| Escolas
Populares
Estudantes
a serviço da libertação dos camponeses pobres
| Elogio
do Aprendizado
Bertolt
Brecht
Aprenda
o mais simples!
Para
aqueles cuja hora chegou
Nunca é tarde demais!
Aprenda o ABC; não basta, mas
Aprenda! Não desanime!
Comece! É preciso saber tudo!
És
chamado a ser um dirigente!
Aprenda,
homem no asilo!
Aprenda, homem na prisão!
Aprenda, mulher na cozinha!
Aprenda, ancião!
És chamado a ser um dirigente!
Freqüente
a escola, você que não tem casa! |
Adquira
conhecimento, você que sente frio!
Você
que tem fome, agarre o livro: é uma arma.
És chamado a ser um dirigente!
Não se envergonhe de perguntar, camarada!
Não
se deixei convencer.
Veja com seus olhos!
O que não sabe por conta própria
Não sabe.
Verifique a conta
É você quem vai pagar.
Ponha o dedo sobre cada item
Pergunte: O que é isso? |
 |
“Uma
nova escola.” “Um novo ensino.” “Métodos
revolucionários para o “aprendizado.”Esses
termos citados ao acaso nas universidades não causariam
tamanho impacto se fossem abordadas conceitualmente folheados
ao acaso nos velhos manuais de letras mortas da distante e gelada
universidade brasileira. Mas no Norte de Minas Gerais, região
do semi-árido brasileiro, onde o latifúndio semeia
massacres e suas cabeças de gado pastam onde milhares de
famílias poderiam tirar seu sustento, a história
tem sido contada de uma nova forma.
O
camponês, esquecido pelos projetos e “reformas”
do governo, pela primeira vez, tem a possibilidade de aprender
a ler e escrever, somar e subtrair, aprender sobre o Iraque e
Palestina, aprender sobre seu próprio país. Ensinam
a lutar, a arrancar frutos da terra seca, compartilham da sua
rica e secular experiência e sabedoria, semeiam um mundo
novo.
Montes
Claros, 300 mil habitantes. “A capital do Norte de Minas”,
carrega em seu sangue do forte traço de sua origem camponesa.
O povo amistoso e hospitaleiro e o ambiente típico de cidade
interiorana contrastam com o movimento do centro da cidade, mas
não é raro presenciar ônibus e carroças
dividindo a mesma pista. E apesar do crescimento populacional
e surgimento da industria, preserva as atrasadas relações
do latifúndio.
Centenas
de famílias, que há anos partiram de suas roças
de mala e cuia para a cidade, carregando tudo o que tinham em
busca de emprego, escolas para os filhos, atendimento hospitalar,
enfim, como tantos brasileiros em busca de uma vida melhor, encontram
a fome e o pesadelo do desemprego. Não podendo mais retornar
ao campo, permanecem na cidade, na esperança de um dia
poder voltar para a roça e refazer a vida.
Foi
essa esperança que uniu as dezenas de famílias,
que organizadas pela Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas,
decidiram tomar as terras do latifúndio da “Guiné”,
situado nos arredores de Montes Claros, onde desde muito nada
produzia e encontrava-se abandonado pelo “proprietário”
que tem negócios fora da região. A área agora
é conhecida como “Bandeira Vermelha”, uma homenagem
à luta das famílias da Vila Bandeira Vermelha em
Betim, região metropolitana de Belo Horizonte.
Tomaram
e dividiram as terras entre as famílias, organizaram-se
e resistiram às investidas do latifúndio com farsas
de reintegração de posse e ameaças. Resistiram
à seca e organizaram um grupo de produção
para plantar a roça. Elegeram uma coordenação
e comissões de trabalho, dentre elas, a Comissão
para criação da Escola Popular.
A
Escola Popular já é uma realidade nas áreas
do trabalho da Liga. Mas no “Bandeira Vermelha” o
grande desafio é a sua construção, não
apenas material mas política.
O
primeiro passo já foi dado. A idéia partiu de uma
reunião com os estudantes do Núcleo de Ciências
Agrárias da UFMG (NCA): elaborar um questionário
para as famílias da área, para fazer o levantamento
das pessoas dispostas a participarem das atividades da Escola
Popular, e um mapa de tudo o que é produzido pelos camponeses
para auxílio técnico.
O
questionário foi elaborado e a diretoria do NCA cedeu o
ônibus para que o grupo de estudantes pudesse visitar a
área e fazer as entrevistas.
Todos
os preparativos cumpridos, a expectativa era enorme entre os camponeses.
Todos queriam ver e conhecer os estudantes. Quando o ônibus
despontou na curva, foi calorosamente recebido com uma salva de
foguetes. Após abraços e cumprimentos, todos ao
trabalho com os questionários em mãos, passaram
o dia inteiro conversando com os camponeses. O entrosamento foi
tamanho que no horário do almoço as crianças
já haviam elegido os “tios” favoritos e brincavam
em seus colos. Na despedida, já surgiam planos para o futuro.
A
expectativa era grande e muito trabalho estava pela frente, quando
se iniciou o trabalho da Escola Popular no “Bandeira Vermelha”.
Seis meses depois, já surgem os primeiros resultados.
Na
Unimontes, as reuniões são para esclarecer sobre
a proposta da Escola Popular. Construir uma nova escola que sirva
para despertar o povo para lutar pelos seus direitos, que leve
aos seus filhos o conhecimento sobre a realidade em que vivem
fornecendo com isto a chave para compreender e derrotar a miséria,
a ignorância, a fome.
São
organizadas palestras: no NCA, sobre a luta dos camponeses contra
o latifúndio e a luta pela produção. A necessidade
do apoio dos estudantes de Agronomia a luta camponesa, e de ligar
o aprendizado à realidade do povo da região servindo
a sua luta. Os professores interessados , se oferecem para apoiar
projetos e desenvolver trabalhos voltados para as famílias
do “Bandeira Vermelha”. Como fruto dessas discussões,
a diretoria do NCA ofereceu às famílias, cursos
gratuitos na “Semana do Produtor Rural” – atividade
desenvolvida pelo Núcleo voltada para os pequenos produtores
do Norte de Minas.
Na
Unimontes, uma aula foi ministrada por uma professora da Escola
Popular. Com o tema “Questão agrária: a violência
do latifúndio e a resistência dos camponeses”,
envolveu estudantes e professores de vários cursos. Foi
debatida a situação da luta pela terra no norte
de Minas e a luta dos camponeses pela produção.
Essas
iniciativas atraíram novos apoiadores para a causa da Escola
Popular. No último período, os estudantes de Educação
Física da Unimontes organizaram uma atividade de lazer
no “Bandeira Vermelha”, demonstrando que o trabalho
da Escola Popular envolve não só a alfabetização
e a produção, mas deve atuar em todos os aspectos
da vida do povo: cultura, esporte, saúde, lazer, trabalho.
O
próximo passo projetado, é a construção
material do espaço para as aulas, já que professores
não faltam. São organizados bingos e sorteios para
levantamento de fundos. Mas isso não basta. Em breve, será
lançada uma campanha para conseguir apoio junto às
universidades e escolas para arrecadar material didático,
carteiras e cadeiras, lousas, giz, papel.
A
construção das Escolas Populares é uma necessidade
para as massas de camponeses em luta. Projetos como “Amigos
da Escola” e “Analfabetismo Zero” que são
pintados com todas as cores pelo governo e a imprensa reacionária,
no campo assumem sua verdadeira cor. A cor da demagogia, da fome,
da miséria e da violência e das filas intermináveis
nas portas das escolas a espera de uma vaga no começo do
ano. O preço que o Estado reacionário cobra das
massas camponesas, é sugar todo seu suor e sangue para
saldar as dívidas de banqueiros e servir ao imperialismo,
enquanto crianças abandonam a escola por falta de transporte
e para trabalhar. O governo faz demagogia atacando o trabalho
infantil mas não toca no problema do latifúndio
que assassina centenas de camponeses dia após dia. A cada
ano surgem novos cursinhos e faculdades particulares, mas nenhuma
escola, nenhuma vaga é aberta para o povo pobre.
A
culpa da miséria no campo reside no latifúndio,
na grande burguesia e no imperialismo. A saída para essa
vida de miséria e fome é a derrubada das três
montanhas que há séculos pesam sobre as costas do
nosso povo.
A
Escola Popular não é a solução definitiva
para esses problemas, pois é falsa a tese de que a solução
dos problemas do povo está na educação. Se
falta educação para o povo é porque esse
sistema podre, assassino, arcaico serve aos ricos, à burguesia
e ao latifúndio. Não podemos conceber a luta por
uma nova educação separada da luta por um novo Brasil,
por um novo mundo. A luta por uma nova Escola faz parte da luta
por derrubar as três montanhas de opressão sobre
nosso povo.
Em
sua intervenção na III Assembléia Nacional
dos Estudantes do Povo, uma representante da Escola Popular dirigiu
um convite a todos os estudantes brasileiros que se disponham
a trancar a sua matrícula durante um semestre ou mesmo
que seja por um curto espaço de tempo, para que possam
conhecer e participar da construção das Escolas
Populares no campo. Reproduzimos esse convite a todos os companheiros
leitores do Jornal Estudantes do Povo.
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Para maiores informações sobre as atividades
da Escola Popular, entre em contato conosco. |
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