| Une/Ubes:
de pelegos a agentes do MEC
A
primeira "reunião" do Ministério da Educação
aconteceu no dia 28/12/2002, em São Paulo na sede da Une.
Três dias antes da posse de Lula o então futuro ministro
da educação, Cristovam Buarque, já se reunia
com sua nova equipe técnica (os diretores de Une/Ubes).
O encontro foi marcado por grande euforia e entusiasmo com a recente
vitória eleitoral. Na revista da Une a foto do ministro
foi estampada na capa com um mapa do Brasil e as cores nacionais.
Somos obrigados a concordar com a Une, quando nesta mesma revista
diz que esta foi uma reunião histórica. Na verdade,
ela já demonstra como o MEC irá aplicar as suas
políticas neste governo.
20
anos de imobilismo e traição dos estudantes
Une/Ubes
são entidades que há muitos anos se apodreceram.
Estas que já foram entidades da luta estudantil se transformaram
desde meados dos anos 80 em fábricas de carteirinha e trampolins
eleitorais. Na década de 90 seu imobilismo ficou mais evidente.
Canalizaram todas as lutas estudantis para o podre caminho das
eleições. Nos últimos anos assistimos o sucateamento
completo do ensino público, a privatização
das universidades, o fim do ensino técnico vinculado ao
ensino médio, o aumento das mensalidades e o crescimento
enorme das faculdades particulares, a implementação
da aprovação automática no 2º grau,
etc. E tudo isto sem que Une/Ubes levantassem verdadeiras lutas.
Enquanto o Brasil vive o agudizar da maior crise econômica
e política de sua História, o congresso destas entidades
são grandes festivais no estilo "sexo, drogas e rock
and roll". O que estes pelegos comemoram é a paralisia
do movimento estudantil, comemoram os seus altos salários
e suas mordomias.
Suas
manifestações festivas e alienadas, não levaram
a lugar algum e só serviram para dissipar a força
estudantil. O chamado "Fora FHC", uma tentativa de reedição
do "Fora Collor", nunca foi uma luta política
concreta e sim uma tentativa de desgastar o governo para acumular
para sua alternativa eleitoral. Não dirigiram nenhuma luta
direta e conseqüente, em todas apontavam as eleições
como solução para os problemas da educação.
E
a solução que Une e Ubes sempre apresentaram para
os estudantes chegou. O candidato que apóiam desde 1989
foi eleito. Se Une/Ubes já não lutavam quando eram
"oposição" o que farão de agora
em diante? À estas entidades caberá um importante
papel na viabilização das políticas ministeriais.
A reunião de 28/12 serviu para afinar os discursos, para
acertar a melhor forma de aplicar as medidas governamentais. De
pelegos e oposição bem comportada, Une e Ubes, passaram
a ser o próprio governo, funcionários e agentes
do MEC.
Une
e Ubes estão agora no governo
PT
e PCdoB, as forças hegemônicas do velho movimento
estudantil, assumiram o controle do aparato central do Estado
burguês-latifundiário. Sem dúvida esta é
uma mudança histórica para o movimento estudantil
brasileiro. A Une passa a ser uma representação
ministerial dentro das universidades. A defesa que já estão
fazendo das absurdas medidas governamentais para a educação
mostra que serão semelhantes ao sindicalismo controlado
pelo ministério do trabalho no período do Estado
Novo. Uma das medidas do fascista Getúlio Vargas. a partir
de 1937, foi criar um movimento sindical totalmente atrelado ao
Estado, este movimento, servia para defender o governo e para
aumentar o controle policial sobre a massa de operários.
O novo presidente não precisa criar um movimento estudantil
que se preste a este papel, porque já existem Une e Ubes.
Estas entidades e os partidos que as dirigem se fundiram para
sempre com o decrépito Estado brasileiro lacaio do imperialismo.
Sem
nenhum pudor Une/Ubes começam a defender medidas que sempre
se disseram contra. Na entrevista que fizeram com o ministro não
retrucaram nenhuma das propostas de Cristóvam Buarque,
que diga-se de passagem são idênticas às de
FHC e Paulo Renato. De boca fechada escutaram o ministro dizer
que continuará com o Provão, que não pedirá
aumento de verbas para a educação, que manterá
o repasse de verbas do governo para a rede privada de ensino,
que o MEC não interferirá nos preços das
mensalidades, etc. A Une era "contra" tudo isto. "Contra"
esta educação Une/Ubes levantaram suas bandeiras
e agora com o maior descaramento vêm dizer que estas medidas
são necessárias para que haja mudanças. É
impossível haver mudanças aplicando as políticas
do Banco Mundial, exatamente as medidas aplicadas por FHC e que
levaram a educação brasileira ao caos que se encontra
hoje. Isto prova que as bandeiras destas entidades nunca valeram
nada. Suas lutas "contra" FHC, "contra" a
privatização das universidades e por mais verbas
para a educação não passavam de conversa
fiada.
Une
é parte da burocracia da universidade
Durante
a greve das Federais de 2001 a Une apresentava como saída
para a conquista das reivindicações dos estudantes,
um "Plano Emergencial" para as universidades públicas.
Quando os estudantes levantavam sua pauta de reivindicações
e propunham ações combativas, como a ocupação
da universidade, barrar o vestibular, diziam que não precisaria
disto, pois já existia o "plano" para salvar
a universidade. E para garantir a aplicação do plano
era só votar no "salvador" Lula. Assim, a Une
não realizou nenhuma ação efetiva pelos direitos
dos estudantes.
Todos
que passam pela universidade sabem que no nosso país, estas
são verdadeiros feudos. Os departamentos são controlados
pelos chefes da burocracia acadêmica. A estrutura burocrática
da universidade faz parte do que há de mais atrasado e
retrógrado no nosso país. As eleições
para reitorias e diretorias das universidades são verdadeiros
escândalos. É o MEC e o presidente da república
que decidem quem irá dirigir a universidade. Os diretores
das faculdades são escolhidos pelo reitor. Nas consultas
para lista tríplice, o peso dos estudantes é de
15%, dos funcionários 15% e dos professores 70%. Nos conselhos
universitários e congregações, a participação
dos estudantes chega a ser de 2 para 20. Com esta estrutura, é
impossível que os estudantes possam ter algum nível
de decisão dentro da universidade.
Esta
estrutura das universidades foi um dos principais facilitadores
para a implementação das fundações
de direito privado que passam a controlar o que se desenvolverá
na produção científica, além da ampliação
das parcerias com as empresas privadas, a implementação
de taxas, reforma curricular impostas goela abaixo dos estudantes
sem nenhuma discussão, ou seja, a aplicação
de tudo aquilo que é o interesse das classes dominantes
do nosso país e dos monopólios estrangeiros. É
o cúmulo da burocracia, quem controla e orienta os destinos
da universidade não é a maioria que a sustenta,
os estudantes. Não existe autonomia, a não ser esta
que os governos de plantão estão implementando que
é a autonomia financeira. A orientação das
pesquisas, dos currículos dos cursos de graduação,
a gestão das universidades, ficam sobre o controle dos
chefes de departamentos ou das fundações que a cada
dia tem mais controle sobre a gerência das universidades.
A
Une, sempre legitimou esta estrutura burocrática. Sempre
participou da farsa das eleições com lista tríplice
apoiando um ou outro candidato. Sempre considerou que esta é
a forma do movimento estudantil utilizar os ‘espaços
democráticos’ da universidade. A Une é tão
devagar que o ministro da educação anunciou o fim
da lista tríplice antes que eles a "reivindicassem"
propusessem. Agora mesmo a Une bate palmas para todas as medidas
que o ministro da Educação anunciou esforçando-se
para passá-las por medidas democráticas, medidas
que não passam de continuidade do governo FHC. Serão
o braço direito de Cristovam Buarque na aplicação
destas medidas.
A
Une nunca quis destruir esta estrutura burocrática da universidade.
O que ela sempre quis foi participar dela. Agora, que deixou de
ser uma entidade pelega para ser uma entidade governamental, vai
participar ainda mais de todos estes órgãos. Junto
a burgueses e latifundiários do mais alto estipe estão
compondo o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social,
que tem a função de assessorar o governo em suas
reformas. Estar bem juntinho das classes dominantes nos seus órgãos
de representação, esta é a "democracia"
da Une.
Nós
do MEPR, exigimos a democracia direta. Que os estudantes, junto
aos funcionários e professores, tenham o poder de decidir
os destinos da universidade. Por isto não participamos
desta eleição por lista tríplice. Jamais
reconheceremos uma eleição onde o peso dos estudantes
não é maioria no processo. Nem lista tríplice,
nem minoria, nem paridade. Somos a maioria dentro da universidade
e temos o direito de ter maior peso nas eleições.
Une
os novos fiscais do Provão
Quem
não se lembra dos cartazes, adesivos e panfletos da Une,
com o slogan "Nota zero para o Provão", ou "Provão
não prova nada"? Hoje o provão prova, prova
que a Une não vale nada! Uma das medidas que o ministro
da educação anunciou, é que vai manter o
Exame Nacional de Cursos, porém com alguns remendos a serem
feitos nos próximos anos, tudo com o respaldo da União
Nacional dos Estudantes. O que a Une propagandeou durante os 8
anos de governo FHC cai por água abaixo agora que estão
no governo. O problema para a Une nunca foi o significado do provão,
mas quem o realizava e o implementava. Agora que eles estão
no governo não tem mais o que reclamar, eles próprios
serão os fiscais do provão.
O
provão foi implementado nas universidades do nosso país
como um plano do Banco Mundial com a justificativa de que estaria
avaliando a qualidade dos cursos e apontando aonde o governo deveria
estar investindo para melhorar o ensino superior. Isto é
uma grande mentira. O provão serve, antes de tudo, para
garantir que os currículos se adequem aos interesses do
FMI e do Banco Mundial, são eles que elaboram as provas
e é deles o critério para definir que conteúdo
o aluno deve saber ao final do curso. O provão impede também
a autonomia na produção científica da universidade.
Quem deve avaliar e decidir sobre qual deve ser o currículo
e as pesquisas, são principalmente os estudantes.
Na
PUC-MG os estudantes têm levantado a discussão sobre
o Provão e não aceitam o discurso de alguns professores
que disseram que o curso pode ter que sofrer algumas modificações
por causa do provão. É sempre assim, nunca os estudantes
podem participar da elaboração do currículo,
e quando baixa orientação do MEC, fazem toda uma
modificação na estrutura do curso. No caso do provão
as modificações são feitas às pressas,
para que a universidade não tire uma nota baixa no Exame
Nacional de cursos. Os estudantes não querem que se desenvolva
na PUC o que tem acontecido como tendência em muitas universidades,
que é transformar o último ano de faculdade em cursinhos
preparatórios para o provão.
O
provão caminha junto com um ranking entre as universidades,
todas entram na disputa por qual receberá mais verbas.
As universidades que tiram as maiores notas no provão são
as que mais recebem recursos. Ao invés de aumentar o orçamento
para a universidade, colocam estas para disputarem entre si as
míseras verbas governamentais. Argumentam ainda que o provão
irá facilitar o fechamento das universidades privadas,
que surgem aos borbotões e que não têm qualidade,
porém quem mais incentiva a abertura indiscriminada destas
instituições é o próprio governo.
Aos
poucos os objetivos do provão foram ficando mais claros.
Antes as notas nem eram publicadas, hoje elas passam a constar
em nosso currículo, amanhã só teremos o diploma
se ficarmos acima da média. É um absurdo, querem
implementar um novo vestibular ao final do curso.
Ao
contrário do que a Une lançava como slogan, de que
o provão não avaliava nada, o provão avalia
sim. Só que toda avaliação segue interesses
de classes. A uniformidade da avaliação, que é
implementada no provão, serve para garantir que todas as
universidades estejam controladas pelo critério único
do Banco Mundial. Não é a toa que o Provão
tem sido aplicado, progressivamente em todos os cursos, juntamente
com a reforma curricular.
A
pressão de FHC e Paulo Renato, sobre os estudantes que
se opunham à realização do provão,
foi muito grande. O novo ministro da educação, pressionará
da mesma forma, só que agora contará com a Une para
defender o provão. Mas isto não impedirá
que os estudantes mantenham a luta. Continuaremos a organizar
o boicote, pois esta é uma forma importante de impedirmos
que os planos do Banco Mundial para a universidade sejam implementados.
Não aceitamos nenhuma intervenção governamental
no sentido de controlar o nosso estudo e nossas pesquisas, não
reconhecemos e não faremos o provão. Devemos nos
organizar por cursos e faculdade realizando os debates para nos
preparar para o próximo boicote que será na 1ª
semana de junho.
A
Une, presunçosamente tem procurado decretar o fim do movimento
estudantil. Em várias ocasiões afirmou que estamos
vivendo um momento histórico no movimento estudantil porque
este "deixa de ser um movimento de resistência para
ser de proposição", devido à nova situação
política no país. Se enganam se acham que com estas
declarações colocam fim na luta dos estudantes.
Muito ao contrário, somente se desmascaram demonstrando
do lado de quem sempre estiveram. Fica clara a demarcação
de campo entre os que lutam e os que se vendem. O movimento estudantil
seguirá sendo um movimento de resistência. A luta
estudantil nunca dependeu de pelegos e governistas. Os estudantes
não aceitarão o novo ministro da educação
implementar a privatização das universidades, a
cobrança de taxas, o provão etc. Levantemo-nos para
exigir todos os nossos direitos e varramos das escolas e universidades
para sempre estes oportunistas. |