| Os
espartaquistas de nosso tempo
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O
livro Espártaco foi publicado em 1952, nele é narrada
a história do escravo gladiador que liderou o levante contra
a opressão e domínio do império romano. Esta
obra prima da literatura universal foi escrita por Howard Fast,
exímio escritor norte-americano nascido em 1914, em Nova
Iorque. Fast é o autor de outras célebres obras
como O Americano (1946) e A Tragédia de Sacco e Vanzetti
(1948). A militância política do escritor marcou
suas obras e sua vida. Durante o McCartismo (campanha de perseguição
a comunistas e democratas no EUA) Fast percorreu seu país
participando de sindicatos e movimentos antifascistas. Em 1947
foi processado por desacato ao Congresso, e, em 1950 ficou preso
por três meses. Militou no Partido Comunista e trouxe o
marxismo para suas obras. O livro Espártaco é o
materialismo histórico e dialético romanceado, com
uma narração fabulosa ele demonstra a superioridade
moral dos escravos, a decadência do modo de produção
escravista e a ascenção do modo de produção
feudal e os germes das relações de produção
capitalistas. Por sua obra e sua vida de luta, Howard Fast recebeu
em 1953 o "Prêmio Stalin da Paz". Reproduzimos
agora uma pequena crônica que relaciona a luta e vida de
Espártaco com a luta da classe operária mundial.
Espártaco
não foi um homem, foi toda uma classe. Esta classe espartaquista
gravou as mais belas palavras nas mais bonitas páginas
da História dos homens. E que lindas palavras proveriam,
estes que segundo os romanos eram os instrumentos que falam (instrumentun
vocalae). Que falam e que pensam, senhores generais. Pensam muito
mais que vós, que de tão embriagados em suas fétidas
orgias com seu refinado vinho tinto, mal vos resta tempo para
pensar. Instrumento, voz e pensamento são inseparáveis.
Os instrumentos que falam são os que podem pensar e a eles
o futuro pertence. A vós, parasitas malditos, só
vos resta o passado.
Viva
a luta de classes! Vivam Espártaco, Crixo e Varínia
dentro
de todos nós proletários, os espartaquistas de nossos
tempos!
É
da miséria mais inaudita que brota a beleza. Esta estética,
transcendente à história da luta de classes, é
comprovada pelos fatos e não por quem os escreve. Espártaco
conheceu o inferno bíblico "pois os homens não
escrevem sobre infernos que não existam aqui na Terra"
nas minas de ouro do deserto do Núbio. Ali trabalhou, durante
um tempo difícil de ser medido, pois no inferno cada momento
é eterno. Mas não foi no deserto com seu calor implacável,
nem nas minas onde um adulto resistia no máximo dois anos
e uma criança não passava de meses, que Espártaco
conheceu o mais fundo da miséria humana.
Para
Cápua, cidade italiana a três dias de Roma, Espártaco
fora levado a ser gladiador, se é que podemos usar o termo
"ser gladiador" por ser esta existência tão
efêmera e barata. Sabeis, pois, o que era um gladiador?
Todo modo de produção baseado na exploração
do trabalho atinge, cada qual, em sua decadência um dos
limites da barbárie. Em Roma este limite eram as lutas
de pares entre gladiadores. A decadência romana: burocratas,
generais, pederastas, patrícias taradas, se reuniam para
ver escravos se matarem. Aplaudiam e se excitavam com este banho
de sangue. No entanto a miséria maior não consistia
em rir da morte de semelhantes, pois para os romanos não
eram humanos os escravos, e em sua moral de classe nada mais justo
do que se divertir com uma rinha de animais. A maior miséria
estava no calabouço, naqueles que contrariando sua moral
de classe eram obrigados a assassinar semelhantes. Um escravo,
por mais bruta que tenha a consciência, sabe, mesmo que
não perceba, que outro escravo é um semelhante seu.
Sejam trácios, espanhóis, africanos, gauleses, gregos,
judeus, eram todos escravos da santa Roma e para divertirem-na
eram obrigados a se matar. Foi neste limiar extremo da existência
humana que Espártaco conheceu os maiores horrores da vida
e neles compreendeu o que deveria ser feito.
Espártaco
durante 57 lutas como gladiador lutou por Roma e em quatro anos
como guerreiro lutou para sua classe. Dirigiu o maior levantamento
de escravos em sua época, venceu inúmeras batalhas,
derrotou de uma só vez oito das melhores legiões
do império, que contavam com mais de 70 mil soldados. Toda
esta luta se iniciou com uma rebelião na escola de gladiadores
do lanista Lêntulo Baciato, mas Espártaco e seus
gladiadores não podiam simplesmente fugir para a selva,
como seria o usual nos limites do império romano. Estavam
no seu centro, e ele rapidamente percebeu que para permanecerem
livres era necessário destruir Roma. Mas Roma era indestrutível.
Mas eles não eram há pouco gladiadores condenados
a viver assassinando irmãos e morrer assassinado por irmãos?
Haviam rompido os grilhões, e quando se rompe definitivamente
grilhões na consciência nada pode deter o ajuste
da base e o ajuste de contas. Os homens quando se libertam podem
tudo. A revolta se alastrou e aos gladiadores se uniram dezenas
de milhares de escravos de todo o império Romano, que assassinavam
seus senhores e corriam para a liberdade da guerra justa. Espártaco
se tornou um grande comandante e formou o melhor exército
que havia existido. E como guerreavam os soldados de Espártaco!
Os escravos não eram lutadores comuns, eram demônios
nos campos de batalha e sem piedade arrasavam aqueles que por
séculos os haviam dominado. Roma tremeu. Mesmo assim seu
poderio era muito grande e venceu nos campos as legiões
espartaquistas, porém foi derrotada historicamente. O abalo
das Guerras Servis fez o maior império existente na terra,
até então, sucumbir definitivamente.
Do
império romano não restou nada além das recordações
históricas. De Espártaco resta tudo, e, ele com
seu exemplo de classe está mais vivo do que nunca. Karl
Liebknecht fundara em 1918, a Liga Espártacos que daria
no outro ano origem ao Partido Comunista da Alemanha. Liebknecht
foi o único deputado operário a votar, no parlamento
alemão, em 1914 contra os gastos do governo da Alemanha
de preparação para a 1ª Guerra Mundial imperialista.
Os seguidores do renegado Kautski, com seu social-chauvinismo,
e em seus "partidos operários burgueses" votaram
a favor da burguesia imperialista de seu país e com ela
foram para sua podre guerra. Era então o momento em que
o imperialismo, a etapa superior do capitalismo, se tornava, com
esta guerra mundial de partilha das nações oprimidas,
um sistema mundial. O auge do imperialismo marca também
sua decadência. E junto da decadência econômica
deste que é último modo de produção
baseado na exploração do trabalho, chegamos aos
mais altos estertores da miséria humana, a guerra mundial
imperialista. A maior arena de gladiadores montada sobre a Terra.
Milhões de proletários lutando e se matando uns
aos outros pelos lucros e sorrisos dos imperialistas. No camarote
de honra, comendo as migalhas dos banquetes da burguesia imperialista,
estão os revisionistas e oportunistas. Os comunistas chefiados
por Lênin não participam desta decadente disputa.
Os comunistas são espartaquistas! Se recusam a convocar
os proletários a lutar contra seus semelhantes, contra
os membros de sua classe, sejam eles de que país for. E
ainda mais, conclamaram aos proletários de todo os países
a seguirem os apelos de Marx, de se unirem contra a burguesia
de cada país e contra o imperialismo. Que sigam o exemplo
de Espártaco de romper os grilhões da escravidão
e se voltar contra o império. É então que
uma das legiões do império é derrotada e
na Rússia os escravos se tornam livres. Na Alemanha, os
espartaquistas Liebknecht e Rosa Luxemburgo são brutalmente
assassinados por comandarem uma revolta contra o império
germânico no ano de 1919, que então era administrado
pelo social-democrata e traidor da classe Scheidmam. Assim como
Espártaco, Liebknecht foi assassinado no campo de batalha,
e assim como Espártaco seu exemplo internacionalista permanece
vivo.
Espártaco
foi talvez um dos primeiros grandes internacionalistas. Foi o
maior expoente da luta dos oprimidos de então. Estamos
ligados indissoluvelmente a Espártaco e herdamos todo o
seu legado. Espártaco sonhava com um mundo livre, sem opressão,
violência e morte como nós. Lutou bravamente por
este mundo novo e morreu por ele. Acreditava, limitado pelo pensamento
de sua época, que a felicidade viria com a instauração
de uma comunidade semelhante à das tribos das genes. Espártaco
não era filho da grande indústria e não teria
como vislumbrar cientificamente os caminhos para a edificação
do reino da alegria, do trabalho e da solidariedade. Mas lutou
por ele e sua luta contra o escravismo nos foi essencial para
chegarmos onde estamos hoje, em uma situação seguramente
melhor por ser mais próxima desta realidade. Porém
para concretizarmos este ideal devemos lutar como Espártaco
e seus camaradas. Lutar com destemor e sem ilusões contra
o imperialismo. |