Foi
morto, aos 22 anos de idade, em São Paulo.
Fez
o ginasial no Instituto de Educação Estadual Dr.
Júlio Prestes de Albuquerque, em Sorocaba/SP. Cursava
o 4° ano de Geologia na USP quando foi assassinado. Foi
preso por agentes do DOI/CODI-SP no dia 16 de março de
1973, por volta de 11 horas. As torturas inflingidas a Alexandre
iniciaram-se assim que deu entrada nas dependências do
DOI/CODI, tendo sido a equipe C a primeira a torturá-lo.
Tal
equipe era chefiada pelo delegado de polícia conhecido
pelo nome de “Dr. Jorge” e composta pelos seguintes
elementos: escrivão de polícia Gaeta, tenente
da PM Mário, investigador de polícia conhecido
como “Oberdan” e o carcereiro do DOI/CODI conhecido
como “Marechal”.
No
dia seguinte, Alexandre foi torturado pelos membros da equipe
A, chefiada pelo torturador de nome “Dr. José”
e pelo investigador conhecido por “Dr. Tomé”
e composta por: “Caio ou Alemão”, “Dr.
Jacó”, “Silva”, “Rubens”,
todos orientados diretamente pelo comandante daquele departamento,
o então major Carlos Alberto Brilhante Ulstra.
As
torturas prolongaram-se até pouco depois do meio-dia,
tendo então Alexandre sido colocado na cela-forte.
Por
volta das 17 horas, o carcereiro conhecido pelo nome de “Peninha”,
foi retirá-lo da cela para levá-lo para mais uma
sessão de tortura. Alexandre não respondia aos
gritos do carcereiro que, intrigado, entrou na escura cela-forte
e constatou que estava morto, saindo da cela aos gritos de “o
homem morreu”. Os torturadores correram todos para ver
o corpo de Alexandre e o retiraram da cela-forte, arrastando-o
pelas pernas.
Tal
cena, assistida por todos os demais presos recolhidos às
dependências do DOI/CODI naquele dia era brutal: Alexandre,
sangrava abundantemente na região do abdômen.
A
morte de Alexandre foi justificada pelos torturadores, perante
a acusação dos demais presos, como tendo sido
provocada por suicídio com auxílio de uma lâmina
de barbear. Somente no dia 23 de março os órgãos
de segurança divulgaram sua morte, com a notícia
de que fora atropelado ao tentar fugir à prisão.
Tal
versão foi desmentida categoricamente nos depoimentos
prestados no mês de julho de 1973, perante a 1ª Auditoria
Militar, pelos seguintes presos políticos: Luis Vergatti,
Cesar Roman dos Anjos Carneiro, Leopoldina Brás Duarte,
Carlos Vítor Alves Delamônica, Walkiria Queiroz
Costa, Roberto Ribeiro Martins, José Augusto Pereira,
Luís Basílio Rossi e Neide Richopo. Tais depoimentos
foram citados pelo Ministro do STM Rodrigo Otávio Jordão
Ramos no dia 26 de abril de 1978.
Como
a nota oficial só foi divulgada vários dias após
o assassinato de Alexandre, sua família só pode
localizar o corpo quando este já se encontrava enterrado.
Detalhe bastante significativo é que Alexandre fora enterrado
sem qualquer espécie de caixão, em cova rasa e
forrada de cal-virgem, a fim de que a decomposição
do corpo fosse acelerada e apagadas as marcas evidentes das
torturas que o levaram à morte.
Um
fato importante que evidencia a farsa montada para encobrir
o assassinato de Alexandre sob tortura é a declaração
do delegado Sérgio Fleury à família Vanucchi
Leme que, em evidente e cínica confissão de “fracasso”
dizia “não ter sido possível obter de Alexandre
sequer o local de sua própria residência”.
Segundo o livro “Gritos de Justiça”, de Mário
Simas, publicado pela Fundação Getúlio
Vargas, seus pais, em 20 de março de 1973, receberam
um telefonema anônimo informando que Alexandre se encontrava
preso no DOPS/SP. Lá e em outros órgãos
da repressão onde o procuraram sempre ouviram negativas.
Dias depois, quando sua morte já havia sido publicada
pela imprensa, no IML/SP, foram informados que havia sido enterrado
como indigente no Cemitério de Perus.
Apesar
de haverem constituído advogado imediatamente após
a notícia de sua prisão, somente 10 anos depois
puderam resgatar seus restos mortais. Foi instaurado um inquérito
pelo DEOPS para apurar a morte de Alexandre e encaminhado para
a 2ª Auditoria Militar, onde o Juiz Auditor Nelson da Silva
Machado Guimarães encaminhou para o Comandante do II
Exército e, como era de se esperar, foi arquivado sem
solução.
A
necrópsia, feita no IML/SP, em 22 de março de
1973, pelos Drs. Isaac Abramovitch e Orlando Brandão,
confirma a falsa versão oficial publicada de que teria
se atirado sob um veículo, sofrendo contusão na
cabeça. A certidão de óbito, falsamente
atesta sua morte em 17 de março de 1973, após
atropelamento na Rua Bresser (SP), quando era levado ao Hospital
das Clínicas.
Em
1983, finalmente os restos mortais de Alexandre foram trasladados
para Sorocaba, sua terra natal.
Alguns
trechos de matéria sobre ele publiclado no “O Jornal
do Campus/USP’:
“Desde
muito cedo revelou inteligência viva, muito aberta a todos
os conhecimentos humanos. Interessava-se por tudo e, assim que
foi alfabetizado, foi tomado por um gosto enorme pela leitura.
Não parou mais de ler.
Só
depois de sua morte, seus pais souberam que Alexandre fora classificado
em 1° lugar no vestibular para a Geologia da USP. Era um
típico sorocabano, caipirão. Andava sempre com
umas botinhas de cano curto, calças curtas. Era um nativo.
Cara gozador, colocava apelido na escola inteira. Tirava um
sarro de todo o mundo que não se adaptava às condições
de campo nas excursões da Geologia. Cara que não
conhecesse passarinho, cobra e história de assombração,
ele pegava no pé do coitado. Uma antiga tradição
da Geologia, da USP, reza que todo calouro deve receber um apelido.
Alexandre ficou conhecido como Minhoca, talvez por ser baixinho,
franzino e pelo grande interesse que demonstrou pela profissão.
Tinha uma coisa que ele gostava de fazer: traduzir artigos estrangeiros
sobre filosofia, política, economia. Ele já estava
se especializando em teorias economicas do 3° mundo, questões
do subdesenvolvimento ou análise da história da
pobreza.
Partilhava
de todas as lutas comuns aos estudantes da época: contra
o ensino pago, contra a falta de verbas, contra o fechamento
do CRUSP. Por outro lado, como estudante de Geologia, foi extremamente
preocupado com a questão dos recursos naturais do país
devastados pelo capital estrangeiro. Sobre o ciclo da exploração
do ferro, editou um boletim especial do Centro Acadêmico
da Escola, no qual enumerava as principais jazidas e empresas
exploradoras. Tomou posição contra a Transamazônica,
do modo como estava sendo feita. E passou a fazer, junto com
outros colegas, exposições e palestras em outras
faculdades e escolas do 2° grau. Ninguém viu Alexandre
ser preso, mas no dia 16 de março de 1973, ele já
estava sendo torturado na Operação Bandeirantes
(DOI-CODI/SP). Seus gritos o testemunhavam. Para a cela, voltou
carregado da sala de torturas. Ainda pode dizer aos outros presos:
“Meu nome é Alexandre Vannucchi Leme, sou estudante
de Geologia, me acusam de ser da ALN... eu só disse meu
nome...
No
final da tarde do dia 17, os presos foram obrigados a ficar
no fundo das celas, de costas. Mesmo assim, puderam ver um corpo
ser arrastado, espalhando sangue por todo o pátio da
carceragem. Alexandre fora assassinado.
No
dia 30 de março de 1973, foi celebrada uma missa, na
Catedral da Sé, por D. Paulo Evaristo Arns com a presença
de 3 mil pessoas que chegaram até a Igreja, apesar da
intensa repressão policial.
No
dia seguinte, 31 de março, o governo comemorou o aniversário
do Golpe de Estado de 64, a seleção brasileira
jogou, as Forças Armadas marcharam e o general Médici
discursou. A nota oficial de sua morte divulgada pelos órgãos
de segurança nacional e publicada na grande imprensa
informava que Alexandre era terrorista, membro da Ação
Libertadora Nacional (ALN) - dissidência do PCB que tentou
a luta armada - e morreu atropelado.