| Viva
os 30 anos da gloriosa Guerrilha do Araguaia
Em
diferentes livros e publicações podemos encontrar
relatos sobre a gloriosa e heróica Guerrilha do Araguaia.
Na maioria deles é destacado o heroísmo que marcou
a luta dos revolucionários brasileiros que ali derramaram
seu sangue pela libertação de nosso povo. Neste
artigo não faremos um relato histórico e sim nos
dedicaremos à discussão das avaliações
que se fazem desta grandiosa experiência de nosso povo.
A
contradição que enfeixa a Guerrilha do Araguaia
coloca de um lado o heroísmo dos guerrilheiros e de outro
a capitulação da direção oportunista
que empalmou o PC do B com a morte dos quadros revolucionários
após a Chacina da Lapa. O grande dirigente comunista Pedro
Pomar propunha um balanço crítico da guerrilha e
o prosseguimento da luta revolucionária. A direção
encabeçada por João Amazonas defendia uma linha
contra-revolucionária e capitulacionista, impedindo o debate
traindo a decisão do partido pelo caminho da luta armada.
A
Chacina da Lapa ou a Operação Capitulação
À
derrota da guerrilha no início de 74, seguiu-se uma campanha
da reação de caça à direção
do PC do B, que culminou com a prisão e assassinato de
vários dirigentes do Comitê Central, no episódio
conhecido como a Chacina da Lapa.
O
fim da guerrilha do Araguaia desatou intensa luta ideológico-política
dentro do PCdoB sobre a avaliação da grandiosa experiência.
Em 1976, o Comitê Central reuniu-se numa casa no bairro
da Lapa em São Paulo para o debate da questão. A
reunião foi localizada pelo aparato repressivo da ditadura
militar e ao final dela, os dirigentes que iam sendo retirados
por grupos, foram sendo presos assim que se afastavam da casa.
Pedro Pomar, principal dirigente do PCdoB na vanguarda da luta
ideológica travada na direção, apresentou
nesta reunião sua avaliação, defendendo vigorosamente
o Pensamento Mao Tsetung (como era compreendido o maoísmo
nesta época) e a necessidade do rigor científico
no balanço crítico sobre a guerrilha, como base
para sua continuação. Ângelo Arroyo –
único sobrevivente da 3.ª campanha de cerco e aniquilamento
da guerrilha – tinha avaliação diferente de
Pomar, mas ambos sustentavam a importância da experiência
do Araguaia e seu prosseguimento. Os dois ficaram por último
na casa para continuar a discussão, quando esta foi invadida
pelas forças da reação que metralharam os
dois dirigentes. Outro dirigente, João Batista Drummond
foi assassinado dentro da prisão em conseqüência
das bárbaras torturas a que foi submetido.
Estranhamente,
a direção que assume o PCdoB após esta fatídica
reunião do Comitê Central, passa a defender o abandono
da luta armada. Esses dirigentes encobriam sua posição
capituladora com uma fraseologia demagógica, através
da publicação de um artigo no jornal do PCdoB, A
Classe Operária, onde tratavam a Guerrilha do Araguaia
simplesmente como “Um grande acontecimento na vida do país”
e ponto final, nada mais de avaliação, menos ainda
de forma autocrítica, deixando claro que não tinham
a intenção de retificar os erros e prosseguir no
caminho da revolução.
A
Chacina da Lapa, separa definitivamente o PCdoB dirigente da luta
armada, do PCdoB que renega a luta armada, capitula, entregando-se
à linha reformista, legalista, pacifista e de cretinismo
parlamentar que defende de maneira progressiva e, nos nossos dias,
ardorosamente.
A
capitulação da maioria da direção
sobrevivente à chacina de 76, deixa claro porque Pedro
Pomar sempre firme na posição revolucionária
ficou anos fora do centro de decisão do PCdoB, e porque
a direção oportunista esconde esses fatos.
Após
o 10.º Congresso do PC do B (2001), o sr. João Amazonas,
falecido há poucos meses, Secretário Geral do PCdoVB
durante todo o período que analisamos, e nos últimos
anos seu Presidente, em entrevista ao Jornal do Brasil por ocasião
da celebração dos 30 anos da Guerrilha do Araguaia,
revela todo o oportunismo em que apodreceu o PC do B após
a capitulação da luta armada. João Amazonas
nega que o Partido tenha sustentado uma luta teórica para
o caminho da guerra popular no Brasil e que esta tivesse como
objetivo a tomada do poder pelo proletariado em aliança
com o campesinato, visando a revolução democrática
antiimperialista como etapa da construção do socialismo.
Amesquinhando essa extraordinária luta que cobrou a vida
de mais de 70 combatentes João Amazonas tem o desplante
de afirmar que “A direção do Partido se baseou
em alguns livros sobre a luta armada. Tivemos que, de certa forma,
improvisar. (...) Nossa luta não era para implantar o socialismo
no campo. Era para resistir ao regime. Não tínhamos
outro caminho”. Em relação à luta dos
familiares dos guerrilheiros pela busca de seus restos mortais
e o esclarecimento das circunstâncias dos assassinatos de
seus entes queridos, Amazonas diz acreditar na versão do
militar Pedro Corrêa Cabral. Participante de uma das campanhas
de cerco da guerrilha, esse oficial militar, visando paralisar
a ação dos familiares, afirma que os corpos foram
todos incinerados e que, como insistem as forças armadas
reacionárias, não há o que procurar. “Continuamos
as buscas” declara cinicamente. “As famílias
têm interesse nisso. Mas acredito que o Pedro falou a verdade.
Ele é um homem protestante e disse que por causa da religião
não pode mentir.” Perguntado sobre o que diria a
jovens estudantes de 18 anos sobre a Guerrilha do Araguaia, respondeu
como um contra-revolucionário qualquer: “Falaria
do caminho que o Brasil tomou em direção à
violência. Nós fomos o partido que mais perdeu companheiros
e isso deveria ser contado. Diria também que foi uma experiência
histórica. Jamais os aconselharia: treinem e façam
uma guerrilha, porque não sabemos para onde se encaminham
as coisas”.
O
balanço de Pedro Pomar
No
documento de balanço da guerrilha apresentado na reunião
do Comitê Central, Pomar ressaltava o heroísmo dos
combatentes que tombaram na guerrilha, a decisão do Partido
pelo início da luta armada e todos os pontos positivos
desta grandiosa experiência. A importância fundamental
de seu balanço é a convocação para
o aprofundamento da luta ideológica e política no
partido, afirmando que a causa fundamental da derrota não
residia nos erros táticos militares e sim em erros de compreensão
e aplicação da concepção estratégica
de guerra popular.
Pomar
cobrava que o exemplo do heroísmo dos militantes e massas
que tombaram no Araguaia servisse para tirar as lições
da experiência, por mais duras que fossem, para retomar
a luta e levá-la até o fim:
“Tanto
pela letra, como pelo espírito, os documentos partidários
essencialmente dirigidos contra as teses pequeno-burguesas e foquistas,
indicam, sem margem de dúvida, que: 1)a guerra popular
é uma guerra de massas; 2) a guerrilha é uma forma
de luta de massas; 3) para iniciá-la, ‘mesmo que
a situação esteja madura, impõe-se que os
combatentes tenham forjado sólidos vínculos com
as massas’; 4) a preparação ‘pressupõe
o trabalho político de massas’; 5) os três
aspectos – trabalho político de massas, construção
do Partido e luta armada – são inseparáveis
na guerra popular; 6) o Partido, isto é, o político,
é o predominante desses aspectos; 7) numa palavra, o trabalho
militar é tarefa de todos os comunistas e não apenas
de especialistas.
“A
experiência [do Araguaia] contrariou frontalmente essa orientação.”
“(...)
por mais eficiente que seja a direção militar, com
tal concepção será derrotada.”
E
concluiu assim:
“Se
conseguirmos de fato nos ligarmos às massas do campo e
das cidades e ganhá-las para a orientação
do Partido, não importa qual seja a ferocidade do inimigo,
com toda certeza a vitória será nossa”. Pomar
afirma que armados de uma linha justa se pode seguramente vencer
a superioridade militar do inimigo. Como grande comunista que
era, Pedro Pomar utilizava-se da avaliação das derrotas
para delas tirar lições e prosseguir na luta, ao
contrário daqueles que na derrota renegam o caminho da
revolução transformando-se em reles traidores e
oportunistas.
Viva
os heróicos combatentes da Guerrilha do Araguaia!
A
maioria dos combatentes do Araguaia era composta de jovens, estudantes,
que haviam participado intensamente nos anos anteriores do movimento
estudantil. Citamos aqui, como exemplo, o nome de apenas alguns
dos guerrilheiros que se destacaram como lideranças estudantis:
Helenira Rezende, estudante paulista que iniciou sua militância
no movimento secundarista e foi vice-presidente da UNE em 68;
Idalísio Soares Aranha, estudante do Estadual Central e
posteriormente presidente do Centro de Estudos de Psicologia e
do DA da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG;
Arildo Valadão, presidente do DA do Instituto de Física
da UFRJ; Dinaelza Soares Santana Coqueiro, diretora do DCE da
PUC de Salvador; João Carlos Haas que participou de vários
grêmios estudantis e foi presidente do DA da Faculdade de
Medicina da UFRGS e presidente da UEE do Rio Grande do Sul (João
Carlos já tinha se formado quando foi para a guerrilha).
A
traição da direção do PCdoB tornou
ainda mais importante a abnegada luta dos familiares dos guerrilheiros
tombados no Araguaia, que nunca os abandonaram e seguem exigindo
a apuração rigorosa das circunstâncias do
assassinato de seus entes queridos. |