| A
trapaça da “Aprovação Automática”
“O
suor escorre pelo rosto, as mãos ficam frias e trêmulas.
Leandro, 18 anos, não esconde o esforço que precisa
fazer para reproduzir no papel as palavras que lhe são
ditadas. Nervoso com o desafio, ele assume a dificuldade que sempre
teve em juntar as sílabas, embora saiba de cor o bê-á-bá.
O resultado no papel é indecifrável. Nos garranchos
que desenha, poucos sinais indicam que está falando a mesma
língua de quem dita o texto. Estudante do segundo ano do
Terceiro Ciclo (7ª série do Ensino Fundamental) da
Escola Municipal Pedro Guerra, no Bairro Mantiqueira, em Venda
Nova, Belo Horizonte, Leandro é um dos mais de dois mil
alunos da rede municipal de ensino, em fase de conclusão
do Segundo Ciclo, que são semi-analfabetos.” (Relato
sobre a situação de um estudante da Escola Plural,
retirado de uma reportagem publicada na imprensa em Minas –
março/2002)
O “revolucionário” novo sistema de ensino,
desenvolvido por “especialistas em educação”
ligados ao PT e Cia, recebe nomes diferentes em São Paulo,
Rio Grande do Sul, e diversas regiões do país, nos
moldes da chamada “Escola Plural” da prefeitura de
Belo Horizonte e “Projeto Sagarana” da secretaria
estadual de Minas Gerais.
Anunciado
pomposamente como a solução do problema da “exclusão
na escola”, esses projetos dizem ter como objetivo principal
o fim do altíssimo índice de reprovação
dos alunos das escolas públicas. Propõem acabar
com a repetência aplicando por decreto o fim da avaliação
do processo de aprendizagem, como forma de alcançar progressão
a qualquer custo. Os idealizadores da aprovação
automática, baseados exclusivamente em análises
estatísticas, chegaram à conclusão de que
o problema da exclusão na escola não é conseqüência
das péssimas condições econômicas e
sociais dos alunos, nem das péssimas condições
de ensino. Para eles a culpa seria da reprovação
que gera o desestímulo naqueles que ficam retidos por anos
na mesma série, propondo como solução mágica
implantar o sistema de aprovação automática.
Este
projeto teve inicio no Rio Grande do Sul e rapidamente conquistou
a aprovação da direita tradicional, como vem acontecendo
com vários projetos do gênero, “bolsa escola”,
“bolsa trabalho”, “programa de saúde
da família”, etc., exatamente porque, ao não
questionar os fundamentos do sistema de educação
em vigor, permite uma utilização demagógica,
maquiando os índices estatísticos. Ou seja, nos
Estados e Municípios, os relatórios apresentarão
índice de 100% de aprovação escolar. Esta
situação favorece o governo em dois pontos: primeiro,
diminuindo os gastos com educação, uma vez que o
número de alunos não cresce como antes, com os novatos
se acumulando sobre os repetentes, não sendo assim necessário
aumentar o número de vagas. Em segundo lugar, esta é
a melhor forma de garantir a chamada “universalização
do ensino”.
Os princípios e os eixos norteadores do Programa Escola
Plural
Segundo
o projeto oficial, “O Programa da Escola Plural se baseia
em dois princípios fundamentais: o direito à educação
e a construção de uma escola inclusiva, a partir
dos quais se articulam eixos norteadores”, a saber, as escolas
terão autonomia curricular levando em conta as especificidades
de cada uma; a escola é fruto da experiência coletiva,
sendo assim o sujeito deve interagir com a produção
do conhecimento; construção de uma escola democrática;
garantia de um processo de formação ininterrupto
e que reconhece os profissionais da educação como
o centro da construção do projeto.
Uma escola inclusiva e democrática?
Que
democracia é esta que diploma alunos analfabetos e semi-analfabetos
do ensino fundamental, através da aprovação
automática, ignorando as dificuldades de aprendizagem,
e não reconhecendo o direito dos alunos que necessitam
de mais tempo para aprender? Negando a estes o tempo que necessitam,
os estão excluindo, ou melhor, expulsando-os da escola.
Sob a cínica alegação de não “interrupção
do processo de aprendizagem”, negam o direito dos estudantes
de ocuparem sua vaga na escola, durante o tempo que seja necessário
a cada um, para adquirir, pelo menos os conhecimentos propostos
no currículo. Reduzem assim, o tempo e o número
de chances dos alunos com dificuldade de aprendizagem assimilarem
o conteúdo não absorvido, já que, ao terminar
o ano letivo, obrigatoriamente, serão aprovados (leia-se:
expulsos) e na série seguinte, estarão estudando
um conteúdo mais avançado, sem ter aprendido o conteúdo
básico. Por exemplo, um aluno do primeiro ciclo (1ª
à 4ª) ao concluí-lo deveria dominar as quatro
operações básicas da matemática (adição,
subtração, multiplicação e divisão)
pois estas são fundamentais para que siga avançando
para aprender as equações de primeiro grau. Mas
no modelo atual, mesmo não tendo assimilado as operações
básicas, o aluno passa a estudar equações,
acumulando conteúdos não absorvidos.
É
assim que as secretarias de educação atingem seus
100% de aprovação em suas escolas “democráticas
e inclusivas”, executando a maior interrupção
possível, empurrando jovens de 14 e 15 anos do ensino fundamental
para o ensino médio, sem levar em conta que estes sequer
sabem ler, realidade reconhecida pela própria secretaria
de educação.
Sobre “a autonomia e interação da produção
do conhecimento”
Como
podem falar de autonomia e interação da produção
do conhecimento, usando o método autoritário da
imposição do projeto “Escola Plural”,
desconhecendo o grande número de instituições
de ensino onde a comunidade escolar discordava de sua implementação,
até mesmo naquelas que haviam solucionado o problema das
altas taxas de reprovação em até 80%, como
é o caso da Escola Municipal Salgado Filho, em BH? Os profissionais
da educação tiveram os seus projetos políticos
pedagógicos esmagados e os estudantes jamais foram levados
em consideração pela secretaria de educação,
sendo todos obrigados a cumprir as novas ordens, passando longe
da tal “experiência coletiva do conhecimento”.
Para a Secretaria de Educação a culpa do fracasso
da Escola Plural é dos professores
Com
o discurso demagógico de que “os profissionais da
educação são os principais agentes construtores
do projeto”, os seus formuladores e defensores, representantes
da secretaria de educação e alguns da própria
Faculdade de Educação da UFMG, creditam todos os
insucessos da sua aplicação, “à incapacidade
e incompetência” dos profissionais que trabalham quotidianamente
nas escolas. Primeiro impõem o projeto e agora, depois
do fracasso, transferem a responsabilidade para os trabalhadores
da educação.
Escola Plural só para os filhos dos trabalhadores
Dizem
que este sistema de ensino é altamente avançado
e que revolucionou a concepção pedagógica
da escola, mas nas escolas particulares, onde estudam os filhos
dos burgueses, nem em seus piores pesadelos pensam em implementá-lo,
pois escola que forma analfabeto é só para os filhos
do povo. Para estes sim, isto é muito bom, pois estão
estudando é para seguirem a sina de seus pais, não
ter acesso ao ensino superior, mantendo a lógica capitalista
de reservar a universidade com exclusividade para os filhos das
classes exploradoras. Isto fica evidente em um trecho de um livro
de teóricos burgueses norte-americanos, sob o título
“Industrialism and Industrial Man” (Industrialismo
e o Homem Industrial). “O grosso da população
deve ser alfabetizada a fim de receber instruções,
seguir ordens, fazer registros”. Formulação
esta que tem direcionado o sistema educacional brasileiro desde
o acordo MEC-USAID (acordo entre o governo do Brasil e os EUA
na década de 60) e coloca a educação como
uma serva do industrialismo capitalista.
Escola Plural um aprofundamento da crise da educação
Ao
criticarmos a Escola Plural não estamos defendendo o sistema
anterior com sucessivas repetências. Sabemos que esse sistema
gera um grande desestímulo sobre os estudantes, mas não
será com um decreto de aprovação automática
que se resolverá este problema.
Na
verdade a Escola Plural só fez aprofundar a situação
de baixíssimo aprendizado do antigo sistema seriado, que
com seu método de avaliação apenas reconhecia
e media a quantidade de conhecimento adquirido no momento da prova,
não levando em conta o esforço do aluno e o quanto
este se desenvolvera.
A
solução para a crise da educação é
a luta conjunta de professores, funcionários e estudantes
pela construção de um sistema educacional verdadeiramente
democrático, que amplie o conhecimento dos estudantes,
que estimule a crítica a esse sistema de exploração
e opressão e que aguce a curiosidade dos jovens, estimulando
a pesquisa científica e não o retorno ao sistema
antigo. |