
grávida. Ela pediu que instalasse uma companhia na sua
cabine para a eventualidade de sentir-se mal.
A
primeira noite foi de insônia e vômitos por causa
do movimento do navio e do barulho do motor. No primeiro dia,
Olga passou trancada na cabine, no segundo, ela e Sabo colocaram
a cadeira no corredor e ficaram conversando. No quarto dia de
viagem o navio chegou a Salvador; foi uma parada rápida.
Com o dinheiro que tinha, Olga comprou algumas coisas.
No
dia 3 de outubro eles ultrapassaram a linha do Equador. Olga e
Elise receberiam autorização após o jantar
para olhar pelas escotilhas o dirigível alemão Zeppellin.
Na
noite de 12 de outubro o La Coruña foi surpreendido com
a presença de outro navio, mas era apenas um barco português
perdido em alto-mar.
Às
seis horas da manhã no dia 18 de outubro o navio atraca
em Hamburgo. A tropa de choque nazista estava ali para receber
Olga e sua amiga.
Pouco
depois do meio dia Olga chega a Berlim. Vai diretamente para a
temida prisão de mulheres. Chegando lá ganhou a
roupa padrão das prisioneiras e cortou o cabelo rente a
cabeça. A cela era um cubículo de dois metros por
dois e com um colchão fino sobre uma laje de concreto.
Olga
ainda não tinha chegado a Hamburgo quando Lígia
e Dona Leócadia receberam uma carta contando o que acontecera
à mulher de Prestes. No dia 11 de novembro foram ao quartel
general da polícia secreta, elas queriam ver a mulher de
Prestes, mas o máximo que conseguiram foi deixar comida
e roupas. Voltaram à França com a vaga promessa
que seriam avisados do nascimento do bebê.
Na
madrugada de 27 de novembro de 1936, exatamente um ano após
a fracassada revolução, nasceu Anita Leocádia,
um bebê gorducho e saudável.
Só
no começo de fevereiro, quando Anita entrava no terceiro
mês de vida, que Dona Leocádia e Lígia souberam
do seu nascimento. O ofício da Cruz Vermelha transmitiu
à avó o risco que a garotinha corria: assim que
o leite da mãe secasse, ela seria entregue a um orfanato
nazista.
A
campanha organizada a partir da França passou passou a
reclamar desde então, pela libertação de
Prestes, no Brasil e de Olga e Anita, na Alemanha. Dona Leocádia
e Lígia se juntaram à irmã de Ewert.
No
Rio de Janeiro, o jovem advogado Heráclito Fontoura Sobral
Pinto, cristão militante, resolve por conta própria
defender Prestes e Arthur Ewert perante ao Tribunal de Segurança
Nacional.
Prestes
rejeita a oferta de defesa alegando que Sobral é um homem
de mentalidade burguesa sem capacidade ou desejo efetivo de defendê-lo.
Sobral Pinto não desistiu, recorreu a mãe de Prestes
para que conseguisse convencer o filho a aceitar a sua defesa.
Meses depois Prestes recebe um bilhete de sua mãe e acaba
mudando de idéia.
A
primeira intervenção de Sobral Pinto foi tentar
parar com as torturas a Ewert utilizando-se do código defesa
aos animais e também graças a Sobral Pinto, Prestes
passou a receber cartas de sua mãe e foi através
de uma delas que ele soube do nascimento de sua filha.
A
família intervém!
A
notícia de que era pai e de que Olga estava viva deu um
novo ânimo a Prestes, além disso, Sobral Pinto conseguiu
que ele respondesse às cartas.
Em
junho, Olga recebera novas notícias do marido. No dia 8
de maio Prestes fora condenado pelo Tribunal de Segurança
Nacional a dezesseis anos e oito meses a prisão; Arthur
Ewert, a treze anos.
Por
volta de julho de 1937 Dona Leocádia retornou a Alemanha
para tentar negociar com a GESTAPO a libertação
de Olga e Anita. Mas eles não aceitaram sequer discutir
o assunto, pois não consideraram nenhum parentesco entre
Olga, Anita e Dona Leocádia. A única pessoa que
poderia ajudá-la era a mãe de Olga.
Dona
Leocádia viajou para a capital da Baviera. Ao chegar na
casa da mãe de Olga, encontrou uma mãe que rejeitava
sua própria filha.
Poucas
semanas após o nascimento de Anita, Olga conseguiu enviar
um requerimento a embaixada brasileira pedindo o registro da recém-nascida
como cidadã brasileira.
O
advogado Sobral Pinto tentou levar o tabelião para que
Prestes assinasse o requerimento de paternidade mais foi impedido
pela justiça. Cada vez que o tempo passava a angústia
aumentava, pois a qualquer momento os nazistas poderiam tomar
Anita da mãe.
A
insistência de Sobral Pinto conseguiu que o tabelião
entrasse na cela de Pestes. Logo depois de Prestes assinar o requerimento
ele enviou-o para a Alemanha, e, assim, Dona Leocádia e
Lígia conseguiram tirar Anita da mão dos nazistas.
Para
Olga, é o fim, mas para Anita há esperança!
Quando
tiraram Anita de Olga, nada avisaram a ela. Ficou traumatizada,
debilitada emocionalmente, quase ficando louca. Ela acreditava
que Anita havia sido enviada para uma creche nazista. Aos pouco
foi se recuperando e voltou a fazer atividade física e
mental.
Depois
de um mês ela recebeu a carta de Dona Leocádia que
dizia que sua filha estava bem e com ela. Olga ressuscitou e voltou
a sonhar com a liberdade.
Nos
primeiros dias de março ela foi transferida para uma nova
prisão: a fortaleza de Lichtenburg. Ao chegar lá
foi conduzida a uma solitária. No sexto dia de solitária
recebeu a visita clandestina de Gertrud Fruchulz, uma velha amiga
de Neukölln. Ela trazia alimentos para Olga, falou da fortaleza
de Lichtenburg e contou que sua amiga Elise Ewert, Sabo, estava
ali.
As
duas semanas seguintes Olga passou sem receber qualquer notícia,
somente jogava xadrez e fazia exercícios físicos.
Quando
saiu da solitária seu primeiro desejo foi ver Sabo: ela
estava magra, tuberculosa e totalmente diferente.
Durante
um ano e pouco que passou em Lichtenburg ela seria levada meia
dúzias de vezes a Berlim para novos interrogatórios.
O
Campo de Concentração
O
Comboio que levava Olga sai de LICHTENBURG rumo ao norte.
Houve
mudança no sistema penitenciário da Alemanha, transformando
as penitenciárias em estruturas mais modernas onde os presos
pudessem ser usados de forma produtiva para a economia do Reich.
Assim
que chega ao campo de concentração, Olga percebe
organização e rigidez extremas. As mulheres era
"classificadas" por um triângulo colocado no braço
que identificava a razão por estar presa. Ela não
foi identificada como comunista, como já havia esperado,
e sim como anti-social (pessoas indesejáveis à sociedade),
pois era perigoso que ela ficasse junto a suas parceiras.
Olga
foi designada para por ordem no balcão em que se encontrava.
Instalou hábitos de higiene, instigou a vaidade nas presas.
Depois, foi intimada a depor em Berlim e lá escreve um
bilhete para a sogra.
As
grandes indústrias utilizavam o contigente dos campos de
concentração como mão-de-obra.
Olga
recebe a notícia de que Sabo não resistiu a tuberculose
que se agravou depois da chegada do inverno, e morreu levando
consigo os trauma da tortura.
Olga
tentava explicar às prisioneiras pequenas noções
das razões políticas que levaram àquela guerra.
Himler
(homem de confiança de Hitler) chegou aos campos de concentração
para uma visita e as presas foram trancadas nas celas. Durante
a inspeção do pelotão, uma mulher o xingou
e ele ordenou que algumas mulheres fossem punidas como forma de
aviso. Oitenta mulheres foram escolhidas, dentre elas Olga Benário,
que foi fortemente chicoteada.
Como
Olga não desistia da idéia de dar noções
políticas às presas, então resolveu confeccionar
um atlas para facilitar as explicações. Uma prisioneira
delatou-a em troca de uma ração ou de um cobertor,
não se sabe ao certo. Olga foi novamente torturada. Ainda
com muito ânimo encenou uma peça de teatro escrita
e dirigida pelas prisioneiras. Tudo foi descoberto e as presas
foram levadas a passar a noite sem agasalho, no palco, sob o rigoroso
inverno.
Olga
em seus momentos finais
O
Campo de concentração já não era unicamente
feminino, chegaram prisioneiros.
As
notícias vindas por parte de prisioneiras recém-chegadas
se opuseram ao otimismo de Olga: Hitler havia conquistado boa
parte da Europa.
Olga
contraiu um vírus que quase a mata. A situação
nos campos de concentração era de terror cada vez
mais crescente. Mulheres eram executadas sem motivos plausíveis.
Além disso existia mais um agravante: a chegada de médicos
para realizarem experiências genéticas com as presas.
O
vírus da tuberculose era disseminado pelos médicos,
e a todo momento mulheres morriam, mais claramente falando, assassinada
pelos médicos. Dizendo tratar-se de um vírus letal,
eles aplicavam constantemente a eutanásia. Os médicos
faziam outras experiências a respeito de doação
de órgãos e de defesa do organismo, usando como
cobaia as prisioneiras.
Mas
essas perversões tidas como pesquisas médicas não
seriam o fim da loucura nazista. Até então as execuções
praticadas em Ravensbruck vinham sendo feitas individualmente.
No começo do inverno de 1942 começaria a eliminação
sistemática de judeus e comunistas. Segundo notícias
que correu entre os presos, o médico Fritz Menennecke teria
a função de selecionar as mulheres que poderiam
ser utilizadas como mão de obra e as que seriam eliminadas
nas câmaras de gás e nos fornos crematórios.
Os
primeiros lotes de mulheres retiradas de Revensbruck deixaram
em dúvida as que lá permaneceram: elas estariam
apenas sendo transferidas para outros campos ou seriam eliminadas.
Elas combinaram que cada uma levaria um toco de lapis e um papel
onde deveriam colocar o nome do local para onde estariam sendo
transferidas. Colocariam na barra da saia. A volta do caminhão
trazendo as roupas usadas pelas mulheres trasnferidas repetiam
o mesmo nome: Bernburg. O que significaria isto ?
Bernburg
era uma cidadezinha situada a 100 quilometros a sudoeste de Berlin.
O prédio mais imponente do lugar depois da igreja luterana
era um hospital para tratamento de doenças mentais. Neste
hospital, seis dos 15 predios de cindo pavimentos do hospital
psiquiátrico foram ocupados por ordem de Himmler e transformados
em Propriedade do Reich - camuflando as atividades que a SS passaria
a exercer ali.
No
subsolo do Hospital foram construídos amplos cômodos
com as paredes e o chão revestidos de azulejos brancos
e de cujo teto pendiam chuveiros. Parecia um local para banho
coletivo. Nascia a invenção macabra do nazismo:
a primeira câmara de execução em massa de
prisioneiros através de asfixia por gás venenoso.
O primeiro teste foi realizado com os próprios alemães,
soldados que se negaram a bombardear posições republicanas
na Espanha e porisso foram considerados desertores.
No
começo de fevereiro de 1942, um pouco antes de Olga completar
34 anos, as mulheres foram reunidas no pátio central de
Revensbruck para ouvir nos auto-falantes do campo a relação
das 200 prisioneiras que na manhã seguinte seriam "transferidas
para outros campos de concentração". Eram chamadas
em órdem alfabética. Olga Benário Prestes
seria a de número 150. Junto com ela iriam as amigas Tilde
Klose, Irena Langer e Rosa Menzer.
O
auto-falante dava o último aviso: as prisioneiras relacionadas
teriam 30 minutos para recolher seus pertences e se apresentar
à oficial. Meia hora foi o suficiente para que Olga escrevesse
uma carta à filha e ao marido.
Dez
dias depois, quando o caminhão voltou com as roupas das
mulheres embarcadas naquela noite, Emmy Handke correu a procurar
o vestido de Olga. Apalpou a barra e dela tirou um pequenino pedaço
de papel onde estava escrito apenas uma palavra: Bernburg.
O
Brasil a caminho de sua redemocratização
Primeira
manifestação de massas dos comunistas no estádio
do Pacaembú desde o fechamento da ANL em 1935. Em 1943
Prestes foi eleito secretário-geral do partido da conferência
da Mantiqueira Igreja organiza uma novena de Nossa Senhora Aparecida
em advertência ao Partido Comunista.
O
governo brasileiro solicita um reatamento de relações
diplomáticas com a União Soviética. Mulheres,
estudantes e profissionais liberais organizam comícios
em todo país, exigindo a concessão imediata de anistia
política aos presos e exilados.
Getúlio
Vargas promete convocar eleições ainda naquele ano.
Dutra apresenta-se como candidato governista à Presidência
e inclui na sua plataforma uma inacreditável bandeira:
a legalização do Partido Comunista. Agora a reivindicação
das ruas é pela anistia e pela convocação
da Assembléia Nacional Constituinte.
Em
18 de abril, Vargas assina um decreto que concede anistia aos
presos políticos. Antes mesmo que o ato fosse publicado
no Diário Oficial, os cinco primeiros beneficiários
da medida deixam as prisões. Dentre eles estava Luís
Carlos Prestes que ao sair pergunta sobre o destino de Olga e
de seu amigo Arthur Ewert, que tinha sido beneficiado pela anistia
mas que talvez não tivesse condições de desfrutar
da liberdade pois estava enternado no manicômio no Rio de
Janeiro. Quanto a Olga, não tinha nenhuma informação.
Naquele momento, porém, quem elogiava o presidente da República
era Luís Carlos Prestes que havia sido vitimado pela repressão
dirigida por Vargas. A primeira reação contra o
apoio de Prestes a Vargas parte de seu antigo advogado Sobral
Pinto que condena qualquer união nacional com o senhor
presidente.
A
manifestação no estádio do Pacaembú
teve a participação de grandes intelectuais e de
uma grande massa popular. Depois da manifestação
foi em direção à estação Roosevelt,
onde tomaria um trem de volta ao Rio de Janeiro. Cercado de amigos
ele se preparava para subir a escada do vagão-leito, quando
um jovem chegou correndo, abrindo passagem entre os que se despediam
do chefe comunista:
-
Capitão Prestes! Capitão Prestes! Um momento, não
embarque!
Temeu-se
uma tentativa de agressão, mas o rapaz se identificou:
-
Sou repórter da agência de notícias United
Press. Nós tínhamos pedido às sucursais européias
que buscassem informações sobre Olga Benário,
e acabamos de receber este telegrama sobre ela, enviado pelo correspondente
em Berlim.
Ansioso,
Prestes levou o pedaço de papel aos olhos e leu-o com o
rosto crispado, diante do silêncio dos amigos que o fitavam.
Levantou a cabeça e disse apenas três palavras:
-
Olga está morta.
Era
um despacho curto, sem muitos detalhes:
Berlim
- As autoridades aliadas acabam de informar que entre as 200 mulheres
executadas na câmara de gás da cidade alemã
de Bernburg, na Páscoa de 1942, estava a senhora Olga Benário,
esposa do dirigente comunista brasileiro Luís Carlos Prestes.
Prestes
entrou no que já começava a se movimentar rumo ao
RJ, caminhou por entre as poltronas em silêncio, sentou-se
e leu mais uma vez a notícia, antes de guardar o papel
no bolso do paletó.
Só
muitos anos depois é que ele receberia a última
carta que Olga escrevera a ele e à filha, ainda em Ravensbrück,
na noite da viagem de ônibus para Bernburg.
"Queridos:
Amanhã vou precisar de toda a minha força e de toda
a minha vontade. Por isso, não posso pensar nas coisas
que me torturam o coração, que são mais caras
que a minha própria vida. E por isso me despeço
de vocês agora. É totalmente impossível para
mim imaginar, filha querida, que não voltarei a ver-te,
que nunca mais voltarei a estreitar-te em meus braços ansiosos.
Quisera poder pentear-te, fazer-te as tranças - ah, não,
elas foram cortadas. Mas te fica melhor o cabelo solto, um pouco
desalinhado. Antes de tudo, vou fazer-te forte. Deves andar de
sandálias ou descalça, correr ao ar livre comigo.
Sua avó, em princípio, não estará
muito de acordo com isso, mas logo nos entenderemos muito bem.
Deves respeitá-la e querê-la por toda a tua vida,
como o teu pai e eu fazemos. Todas as manhãs faremos ginástica...
Vês? Já volto a sonhar, como tantas noites, e esqueço
que esta é a minha despedida. E agora, quando penso nisto
de novo, a idéia de que nunca mais poderei estreitar teu
corpinho cálido é para mim como a morte. Carlos,
querido, amado meu: terei que renunciar para sempre a tudo de
bom que me destes? Conformar-me-ia, mesmo se não pudesse
ter-te muito próximo, que teus olhos mais uma vez me olhassem.
E queria ver teu sorriso. Quero-os a ambos, tanto, tanto. E estou
tão agradecida à vida, por ela haver me dado a ambos.
Mas o que eu gostaria era de poder viver um dia feliz, os três
juntos, como milhares de vezes imaginei. Será possível
que nunca verei o quanto orgulhoso e feliz te sentes por nossa
filha?
Querida Anita, Meu querido marido, meu garoto: choro debaixo das
mantas para que ninguém me ouça pois parece que
hoje as forças não conseguem alcançar-me
para suportar algo tão terrível. É precisamente
por isso que me esforço para despedir-me de vocês
agora, para não ter que fazê-lo nas últimas
e difíceis horas. Depois desta noite, quero viver para
este futuro tão breve que me resta. De ti aprendi, querido,
o quanto significa a força de vontade, especialmente se
emana de fontes como as nossas. Lutei pelo justo, pelo bom e pelo
melhor do mundo. Prometo-te agora, ao despedir-me, que até
o último instante não terão porque se envergonhar
de mim. Quero que me entendam bem: preparar-me para a morte não
significa que me renda, mas sim saber fazer-lhe frente quando
ela chegue. Mas, no entanto, podem ainda acontecer tantas coisas...Até
o último momento manter-me-ei firme e com vontade de viver.
Agora vou dormir para ser mais forte amanhã. Beijos pela
última vez.
Olga." |