| Cotas
nas universidades: Enrolação do governo pra não
aumentar as vagas
Uma
bandeira que sempre foi levantada por diversos movimentos sociais
é a de democratizar o acesso ao ensino superior. O fato
de muitos defenderem esse tema não significa que há
concordância entre todos eles. As divergências passam
pela forma mais adequada de se fazer essa democratização,
mas começam na própria definição do
significado exato desse termo.
A
criação de cotas é o método de inclusão
"da moda". O próprio presidente Lula prometeu,
quando em campanha, a implementação de cotas para
candidatos negros. Essa posição é defendida
por todos os partidos ditos de esquerda e movimentos étnicos
em geral. Há outros grupos que preferem reservar vagas
usando a renda como critério. Falaremos primeiro sobre
a posição hegemônica: cotas para negros.
Antes
de discutirmos as justificativas usadas pelos adeptos dessa proposta,
devemos atentar para uma pergunta que eles recusam-se a debater:
quem são os negros? Não podemos esquivar-nos a essa
questão como se a resposta a ela fosse natural. Lula afirmou
no debate do segundo turno que utilizaria critérios científicos
para que se definisse as raças. Nada mais adequado e politicamente
correto, não fosse um pequeno empecilho: a ciência
nega, terminantemente, a existências de "raças
humanas". Existe apenas a humanidade como um todo. Prova
disso é que um sueco pode ter mais diferenças genéticas
com um conterrâneo seu que com um nigeriano.
Temos
portanto que o conceito de diferentes raças dentro da humanidade
não existe cientificamente. Resta aos que insistem em usar
o critério racial uma suposta "construção
sociológica do conceito de raça". Essa concepção
permearia o inconsciente coletivo da sociedade brasileira levando-a
a discriminar as pessoas negras. O problema com essa argumentação
é que, mesmo tendo-se mudado o conceito de raça,
ainda assim a definição de quem é ou não
negro continua abstrata e subjetiva. Uma demonstração
disso é que um mesmo indivíduo, se vestido de terno
e dentro de um shopping, será considerado moreno ou mestiço.
Colocando-se essa mesma pessoa com uma camisa de rapper e touca
na cabeça num ponto de ônibus, ele será considerado
negro. O conceito de branco, negro e mestiço varia de pessoa
a pessoa. A implementação de cotas para negros ficaria
assim, mesmo que fosse aprovada por unanimidade, sem meio prático
de ser aplicada. Quem defende essa tese, entretanto, esquece-se
dessa importante questão, tentando desde o princípio
demonstrar o quanto é acertada essa medida sem deixar claro
quem seria atingido por ela.
Utilizam
como principal argumento a seu favor a história do trabalho
no Brasil. O escravo, vindo da África, durante anos foi
a parcela mais explorada da população brasileira.
O fim da escravidão só se deu depois da aprovação
da "lei de terras", o que impossibilitou que o negro,
libertado pela lei-áurea, conseguisse um pedaço
de terra para si. Como além disso os descendentes dos africanos
encontravam dificuldade em conseguir empregos, o fim da escravidão
não encerrou a exploração do povo negro.
Estes passaram a integrar, no campo a classe dos camponeses pobres
e nas cidades a classe operária.
Essa
exclusão histórica e secular do negro culmina hoje
com a grande quantidade de pessoas dessa origem étnica
nas camadas mais pobres da população. Para que a
sociedade corrija então essa injustiça, deveria
aplicar as tais "ações afirmativas". O
problema não está no ponto de partida: a exploração
dos negros. A divergência está na conclusão
equivocada a que chegam. Isto se dá em parte porque interrompem
a análise da história do trabalho antes do necessário.
Se continuassem e estudassem-na até os dias atuais veriam
como, gradativamente, as diversas etnias vão sendo exploradas
indistintamente.
O
argumento de que a ausência do negro na universidade se
dá por questões raciais é insustentável.
Em primeiro lugar porque quando faz-se a inscrição
no processo seletivo não se faz nenhuma declaração
de cor. Os professores, ao corrigirem as questões, não
sabem a cor da pele de quem fez tal ou qual prova. A discriminação
portanto não tem como acontecer no processo seletivo. Isso
não é levado em conta. Sem explicar como se dá
o processo de exclusão do negro no vestibular, tentam provar
então, com base em vários dados estatísticos
que o negro é preferencialmente excluído.
O
próprio fato de usarem sem muito critério todo tipo
de estatística deve ser questionado. Os números
podem até não mentir, mas podem ser facilmente manipulados.
Há um exemplo muito conhecido que demonstra isso: uma pessoa
com a cabeça em um forno e os pés em um freezer
pode ter uma temperatura média agradável. Não
queremos aqui afirmar que não há concentração
maior de negros nas classes menos abastadas. Isso é indiscutível.
De
um lado falam que existiu um erro histórico que concentrou
a população negra nas camadas mais pobres da sociedade.
Dizem também que as estatísticas comprovam que a
exclusão do negro se dá por motivos raciais. Bom,
é óbvio que o negro é mais excluído
que o branco, mas o argumento deles próprios diz que o
negro se concentra nas classes mais baixas. A discriminação
social então deixa mais negros de fora da universidade
devido à concentração de pessoas dessa cor
nas faixas pobres do povo. A contradição que existe
não é portanto entre negros e brancos, mas sim entre
classes ricas e pobres, tendo claro que as classes têm,
ambas, negros e brancos, mesmo que em proporções
diferentes. Se privilegiarmos os negros pobres em detrimento dos
brancos, igualmente pobres, criaremos o seguinte problema: duas
crianças, uma branca outra negra. Ambos moraram na mesma
favela, no mesmo beco e tiveram os mesmos amigos. Estudaram na
mesma escola, na mesma sala e foram fazer vestibular juntos. Tiraram
a mesma nota. Só o negro passou. O que diremos ao garoto
branco? Você perdeu a vaga porque sua raça é
opressora? Com a justificativa de corrigir um erro, cometeremos
outro. Pensemos nos resultados práticos disso. O povo ficará
dividido. Será criada uma contradição entre
brancos e negros. Não se unirão para combater seus
verdadeiros inimigos pois estarão brigando entre si. É
isso que as classes dominantes querem. Disfarçar a contradição.
Não existiriam problemas entre classes, e sim entre raças.
Isso é pura falácia. É só observarmos
que o comportamento das pessoas é mais influenciado pela
posição social que ocupam que pela cor. Temos negros
revolucionários e negros reacionários. Collin Powel,
homem forte do assassino George W. Bush, é negro. No Brasil
podemos citar Celso Pitta por exemplo, que é negro e reacionário.
O mesmo acontece com os brancos. Não existe um posicionamento
político branco ou negro, existe um posicionamento de classe.
A luta deve ser portanto para a inclusão do povo como um
todo na universidade, já que assim incluiremos também
o negro, maior parcela dessa população pobre.
Isso
remete-nos aos grupos que defendem a cotização por
faixas de renda. A justificativa desses grupos é bastante
válida, pois percebem que a principal contradição
em nossa sociedade é entre exploradores e explorados. Mas
partem de um pressuposto válido para concluir precipitadamente.
É ponto pacífico que a baixa qualidade das escolas
públicas, no que diz respeito à aprovação
em vestibulares, deixa a desejar. A conclusão óbvia
seria então que a melhoria dessas condições
incluiria o povo no nível superior. Esse argumento é
muito combatido pois dizem que os pobres não podem mais
esperar, a melhoria da educação demora anos, talvez
décadas e não podemos aceitar mais gerações
de excluídos. Em uma análise superficial, a justificativa
é convincente, mas então por que, ao mesmo tempo
que pedem uma medida paliativa, calam-se ante a destruição
do ensino básico com a implementação das
escolas "plural", "candanga", etc.? Se a melhoria
da educação básica é tarefa demorada,
será ainda mais se continuarem esforçando-se para
destruí-la completamente. Esse argumento não passa
de demagogia: implantam no ensino básico a aprovação
automática e querem levar para a universidade os estudantes
semi-analfabetos que essas escolas formam, destruindo assim o
que resta de qualidade no nível superior de ensino. Concordamos
que o povo não pode mais esperar. Não podemos entretanto
colocar o povo na universidade para em seguida destruí-la!
O povo deve entrar na faculdade e lutar para elevar seu nível
e não arrasá-la. A cotização irá
dividir os estudantes universitários em dois grandes grupos,
enfraquecendo sua luta por melhorias da qualidade do ensino. Não
podemos tampouco pensar que esse é o único fator
que afasta o povo das universidades. Devemos então destrinchar
as diversas causas desse efeito. Além da falta de qualidade
do ensino público nos níveis básicos há
outros importantes fatores excludentes: a ausência quase
total de cursos noturnos é um deles. Os filhos do povo
precisam trabalhar para ajudar ou até sustentar sua casa.
Se não têm oportunidade de estudar à noite,
simplesmente não podem estudar. Outro aspecto importantíssimo
é o reduzidíssimo número de vagas. Andando
pela FAFICH (Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas)
na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), no período
noturno, podemos ter uma noção do significado da
palavra "vazio". É um absurdo que tenhamos tantas
salas desocupadas ao mesmo tempo que temos um vestibular tão
concorrido. Para alcançarmos resultados mais imediatos
de inclusão popular dentro das universidades, defendemos
a criação imediata de cursinhos pré-vestibulares
públicos. É uma medida paliativa mas é uma
alternativa para que o povo possa passar no vestibular e ainda
assim mantermos o nível do ensino. Outra medida que deve
ser tomada com urgência é a ampliação
das vagas. Para isso devemos exigir a contratação
imediata de professores para os quadros da universidade pública.
Dinheiro para isso sabemos que há: o governo deve parar
de financiar as universidades particulares e investir esse dinheiro
nas públicas. Deve-se aplicar o dinheiro que está
comprometido com a dívida externa para resolver os problemas
do povo, dentre eles a questão educacional. Deve-se implementar
programas de bolsas integrais (defendemos bolsas e não
financiamentos que só servem para extorquir dinheiro dos
estudantes) para estudantes que estão em universidades
particulares. Só adotando essas medidas é que podemos
realmente democratizar o acesso à universidade pois temos
que ter uma coisa muito clara: democratizar consiste em aumentar
o acesso e não simplesmente trocar as pessoas que terão
direito às vagas. |