Consulado ianque é atacado no Rio de Janeiro

Foi numa manhã de Segunda-Feira. Já era o quinto dia (24/03) em que as tropas assassinas ianques e britânicas prosseguiam em sua invasão ao território iraquiano. Esse já seria o quinto dia em que os povos de todo o mundo iriam às ruas de seus países para manifestar seu repúdio à guerra contra o povo iraquiano em curso; mas com um porém: em muitas dessas manifestações predominava um caráter pacifista sem nenhuma perspectiva estratégica para deter a agressão imperialista. Um pacifismo desconsonante com a firme resistência iraquiana; no Brasil, até então, as manifestações se reduziam a lançamento de pombas brancas ao ar e bombas de chocolate a "alvos" norte-americanos.

Foi feito o chamado da corrente proletária dos estudantes! Era convocada para esse quinto dia, uma combativa manifestação no Rio de Janeiro para, na frente do consulado ianque, queimar a podre bandeira daquela nação imperialista. O MEPR lançou o chamado para vários estados do Brasil: na manhã daquela segunda as delegações já deveriam se concentrar no IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais - UFRJ) no Centro do Rio. Fundiríamos naquele dia à luta das massas iraquianas.

Às onze horas da manhã, já estávamos todos lá. Apesar das longas horas de viagem, os companheiros que chegavam de outros estados haviam deixado o cansaço na estrada, pois era a partir daquela hora que teríamos que gastar nosso fôlego na jornada que se iniciava.

Após um rápido lanche, dividimo-nos em quatro grupos para mobilizar as escolas e universidades próximas. A massa estudantil foi pega na saída das aulas. "Morte às tropas assassinas ianques" – eram essas as palavras que os estudantes cariocas viam na porta de suas escolas nos panfletos que convocavam o povo a se levantar em luta por todo o Brasil. De volta ao IFCS, nos concentramos para organizar os trajetos da manifestação e últimos detalhes, como preparação de nossas bandeiras e da bandeira ianque. Os grupos mais uma vez estavam divididos e rumavam para o local combinado.

Às 15h30min os grupos convergiam todos na esquina entre a Rua México e Rua Santa Luzia. Como que de forma inesperada, na base de gritos de "Morte ao imperialismo", se formavam uma a uma as quatro fileiras naquela esquina que dava para os fundos do consulado norte-americano. Os oportunistas de PT, PCdoB e outros que faziam a "vigília permanente" em sua "tenda da paz" na frente do consulado olhavam-nos interrogativamente, tentando entender o que aqueles estudantes com imenso vigor gritavam agitando suas dezenas de bandeiras e faixas vermelhas.

E foi com um grito de "Avante o povo, com sangue novo..." (início de Bandeira Rubra, música revolucionária italiana) que aquelas fileiras de estudantes, engrossadas por populares que passavam por perto, iniciaram sua marcha em direção à frente do consulado para queimar a decrépita bandeira ianque. Até então os seguranças e PMs nos observavam com olhares e risos de desprezo, tratando-nos como mais uma das manifestações diárias que as diferentes laias de oportunistas organizavam naquelas imediações. Foi quando, subitamente em frente à porta lateral do consulado, foram lançados dezenas de coquetéis molotov e pedras contra a vidraça daquele território ianque. Foi quando a polícia nos atacou, queriam calar aquelas vozes, queriam apagar aquelas flamas, foram direto na bandeira dos EUA que pretendíamos queimar. Um policial tentou capturar uma de nossas companheiras, mas saiu no prejuízo: entrou de pé e saiu cambaleando, não agüentou as pauladas de nossas pesadas bandeiras. Não contente com a lição, um comparsa daquele já abatido PM tentou pegar outra companheira covardemente jogando-a contra umas das pequenas fogueiras no chão (causadas pelos molotovs) o que resultou em graves queimaduras em seu rosto.

Em vista dessa batalha campal deflagrada, decidimos seguir a manifestação em direção à Avenida Rio Branco (avenida principal do centro da cidade) o que só fez a manifestação crescer, engrossada por pessoas que se encontravam no caminho. Por onde passávamos camelôs, populares em geral e mais estudantes aderiam e expressando sua fúria contra o capital financeiro internacional, imperialista, transformavam as vidraças dos bancos em montes de cacos com seus paus e pedras. Os que não integravam a turba furiosa aplaudiam e vibravam.

Na Rio Branco, já na altura do IFCS, atravessamos a rua passando em frente a uma loja do McDonald’s e a massa não resisitiu comeu de pedras a vidraça daquele símbolo da dominação imperialista. Mas não podíamos perder tempo, pois as tropas truculentas da polícia se aproximavam e precisávamos ir para o IFCS. O tarol acelerou o passo e batemos uma corrida pela Rua do Rosário e Rua do Ouvidor, chegando logo após a UFRJ. Chegaram a maioria dos companheiros vibrando como que após uma batalha vencida, mas 5 foram pegos na Rua do Ouvidor, pouco antes do seu final.

Dentro da universidade encerramos nossa manifestação gritando palavras de ordem, explicando o ocorrido para os alunos da UFRJ que já se encontravam lá e finalizando com a música que marcou o inicio do ato: Bandeira Rubra, novamente "Avante o povo, com sangue novo..."! Logo acabávamos o ato e já escutávamos os ecos dos gritos da população que na Rua do Ouvidor, tentava libertar os estudantes das garras dos facínoras policiais. Uma parte da manifestação havia acabado, outra continuava: a população tomada por ódio à ação violenta da polícia, gritava e clamava por justiça, chamando aqueles agentes policiais a serviço do consulado de covardes. Não ficaram só nas palavras: devido a ação daquele povo, uma companheira foi tirada a força das garras da polícia. A luta não acabava ali. a polícia não pensava que a sua ação truculenta repercutiria em todo o país, levando a manifestações em várias cidades e inclusive na porta da própria cadeia no Rio.

E foi naquela Segunda-Feira, que a juventude brasileira deu a resposta ao imperialismo, opondo a essa guerra injusta que se desenvolve, a justa rebelião das massas. Foi nesse quinto dia de levantes no mundo todo, que os estudantes brasileiros fincaram a bandeira da revolução como única saída para o fim da guerra imperialista e libertação dos povos oprimidos do mundo.


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