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Mistificação da Clonagem
A
palavra “clone” está hoje encoberta por todo
um significado místico. Falar de clonagem tem levado as
pessoas a pensar em coisas misteriosas, proibidas, coisas do deserto...
Pouco tem-se discutido realmente sobre o que é esta técnica
e sobre seus significados científicos e filosóficos.
Procuram nos apresentar a clonagem como uma grande descoberta
científica inacessível a nossos conhecimentos, ou
como um ato de pecado capital, onde o homem estaria criando a
vida e “substituindo Deus”.
Envolver
as descobertas científicas num manto de superstições
e idealismo é prática comum da burguesia desde que
esta deixou de ser revolucionária. Desta forma ela procura
limitar as descobertas científicas aos seus interesses
mercantis e individualistas, buscando também tornar inacessível
ao povo todo o conhecimento sobre a realidade. Nesta matéria
discutiremos sem obscurantismo o que é clonagem e seus
reais significados.
A
clonagem não é uma técnica nova e muito menos
restrita às experiências nos laboratórios.
A palavra clone, termo cunhado por um cientista norte-americano
em 1903, significa: “uma colônia de organismos que,
de modo assexuado, deriva de apenas um progenitor”. O clone
nada mais é que uma cópia fiel de outro ser.
Em
seres bastante elementares como as bactérias, a reprodução
isolada ocorre por um processo chamado de bipartição,
onde uma bactéria se divide em duas, e estas mãe-filha
são geneticamente iguais. Excetuando as bactérias,
os poríferos..., os outros seres vivos se reproduzem geralmente
de forma sexuada, forma de reprodução que implica
na fusão dos gametas sexuais masculinos e femininos, onde
ambos contribuem com parte de suas características genéticas
para a formação do novo ser. A fusão de dois
gametas, masculinos e femininos, não implica a atuação
de dois indivíduos, auto-fecundação é
diferente de clonagem.
A
relação dos homens com clones é muito antiga.
Os primeiros seres vivos clonados pelo homem foram os vegetais,
e isto ocorreu há séculos atrás pelas mãos
de alguns agricultores. Trata-se da estaquia, processo simples
que consiste no corte da extremidade de um galho de uma planta
adulta para ser plantado. A partir desta pequena estaca se formará
outro indivíduo. Este processo não é possível
em todos os vegetais, é muito utilizado nas monocotiledôneas
(cana, gramíneas, etc.) e em algumas dicotiledôneas
como manga e goiaba. A estaquia é possível nesses
vegetais, porque nas extremidades dos galhos e de sua raiz encontram-se
células embrionárias, células capazes de
se transformar, se diferenciar em qualquer outra célula
do corpo. O indivíduo que cresce deste processo é
um clone pois, este novo ser surgiu de forma assexuada (isto é,
sem a fusão de gametas) e de um único progenitor,
possuindo o mesmo código genético.
Em
nós humanos a clonagem também ocorre naturalmente.
Existem hoje no Brasil mais de 800 mil clones humanos! E isto
sem a intervenção de nenhum “cientista”
mágico. Estes clones são os gêmeos monozigóticos,
conhecidos como gêmeos idênticos. Este fenômeno
ocorre a partir da divisão de um único zigoto (o
zigoto é a célula resultante da fusão do
espermatozóide com o óvulo e será desta única
célula, de suas subseqüentes subdivisões e
diferenciações que se formará um novo indivíduo).
Nos gêmeos monozigóticos, um único zigoto
divide-se em dois ou mais zigotos, fenômeno que resultará
na formação de dois ou mais indivíduos com
o mesmo código genético.
Percebemos
então que a clonagem é um processo natural, que
ocorre tanto nos seres mais simples como nos mais complexos. O
domínio consciente deste processo pode representar diversos
avanços científicos, significa um maior entendimento
dos mecanismos da vida, de seu movimento e desenvolvimento. Este
domínio só será possível se arrancarmos
todos os véus de obscurantismo e preconceitos burgueses
que entravam o desenvolvimento da ciência. A clonagem não
tem nada de místico, de sobrenatural, de surreal do tipo
“novela das oito”, é um procedimento científico
e deve ser tratado como tal.
Clonagem
humana versus teoria “das almas”
No
final do século XVIII e início do século
XIX, o mundo viveu um auge do desenvolvimento científico.
Era o período das revoluções burguesas e
da segunda revolução industrial. Sobre o influxo
da revolução francesa, cientistas europeus derrubavam
um a um todos os mitos e idéias sacras reinantes desde
a Idade Média. Vivia-se a época onde a burguesia,
então revolucionária, abatia sem piedade todos os
preconceitos medievais. Dentre as importantes descobertas deste
período figura a feita pelo químico alemão
Friedrich Wölf que viveu entre 18.. e 18... Este cientista
conseguiu pela primeira vez sintetizar uma molécula orgânica,
a da uréia. Este feito fez ruir a teoria idealista das
“forças vitais”, que vigorava até então.
Esta “teoria” retrógrada dizia que era impossível
ao homem produzir qualquer substância feita por algum ser
vivo, pois estas substâncias só poderia ser sintetizadas
a partir da ação de uma “força divina”,
uma “força vital” que “orientaria”
as reações químicas em determinada direção.
Restaria ao homem a condição de sintetizar apenas
as moléculas inorgânicas (sais bases e determinados
ácidos). A teoria das “forças vitais”
é uma teoria idealista pois procura encontrar alguma interferência
externa (fora da realidade material) no processo de reações
químicas dos seres vivos, buscando assim comprovar a impossibilidade
da vida ter surgido naturalmente, sem a intervenção
de algum “deus”.
A
descoberta de Wölf teve também grande significado
filosófico, pois armou de exemplos práticos os materialistas
no debate contra os idealistas. A síntese da uréia
comprovou os erros do postulado de Kant sobre a “coisa em
si”, teoria idealista positivista que dizia que mundo objetivo
existia mas era incognoscível (impossível de ser
conhecido). Kant havia, com a teoria das nebulosas, derrotado
as insuficiências da teoria da mecânica dos corpos
celestiais de Newton e a teoria do impulso exterior. Com suas
conclusões a respeito da “coisa em si”, entretanto,
abandonava o materialismo e passava ao idealismo ao defender que
o fato de existirem fenômenos sobre os quais o homem ainda
não adquiriu conhecimento para domina-los e transforma-los,
é prova da existência de uma intervenção
de fora do mundo objetivo, de um “deus”. Quando Wölf
sintetizou a uréia ele demonstrou que o mundo objetivo
existe e sobretudo que pode ser conhecido, dominado e transformado
pelo homem, comprovando que o movimento da natureza é um
processo de desenvolvimento material incessante e infinito, que
ocorre sem a intervenção de forças metafísicas.
O
processo de clonagem e também o da fecundação
in vitro, são relativamente análogos ao da síntese
da uréia, tendo a mesma base. A teoria das forças
vitais não tem mais a força que tinha no século
XIX, ela foi sendo destruída pelas subseqüentes sínteses
realizadas pelo homem de substâncias orgânicas cada
vez mais complexas, mostrando que a natureza pode ser recriada
sem a necessidade de forças sobrenaturais, simplesmente
através do conhecimento humano sobre o mundo objetivo.
A polêmica retomada atualmente, a todo vapor, nos Estados
Unidos, sobre a validade da “teoria criacionista”
(o paraíso de Adão e Eva como explicação
para a formação do universo), contra a teoria do
evolucionismo, apenas comprova o reacionarismo do imperialismo,
que necessita seguir negando a ciência, aprisionando o conhecimento
para desenvolver e consolidar a exploração e dominação.
Hoje, portanto, a teoria das “forças vitais”
se apresenta de uma forma diferente, mas de mesmo conteúdo.
Diante da impossibilidade de sustentar que as reações
químicas dos seres vivos só podiam ocorrer pela
intervenção de uma “força” metafísica,
os idealistas abriram mão desta posição para
se fortificar na teoria “das almas”, que reconhece
a capacidade do homem de controlar processos orgânicos desde
que estes sejam não vivos, pois para eles a vida é
algo sobrenatural, impossível de surgir naturalmente do
movimento e desenvolvimento da matéria, necessitando de
forças divinas para materializar-se. A clonagem revela
a vida em sua materialidade, despindo-a do caráter sagrado,
religioso, tornando seu desenvolvimento completamente acessível
ao conhecimento do homem, por isto é uma técnica
que amedronta idealistas e a hierarquia religiosa. A clonagem
está longe de ser a sintetização da vida
em laboratório, mas soma-se vigorosamente aos experimentos
científicos que comprovam seu movimento material incessante
e a possibilidade do próprio homem interferir nele, provando
que a vida é um processo natural e não divino.
A
vida é uma das formas mais complexas da matéria,
sendo o desenvolvimento da matéria inerte em matéria
viva um grande salto de qualidade na natureza. Toda esta complexidade
não é fácil de ser compreendida e nunca o
será completamente, pois cada descoberta abre uma infinidade
de novas perguntas para serem respondidas. Sempre existiu na sociedade
um setor que buscava “abreviar” o conhecimento e diante
de dúvidas difíceis de serem respondidas, procuravam
na religião, no idealismo, possíveis respostas.
A religião é uma fora do homem “criar”
sua realidade, uma realidade onde não existam dúvidas,
onde tudo esteja previamente respondido, onde se evite as revolucionárias
e incômodas perguntas. É claro que nos primórdios
da Humanidade, as religiões cumpriram um importante papel,
foram um exercício de reflexão do homem sobre si
mesmo e sobre a natureza, porém, com o advento da sociedade
de classes, as religiões e todo o idealismo passaram a
ser utilizados pelas classes dominantes como forma de acentuar
e assegurar sua dominação. Obscurecer a ciência
social e natural é uma forma de fazer com que os homens
tornem-se conformistas, que aceitem a exploração
e a ignorância como algo próprio do ser humano. A
clonagem é um desenvolvimento técnico das descobertas
científicas do final do século XIX e início
do século XX, a respeito da reprodução dos
seres vivos, das transmissões das características
hereditárias e de sua base material o DNA. É a comprovação
da materialidade da vida e de que é possível compreender
mais a respeito deste magnífico processo.
Individualismo
burguês, o inútil desejo de se copiar
Por
outro lado as próprias pesquisas de clonagem humana estão
envoltas no idealismo, só que de tipo diferente. Não
possuem os preconceitos religiosos, mas acreditam ser possível
copiar um indivíduo com o objetivo de o perpetuar. Isto
não poderia ser de outra maneira, todas as pesquisas financiadas
pela burguesia são para satisfazer seus desejos individualistas
e mercantis. O controle da burguesia sobre os trabalhos científicos
representa um entrave para o desenvolvimento da ciência,
pois a reduz aos seus mesquinhos interesses, a conduz por um caminho
predestinado, impedindo-a de caminhar livremente. Exemplo desse
controle reacionário ocorre na indústria farmacêutica:
os medicamentos, uma droga mais eficaz descoberta para atacar
determinado mal, só substituirão os que já
se encontram no mercado, quando estes tiverem dado todo o retorno
dos investimentos empregados na sua obtenção, acrescidos
de uma formidável margem de lucro. É o desenvolvimento
da ciência manietado pelo interesse do lucro máximo.
É por isso que as “pesquisas” sobre clonagem
acabam se perdendo no idealismo, fogem de sua capacidade de esclarecer
os mecanismos da vida para servir à burguesia. A clonagem,
além dos efeitos práticos como a produção
de órgãos para transplantes a partir de células-tronco,
poderá esclarecer importantíssimas questões,
tais como, de que maneira se dão as transmissões
de caracteres adquiridos a partir de processos adaptativos, como
ocorrem as modificações no código genético,
as mutações, como se dá a ativação
de determinados genes ao longo da vida, etc. Como em tudo na vida,
as pesquisas científicas podem seguir dois caminhos. Hoje,
as motivações das principais “pesquisas”
da clonagem humana são os resultados financeiros que elas
poderão gerar.
A
vida para um burguês é única e exclusivamente
sua existência individual. Um grande tormento seu é
decidir quem herdará o que “de mais importante conquistou”
em sua infeliz vida, isto é as riquezas das quais se apossou.
O burguês geralmente escolhe um dos filhos para educar de
maneira especial, “à sua imagem e perfeição”
para seguir sua “obra”. Mesmo assim, entretanto, é
muito doloroso para o burguês deixar para alguém,
mesmo que seja de sua família, todo o seu capital e por
isso, a possibilidade de deixar sua herança para “si
mesmo”, para um clone, é para ele o máximo
de sua realização individualista. A realidade de
um burguês se limita à estreiteza de sua existência,
sua “filosofia” idealista inclusive considera sua
existência como o pré-requisito para a realidade.
O relativismo, tão em voga atualmente, é o supra-sumo
deste egocentrismo, disfarçado de filosofia, chegando-se
ao ponto de afirmar que existem realidades e verdades diversas,
até uma ou mais para cada um. O mundo objetivo para os
relativistas está condicionado à observação
individual, portanto, se uma árvore cai na floresta e ninguém
testemunhou o acontecimento, não se pode afirmar que de
fato isso tenha ocorrido. Outros dizem que o comportamento dual
(discreto e contínuo; corpúsculo e onda) dos micro
corpos (átomos, nêutrons, quarks, etc.), não
existe, são na verdade criados pelos processos que utilizamos
para observar estes corpos.
Parece
ridículo (e o é), mas são estas idéias
que motivam alguém a ter a necessidade de fazer uma cópia
de si mesmo. Acreditam que ao copiar seu código genético
estarão perpetuando sua existência e assim recriando
sua realidade. Limitam a consciência humana a uma “simples”
molécula, pois o Ácido Desoxiribonuclêico
(DNA – sigla em inglês), nada mais é que uma
macro molécula orgânica, composta de nucleotídeos,
açúcares e um grupo fosfato. Crêem que neste
DNA estaria sua magnânima individualidade, sua alma e que,
ao copiá-lo, se recriaria completamente o indivíduo.
A novela da globo, baseada nesta concepção burguesa,
mística, anti-científica, mostrava o clone humano
manifestando fragmentos de memória e uma misteriosa intuição
que o levou a apaixonar-se pela mesma mulher de seu “original”
(a pessoa da qual foi clonado). O DNA de fato é uma molécula
fantástica, é por meio dela que a vida perpetua-se.
Tanto essa molécula quanto as proteínas mais simples
são formas de semi-vida, são inertes mas possuem
comportamentos complexos e estáveis, capazes de modificar
sua estrutura e retornar à forma anterior e até
capazes de se auto copiar, como é o caso do DNA, sendo
estas moléculas a base da vida, representando a transição
da não-vida em vida. Ao clonar um animal e dar-lhe as mesmas
condições de vida é possível que sejam
muito próximos, e mesmo assim seu comportamento será
diferente. Nossa existência, nossa consciência e personalidade
são muito complexas, somos a matéria pensante, é
simplismo reduzir isto ao código genético. O DNA
dita como este corpo será fisicamente, suas potencialidades,
seus máximos e mínimos. O DNA humano dita também
a construção de nosso cérebro altamente desenvolvido,
mas não é aí que surge nossa consciência,
será aí que ela se desenvolverá. O espírito
humano, isto é, seu pensamento, é produto da prática
social, nós somos o que praticamos ao longo de nossa vida,
nos “construímos” a partir de nossas experiências
e de nossas atitudes diante dos vários problemas que a
vida nos apresenta. Como afirma o cientista revolucionário
Karl Marx, “não é a consciência do homem
que determina o seu ser, mas, pelo contrário, o seu ser
social é que determina a sua consciência.” |