Ministro da educação fala que estudantes são "moles"

Na visita à sede da Une no final do ano passado, Cristovam Buarque fez uma declaração que deixou indignado todo estudante que sabe e sente na pele a realidade dos alunos das universidades particulares do nosso país. Afirmou que o motivo disto custo do ensino privado é a "moleza dos estudantes que não lutam para abaixar as mensalidades". Isto demonstra como o Ministro não está nem aí para os milhares de estudantes que gastam todo o seu salário com as abusivas mensalidades das universidades particulares. Tirando a responsabilidade do governo, passou o seguinte recado através deste comentário: o MEC não moverá uma palha para impedir os superlucros destes grandes empresários, tubarões da educação.

O grande negócio do ensino privado

A falta de verbas tanto para manutenção quanto para ampliação das universidades públicas só vem agravar a situação do ensino superior no Brasil. Com a falta de vagas nas universidades públicas, o ensino privado se expande cada vez mais no espaço deixado pelo Estado na educação superior. Do total de instituições universitárias em funcionamento, 86% são particulares e têm tido um crescimento de mais de 17% ao ano. São somente 183 universidades públicas no nosso país, enquanto as privadas chegam a 1391 (ver tabela abaixo).

Hoje, as Universidades particulares têm um lucro anual de R$ 15 bilhões de reais, ou seja, mais de R$ 1,25 bilhão ao mês (O Estado de Minas - no. 01/2003). É um grande negócio, pois gera mais lucro que os setores de energia e telecomunicações juntos. E quem são os donos dessas "empresas de educação" ? Eles estão presentes em todas as áreas do Estado brasileiro, controlando desde meios de comunicação até altos postos do governo em todos seus segmentos, desde o municipal até o federal. Basta lembrar do atual ministro do Turismo Walfrido dos Mares Guia, dono da rede Pitágoras de Ensino e sócio de diversas outras redes brasileiras e estrangeiras. Podemos citar também Wellington Salgado, suplente do Senador Hélio Costa, entusiasta defensor do governo Lula e dono das Universidades Salgado Filho do Rio de Janeiro, que possui filiais em todo o país, dentre as quais a Unit de Uberlândia.

Entender o crescimento do ensino privado no ramo universitário é entender a própria dinâmica do ensino brasileiro, do fundamental ao superior. Para isso requer-se uma especial atenção para a concentração de alunos nessas instituições. Hoje, mais de 75 % dos estudantes universitários estão em instituições particulares. Dentre estes, mais da metade cursou o ensino médio em escolas públicas e tem uma renda que quando muito cobre as altas mensalidades que são caríssimas: em média R$ 500,00. Enquanto houve um grande aumento da quantidade de instituições privadas de ensino, nos últimos 20 anos o número de vagas oferecidas nas universidades públicas se manteve praticamente estável.

Esta é a política do governo – incentivar o crescimento das instituições de ensino superior privadas em detrimento da ampliação das públicas. A maioria dessas instituições tem o título de "filantrópicas", recebendo isenção fiscal de alguns bilhões. Em contrapartida deveriam conceder bolsas a alunos carentes, sendo proibidas de visarem o lucro. A realidade é muito diferente: o número de alunos bolsistas é irrisório, ao contrário dos lucros, que são absurdos.

Não há investimento em estrutura, ensino, extensão e principalmente em pesquisa. Em muitas instituições faltam livros na biblioteca e as salas de aula são superlotadas, tendo em torno de 60 alunos em cada uma. Estes empresários da educação não estão nem um pouco preocupados com o desenvolvimento e produção científica dentro da universidade, mas sim de engordar os seus cofres com o dinheiro dos estudantes. As universidades são para eles como qualquer outro negócio muito lucrativo.

FIES O Grande Embuste: a Universidade faz o laço e o Banco Aperta

O chamado FIES (Financiamento ao Estudante do Ensino Superior), conhecido como crédito educativo, tão defendido pela Une e oportunistas de plantão, representa uma imensa e segura fonte de lucros tanto para universidade, quanto para os banqueiros. O dinheiro para o projeto é oriundo nada mais nada menos que do governo federal e é repassado pela Caixa Econômica Federal para as universidades exigindo fiador e bens como garantia para conceder o tal "beneficio". As taxas de juros são escorchantes, transformando o estudante em refém da dupla: Bancos e Universidades particulares. Para os donos das universidades e os banqueiros, os estudantes das instituições particulares são uma espécie de "galinhas dos ovos de ouro", que podem garantir lucros astronômicos para ambos.

No período de sua campanha eleitoral, o atual governo prometeu ampliar o número de estudantes a receber o "beneficio" do FIES. A UNE bateu palmas para as declarações do governo, pois defende a sua ampliação sem questionar os juros abusivos. Muitos estudantes que recebem o crédito se assustam ao receber as boletas de pagamento ao final do curso, que chega a um valor muito além do preço inicial do curso. Transformando a vida dos estudantes em pesadelo depois de se formarem, com uma dívida impagável.

As universidades que são obrigadas a destinar parte de sua receita em bolsas de estudo por serem filantrópicas, se aproveitam do FIES para trapacear e não conceder tais bolsas. Isto aconteceu na PUC-MG, que obrigava os estudantes que recebiam o credito educativo, a assinar um termo como se estivesse recebendo bolsas de estudo.

Não podemos aceitar, os juros absurdos do credito educativo! Não podemos ficar nas mãos de agiotas, pagando juros astronômicos. Exigimos bolsas de estudos para os estudantes além da redução dos juros do FIES.

Altas mensalidades aumentam índice de inadimplência

A cada ano cresce o número de estudantes inadimplentes nas universidades pagas. O motivo principal deste crescimento é o absurdo preço das mensalidades que os estudantes são obrigados a pagar. Somente no último semestre, o aumento das mensalidades na PUC-MG foi de 13%. Além das altas mensalidades e matrícula, os estudantes gastam também com taxas para pegar qualquer documento junto à Universidade como histórico, diploma, etc. Além do gasto com transporte, xerox e livros. Só para se ter uma idéia, um curso de Geografia na Unit de Uberlândia chega a cobrar o trabalho de campo de seus alunos, sendo que os mesmos já pagam uma absurda mensalidade de mais de R$ 400,00 ao mês. Isto faz com que muitos estudantes tenham que desistir do curso quando já pagou grande parte dele. Para cada 100 alunos que ingressam nas universidades particulares, apenas 20 se formam (dados da ANUP).

Pela redução imediata das mensalidades

Ao contrário do que diz o Ministro da Educação de que "os alunos são moles e não se mobilizam para baixar as mensalidades", os estudantes sempre lutaram por seus direitos. Uma prática importante é a adotada pelos estudantes da PUC-MG que têm organizado semestralmente campanhas para garantir a matrícula de todos os alunos inadimplentes juntamente com a exigência de bolsas de estudo e contra o aumento das mensalidades. Foram feitas assembléias, manifestações, acampamentos, invasões a departamentos e reitoria. Uma das vitórias foi a de obrigar a PUC a matricular os inadimplentes e conceder parte das bolsas de estudo que é obrigada a dar. No entanto, esta Universidade ainda não cumpre com sua filantropia e tem que conceder muito mais bolsas de estudo do que o número atual.

A luta por mais bolsas e matricula dos inadimplentes é muito importante e deve continuar, porém para nós não bastam, até porque os donos das universidades, sempre procurarão uma forma de garantir os seus lucros, seja reduzindo as bolsas ou aumentando o preço das mensalidades. É necessário ampliarmos a luta pela redução das mensalidades, pois este é o motivo do enorme número de inadimplentes e da evasão da universidade. Responderemos para as reitorias: se não abaixarem as mensalidades, nós vamos boicotar! Uma importante luta neste sentido foi na FCMMG (faculdade de ciências médicas de Minas Gerais), quando os estudantes boicotaram as mensalidades por 3 meses, conseguiram impedir o aumento das mensalidades e reduzir o preço destas. É possível arrancar muitas vitórias neste terreno e o único caminho para consegui-las é a resistência estudantil. Organizar o boicote das mensalidades e exigir a redução imediata!

Por último gostaríamos de deixar um recado do Sr. Ministro Crsitovam Buarque: em primeiro lugar mole é você que não tem peito de enfrentar os tubarões do ensino; e em segundo lugar pode esperar iremos boicotar as mensalidades e dizer "manda botar na conta do MEC".

Exigimos redução imediata das mensalidades!

Instituições de Ensino Superior em 2001

Região

Públicas

Privadas

Total

Percentual de Privadas

Norte

12

49

61

80.33%

Nordeste

46

165

211

78.20%

Sudeste

75

667

742

89.89%

Sul

33

182

215

84.65%

Centro-Oeste

17

145

162

89.51%

Instituições

183

1208

1391

86.84%

Fonte: ANUP (Associação Nacional das Universidades Particulares)

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