Notas
para entender o conflito no Oriente Médio
Líbano, uma história de opressão
Miguel
Raider
Extraído
de El diario Internacional*
1920:A
Grã-Bretanha recebe o “mandato” da sociedade
das nações sobre a Palestina. A população
árabe
se levantará repetidas vezes contra a ocupação
imperialista, mas será aplastada pelos ingleses, ajudados
pelos colonos
sionistas.
1947:
A ONU aprova a partição da Palestina. Os árabes
palestinos, que eram 70% da população e possuíam
92% da terra, foram
reduzidos a 43% do país. Começam os enfrentamentos
por “razão de segurança”. Os judeus ocupam
80% da Palestina.
1948:
O estado de Israel é criado artificialmente, baseado na limpeza
étnica da população palestina.
1967:
Na “Guerra dos seis dias”, Israel ocupa a Faixa de Gaza,
Cisjordânia, Jerusalém Oriental, as Colinas de Golan
e a península do Sinai.
1978:Acordos
de Camp David, entre Egito e Israel. Em troca da devolução
da Península do Sinai ao Egito, este se compromete a reconhecer
O Estado de Israel e não reclamar a criação
de um Estado palestino.
1987:
Estala a 1ª Intifada palestina.
1993:
Acordos de Oslo. Arafat (OLP) reconhece pela primeira vez o Estado
sionista e a Autoridade Nacional Palestina é criada.
1994:
Acordos de paz entre Israel e Jordânia. São fixadas
as fronteiras definitivas e a Jordânia reconhece o Estado
de Israel.
2000:
Estala a 2ª Intifada.
2005:
Israel realiza a “retirada unilateral” da Faixa de Gaza
com o objetivo de reter a maior parte dos territórios ocupados
na Cisjordânia. Começa a construção do
muro do “Apartheid.”
2006:
Em janeiro, o Hamas ganha a maioria parlamentar, agudizando as tensões
no governo palestino com o setor colaboracionista Al Fatah.
Libano
1976:
A Síria ocupa o país para conter a radicalização
dos refugiados palestinos.
1982:
Israel invade o Líbano. Logo retrocedeu até o sul
do país, onde criou uma “zona de segurança”.
2000:
O exército israelense se retira definitivamente. As tropas
sírias permanecem.
2005:
Assassinato de Rafik Hariri, que havia sido duas vezes primeiro-ministro
e era o homem forte do Líbano. Era opositor da ocupação
síria. Se desataram gigantescas mobilizações.
A chamada “Revolução dos Cedros”, junto
à “pressão internacional”, impulsionada
pelo USA, forçaram a retirada das tropas sírias.
2006:
As eleições realizadas depois da retirada síria
deixaram um governo de coalizão onde o primeiro-ministro,
Fuad Siniora, é anti-sírio (com o apoio de Washington)
e goza da maioria no parlamento. O Hezbollah conseguiu 14 deputados
e participa do gabinete.
Durante
cinco séculos o império turco dominou a meia-lua fértil
do Oriente Médio. Mas, no fim do século XIX a Turquia
começou a declinar ante o desenvolvimento econômico
das grandes potências capitalistas. Derrotada depois de sua
aliança com a Alemanha na 1ª Guerra Mundial, a França
e a Inglaterra emergiram disputando o controle dessa zona estratégica
como ponte para as rotas de petróleo.
Em
1915 ambos os imperialismos assinaram o acordo de Seykes-Picot,
dividindo o Oriente Médio em dois vice-reinos coloniais.
A França impôs sua égide sobre a Síria,
Líbano e a parte sudeste da Turquia. A Inglaterra ocupou
o Egito, o território de Áden, a península
arábica e o Golfo Pérsico, mas em 1917, o império
britânico aplicou um ajuste de acordo com seu instinto colonial:
lançou a declaração Balfour, promovendo a criação
de um “Lugar Nacional Judeu” na Palestina, com a finalidade
de construir bases de um proto-Estado aliado para contrarrestar
o desenvolvimento dos movimentos de libertação nacional
dos povos árabes.
Deste
modo, a gênese do Estado de Israel, fundado pouco depois da
II Guerra Mundial constitui a expressão material mais
acabada desta política colonial; um Estado gendarme em guerra
permanente contra os povos árabes, de acordo com os interesses
das grandes potências imperialistas.
Depois
de severas derrotas nas mãos do Estado judeu nas guerras
de 1948 e 1967, o povo palestino foi confiscado de seus bens e expulso
de suas terras históricas. O assassinato de mais de 20 mil
palestinos, ordenado pelo rei Hussein e a monarquia hachemita da
Jordânia no “Setembro Negro” obrigou Yasser Arafat,
a OLP e milhares de refugiados a buscar amparo no Líbano.
Por volta de 400 mil palestinos se concentraram amontoados nos campos
de refugiados dos subúrbios de Beirute, procurando salvaguardar
suas vidas. Mas, em 1975 se desatou o início da guerra civil
libanesa. A minoria cristã-maronita, um setor da alta burguesia
acomodada, vinculada aos negócios do imperialismo, queria
impor sua hegemonia às grandes maiorias de sunitas, chiitas
e drusos, contemplando a expulsão dos palestinos a médio
prazo. Com este objetivo, no começo se valeu do mandato da
Liga Árabe, que em 1976 mobilizou 50 mil soldados sírios.
Mas,
na medida que se desenvolvia a guerra civil os laços entre
a minoria cristã e o Estado de Israel se fortaleciam progressivamente,
sob o auspício de todas as frações imperialistas.
O
Estado-maior sionista esperava sua hora para por “ordem”
na região e acabar com a OLP e a resistência palestina.
Seu primeiro intento foi em 1978. Mais tarde acordaram com a minoria
cristã construir as “Katayeb”, milícias
falangistas armadas e treindas pelo exército israelense e
o Mossad, cujo primeiro exercício foi a tomada por assalto
do campo de refugiados de Tel el Zaatar. Completando sua estratégia,
os sionistas formaram o Exército do Sul do
Líbano (também conhecido como Exército do Líbano
Livre), uma força mercenária desapiedada, esparramada
sobre os contornos da fronteira sul, que operava sob estrito comando
dos oficiais israelenses sobre o Vale do Bekaa.
Finalmente
os sionistas encontraram o pretexto que buscavam. Depois do atentado
cometido contra Shlomo Agrov, embaixador israelense na Inglaterra,
o governo do Likud lançou um ultimato exigindo a cabeça
de Arafat e a expulsão da OLP do território libanês.
Em junho de 1982, o primeiro-ministro Menahem Begin ordenou a operação
“Paz para a Galiléia”, legalizando o plano de
invasão do Líbano sob um suposto prazo de 72 horas.
Ninguém podia acreditar em semelhante fantoche na boca de
um dos mais célebres terroristas, responsável pelo
massacre palestino de Deir Yassin (1948). Ariel Sharon, então
ministro da defesa, assumiu o comando das tropas que invadiram por
terra, ar e mar. As tropas sionistas bombardearam Beirute até
deixá-la em ruínas, tomaram o controle das estradas,
estabeleceram um cerco inexpugnável, mataram milhares de
pessoas e impuseram como presidente Basheer Gemayel, falangista
insigne e membro de uma das famílias mais abastadas, que
foi eliminado meses mais tarde por uma carga explosiva.
Apesar
de a infra-estrutura do país ter sido reduzida a escombros
junto com a resistência, Sharon e Begin resolveram aplicar
medidas de castigo. Entre 16 e 18 de setembro as tropas israelenses
estabeleceram um cordão ao redor dos campos de Sabra e Shatilla
e ordenaram às milícias da falange, sob o comando
de Elie Hobeika, acabar com os refugiados. Aproximadamente 6 mil
palestinos desarmados, majoritariamente anciãos, mulheres
e crianças, foram massacrados bestialmente. Abriram os ventres
das mulheres grávidas, cortaram os genitais das crianças
e as mãos e os pés dos homens.
As
repercussões internacionais de Sabra e Shatilla obrigaram
o regime sionista a dar uma resposta institucional. O informe da
comissão Kahan assinalou a responsabilidade do governo de
Begin, particularmente de Sharon, nos assassinatos de milhares de
palestinos, crimes que permaneceram completamente impunes. As tropelias
assassinas da Guerra do Líbano adquiriram tal magnitude que
geraram um movimento de soldados “objetores de consciência”
que se negavam a prestar serviço no Líbano. Conjuntamente,
começaram a surgir mobilizações pacifistas
em Tel Aviv exigindo a retirada das tropas. As tropas israelenses
se retiraram do Líbano em 2000.
O
que é o Hezbollah
Fundado
em 1982, o Hezbollah (Partido de Deus) é produto da extensão
territorial da revolução iraniana de 1979, para combater
a devastadora ocupação israelense no sul do Líbano
(cujo objetivo era eliminar a resistência palestina que se
encontrava em solo libanês e que custou a vida de mais de
20 mil civis). Seu surgimento se dá no marco da resistência
à ocupação sionista na Palestina e de muitas
das terras árabes no Egito, Síria, Jordânia
e da derrota da monarquia iraniana e a
consolidação da revolução islâmica.
Seu objetivo é a implantação de um Estado islâmico
no Líbano, a libertação de Jerusalém
e a destruição do Estado de Israel.
Como
parte de movimentos mais amplos de libertação nacional
e resistência à ocupação sionista, como
Hamas e Jihad Islâmica, goza de uma forte legitimidade, inclusive
para suas ações militares terroristas. Em 1992, é
assassinado seu secretário-geral, Sayyid Abbas Al-Mosawi,
assumindo Hasan Nasrallah, seu atual líder. Logo após
o fim da guerra civil libanesa, em 1989, durante os anos 90, o movimento
começa a atuar no terreno parlamentar, integrando-se progressivamente
às instituições libanesas. Seu forte trabalho
social mediante redes assistenciais lhe proporcionou uma grande
popularidade.
Além
disso, a retirada dos exércitos ianque e francês em
meados dos anos 80 e do exército de Israel em 2000, apresentados
como triunfos da organização, foram fundamentais para
seu prestígio. Hoje conta com 14 deputados no parlamento
e participa no gabinete libanês, sendo a principal expressão
política da comunidade chiita, que representa 39% da população.
Possui inclusive seu próprio canal de televisão, al-Manar.
Está vinculado com o regime iraniano desde sua criação,
impulsionado pelo clero chiita, e é apoiado pela Síria
em sua luta contra o exército israelense, entre outras coisas
pelos próprio diferendos entre Síria e Israel nas
Colinas de Golan; por isso se opôs à retirada das tropas
sírias depois da “Revolução dos Cedros”
no ano passado.
O
que é o Hamas
O
Hamas (Movimento de Resistência Islâmica) é uma
organização palestina fundada pela Irmandade Muçulmana
egípcia em dezembro de 1987, durante a primeira Intifada.
Sua estratégia é estabelecer um Estado islâmico
no conjunto do território histórico da Palestina,
pronunciando-se pela destruição do Estado de Israel,
ainda que recentemente
tenha retrocedido desta posição, reconhecendo implicitamente
o Estado sionista, em acordo com a al Fatah.
Desde
sua criação, o Hamas enfrenta militarmente o exército
de Israel e generalizou o método dos ataques suicidas em
terrotório israelense. Tem diferenças com a direção
palestina da al Fatah, principal corrente da Organização
para a Libertação da Palestina, cujo dirigente histórico
era Yasser Arafat, por sua política de negociação
com o Estado de Israel, sustentando um posicionamento mais radical
de resistência armada à ocupação. Seu
fortalecimento entre as massas palestinas se deve essencialmente
ao desprestígio da OLP, produto de sua política colaboracionista
com o Estado de Israel e o imperialismo.
Além
de suas ações militares, tem uma extensa rede de assistência
social e educativa e se viu muito
prestigiado logo após a retirada de Israel da Faixa de Gaza,
em setembro de 2005. Mesmo possuindo uma limitada
participação política institucional, surpreendeu
o mundo nas eleições legislativas de janeiro deste
ano, onde obteve
maioria absoluta, ficando assim com o cargo de governo da Autoridade
Palestina, enquanto a al Fatah mantém o controle da
presidência da ANP.
Desde
que ganhou as eleições, o Hamas vem sofrendo a pressão
das principais potências que chantageiam seu governo, regateando
a ajuda financeira internacional, da qual depende em grande medida
a sobrevivência do povo palestino, para que reconheça
explicitamente a legitimidade do Estado de Israel e renuncie à
resistência armada.
Sob
esta pressão, o Hamas acabou acordando com o presidente Abbas
a assinatura de um documento em que reconhece implicitamente o Estado
de Israel, aceitando seus limites territoriais de 1967. O recente
ataque israelense sobre a Faixa de Gaza, que deixou a população
às margens de um crise humanitária, encarcerou dezenas
de seus líderes e representantes do parlamento palestino.
______________
*El Diario Internacional, um dos mais combativos
jornais da imprensa de
novo tipo, dirigido por Luís Arce Borja, edição
198.
Fuente: La Verdad Obrera N°196. |