Os
caminhos enganosos da reforma universitária
Por
Elaine Tavares - jornalista no OLA/UFSC
Triste
destino o dos trabalhadores das universidades, sempre chamados
de "arautos da desgraça", aqueles que, como
Jeremias, bradam do alto dos montes a anunciar as coisas ruins
que virão. São vistos como urubus, pássaros
longevos que sobrevoam as carniças, a espreitar para
o almoço. Assim os chamam, quando, entre gritos, protestos
e greves tentam mostrar o que virá. Na verdade, eles
não são visionários do mal, mas aqueles
que, com base na análise da realidade, vislumbram claramente
o destino da universidade para o futuro próximo, ou seja,
a privatização.
Assim
tem sido na discussão da reforma universitária
proposta pelo governo Lula. Desde que foram ensaiados os primeiros
passos, parte dos técnicos-administrativos anunciavam
que seria um grande golpe para as universidades e para todos
os trabalhadores. Por isso, pouco tempo antes de anunciar o
projeto, o governo envolveu a categoria em questões intestinas,
como a reformulação da tabela salarial, armando
uma bem urdida armadilha para deixá-los fora do debate.
A Federação dos Sindicatos dos Trabalhadores em
Universidades (Fasubra) caiu no laço e, a gosto do governo,
vem priorizando a discussão do chamado tabelão.
Por outro lado, alguns sindicatos de base, como o da Universidade
Federal de Santa Catarina, denunciam a farsa que está
sendo a idéia de reforma proposta pelo governo.
"Na
verdade, esta é uma contra-reforma e parte de um pré-suposto
errado. Junta o setor público com o setor privado na
mesma lei, como se ambos trabalhassem com a mesma coisa. A lógica
dos governistas é de que todos lidam com educação.
Isso é fato. Mas há concepções muito
diversas na maneira de gerir uma instituição pública
e uma privada, sendo que a última visa lucro e trata
a educação como mercadoria. A pública,
por princípio, não deveria ter essa idéia.
O que nos diz então o governo? Que entende a educação
como mercadoria, pois coloca os dois sistemas – público
e privado – na mesma bacia. Isso é inaceitável",
diz Raquel Moysés, uma das coordenadoras do sindicato.
Ela
denuncia que a chamada Lei Orgânica, que estabelece as
diretrizes e normas para a educação pública
é recheada de absurdos. Escrita sob as luzes dos planos
estrangeiros do Banco Mundial e FMI, a lei começa, de
cara, no artigo primeiro, legalizando as Fundações
de Apoio, uma espécie de excrescência parasita
que vive grudada na universidade a encher os bolsos com dinheiro
público e privado, longe dos interesses da sociedade.
Desde sempre os movimentos de trabalhadores estiveram lutando
para expulsar de dentro das universidades públicas esses
organismos e, agora, o mesmo governo que antes era contra, as
legaliza.
A
idéia de democracia estabelecida pela proposta governista
também é algo que foge do normal. Fala em gestão
democrática, mas dá todo o poder aos docentes,
deixando cada vez mais claro que os técnicos-administrativos
são invisíveis, incapazes e prescindíveis.
Além disso, a lei cria aberrações sem pé
nem cabeça, como os cursos de educação
superior, que não configuram graduação.
Ao que parece, unicamente legalizam os famosos cursos "caça-níqueis"
que formam mão-de-obra para o mercado e sugam os trabalhadores
mais pobres premidos pelo canto insuportável do "qualifique-se
para o mercado ou morra". No mesmo grupo está a
invenção dos "Centros Universitários",
outra aberração que fica entre ser faculdade e
universidade, sendo na verdade nenhuma delas. Outro caça-níquel
a serviço do mercado.
A
proposta governista ainda traz em seu corpo um instrumento de
perversidade pois – ao mesmo tempo em que engana os trabalhadores
com um falso projeto de carreira - abre as portas para o famigerado
Regime Próprio por Universidade, o que pode jogar por
terra qualquer avanço que os trabalhadores das federais
venham a ter com a reestruturação de tabela que
está em curso. Com a instituição do regime
próprio, cada universidade vai poder definir a vida funcional
de seus trabalhadores, admitir ou demitir. "Isso aí
nada mais é do que o processo de privatização
em andamento", insiste Raquel. Além de dividir cada
vez mais os trabalhadores, bem na lógica da outra reforma
que já está no Congresso: a sindical.
O
projeto apresenta elementos que poderiam ser, à primeira
vista, considerados um avanço. Mas, uma leitura mais
cuidadosa revela as armadilhas. Um exemplo é o Fórum
Nacional de Educação. Da maneira como está
colocado não deixa claro quem vai fazer parte dele, como
será constituído etc... É um jogo de cena
para parecer democrático. E, por incrível que
pareça, tem sido um dos pontos de crítica da direita
brasileira que insiste em dizer que, com o Fórum, a educação
vai ficar nas mãos dos sindicatos, da CUT e do Movimento
Sem-Terra. Nada mais falso. Tudo indica que quem vai mandar
é a iniciativa privada.
A lei de reforma fala também em eleição
direta para reitor nas universidades, mas não se manifesta
sobre, no mínimo, a paridade no processo. Até
agora a comunidade universitária não tem tido
o direito de escolher o seu dirigente, sendo ele eleito através
dos Conselhos Universitários, com maioria docente. Ao
falar em eleição direta, mas sem especificar como
seriam as eleições, o governo deixa brecha para
que os docentes continuem a ter peso maior no processo. Mais
uma vez os técnicos-administrativos podem ficar com peso
menor, fazendo coro ao que o projeto insinua quando dá
mais poder aos docentes: os TAs são incapazes e não
podem decidir, de forma paritária, a vida da universidade.
Não bastassem todos esses problemas, a proposta de reforma
do governo Lula pretende jogar os trabalhadores aposentados,
sejam docentes ou técnicos, para fora da folha de pagamento
das universidades, dando seqüência ao desejo de exclusão
que já vem de outros governos e que, até agora,
a luta dos trabalhadores conseguiu barrar.
Outro ponto grotesco é o financiamento das bolsas estudantis
através do jogo de azar. A população brasileira,
já tão sofrida, vai financiar duas vezes a universidade.
Primeiro, com os impostos e, depois, apostando na loteria, na
enganosa promessa de que pode ficar rico. O governo incentiva
a enganação e ainda tem a cara de pau de colocar
isso no projeto. Um mico mundial.
Estes são apenas alguns pontos que mostram o quanto o
projeto de reforma universitária pode ser nocivo aos
interesses dos trabalhadores, das universidades e da sociedade.
Visivelmente, ao colocar sob a mesma lei dois sistemas de ensino
tão diversos – o público e o privado –
o governo está tentando desqualificar o serviço
público e deixando claro à sociedade que a educação
vai passar a ser tratada como mercadoria, bem ao gosto da Organização
Mundial do Comércio. "As pessoas que ainda acreditam
que o Lula é um dirigente de esquerda precisam abrir
os olhos. Esse é um governo neoliberal que segue, à
risca, a receita dos organismos internacionais", dispara
o dirigente sindical, Ivalter Coutinho.
Quais
as saídas?
Para os trabalhadores que estão em luta contra a reforma
universitária proposta por Lula este é um momento
conjuntural muito difícil. Há uma grande apatia
entre as categorias que fazem a universidade em função
da desesperança que se instalou tão logo a máscara
do governo "de esquerda" caiu. Além disso,
a cena política brasileira vive um desmonte das instituições
partidárias e sindicais. A eleição para
a presidência da Câmara dos Deputados colocou os
políticos em descrédito. Os deputados, longe de
auscultar suas bases sobre os destinos da casa - e conseqüentemente
do país - preferiram votar num candidato que oferecia
aumento salarial, férias de 90 dias e mais contratação
de funcionários para seus serviços. Nada mais
internista e fisiológico. Mostras da pequena política
que toma conta do país.
Além disso, o país vive uma crise no campo, com
assassinatos, violência e mais uma etapa de demonização
do Movimento Sem-Terra, como se fora ele o responsável
pelo caos no interior. Na verdade, o MST apenas quer que Lula
cumpra o que prometeu: agilidade na reforma agrária.
Mas, ao que parece, Lula tem preferido fazer aliança
com o agro-négocio, que impõe suas pautas, decide
pela liberação dos transgênicos e financia
a barbárie no campo. Na cidade, as gentes, sem emprego,
sem comida e sem lugar para morar, ocupam áreas e são
reprimidas como se fossem bandidos. Tiros, mortes, violência.
O caos. Enquanto isso, os bancos divulgam mais um ano de lucros
astronômicos. O que significa que tudo segue como antes.
Nada mudou.
Dentro desse turbilhão, os trabalhadores das universidades
que estão em luta tentam encontrar algum canal de diálogo
com a sociedade para que as armadilhas do projeto sejam percebidas.
Não tem sido fácil, até porque, de forma
equivocada, movimentos importantes, e sempre aliados, como o
MST, o Movimento dos Atingidos de Barragens, as Mulheres Agricultoras
e a União Nacional dos Estudantes, estão dando
apoio ao projeto.
Na mídia, a direita raivosa ataca o projeto do governo
com base em falsas questões. Diz que Lula está
jogando a universidade na mão do MST e dos sindicatos.
Isso é uma bobagem. Insaciável, a classe dominante
quer muito mais do que o projeto já lhe dá, então
parte para o ataque usando os velhos "medos" de que
sempre lança mão. Diz que os comunistas vão
tomar conta do país. Ora, nada mais antigo e sem lógica.
A reforma governista está entregue ao capital. Mas o
empresariado quer mais. " É por isso que nós,
os trabalhadores, precisamos continuar a fazer a crítica,
sem medo de sermos comparados com a direita. Isso não
se sustenta. Os argumentos não são iguais. Nós
estamos em defesa do serviço público, a direita
defende o capital", diz Jussara Godói, coordenadora
de Comunicação do Sintufsc.
Mas, apesar da denúncia e da luta de alguns sindicatos
de base, a Federação que congrega todos os sindicatos
das universidades está cindida. Parte dela apóia
o projeto governista e o dilema que está posto é:
vai a Federação seguir a política cutista
de sindicalismo propositivo, considerada suicida pela ala mais
radical? Vai a federação acreditar que é
possível disputar o projeto nas mesas de negociação?
"Nós já tivemos provas mais do que cabais
de que esta política de negociação só
serve aos que mandam, aos que dominam. Desde os anos 80, quando
a CUT deu a guinada para a conciliação de classes,
que as mesas de negociação só negociam
perdas, nunca ganhos". É o que denuncia o advogado
trabalhista Cláudio Antônio Ribeiro. "O sindicalismo
de propostas tira do trabalhador a sua capacidade de resistir,
no combate, ao neoliberalismo. Conciliação é
coisa típica do fascismo, não discute o conflito,
camufla e o consenso é um pântano. A superfície
é serena, mas se a gente mergulhar, lá está
a podridão".
Para os sindicalistas que estão bradando contra a reforma,
a Fasubra não deve entrar nesse pântano e tampouco
insistir em colocar um projeto alternativo para negociar perdas,
apostando na política da migalha. "O que temos de
fazer é a luta. Dizer não ao projeto, mobilizar
os trabalhadores, esclarecer a sociedade. A proposta de negociação,
levada pela CUT desde os anos 80, está esgotada. Só
trouxe perdas aos trabalhadores. Não é inteligente
seguir insistindo nisso. Não cabe aos trabalhadores oferecer
alternativas ao governo. Cabe a nós fazermos a luta,
desmascarar as jogadas sujas, desarmar as armadilhas. Resistir,
combater. Só a luta efetiva pode vencer o neoliberalismo.
Já não dá mais para crer que a negociação
é o caminho e que as partes envolvidas no jogo têm
forças iguais. Nela, só os que têm poder
vencem. Insistir nisso é ir como carneirinhos para o
abate", finaliza Raquel Moysés.