| Rebelião
popular na Bolívia
A
Bolívia é um dos países mais pobres da América
Latina. Possui uma estrutura agrária arcaica e sua população
é composta principalmente por camponeses pobres. A atividade
industrial é muito pequena, reduzindo-se essencialmente
à extração mineral (estanho e cobre). Através
da mineração os imperialistas norte-americanos sugaram
praticamente todas as riquezas bolivianas, condenando este país
à reles condição de semicolônia, com
sua soberania totalmente comprometida. Bolívia perdeu grande
parte de seu território nacional nas sucessivas guerras
regionais com os países limítrofes durante os séculos
XIX e XX. Seu acesso ao pacífico lhe foi tomado pelo Chile;
ao sul perdeu grande parte de suas reservas minerais para Argentina
e Paraguai, que financiados pela Inglaterra invadiram a região;
para o Brasil perdeu todo o território que hoje é
o estado do Acre.
Desde
os anos 70 a atividade mineira está esgotada, com isto
as condições de vida do povo boliviano se agravaram
ainda mais, aumentando o desemprego e o êxodo rural. A maioria
da população urbana trabalha na informalidade e
no campo os camponeses sobrevivem graças ao plantio da
coca.
As
massas bolivianas têm sua história marcada pela rebeldia
e pela luta. A colonização espanhola foi extremamente
violenta e até hoje o povo guarda estas feridas abertas.
A maioria dos pobres na Bolívia são descendentes
dos chamados “povos originários”, principalmente
aymaras e quéchuas. Estes são discriminados e considerados
pelas classes dominantes locais como uma sub-raça. Praticamente
toda a população do altiplano boliviano é
composta por aymaras, de forma que a luta de classes em geral
e o problema camponês em particular estão intrinsecamente
vinculados com a questão das nacionalidades indígenas,
como ficou demonstrada uma vez mais nos levantes de outubro de
2003.
A
Guerra do Gás
Há
três anos, nosso vizinho, vem sendo sacudido por violentas
manifestações de massas. No ano 2000 o governo local,
lacaio do imperialismo, iniciou o processo de privatização
da companhia de água boliviana. O que resultou num grande
reajuste das contas residenciais, chegando ao nível de
cobranças tal que taxava até mesmo a água
retirada de cisternas. Houve um grande levantamento de massas,
principalmente na cidade de Cochabamba, onde há uma grande
concentração de camponeses. O povo tomou a cidade
e o processo de privatização teve que ser interrompido.
Foi a “Guerra da água”.
Fruto
da grave crise econômica que assola o país, em fevereiro
de 2003, houve dezenas de rebeliões militares. Em meio
ao bloqueio de estradas feito por camponeses, os chamados “cocaleros”,
a polícia enfrentou o exército pelas ruas de La
Paz. Na principal praça da cidade, onde está o palácio
presidencial, o Congresso Nacional e a sede da polícia
ocorreram os principais enfrentamentos. Os policiais se amotinaram
em sua sede e os militares no palácio, trocando tiros de
fuzis em plena luz do dia. A massa revoltada com o governo foi
às ruas e queimou as sedes dos principais partidos das
classes dominantes (MNR e MIR).
Mesmo
diante desta grave crise de Estado e da rebelião crescente
das massas, o governo seguiu aplicando as políticas ditadas
pelo imperialismo. O ex-presidente Sánchez de Lozada é
um histórico lacaio do EUA, morou grande parte de sua vida
junto com os ianques e lá estudou, fala espanhol como um
estrangeiro e não por acaso é chamado pelas massas
de “el Gringo”. São muitos os seus serviços
prestados ao imperialismo, principalmente no que concerne ao gás
natural, atualmente a mais importante fonte de riquezas boliviana.
Em 1997, no final de seu primeiro mandato, assinou um decreto
inconstitucional que deu às empresas concessionárias
o direito de propriedade dos poços que exploram. Agora
seu governo estava garantindo a construção de um
grande gasoduto que levaria praticamente todo o gás boliviano
para o EUA através do Chile. Foi em torno da defesa do
gás que a luta do povo boliviano se unificou.
Em
outubro houve um grande levantamento vanguardeado pelas massas
de El Alto, na periferia de La Paz. El Alto possui índices
de extrema pobreza, com uma população de 800 mil
habitantes, quase todos aymaras vindos do interior. No início
do mês foi decretada uma greve geral que parou toda a cidade,
avenidas e rodovias foram bloqueadas para impedir a repressão
militar e pressionar ainda mais o governo. Por El Alto passa a
principal rodovia que liga a capital ao interior, os bloqueios
cortaram praticamente toda a comunicação com a capital
que ficou praticamente desabastecida de combustível. Para
interromper esta rodovia centenas de manifestantes empurraram
pesadíssimos vagões que descarrilaram e bloquearam
praticamente toda a pista, foram precisos dois guindastes para
retirá-los. Numa grande avenida de El Alto a massa utilizou
as passarelas de pedestres para fazer o bloqueio, primeiro dinamitaram
as bases, depois com cordas derrubaram a enorme estrutura de concreto
armado, transformando-a em uma eficiente trincheira. É
espetacular a engenhosidade da massa em luta!
O
governo enviou tropas para El Alto para tentar impedir o bloqueio.
Os militares só conseguiram penetrar na cidade utilizando
comboios, com tanques, caminhões e helicópteros.
Atiradores de elite nos helicópteros dispararam tiros de
fuzil contra o povo rebelado. Morreram mais de 80 pessoas em El
Alto. Mas objetivo do governo de afogar em sangue a rebelião
popular foi derrotado pela intrepidez do povo boliviano. Os assassinatos
fizeram crescer os protestos, por todo o país houve manifestações.
No dia 16 de outubro a maior manifestação da história
da Bolívia marchou sobre as ruas de La Paz. 200 mil manifestantes
de todo o país vieram à capital exigir a renúncia
do traidor nacional Sánchez de Lozada. Acuado por toda
a massa, particularmente pelos bravos mineiros vindos do interior,
“el Gringo” fugiu no helicóptero presidencial
para uma cidade do interior onde tomou um vôo para Miami.
Foi expulso pelo povo da Bolívia e voltou para sua verdadeira
casa.
UPEA:
“A universidade mais revolucionária da América
Latina”
A
Universidade Pública de El Alto teve um papel importantíssimo
em todo este levantamento popular, tanto no impulsionamento da
luta como na sua radicalização e maior organização.
Desde
sua formação a UPEA foi marcada por lutas e conquistas.
Situada na periferia de El Alto, a UPEA foi construída
na marra pelo povo da cidade. Estudantes, professores e o povo
em geral garantiram, sem nenhuma verba governamental, a construção
da universidade. Um prédio público foi ocupado pela
massa e as aulas se iniciaram no ano de 2000. Preocupado com a
organização independente dos estudantes e dos professores,
o ministério da educação boliviano interviu
na UPEA impondo um reitor interventor para impedir o seu funcionamento
autônomo. No final de 2002 o interventor é derrubado
e são convocadas eleições para reitor. Após
uma acirrada campanha eleitoral venceu o Dr. Jorge Echazú,
histórico maoísta e secretário-geral do Partido
Comunista da Bolívia. Com esta vitória os estudantes
e professores partiram para uma segunda fase da luta: garantir
a autonomia completa da universidade.
Unidos
estudantes, professores, funcionários e com o apoio do
reitor a luta recrudesceu nos meses de julho e agosto do ano passado.
Foi uma luta heróica e vitoriosa com toda a massa universitária
enfrentando na rua os policiais do governo. A conquista da autonomia
para a universidade rebelde serviu de grande exemplo e incentivo
para o povo de El Alto, que aplaudiu e participou das jornadas
de agosto. Quando a luta do povo boliviano se generalizou em outubro
a UPEA se transformou no centro organizador da rebelião
popular. Dezenas de reuniões do departamento regional da
Central Obrera Boliviana, juntamente com as organizações
dos povos indígenas e dos camponeses pobres foram realizadas
na UPEA. Seu auditório, com faixas que traziam consignas
revolucionárias como: “Nada é impossível
no mundo para quem se atreve a escalar as alturas!” e “O
poder nasce do fuzil!”, se transformou no verdadeiro centro
das assembléias populares, aonde se reuniam milhares de
massas. Foi ali que se unificou a consigna de defesa do gás
natural e de deposição do presidente lambe-botas
do imperialismo Sánchez de Lozada.
Os
estudantes de El Alto tiveram um papel preponderante nos confrontos
de outubro. Fabricaram lança foguetes, calcularam o diâmetro
das cordas para derrubar as passarelas e atuaram com muito vigor
junto do povo. A rebeldia da juventude, a solidez dos mineiros
e a elevada moral dos aymaras fizeram a Bolívia tremer.
O centro deste furacão foi a Universidade Pública
de El Alto, dando razão à frase do seu heróico
reitor, o Dr. Echazú: “A UPEA é a universidade
mais revolucionária da América Latina!”. |