| Postado em 07/01/2009 Khaled Meshal,
líder do Hamas
Há 18 meses, meu povo está sitiado em Gaza, encarcerado na maior
prisão do mundo, isolado por terra, ar e mar, morrendo de fome, sem
ter acesso nem mesmo a remédios para tratar nossos doentes. Não
satisfeitos com essa política de lenta asfixia, nossos agressores
optaram pelos bombardeios em uma das regiões mais densamente
povoadas do planeta, onde nada foi poupado pelos aviões israelenses.
Tudo foi destruído: prédios do governo, casas, mesquitas, hospitais,
escolas e mercados.
Mais de 540 palestinos morreram e milhares ficaram feridos. Um terço
das vítimas é composto de mulheres e crianças. Famílias inteiras
foram massacradas, algumas delas enquanto dormiam.
Esse mar de sangue é vertido sob um manto de mentiras e falsos
pretextos. Por seis meses, nós do Hamas respeitamos o cessar-fogo,
enquanto Israel descumpriu repetidas vezes o que foi acordado. Eles
deveriam ter aberto as fronteiras de Gaza e estendido a trégua para
a Cisjordânia. Em vez disso, os israelenses aumentaram o cerco
mortal a Gaza, cortando várias vezes a eletricidade e os suprimentos
de água.
O castigo coletivo não foi interrompido. Ao contrário, teve seu
ritmo acelerado - assim como ocorreu com os assassinatos e as
mortes. Trinta habitantes de Gaza foram mortos pelo fogo israelense
e centenas de pacientes morreram em decorrência direta do sítio
durante o chamado cessar-fogo. Israel desfrutou de um período de
calma.
Quando a trégua se aproximava do fim, nos colocamos à disposição
para negociar um acordo amplo em troca do levantamento do bloqueio e
da abertura dos postos de fronteira, incluindo Rafah. No entanto,
nossos pedidos recaíram sobre ouvidos surdos. Estamos dispostos,
ainda assim, a negociar uma nova trégua nos mesmos termos, desde que
os invasores se retirem completamente.
Nenhum foguete foi disparado a partir da Cisjordânia. Mas lá foram
mortos 50 palestinos pelas mãos de Israel durante o ano passado,
enquanto prosseguia implacável o seu expansionismo. Esperam que nos
contentemos com migalhas cada vez menores de território, um punhado
de subdivisões à mercê de Israel, cercadas por todos os lados pelos
israelenses.
A verdade é que Israel busca um cessar-fogo unilateral, respeitado
apenas pelo meu povo, em troca do sítio, da fome, dos bombardeios,
assassinatos, incursões e assentamentos coloniais. O que Israel
deseja é um cessar-fogo gratuito.
É absurda a lógica daqueles que exigem o fim da nossa resistência.
Eles absolvem de responsabilidade o agressor e ocupante - armado com
as mais mortíferas armas de destruição -, enquanto culpam a vítima,
o prisioneiro, aquele que vive sob ocupação.
Nossos modestos foguetes de fabricação caseira são nosso grito de
protesto endereçado ao mundo todo. Israel e os seus patrocinadores
europeus e americanos querem que sejamos massacrados em silêncio.
Mas nós nos recusamos a perecer silenciosamente.
O tratamento dispensado hoje a Gaza foi o mesmo dado a Yasser
Arafat. Quando ele se recusou a se curvar aos ditames de Israel, foi
preso em seu quartel-general em Ramallah, e permaneceu cercado por
dois anos. Quando esse método se mostrou incapaz de diminuir sua
determinação, ele foi assassinado por meio de envenenamento.
Gaza começa o ano de 2009 exatamente como o de 2008: sob fogo
israelense. Entre janeiro e fevereiro do ano passado, 140 palestinos
de Gaza foram mortos em ataques aéreos. E pouco antes de embarcar na
sua fracassada agressão militar contra o Líbano, em junho de 2006,
Israel despejou milhares de morteiros sobre Gaza, matando 240
palestinos.
Desde Deir Yassin, em 1948, até Gaza, nos dias de hoje, a lista de
crimes de guerra de Israel é longa. A justificativa muda, mas a
realidade continua a mesma: ocupação colonial, opressão e injustiça
sem fim. Se este é o "mundo livre", cujos valores são defendidos por
Israel, segundo alega a sua ministra das Relações Exteriores, Tzipi
Livni, então nós não queremos fazer parte dele.
Os líderes de Israel estão confusos e demonstram sua incapacidade de
estabelecer objetivos claros para os ataques. Primeiro, pretendiam
derrubar o governo legitimamente eleito do Hamas e destruir sua
infraestrutura. Depois, acabar com os lançamentos de foguetes. À
medida que encontram mais resistência em Gaza, suas expectativas vão
diminuindo.
Agora, eles falam apenas em enfraquecer o Hamas e limitar nossa
capacidade de resistência. Mas eles não conseguiram nem uma coisa
nem outra. A população de Gaza está mais unida do que nunca,
determinada a não se submeter ao terror. Nossos combatentes, armados
com a justiça de nossa causa, já provocaram muitas baixas no
exército de ocupação e continuarão lutando para defender nossa terra
e nosso povo. Nada pode derrotar nossa vontade de ser livre.
Mais uma vez, os EUA e a Europa optaram por auxiliar e favorecer o
carcereiro, o ocupante e o agressor, condenando as suas vítimas.
Esperávamos que Barack Obama rompesse com o desastroso legado de
George W. Bush, mas esse começo não parece promissor. Apesar de ter
rapidamente denunciado os ataques contra Mumbai, Obama permanece
mudo após 10 dias de carnificina em Gaza. Mas o meu povo não está
só.
Milhões de homens e mulheres amantes da liberdade nos apoiam em
nossa luta por justiça e liberdade - basta atentar para os protestos
diários contra a agressão israelense, não apenas no mundo árabe e
muçulmano, mas em todo o mundo. |