João
Carlos Haas Sobrinho
Militante
do PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL (PC do B).
Nasceu
em 24 de junho de 1941 em São Leopoldo, no Rio Grande do
Sul, filho de Ildefonso Haas e Ilma Haas.
Desaparecido
desde 1972, na Guerrilha do Araguaia, quando tinha 31 anos.
Sempre
se destacou como aluno brilhante e atuante. Cursou o primário
e o ginasial no Ginásio São Luiz, em São
Leopoldo. O curso científico foi iniciado no Colégio
São Jacó, em Novo Hamburgo, e completado no Colégio
Anchieta, em Porto Alegre.
Em
1959 ingressou na Faculdade de Medicina da UFRGS, formando-se
em dezembro de 1964. Participou de vários grêmios
estudantis.
Presidente
da UEE/RS e do Diretório Acadêmico da Faculdade de
Medicina da UFRGS.
Com
o golpe militar de 1964 passou a viver na clandestinidade. Esteve
na China e, ao regressar, mudou-se para Porto Franco,interior
de Goiás, onde montou um pequeno Hospital. Procurado pela
repressão, mudou-se para São Geraldo, povoado às
margens do Rio Araguaia.
Foi
morto em combate em 30 de setembro de 1972, juntamente com Ciro
Flávio de Salasar Oliveira e Manoel José Nurchis,
numa localidade chamada Piçarra, próxima a Xambioá.
Seu
corpo, crivado de balas, foi exposto à população
de Porto Franco e também foi visto na Delegacia de Xambioá,
com a perna direita quebrada e a barriga cortada e costurada com
cipó. Foto semelhante ao descrito por moradores de Xambioá
foi mostrada à ex-presa política Criméia
Almeida, no PIC em Brasília pelo general Bandeira de Melo
que, não só confirmou a morte de João Carlos,
como disse que seu corpo foi exposto à população
de Porto Franco com o objetivo de atemorizá-la. No entanto,
a população passou o dia velando o corpo, apesar
de proibida. Segundo informações dos moradores de
Xambioá, foi enterrado no Cemitério da cidade.
Em
1991, uma Comissão constituída de familiares, representantes
de entidades de direitos humanos, advogados e legistas estiveram
neste cemitério, encontrando ossadas que foram levadas
para a UNICAMP, São Paulo, e que até agora não
foram identificadas.
Quanto
aos Relatórios dos Ministérios militares, apenas
o do da Marinha faz referência a sua morte como sendo “out/72”.
-
Citado no Manifesto dos familiares dos mortos e dasaparecidos
na guerrilha do Araguaia, no II Congresso Nacional Pela Anistia,
novembro/79 - Salvador/BA, publicado no Diário Oficial
do Estado do Rio de Janeiro de 11/04/80, ano VI, nº 69, parte
II.
-
Citado na Relação de pessoas dadas como mortas e/ou
desaparecidas devido às suas atividades políticas,
da Comissão de Direitos Humanos e Assistência Judiciária
da Ordem dos Advogados do Brasil – seção do
Estado do Rio de Janeiro – outubro de 1982.
-
Relatório Arroyo: "Imediatamente ouviu-se uma rajada.
Juca e Flávio caíram mortos. Raul foi ferido no
braço, escapando juntamente com Walk. Gil ainda se aproximou
de Juca tentando reanimá-lo. Ocorreram novos disparos.
Depois não se soube mais de Gil. Deve ter morrido. Raul
e Walk, que não conheciam bem a região, vagaram
durante dois meses pela mata até que se encontraram novamente
com os companheiros do destacamento B. [ 30/09/72]"
-
Informações obtidas através de documentos
das Forças Guerrilheiras do Araguaia:
Sua
morte é citada no documento intitulado "Exemplo de
coragem e de didicação ao povo", das Forças
Guerrilheiras do Araguaia.
-
Relatório do Ministério Exército: Natural
do Rio Grande do Sul, médico. Quando universitário,
presidia o Centro Acadêmico de Medicina, passando a viver
na clandestinidade após a Revolução de 31
de março de 1964.
Realizou
curso de guerrilha na Escola Militar de Pequim/China.
Como
militante do PC do B, participou ativamente da guerrilha do Araguaia,
onde teria desaparecido em 1972.
Em
abril/91, a imprensa noticiou que uma Comissão esteve em
Xambioá/TO, com a finalidade de exumar os cadáveres
de três guerrilheiros que teriam sido enterrados no cemitério
daquela cidade em set./72. Recolheram duas ossadas e levaram para
São Paulo/SP, uma das quais, foi identificada como sendo
do nominado.
-
Relatório do Ministério da Marinha: - Out./72 -
consta como um dos terroristas mortos em Xambioá.
Set./73
- foi citado no depoimento de Glênio Fernandes de Sá,
"Mário", sobre as atividades do PC do B em Xambioá.
Out./72
- Morto.
-
Relatório do Ministério da Aeronáutica: Militante
do PC do B e guerrilheiro do Araguaia. Segundo o noticiário
da imprensa nos últimos 18 anos e documentos de entidades
de defesa dos direitos humanos, teria sido morto ou desaparecido
no Araguaia. Não há dados que comprovem essa versão.
-
Arquivos do DOPS/SP: tem documentos sobre sua militância
no movimento estudantil e viagem a China.
-
Fichas entregues ao jornal O Globo em 1996: "Juca"-
"José" - "Antônio"
filho
de Idelfonso Haas e Ilma Link Haas - natural de São Leopoldo/RGS,
em 24/Jun./44.
tem
curso na China.
morto
no Pará, em 30 set. 72.
-
Relatório das Operações contraguerrilhas
realizadas pela 3ª Bda Inf. no Sudeste do Pará - Ministério
do Exército – CMP e 11ª RM – 3ª Brigada
de Infantaria - Brasília/DF, 30 out 72; assinado pelo General
de Brigada – Antônio Bandeira - Cmt da 3ª Bda
Inf.: Ações mais importantes realizadas pelas peças
de manobra:
Da
FT 6º BC – ação de patrulhamento, em
30 Set 72 executada na R dos Crente, por 1 GC, teve como resultado
a morte dos seguintes terroristas:
João
Carlos Haas Sobrinho ‘Juca’ ( membro da Comissão
Militar)
Ciro
Flávio Salazar de Oliveira ‘Flávio’
(Dst B – Grupo Castanhal do Alexandre)
José
Manoel Nurchis ‘Gil’ (China Com) - (Dst B –
Grupo Castanhal do Alexandre)
Depoimentos:
-
Araguaia: relato de um guerrilheiro – Glênio Sá
– Editora Anita Garibaldi – São Paulo –
1990.
"...
soube que ocorreram várias mortes na região, tendo
oportunidade de ver 03 (três) corpos que eram de João
Carlos Haas Sobrinho, vulgo ‘Juca’ e mais dois que
não recorda o nome, no povoado de Piçarra, município
de São Geraldo do Araguaia – Pará e que tomou
conhecimento que esses três cadáveres foram sepultados
no cemitério de Xambioá, esse fato ocorreu por volta
de setembro de 1972, que anteriormente este fato conheceu pessoalmente
João Carlos Haas Sobrinho, o ‘Juca’, sabendo
dizer ser boa pessoa."
-
Relatório de viagem à região do Araguaia
à Comissão Justiça e Paz, feito por Dower
Moraes Cavalcante, em 10/12/91.
"Na
grande maioria das vezes, os soldados, após os combates,
resgatavam os corpos para as bases de Xambioá ou São
Geraldo. Outras vezes, enterravam os guerrilheiros mortos no próprio
local do combate, depois de fotografá-los, levando apenas
a cabeça para proceder a identificação. Desta
forma, há guerrilheiros que foram sepultados, ou deixados
insepultos, nas áreas de Bacaba, Metade, Gameleira e Caianos.
É o caso de ‘Zequinha’ que, acompanhado de
Daniel Calado e José Huberto Bronca, caiu numa emboscada
na área de Formiga. ‘Zequinha’ morreu, e foi
enterrado lá mesmo. Outro caso é o de Arildo Valadão
e José Francisco que foram encontrados mortos, sem as cabeças,
dentro de uma gruta, na região das Abóboras. No
que diz respeito a Arildo Valadão esta informação
não coincide com o relato que, Angelo Arroyo, um dos comandantes
militares da guerrilha, fêz ao Comitê Central do PC
do B. Segundo ele, Arildo foi encontrado pelos companheiros, sem
a cabeça, à beira de uma grota.
Várias
pessoas afirmaram que Osvaldo Orlando da Costa teve sua cabeça
exposta na localidade de Brejo Grande e que depois levaram-na
para a base militar de Xambioá. Outros afirmam que, apesar
de Osvaldo ter sido levado para Xambioá, seu corpo foi
enterrado na base de São Geraldo.
Um
comerciante de São Geraldo, que em 1973 passou muito tempo
preso na base de Xambioá, nos assegurou que viu chegando
à base várias cabeças de guerrilheiros e
que elas eram enterradas alí mesmo, próximo ao campo
de aviação. Essas sepulturas hoje estão nas
terras dos fazendeiros Sebastião Gomes e Antônio
Goiano. (...) As pessoas que nos informaram sobre este cemitério
na base de Xambioá não sabem dizer se o Exército,
depois que destruiu todos os vestígios da base, retirou
as ossadas dalí.
Informaram-nos
também sobre a base de São Geraldo, localizada na
foz do igarapé Xambioazinho com o rio Araguaia. Um posseiro
que habitava as margens do igarapé, um pouco acima da base,
viu, por diversas vezes, enquanto descia o igarapé de canoa
para chegar ao rio, soldados enterrando corpos e cabeças
na margem esquerda do igarapé, dentro da base. Sobre os
corpos, nas covas, os soldados colocavam troncos de palmeiras
antes de cobrí-los com terra. As cabeças estão
em covas cilíndricas, enterradas com o lixo da base. Na
última cheia do rio, no início dos anos 80, as águas
cobriram o terreno, e quando o rio retornou ao leito, alguns desses
troncos ficaram à mostra. Numa viagem que fizemos há
oito anos à região, informados sobre estes fatos,
fomos ao local e constatamos estas informações.
Vimos as covas; os troncos de babaçu. E havia ossos quando
desenterramos o lixo nas covas cilíndricas. Agora, quando
retornamos ao local, o morador que habita a posse não estava
e a sua esposa ficou muito apavorada quando pedimos para ver de
novo as sepulturas. O terreno está coberto por uma capoeira
crescida. Todas as pessoas que sabem da existência dessas
ossadas informaram-nos que elas nunca foram retiradas de onde
estão.
Sobre
a existência de guerrilheiros sepultados no cemitério
de Xambioá não obtivemos outras informações
além daquelas que já conhecemos. Parece-nos que
somente Bergson Gurjão Farias e João Carlos Haas
Sobrinho estão lá. Não conseguimos saber
mais detalhes sobre a localização de suas sepulturas.
Consideramos
impossível a identificação das sepulturas
localizadas à época, dentro da mata. Durante esses
20 anos a paisagem se modificou. Houve desmatamento, queimadas,
roças e plantios. Nesses locais hoje existem fazendas,
e, no solo, capim. Mesmo os moradores mais experientes da região
não conseguiriam identificar o local dessas sepulturas.
Sabem, no máximo, marcar no terreno uma área provável,
nunca a localização exata.
Contudo,
seria recomendável a pesquisa das sepulturas na área
onde existia a base de Xambioá. Na nossa opinião
não seria difícil essa identificação,
dada a ajuda de posseiros que moram nas vizinhanças e daqueles
que sofreram prisões e viram o sepultamento das cabeças.
Mas
de tudo o que nos foi indicado, o que consideramos de mais concreto
são as ossadas existentes no terreno da antiga base de
São Geraldo. Alí, numa exumação, com
certeza encontrar-se-ia material valioso. Senão os corpos,
que pelo tempo já devem estar pulverizados, pelo menos
os ossos de crânios que, se foram enterrados com o lixo
da base, provavelmente o foram dentro de sacos plásticos,
o que nos daria uma esperança de estarem preservados. Assim
sendo, valeria a pena fazer escavações nesta área.
Recomendamos
também uma viagem à região da serra das Andorinhas.
A área não foi desmatada, pertence hoje a uma organização
ecológica estrangeira, e ali ocorreu o último grande
combate da guerrilha onde pereceram vários companheiros,
dentre eles, Maurício Grabois ..."
Homenagens:
-
Nome de rua em São Paulo - DOM 27/06/92 - dec. 31.804 de
26/06/92.
-Nome
da antiga Rua 09, no Residencial Cosmo I, em Campinas, com início
na antiga Rua 03 e término na antiga Rua 04 – Lei
nº 9497, de 20/11/97.
-
Jornal Diário de Notícias – Porto Alegre
02/06/02
Domingos
de Abreu Miranda
Araguaia:
uma ferida que não cicatrizada
Irmã
de médico morto na guerrilha busca corpo há 23 anos
e vai lançar livro sobre a epopéia
Há
30 anos o Exército montou a maior operação
bélica desde a Segunda Guerra Mundial, no Sul do Pará,
para combater menos de cem guerrilheiros ligados ao Partido Comunista
do Brasil (PC do B) que atuavam na região do Araguaia.
Na época, devido à férrea censura, praticamente
nada desse episódio saiu na imprensa. Após quase
dois anos de combates, onde foram mobilizados cerca de 20 mil
homens das Forças Armadas, praticamente todos os guerrilheiros
estavam mortos, entre eles o médico gaúcho João
Carlos Haas Sobrinho.
Até
hoje o Exército se nega a revelar o local onde os corpos
dos guerrilheiros foram enterrados, apesar da intensa mobilização
dos familiares, partidos e órgãos de defesa dos
direitos humanos. A publicitária Sônia Maria Haas,
44 anos, professora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos),
em São Leopoldo (RS), há 23 anos busca os restos
mortais do seu irmão João Carlos, que em 24 de junho
iria completar 61 anos de idade. Depois de um longo périplo
pelos órgãos oficiais e três viagens ao Sul
do Pará, nas localidades onde ocorreram os combates, Sônia
prepara um livro sobre o irmão, que tombou metralhado em
30 de setembro de 1972.
Sônia
ainda se emociona ao lembrar dos poucos momentos que pôde
conviver com o irmão mais velho, então estudante
de medicina em Porto Alegre. "Até chorei quando respondia
tuas perguntas. Parece que tudo isso é um filme e vai passando...
na mente, no coração", diz ela. A publicitária
se orgulha do exemplo deixado pelo irmão, que fundou um
hospital em Porto Franco, no Maranhão, antes de se esconder
na mata para escapar da repressão. "Fica a dor, a
ferida, mas a escolha dele é mais nobre. E essa escolha
não foi pela morte, foi pela vida dos brasileiros que ele
queria ajudar a ter uma vida melhor", ressalta.
A
Notícia - Como é passar trinta anos procurando um
irmão, sabendo que as autoridades militares contribuem
para a não localização do corpo?
Sônia
Haas - Bem, na verdade são 23 anos de busca, pois ficamos
sabendo da morte de João Carlos no final dos anos 70, em
1979, embora nunca se deixou de tentar saber algo e ir atrás
de qualquer notícia, mas as dificuldades eram grandes.
A última carta de João Carlos chegou em julho de
1968, instalando-se aí a primeira ponta de angústia,
que aos poucos teve que se transformar na dor da perda, com o
início da abertura na data já citada. Essa busca
é árdua, muito solitária e desgastante porque
sempre cala fundo na alma, cada vez que precisamos lembrar de
tudo, de implorar por informações e desbravar a
própria história de um país que é
o "nosso". Os únicos relatórios oficiais
que tive acesso constam de econômicas palavras sobre notícias
que veicularam nos jornais da época: "consta que Fulano
morreu em tal situação... conforme notícia
do jornal tal". Dá uma certa náusea, esperar
tantos anos e os arquivos liberados aos familiares, da Marinha,
Aeronáutica e Exército trazerem parcas notas, até
com um sutil tom irônico. Com o tempo e a nova situação
internacional de Justiça e Direitos Humanos, espera-se
que em breve possamos ter estes documentos em mãos, para
todos os cidadãos brasileiros.
AN
- Como foi que você e sua família souberam da morte
de João Carlos?
Sônia
- Bem, já havia alguns boatos e o tempo passando nos dava
mais apreensão. Entre 68 e 79 não tínhamos
nada concreto. Então, com o início da "abertura",
alguns jornais alternativos começaram a divulgar algo sobre
uma guerrilha no Brasil e seus possíveis participantes.
Aparecia aí o nome do João. Minha irmã Tânia
procurou em Porto Alegre pessoas do PMDB, que eram mais acessíveis
e que nós conhecíamos, e aos poucos começa
a se confirmar esta morte presumida. Num congresso do PC do B,
em 1980, a minha prima Marisa, que sempre procurou pelo primo
João, foi até a Bahia e fez contato com a Elza Moneratt
(dirigente do PC do B que atuou no Araguaia), que confirmou. Inicia-se
aí a busca dos infinitos quebra-cabeças.
AN
- Como foi que aconteceu a sua mobilização junto
com outros familiares dos guerrilheiros do Araguaia? Quantas vezes
você foi até a região do Araguaia em busca
de informações sobre seu irmão?
Sônia
- Iniciei minha atuação em caráter mais efetivo
e até político em 1981, quando conheci alguns ex-companheiros
de politica estudantil do João que me preocuraram para
realizar uma emocionante homenagem na faculdade de Medicina, em
Porto Alegre. Veio o Genoíno Neto e ali conheci muita gente
que acabou me apoiando na luta e me estimulando. Então,
por orientação da própria Elza, procurei
o Grupo Tortura Nunca Mais (GTNM/SP) e conheci duas pérolas
chamadas Helena Pereira dos Santos (mãe do guerrilheiro
Cazuza e presidente do GTNM-SP), e Édila Pires (prima do
guerrilheiro Solon da Cunha Brum) que foram me levando... até
a Comissão de Justiça e Paz, a Anistia Internacional,
a OAB/SP, que me cedeu o apoio de um advogado (dr. Idibal Piveta).
Aos poucos fui conhecendo o pessoal nos encontros de familiares,
nas homenagens, nas viagens ao Sul do Pará. Fui três
vezes ao Araguaia: em 1987, tentando cumprir a rota feita em 1981
pelos familiares e alguns políticos; depois em 1991, já
para exumar o corpo do João, com uma comissão especial,
quando trouxemos a ossada de Maria Lúcia Petit, mas não
a do João; e em 1996, quando trouxemos ossadas que ainda
estão em Brasília para exames!!!
AN
- O que mais lhe tocou nestas viagens aos lugares onde seu irmão
atuou como médico e como guerrilheiro? Deu para sentir
um sentimento de respeito para com os guerrilheiros?
Sônia
- Sim, sempre vimos um sentimento de admiração,
respeito e cumplicidade. Claro, também quem se dispôs
a falar conosco foram estas pessoas, talvez as que não
gostassem deles nos evitassem. Mas, mesmo por aqui, em São
Leopoldo e Porto Alegre, onde ele andou, sempre existem lembranças
bonitas, carinhosas, histórias de liderança, de
coragem e inteligência. Por tudo isso acho que o João
precisa ter sua história contada, a historia do menino
(aluno exemplar, coroinha de igreja...), do homem, do estudante,
do médico, do filho... enfim... Por ter vivido situações
tão emocionantes e inusitadas, principalmente, é
que me sinto com a responsabilidade de não deixar tudo
isso focar só nas nossas memórias. Nesse sentido,
estou organizando todo material que tenho da história dele,
entrevistas, homenagens, depoimentos da região e coisas
dele, como cartas, fotos, livros... E estou organizando um livro
sobre a sua trajetória, com a ajuda de dois jornalistas.
Será algo para falar da vida, do valor da vida de um homem
que não teve medo e apostou no seu ideal até a morte.
Tenho um rico material, até acho que serão dois
livros. Já estamos trabalhando na produção.
Quero algo moderno, leve, bom de ler, agradável, como o
João foi. Também vou falar um pouco da minha luta
pela sua busca.
AN
- Como era o contato com o seu irmão antes da ida dele
para o Araguaia?
Sônia
- Tive sempre muita admiração por ele, pelo jeito
sério com que ele tratava-me e os meus problemas, por menores
que fossem, sempre justiceiro, com carinho e cobrança ao
mesmo tempo. Cuidava muito dos meus estudos. Mandava ler, estudar...
dava livros de presente para todos. Como meus pais eram mais velhos
quando nasci (éramos sete irmãos e sou a caçula),
acho que tive uma projeção da figura paterna nele,
não que meu pai fosse anulado, de forma alguma, era mais
um pai, mais um ídolo. Em 1964, eu tinha seis anos, adorava
esperar meu irmão, todos os sábados, quando vinha
a São Leopoldo nos visitar, pois estudava em Porto Alegre.
A curtição era andar com minha bicicleta de uma
esquina a outra da nossa quadra para não perder o momento
de sua chegada. Nunca tinha certeza em que parada do ônibus
ele desceria. A alegria do reencontro era mútua, com muita
conversa, muitas perguntas sobre os estudos. Sempre os estudos!
Achava lindo ele vir de terno, magro, alto, sorrindo sempre e
com a maleta na mão. Em dezembro do referido ano João
se forma em medicina e cumpre residência no Hospital Ernesto
Dornelles e na Santa Casa até janeiro de 1966, quando vai
embora. Para a família, o motivo era aperfeiçoar
seus estudos em São Paulo. Bem, você pode imaginar
quantas rodadas de bicicleta eu ainda dei ao redor da quadra para
ter certeza de que ele não viria mais mesmo. Com o tempo,
a falta de notícias e o clima político do país
trouxe instabilidade e dúvidas aos nossos pais e aos irmãos
mais velhos. Inicia-se uma verdadeira peregrinação,
com extrema cautela, pois tudo era arriscado. O pouco conhecimento
do assunto e nada de relacionamentos na chamada esquerda não
nos levavam a nada, apenas mais angústia e um vazio cada
vez maior.
AN
- Como era o dia-a-dia de seus pais, o relacionamento deles com
o João Carlos e como eles encararam a realidade de ter
um filho morto na guerrilha? O que eles faziam?
Sônia
- Bem, o seu Ildefonso Haas, meu pai, nasceu no início
do outro século, 1902 (faleceu aos 87 anos), estudou pouco
(trabalhava como entregador de leite e pão antes de ir
à escola). Mais tarde participou como músico (clarinete)
de duas orquestras da cidade, tocava no cinema mudo (imagine que
lindo!). Aprendeu o ofício de sapateiro para se sustentar,
até abrir uma sapataria e se transformar num grande industrial
do calçado - foi o primeiro exportador de calçados
do Brasil. Criou e sustentou por 45 anos a marca Botas Haas. Já
a dona Ilma Linck Haas nasceu na colônia alemã aqui
perto, em Novo Hamburgo, em 1915 (faleceu em 2001). Ela veio para
São Leopoldo tratar uma doença ocular e aprender
a costurar; quando conheceu o pai, que já tinha 34 anos,
ela estava com 21. Ela sempre o apoiou na firma e cuidou de nós;
foi uma mullher delicada e forte, humanitária e otimista,
uma personalidade belíssima. Criaram o João, talvez
para ser um padre (pois eram muito ligados à igreja); ele
foi coroinha por muito tempo. Mas logo o João se destacou
nos estudos, vinha à tona sua liderança e ele teve
que ir para escolas mais fortes, melhores, em Porto alegre. E
daí foi indo até que, com 17 anos, entrou na faculdade
de medicina. Meus pais devem ter tido muita dificuldade para assimilar
tudo isso. Nunca demonstraram desprezo ou rancor, só preocupação
e cuidado. A questão política não era muito
clara no tal sumiço e sempre ficou uma incógnita,
até sabermos da presumida morte. Ficaram chocados, tristes,
chateados, sem entender porque não tinham o direito de
ter o filho vivo. Porque ninguém nos avisou dessa morte?
No início muito medo pela busca dos restos mortais, depois
muita vontade e apoio ao meu trabalho. Tinham medo da represália
do Exército, como poder, e o próprio governo, eu
acho. Tinham medo de eu ir atrás e talvez também
não voltar, pensamento até normal para quem leva
um trauma desses. Bem, aos poucos foram acostumando-se a conviver
com tudo isso e sempre acompanharam meus passos com atenção.
Chegaram a assistir as fitas de vídeo com depoimentos que
eu trouxe do Araguaia, uma forte emoção. Meu pai
sempre me disse: guarda tudo do João, registra e faz um
livro porque quero que meus netos saibam bem dessa história.
Por eles eu luto e faço este livro.
AN
- Você acha que valeu a pena a luta do João Carlos?
Acha que o seu sacrifício foi válido?
Sônia
- Como irmã gostaria de tê-lo aqui, vê-lo viver,
conhecê-lo melhor enfim. Mas depois de ir ao Araguaia entendi
que a vida dele não era só para mim ou para a família,
era para o povo, ele escolheu assim, tinha uma força de
vida muito grande. Claro que ele não buscava a morte, nem
imaginava isso, mas aconteceu (de uma forma triste e violenta).
Então eu penso: que bom ter existido, que bom ter deixado
tão belas marcas, que bom ter nos dado esta lição.
Fica a dor, a ferida, mas a escolha dele é mais nobre.
E essa escolha nao foi pela morte, foi pela vida dos brasileiros
que ele queria ajudar a ter uma vida melhor.
HONRA
E GLÓRIA AOS HERÓIS DO POVO!
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