O
setor privado critica o Anteprojeto, logo o Anteprojeto é
bom.
Um
mau silogismo para defender a contra-reforma
Roberto Leher* (FEUFRJ)
Em um uso informal, o silogismo é uma forma de raciocínio
que se presta a muitas brincadeiras entre os cientistas; contudo,
na política, este modelo de apresentação
de um determinado raciocínio – baseado em premissas
que conduzem a uma inferência – freqüentemente
é adotado com o objetivo de vender gato por lebre, gerando
o sofisma.
O MEC tem sido imbatível nesse quesito. De fato, para
sustentar politicamente o seu Anteprojeto de reforma da educação
superior, o Ministro da Educação, seus assessores
e as entidades que compõem o cinturão protetor
da política do governo federal para a educação
superior, têm divulgado o seguinte "silogismo":
"Os empresários da educação criticam
o anteprojeto. Os empresários são contra o controle
estatal. Logo, o Anteprojeto é a favor do ensino público
e subordina o setor privado ao controle estatal."
Há um claro sofisma nessa argumentação.
Lendo o Documento "Considerações e Recomendações
sobre a Versão Preliminar do Anteprojeto de Lei da Reforma
da Educação Superior", elaborado pelo Fórum
Nacional da Livre Iniciativa da Educação, coletivo
que reúne todas as entidades empresariais relevantes
da educação superior, é cristalino que
o Fórum acolhe, sem críticas, os principais aspectos
da política do governo de Lula da Silva para o setor,
como o ProUni, a Inovação Tecnológica,
o Sinaes e mesmo o fundamental do Anteprojeto. O problema é
que essas medidas são consideradas insuficientes: querem
mais desregulamentação e liberalização.
A divergência não é em relação
ao conteúdo. É uma questão de grau. Certamente,
o forte lobby privatista irá pressionar o governo a incorporar
ao seu projeto os anseios do setor privado de modo ainda mais
incondicional.
As queixas dos empresários causam uma sensação
de já visto. Com efeito, é muito semelhante ao
tom das críticas de setores empresariais ao ProUni. Quando
o MEC lançou a idéia, no início de 2004,
muitos dirigentes manifestaram contrariedade, alguns de modo
agressivo, afirmando que 20% das vagas era uma contrapartida
abusiva a completa isenção de tributos. O governo
acusou a pressão e reduziu as bolsas integrais a 10%
e, a seguir, já no parlamento, novos reclamos e, por
acordo com a base parlamentar do governo, as bolsas integrais
despencaram para 4,25%. Assim, em retribuição
a uma liberação tributária que totalizará
mais de R$ 2,5 bilhões por ano, as empresas do setor
cederão cerca de 100 mil bolsas integrais. A previsão
inicial era de 400 mil vagas "gratuitas"! Moral da
história: reclamar faz bem para os lucros empresariais!
Assim, a experiência do ProUni pode nos ajudar a reescrever
o "silogismo" anterior:
"Os empresários da educação criticam
o anteprojeto. Os empresários são contra o controle
estatal. Logo, o governo irá liberalizar e desregulamentar
ainda mais o setor".
Medidas governamentais que atendem aos anseios dos empresários
Entre as proposições governamentais que são
congruentes com os anseios do setor privado, conforme expresso
no documento do Fórum Nacional da Livre Iniciativa em
Educação, destacam-se, entre outras:
1. A tese de que a educação é um bem público:
"O Fórum entende a Educação como uma
política pública específica de Estado."
Sendo um bem público, independentemente se a instituição
é pública ou privada, as verbas estatais podem
ser distribuídas a todas as instituições
que atendem ao interesse social. Por isso, comemoram a isenção
tributária do ProUni e a possibilidade, inédita,
de conversão de filantrópicas em empresariais,
inclusive com transferência do patrimônio, tudo
isso sem ter de pagar impostos e contribuições.
Com o ProUni, situações como a do reitor e proprietário
da Universidade de Marília – que adquiriu prédios,
aviões etc., em nome da instituição, quando
esta ainda era filantrópica, e que se apropriou desses
bens como pessoa física, sendo, por isso, condenado por
sonegação – deixarão de existir.
Em tempo, a sonegação desse reitor totaliza R$
47 milhões (Germano Oliveira. Reitor é condenado
por sonegação fiscal. O Globo, 3/4/05,p.12.).
2. O Estado deve estabelecer normas para a autorização
dos cursos e avaliar o setor privado: "O Fórum reconhece
que o Poder Executivo tem o dever de zelar pelos critérios
de autorização de cursos e instituições,
bem como pela observância do princípio da ´garantia
de padrão de qualidade´ da educação
superior, consagrado pela Constituição Federal."
Por isso, estimulam o "experimento" SINAES e ENAD
que "aperfeiçoados" poderão facilitar
a certificação e a qualificação
das instituições de interesse social.
3. A institucionalização dos Centros Universitários
na forma de Lei. Vale lembrar que esta modalidade não
está discriminada na LDB, tendo sido criada por Decreto
(Dec. N. 2306/97). Por ser um tipo de instituição
que objetiva burlar o Art. 207, CF, foi duramente criticada
pela comunidade acadêmica e mesmo pelos dirigentes das
universidades particulares que os concebem como uma concorrência
desleal: "têm prerrogativas de universidades, mas
estão liberados da indissociabilidade entre o ensino,
a pesquisa e a extensão". O Anteprojeto atende assim
a uma reivindicação da Associação
Nacional dos Centros Universitários (ANACEU), embora,
ao limitar a possibilidade desses Centros criarem cursos, o
Anteprojeto atende a um anseio da Associação Nacional
das Universidades Particulares (ANUP) e do Conselho de Reitores
das Universidades Brasileiras (CRUB).
4. As condições para o funcionamento das universidades
e dos centros universitários privados. A abertura que
a salvaguarda do Anteprojeto ofereceu satisfez de modo pleno
os empresários. Com efeito, para uma instituição
ser considerada universidade o Art.13 determina 12 cursos de
graduação em três campos de saber e três
cursos de mestrado e um de doutorado. Contudo, as universidades
especializadas (o caso da quase totalidade delas, especializadas
em Humanas), conforme o mesmo Artigo, podem ter apenas oito
cursos de graduação (seis podem ser em um único
campo!) e apenas um curso de mestrado ou doutorado! Todas cumprem
essa exigência hoje! As mesmas facilidades são
encontradas nos Centros Universitários. O Art. 25 determina
seis cursos de graduação em, no mínimo,
dois campos de saber. Se for um Centro especializado, bastam
quatro cursos de graduação em um único
campo de saber!
5. A autorização e a supervisão das particulares
não universitárias poderão ser realizadas
pelos estados, por meio de convênio da União com
os entes federados, uma descentralização há
muito reivindicada pelos empresários.
6. O instrumento que normatiza as condições da
autonomia da universidade, o Estatuto, somente é registrado
no caso das privadas, não passando por nenhuma esfera
externa a instituição. Tratamento distinto é
determinado para as públicas. O Estatuto precisa ser
aprovado pelo CNE, um lócus privatista, e pelo próprio
Ministro.
7. A qualificação da educação como
área aberta aos investimentos estrangeiros. Embora restritos
a 30%, o princípio da abertura do setor já está
contido no Anteprojeto. No parlamento, os setores empresariais
que representam as entidades com fins lucrativos (empresariais)
já se manifestaram pela derrubada desse limite.
8. As mensalidades seguem liberalizadas, sem quaisquer controles.
As conquistas a serem ampliadas
1. Processo de gestão democrática. O Anteprojeto
prevê a existência de eleição direta
pela comunidade para a escolha de um pró-reitor com critérios
elaborados pelo Conselho Superior, em geral constituído
pela direção da instituição. No
entanto, para as entidades empresariais isso fere o preceito
constitucional (art. 209, I e II): o ensino é livre à
iniciativa privada, desde que observadas as normas gerais da
educação nacional, a autorização
e a avaliação de qualidade pelo poder público.
Os empresários lembram ainda que a CF somente prevê
gestão democrática para as instituições
públicas (Art. 206, CF). Desse modo, é de se prever
que os empresários irão atuar no sentido de derrubar
os frágeis artigos relativos a gestão democrática
das privadas.
Apesar de consultivo e de possuir composição em
aberto, o Conselho Comunitário Social, bem como outros
colegiados propostos no Anteprojeto, na avaliação
do Fórum "tornam possível a substituição
do mérito acadêmico e da competência administrativa
por ações de cunho sindical, corporativista ou
vinculadas a forças estranhas ao meio acadêmico.
Trata-se, pois, de medida inadequada e que fere o princípio
constitucional da autonomia. É necessário lembrar
ainda que a gestão democrática do ensino, na forma
que a Constituição Federal estabelece, é
obrigatória apenas nas instituições públicas".
O ministro Tarso Genro, conforme Valor Econômico (01/03/05),
lembra aos empresários que os referidos Conselhos serão
apenas consultivos e não representam uma interferência
indevida na gestão das universidades, "servindo
apenas para discutir com transparência relações
que já existem na sociedade", minimizou o ministro.
2. Avaliação. Em que pese o apoio ao Sinaes/ Enade,
os empresários reclamam a explicitação
do que vem a ser "padrão de qualidade" para
fins de avaliação. "Não são
conhecidos os indicadores de cada padrão ou definidos
os valores que eles deverão assumir para fins de controle
do poder público, nem as medidas necessárias para
evitar que julgamentos subjetivos conspurquem decisões
de ordem administrativa". Por isso, para os empresários,
o credenciamento e a classificação não
podem adotar, ainda, o Sinaes e o Enade.
3. Os empresários reclamam maior apoio à educação
a distância e uma "gestão articulada entre
ensino presencial e não-presencial, educação
continuada e a distância, certificações
intermediárias e finais, registro de certificações
e fiscalização das profissões, etc".
"Qualquer reforma que se preze deve investir na direção
do futuro em termos de formação, educação
continuada e a distância, inovações didáticas
e metodológicas e diminuição de controles
em favor de avaliações de aprendizagem."
Uma matéria do jornal Valor Econômico (01/03/05)
assegura que o Ministro da Educação acolheu essa
sugestão que, a rigor, é congruente com as medidas
de formação de professores encaminhadas pelo MEC,
também assentadas na EAD.
4. As instituições privadas universitárias
reivindicam maior apoio do fundo público para o financiamento
da pesquisa, para favorecer a interação entre
a pesquisa universitária e as empresas públicas
e privadas e, também, para o apoio a qualificação
dos docentes das privadas, por meio de bolsas. Nesse sentido,
preconizam mudanças no sistema de avaliação
da pós-graduação realizado pela CAPES (credenciamento
e conceitos), objetivando melhores condições para
que as universidades privadas possam edificar a sua pós-graduação.
5. O Fórum sustenta ainda que as mantenedoras, por estarem
cobertas pelo preceito constitucional que assegura a livre iniciativa
da oferta educacional, não podem ser objeto de regulação
do Estado que ultrapasse "as normas gerais da educação
nacional, a autorização e a avaliação
de qualidade pelo poder público".
6. Desenho institucional: "o Fórum entende que a
reforma deve constar de mais de um projeto de lei, pela impossibilidade
técnica e jurídica de matérias distintas
serem tratadas em uma única lei. A revisão do
papel institucional do MEC, tendo em vista a criação
de uma agência reguladora independente, especializada
em avaliação e certificação de qualidade
de cursos e instituições, com poder para acreditar
outras entidades especializadas em avaliação,
e capaz de produzir informação qualificada para
fins de supervisão do sistema de ensino superior".
Aqui as privadas querem levar ainda mais longe a descentralização
da avaliação e do credenciamento já prevista
no Anteprojeto. A criação de uma agência
reguladora é o eixo dessa proposta.
Considerações finais
As medidas empreendidas pelo governo e as previstas pelo Anteprojeto
definem um grande marco normativo que fortalece o setor privado
por meio de isenções fiscais, pelo aprofundamento
da diferenciação das IES, pelo baixo perfil para
a classificação das instituições
como universidades e centros universitários e pela abertura
do mercado ao investimento estrangeiro. A oportunidade de uma
"reforma" da educação superior é
vista pelos empresários como uma preciosa oportunidade
de melhorar ainda mais as condições para os negócios
educacionais, liberalizando e flexibilizando ainda mais o setor.
E é sobre estas que os empresários têm dirigido
as suas críticas (a exemplo do que fizeram no ProUni).
É importante frisar que muitas reivindicações
são específicas de setores (universidades empresariais,
confessionais etc.) e não atendem a todo o setor privado.
Os conflitos entre essas frações são agudos
e o fato de todas as entidades empresariais terem acordado um
documento unitário, por meio do Fórum, não
autoriza a avaliação de que a competição
entre essas frações será atenuada.
Contudo, é inequívoco que o lobby no parlamento
irá agir de modo articulado e produzirá modificações
no projeto que o tornará uma lei para os empresários
da educação. Seguramente, não foi por ingenuidade
do MEC que as isenções do Prouni não geraram
as 400 mil novas vagas com bolsas integrais previstas no projeto
inicial. É certo que o MEC sabia que o programa seria
redimensionado pelo parlamento. O fato da redução
das vagas ter sido aprovada por acordo de lideranças
corrobora isso. Igualmente, não há ingenuidade
quando o MEC faz um Anteprojeto com imensas aberturas ao setor
privado e com salvaguardas fragmentadas e débeis. "Estamos
em busca de um consenso" disse o Ministro em uma reunião
com os empresários da educação na CNI (Valor
Econômico, 01/03/05).
Não é preciso fazer futurologia para saber que
as frágeis regulamentações das condições
de funcionamento do setor privado serão derrubadas, muito
provavelmente já na Casa Civil. Nos termos de uma liderança
empresarial "a negociação tem início
na Casa Civil". Os vestígios de proteção
ao sistema público e de controle sobre o capital foram
adequados aos reclamos do setor privado: assim aconteceu com
o Prouni, a Biossegurança, as PPP etc.
Constatar que entidades participantes dos Congressos Nacionais
de Educação estão sustentando o "silogismo"
veiculado pelo governo, por meio de intensa propaganda, é,
talvez, a única surpresa do momento. Somente desconsiderando
o que de concreto já foi encaminhado pelo governo e se
eximindo de uma leitura minimamente rigorosa do Anteprojeto
é possível afirmar que os empresários não
estão saindo ainda mais fortalecidos. De fato, após
o MEC ter sido dirigido, por longos oito anos, por um ministro
a favor dos empresários (e que hoje assume a sua condição
de empresário da educação), parecia que
a torrente privatista não poderia ser mais aprofundada.
A realidade nos mostra que pode. A coerência com os princípios
e valores que nortearam a defesa da educação pública
e gratuita nos Congressos Nacionais de Educação,
o amplo e democrático debate de uma Agenda alternativa
e a forte mobilização nos espaços públicos
são condições para que o programa educacional
neoliberal seja revertido.
*
Professor da UFRJ e pesquisador do CLACSO do Laboratório
de Pesquisas Públicas da UERJ, ex-presidente do ANDES-SN.