| Os
nove anos de governo FHC
Um
ano de governo Luis Inácio e muitos se perguntam se ainda
há esperança. A expressiva votação
que a Frente eleitoreira oportunista recebeu em outubro de 2002,
se deveu em grande medida ao enorme descontentamento das massas
com os oito anos de mandato de Fernando Henrique Cardoso. Os dados
da votação do primeiro turno demonstram claramente
esta rejeição, do número total de votantes
José Serra, o candidato de FHC, obteve 19,7 milhões
contra 95,7 milhões1 , ou seja, 88% (onde se somam os votos
dos candidatos de oposição mais brancos, nulos e
abstenções - que são uma forma ainda mais
profunda de contestação). Portanto, a esperança
dos eleitores de Lula era a mudança, o antônimo de
continuidade.
Aqueles
que ainda confiam que este governo será diferente do de
FHC argumentam que: “ainda é muito cedo para julgar”,
“que Lula veio das classes pobres e portanto devemos confiar”,
“que o PT tem compromissos sociais históricos”,
“que afinal de contas o governo tem feito declarações
progressistas, principalmente em suas relações internacionais”,
etc. Bem, é possível fazer um julgamento de várias
maneiras, podemos por exemplo, indagar aos atuais gerentes sobre
suas intenções e sobre o resultado de suas políticas,
certamente dirão que estão com as melhores das intenções
e que estão fazendo o possível. José Dirceu
chegou mesmo a falar que estão fazendo uma “revolução
social” e recentemente disse que farão uma “revolução”
do mesmo tipo nas universidades. O grande teórico e revolucionário
Karl Marx ao explicar sua teoria do Materialismo Histórico
dizia que não podemos julgar um homem pelo conceito que
ele tem de si mesmo e sim por sua prática. Da mesma forma
“não podemos julgar os atuais gerentes pelos adjetivos
que a si mesmo imputam, se queremos a verdade devemos ir aos fatos,
pois” a prática é o critério da verdade
““. O que procuramos comprovar neste artigo é
que o governo Lula não representa mudança alguma,
é na realidade uma continuidade do mandato de FHC.
Acordos
com o FMI
Uma
das características mais marcantes do governo Fernando
Henrique foi a subserviência ao imperialismo ianque. Seguindo
as tradições históricas das classes dominantes
locais, FHC aplicou com enorme zelo as medidas definidas pelo
Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial. Com
sua pompa de “príncipe dos sociólogos”
procurava se passar como original e inovador, mas na realidade
todas “suas” políticas lhe foram sopradas ao
ouvido pelo Tio Sam. O “plano real”, que arruinou
ainda mais a economia brasileira, jogando o país na recessão
e no desemprego, não é de sua autoria, o mesmo plano
fora aplicado anos antes no Chile e na Argentina. Nesta caricatura
de república, onde o presidente é um mero gerente
dos negócios dos monopólios capitalistas, FHC sem
o menor pudor entregou praticamente todo o patrimônio nacional
com as privatizações da Vale do Rio Doce, da Telebrás,
e de grande parte do sistema elétrico brasileiro.
Na
atual gerência de Luis Inácio a lógica de
subserviência aos órgãos do imperialismo se
mantêm intacta. Todas as exigências do FMI vem sendo
seguidas à risca. Antes mesmo de ser eleito Lula em reunião
com o então presidente Fernando Henrique havia se comprometido
a cumprir as “condicionalidades” do empréstimo
de 30 bilhões de dólares firmado em agosto de 2002.
As “condicionalidades” do FMI, assim como na era FHC,
têm pautado toda a política do atual governo. Como
o empréstimo é entregue em parcelas, cada fomento
vem acompanhado de novas exigências. Na primeira, setembro
de 2002, as “condicionalidades” eram: 1) reserva de
3,75 % do PIB para pagamento da dívida pública,
2) reforma da previdência e 3) regulamentação
da lei de autonomia do Banco Central. Muitos dirão que
quem fechou este acordo foi FHC e isto não demonstra a
subserviência do governo Lula ao FMI, mas este não
é um argumento verdadeiro, basta que analisemos a revisão
do acordo feita em fevereiro de 2003. Em troca da parcela de 4,1
bilhões de dólares o governo reafirmou todos os
compromissos de FHC e ainda se comprometeu a elevar a meta de
pagamentos da dívida para 4,25% do PIB.
A
linha mestra do governo é colocar tudo em função
do pagamento da dívida. A justificativa da reforma da previdência
foi o fim dos “privilégios” dos funcionários
públicos para se economizar 56 bilhões de reais
em 30 anos. Resta saber economizar para quem, já que somente
em 2003 foram entregues 150 bilhões de reais2 ao FMI e
aos especuladores sanguessugas! Dinheiro este roubado dos impostos
que todos nós pagamos. O ajuste fiscal chegou a limites
insuportáveis, levando todos os serviços públicos
a um caos incontornável, todas as universidades fecharam
este ano suas contas no vermelho devendo inclusive contas de água
e luz. A crise é tão grave que o Itamaraty em Brasília
teve sua luz cortada pela companhia energética local por
falta de pagamentos. Para honrar os compromissos com o imperialismo
vale tudo, cortaram até mesmo a verba de 8 milhões
destinada à Apae (Associação de Pais e Amigos
dos Excepcionais) isto para não “comprometer as metas
de resultado primários, bem como todo o ajuste fiscal”.
Não é a toa que a direção do Fundo
vem considerando a política econômica “brasileira”
um exemplo para todos os países pobres do mundo. Se para
as universidades faltam verbas para o FMI tem sobrado, não
satisfeito em entregar quase 70% de seu orçamento para
os especuladores o governo foi mais longe, produziu um superávit
não de 4,25% mas de 5,08% do PIB, ou seja, 3 bilhões
a mais do acordado3 .
As
metas de pagamento foram “bem” cumpridas, assim como
as reformas exigidas pelo FMI. Depois de feito o “dever
de casa” (superávit primário, privatização
da previdência, independência do Banco Central, nova
lei de falências e reforma tributária) o governo
Luis Inácio volta a mendigar pela terceira parcela dos
30 bilhões. Antes da nova renegociação a
prestação de contas aos patrões, através
de uma carta do Ministro da Fazenda Antônio Palocci e do
Presidente do Banco Central Henrique Meirelles: “Caros Sr.
Köhler: 1) Desde a última revisão do programa,
o Brasil continuou a fazer importantes avanços em diversas
áreas. (...) 2) A agenda de reformas estruturais do governo
avança com vigor no Congresso. A reforma da previdência
foi votada em primeiro turno no dia 6 de agosto, tendo havido
avanços nas discussões da reforma tributária.
Também se verificou progresso na votação
da Lei de Falências, estando previsto para breve a votação
do projeto de lei pela Câmara dos Deputados. (...) 4) A
legislação para os fundos de previdência complementar
do setor público foi incorporada na própria reforma
da previdência. Prevemos que a reforma estará concluída
no final do ano, quando encaminharemos a legislação
para a criação dos referidos fundos dos servidores
civis, como estipulado no parâmetro estrutural acordado
no começo deste ano. (...) 5) Apesar de sua importância,
a venda dos bancos federalizados avançou mais lentamente
do que o previsto, em função, principalmente, de
questões legais. Contudo, temos expectativa de um avanço
significativo deste tema até o final do ano (...). 6) Como
de hábito, continuaremos a manter uma relação
próxima de diálogo com o Fundo e, se necessário,
estaremos prontos a tomar eventuais medidas adicionais para alcançar
os objetivos do programa.”; retirado: www.fazenda.gov.br/portugues/fmi/cartafmi_030820.asp4.
A
carta escrita bem ao estilo “faça o que o seu mestre
mandar” mostra quais os reais objetivos do governo Lula.
Demonstra que o bordão “ajustar para depois crescer”
não passa de retórica demagógica, justamente
porque o objetivo do FMI não é nos ajudar a acabar
com a dívida e sim como ampliá-la para manter a
dominação sobre nossa nação. Os resultados
do ajuste comprovam isto, pagamos durante o ano todo e no final
a dívida estava ainda mais alta! Em dezembro de 2002 a
dívida pública era de 881,1 bilhões de reais,
em agosto de 2003 era de 905,3 bilhões5 ! Para o resgate
da nova parcela em outubro o governo se comprometeu com novas
“condicionalidades”: manter o superávit primário,
concluir a privatização dos bancos federalizados,
restringir os investimentos públicos nas estatais e acabar
com a gratuidade do ensino superior. É claro que toda esta
política é apresentada como sendo uma necessidade
nacional e, assim como no plano real, buscam passá-la como
elaborada por brasileiros. Esta é mais uma preocupação
estratégica do Fundo, trata-se do “ownership”,
que é a “apropriação das condicionalidades
do Fundo como políticas próprias de seus clientes”.
Relações
internacionais
Nas
relações internacionais o governo Luis Inácio
prima por se mostrar com um peculiar progressismo. Nos seus discursos
na ONU e em Davos Lula carregou na “cobrança”
de que os países ricos se empenhem no “combate a
pobreza” (recentemente propôs a criação
de uma CPMF mundial); durante a invasão ao Iraque criticou
a unilateralidade dos ianques e o “desrespeito” aos
organismos internacionais; em sua visita a África falou
que o Brasil tinha uma “dívida histórica”
com aquele continente; na rodada de negociações
da Alca em Cancun seu Ministro de Relações Internacionais,
Celso Amorin, não aceitou algumas pressões norte-americanas;
recentemente baseado no direito da reciprocidade os turistas norte-americanos
passaram a ser fotografados ao chegarem em território nacional.
Todas estas medidas são apresentadas como “nacionalistas”
e “soberanas”, o governo tenta se passar como ativo
na política internacional e as correntes oportunistas apresentam
estes posicionamentos como a demonstração de se
tratar de um governo de “esquerda”. FHC utilizava
uma estratégia semelhante, mas não com tanta astúcia.
Foram vários os pseudo-enfrentamentos de seu governo com
os interesses imperialistas, como no caso dos genéricos,
da quebra de patentes dos remédios utilizados no combate
à AIDS, no caso da competição da Embraer
com a canadense Bombardier, etc.
Se
apresentar como independente e disposto a enfrentar os ianques
é uma velha prática das classes dominantes para
aplicar mais a fundo todas as políticas essenciais do imperialismo.
Contra
o imperialismo discursos e frases pomposas, a seu favor medidas
concretas e essenciais. Ao contrário das declarações
a prática do governo é totalmente pró-ianque,
as políticas principais do imperialismo vêm sendo
aplicadas religiosamente; os ministérios que mais interessam
aos norte-americanos (fazenda, meio ambiente e Banco Central)
tiveram seus representantes anunciados diretamente do EUA, após
a reunião de Lula e Bush em dezembro de 2002; a agenda
da Alca vem sendo cumprida e Lula é juntamente com Bush
o co-presidente do comitê de sua implementação;
a questão dos transgênicos, que beneficia diretamente
multinacionais norte-americanas como a Monsanto, foi regularizada.
Os exemplos são vários. Na relação
com nossos vizinhos latino-americanos o governo oportunista tem
cumprido um importante papel para os ianques. Lula tem sido uma
espécie de gerente local, inclusive Bush o chamou de “principal
aliado na América Latina” (trecho da conversa telefônica
entre o presidente argentino Nestor Kirchner e George Bush6 ).
O governo brasileiro procura se apresentar como a grande liderança
sul-americana para negociar a venda não somente do Brasil,
mas de todo o continente como ficou claro no encontro de presidentes
em Cuzco-Peru.
Além
disto, o governo oportunista tem interferido diretamente na soberania
dos países vizinhos intervindo contra lutas populares e
prestando o vil apoio no combate aos processos revolucionários
de nossos povos irmãos. Como foi noticiado pela revista
“Isto é”, em agosto do ano passado as Forças
Aéreas Brasileiras participaram diretamente de um ataque
a um acampamento guerrilheiro no Peru. Segundo declarações
do Ministro da Defesa José Viegas, que sempre manteve fortes
relações com o ex-presidente do Peru Alberto Fujimori,
na missão secreta em conjunto com o exército peruano
foi utilizada a tecnologia ianque do “Projeto Sivam”.
Um avião militar saiu da base aérea de Anápolis
para o Acre com escala em Porto Velho, depois de abastecer voou
para Lima e com militares locais fez uma investida na selva peruana
para monitorar as comunicações e localizar os guerrilheiros7
. Na recente rebelião popular na Bolívia, que resultou
na renúncia e fuga do então presidente Sánchez
de Lozada, o embaixador brasileiro participou de uma reunião
na embaixada norte-americana em La Paz, juntamente com embaixador
argentino, para articular a saída institucional da crise:
a posse do vice-presidente Carlos Mesa. Neste caso um avião
Hércules da FAB também entrou em território
boliviano para uma ridícula encenação de
resgate de turistas brasileiros (com direito a bandinha e hino
nacional na chegada), como se na Bolívia estivesse em curso
uma catástrofe e não um levantamento popular revolucionário.
Obviamente
é a prática que comprova os reais objetivos de determinada
política, porém por mais demagogo que seja o atual
governo mesmo em suas declarações é possível
enxergar seu conteúdo subserviente, preconceituoso e anti-povo.
Quando estava na capital da Namíbia, disse que aquela cidade
tinha uma arquitetura tão bonita e era tão limpa
que nem “parecia estar na África”. Na prisão
do presidente do Iraque, Saddan Hussein, Lula rapidamente se apressou
a enviar felicitações, pessoalmente por telefone,
para o presidente do EUA George Bush, mostrando de que lado está
na contenda entre imperialismo e povos oprimidos.
Política
agrária
A
contradição principal na sociedade brasileira é
a que opõem latifundiários versus camponeses pobres,
um ponto chave para caracterizar um governo de popular são
as medidas que este adota em relação ao problema
agrário e camponês. Segundo dados do Incra, durante
o governo FHC foram assentadas 320 mil famílias numa pseudo-reforma
agrária onde os latifundiários recebiam indenizações
milionárias por terras que nunca pertenceram a eles. Uma
“reforma” que nunca tocou no problema da estrutura
agrária brasileira, cujo problema vai muito além
do monopólio da terra e engloba o monopólio do crédito,
do comércio e da técnica. Por conta desta estrutura
latifundista e monopolista grande parte dos camponeses que receberam
estas terras estão arruinados economicamente e muitos foram
obrigados a vender seus pequenos torrões, pois não
existe crédito para os pequenos e o preço que os
atravessadores pagam é baixíssimo (no projeto Jaíba-MG
um saco de 20 kg de limão está sendo comprado a
2 reais!).
O
governo FHC foi marcado pelo favorecimento aberto aos latifundiários
e pelo massacre sobre os camponeses pobres. Foram milhões
e milhões de reais para que a bancada ruralista apoiasse
seus projetos de reformas. Centenas de camponeses foram massacrados
em confrontos com os bandos armados de pistoleiros do latifúndio,
como em Corumbiara-RO, 1995, e em Eldorado de Carajás-PA,
1996. Os primeiros oito anos de governo FHC resultaram em um agravamento
violento das contradições no campo, no nono ano
de seu mandato, agora com Lula, intensificaram-se ainda mais os
confrontos. Segundo dados da CPT (Comissão Pastoral da
Terra) até agosto haviam sido assassinados 53 camponeses
em confrontos relacionados à luta pela terra, número
superior a todo o ano de 2002 (49). Neste ano dezenas de camponeses
foram presos acusados de lutarem pelo seu legítimo direito
de ter onde plantar. O governo tem atuado claramente numa posição
de intimidar o movimento camponês e a massa
em luta.
O
apoio político aos latifundiários se mantém
o mesmo do período FHC, para quem duvida basta dar uma
olhada em personagens “ilustres” que compõem
a base aliada do governo Lula, oligarcas históricos como:
José Sarney (PMDB-AP), Antônio Carlos Magalhães
(PFL-BA), Inocêncio de Oliveira (PFL-PE) e todo o seu séquito
de reacionários. Nos meses de junho e julho quando a contradição
se agravou mais o governo se posicionou claramente do lado dos
latifundiários, o Ministro do Desenvolvimento Agrário
Roberto Rodrigues e o presidente do STF Maurício Correa
defenderam abertamente o “direito” dos latifundiários
responderem com armas as suas propriedades. Enquanto se prendiam
camponeses em luta latifundiários criminosos eram deixados
à solta.
Do
ponto de vista do número de assentados o governo Lula tem
sido mais incompetente do que FHC, em todo o Brasil somente 13
mil famílias tiveram acesso a terra este ano. Para se ter
uma idéia do que isto significa, em todo o estado de MG
o Incra desapropriou somente uma fazenda. É claro que os
demagogos de plantão também tem uma resposta para
estes números, dizem que ao contrário de FHC querem
fazer uma “reforma agrária de qualidade” que
não priorize somente a quantidade de assentados. Estranhamente
o custo de cada assentamento foi o mesmo do período anterior,
onde está a qualidade que “fixará o homem
no campo”? De acordo com o IBGE “100 mil famílias
são expulsas do campo anualmente, pela estrutura de produção”.
Em seu último encontro com camponeses em Brasília,
Lula disse que pretende assentar em seu mandato 300 mil famílias.
Por si só este número é ridículo,
já que existem 197 mil famílias acampadas, 850 mil
cadastradas e segundo especialistas seriam mais 4 milhões
de famílias de camponeses sem-terra. Mas nem as metas estabelecidas
serão cumpridas. No orçamento do ano que vem está
previsto 1,1 bilhão para o Ministério da Reforma
Agrária, destes somente 400 milhões irão
para assentamentos, o suficiente para assentar 19 mil famílias8
. E neste ponto os acordos com o FMI são um grande impeditivo
para uma política maior de assentamentos, porque antes
as indenizações aos latifundiários eram pagas
com Títulos da Dívida Agrária (os TDA´s),
mas como agora estes passam a ser contabilizados na dívida
pública e então, entram na conta do superávit
primário. Segundo o acordo o governo só pode comprar
terras para reforma agrária à vista.
Políticas
sociais
Na
chamada “política social” a semelhança
dos projetos do governo Lula com os de FHC também é
enorme. Mantiveram-se os mesmos programas alterando somente seus
nomes: Bolsa escola, Bolsa família, Bolsa renda, vale gás,
etc e o principal de todos: “Fome Zero”. O método,
o conteúdo e a estrutura destes programas são iguais
aos de FHC. É a prática da distribuição
de cartõezinhos magnéticos em comunidades pobres
a troco do voto nas próximas eleições, até
a lista de cadastro dos beneficiados no Fome Zero é a de
programas do antigo governo. Porém o principal na similitude
é que a lógica destas políticas está
inalterada, é a velha linha de “distribuir renda”,
ou melhor, esmolas, sem tocar nas origens da miséria do
povo, quando falam em atingir a raiz do problema soltam clichês
preconceituosos como o de “dar o peixe, mas ensinando o
povo a pescar”, insinuando que é preciso ensinar
o povo a trabalhar. Esta prática demagógica é
denunciada pelo marxista egípcio Samir Amin em seu artigo
“Pobreza mundial, pauperização e acumulação
de capital”: “O discurso sobre a pobreza e a necessidade
de reduzir sua magnitude, ou erradicá-la, está em
moda hoje em dia. É o discurso da caridade, ao estilo do
século XIX que não busca entender os mecanismos
sociais e econômicos que geram a pobreza, ainda que os meios
científicos e tecnológicos já estejam disponíveis”9
. Como falar de fome zero e assentar somente 13 mil famílias
em 2003? Seria cômico se não fosse trágico.
Alguns poderiam argumentar que estes são programas paliativos
necessários enquanto não se criam as condições
para as mudanças estruturais, mas nem este paliativo é
feito pelo governo. Por conta do superávit primário
o orçamento do “Fome Zero” em 2003 foi reduzido
de 1.732 milhões para minguados 148 milhões, e olha
que este é o principal programa social do governo Lula.
Combate
à violência
Os
monopólios de comunicação têm feito
grande alarde sobre a violência em nosso país. Assim
como no problema da fome a questão é apresentada
extraindo todo o seu conteúdo. Obviamente as respostas
do governo à violência social não visam atingir
suas causas. Sua política, apoiada pela classe média
desesperada, é a de construir presídios de alta
segurança e distantes dos centros urbanos, aperfeiçoamento
das polícias, discussões da redução
da maioridade penal e políticas de desarmamento. Daí
podemos ver qual violência ele quer combater, a violência
que atinge os bairros ricos, cujos moradores começam a
sentir na pele os reflexos da miséria em que o país
está atolado. Nenhuma palavra é dita sobre a violência
sobre as massas, que são cada vez mais humilhadas pela
polícia na volta do trabalho, que são impedidas
de trabalhar como os perueiros e camelôs, que têm
milhares de seus filhos aprisionados em um sistema penitenciário
que se mantém inalterado, regido pela superlotação,
pelo ócio e pela tortura. Nenhuma medida é adotada
contra a violência do latifúndio sobre os camponeses
pobres. Nada disto muda! Basta um jovem da classe média
ser assassinado para que seu pai seja recebido no Congresso Nacional
e uma série de reportagens seja feita, enquanto todos os
dias centenas de jovens pobres e negros morrem nas favelas do
Brasil, sem que nenhuma linha seja publicada nos monopólios
de comunicação.
Mas
a política do governo Lula de “combate à violência”
vai ainda mais longe em seu reacionarismo. O seu eixo central
é a aprovação do projeto de lei do deputado
do PT Jorge Grenhalgh, que transforma o porte de armas em um crime
inafiançável com pena prevista de 4 anos, deixando
este de ser uma simples contravenção penal. Esta
medida visa reforçar o monopólio das classes dominantes
sobre as armas (através do Estado e das empresas privadas
de seguranças), aumentando ainda mais o potencial repressivo
do Estado sobre o povo desarmado. Seguramente este projeto não
põe em risco o tráfico de drogas e o crime organizado,
que estão na própria base deste Estado degenerado,
o objetivo é desarmar o povo. Este projeto tem importância
particular no combate ao movimento camponês e é uma
defesa legal que o governo procura ter diante da crise social
que nos encontramos. É uma forma de garantir a criminalização
dos movimentos populares e impedir a luta camponesa mais combativa.
Desta maneira os oportunistas mostram que têm medo do povo
armado, exatamente porque o Estado que representam é baseado
na subjugação e violência sobre a massa pobre
de nosso país.
Conclusão
Diante
deste balanço do primeiro ano do mandato de Luis Inácio
chegamos a uma só conclusão: trata-se de um governo
burguês-latifundiário, serviçal do imperialismo,
principalmente ianque. Seu objetivo é gerir a crise insolúvel
do decrépito e genocida Estado brasileiro, movendo todos
os seus esforços e suas políticas para seu amo imperialista.
O
prêmio recebido por Lula e FHC em janeiro deste ano serve
de comprovação material para esta conclusão,
eles receberam cada um 10 mil dólares da Fundação
Coca-Cola, através da universidade Notre Dame de Nova York,
por “terem contribuído para o bem estar do continente”.
O governo Lula é portanto, uma continuação
não só do mandato de FHC, mas de todos os gerentes
reacionários, desde os colonialistas passando pelos corruptos
da velha república, pelo fascista Getúlio Vargas,
pelo entreguista JK, pelos militares reacionários, pelo
oligarca José Sarney e pelo “almofadinha” Fernando
Collor. São estes políticos que caracterizam o conteúdo
colonial, semi-colonial inalterado do Estado brasileiro nestes
500 anos de sua formação.
No
entanto, dentro desta continuidade existe uma grande mudança.
O governo Lula representa também uma particularidade histórica,
pois pela primeira vez em nosso país uma força que
se formou em oposição à realidade de miséria
do nosso povo e cresceu baseado na direção de movimento
de massas chega ao poder. O PT tem sua origem na igreja e nos
guerrilheiros arrependidos, nos trotskistas e se formou como uma
alternativa eleitoral dentro dos marcos da legalidade. Seu primeiro
“boom” eleitoral se deu na oposição
ao governo Sarney no final dos anos 80, assentado em um movimento
sindical grevista de caráter reformista e corporativista.
Com isto foi pintado pela mídia como o principal partido
de oposição, de forma que durante muito tempo qualquer
luta popular era identificada com o PT. Sua formação
gera uma grande ilusão nas massas pobres de nosso país
e particularmente na intelectualidade, esta sua característica
peculiar fez da Frente oportunista eleitoreira uma alternativa
viável para o imperialismo e as classes dominantes. O ano
de 2003 nos mostra como a luta contra as políticas imperialistas
aplicadas pela gerência petista se faz mais complexa e difícil.
A greve contra a reforma da previdência foi um bom exemplo,
se o presidente fosse um representante descarado das classes dominantes,
a luta dos professores seria muito mais combativa, mas como era
um governo de “esquerda” a massa ficou na defensiva
de lutar contra suas “reformas”. Porém, por
mais enganação e mentira que utilizem o conteúdo
de classes deste governo travestido de popular virá à
tona. No entanto, este desmascaramento não virá
naturalmente, somente a luta de classes pode revelar a todo o
povo brasileiro a enganação destes novos gerentes.
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Dados retirados do site do Tribunal Superior Eleitoral.
-
Dados do Ministério da Fazenda apontam que o governo
gastou com o pagamento dos juros e serviços da dívida
9,77% do PIB; segundo cálculos do economista Adriano
Benayon isto equivale a 70% do orçamento federal.
-
Dados da revista Carta Capital, novembro de 2003, nº 267.
-
Retirado do artigo “Uma impagável carta de subserviência”,
de Rui Nogueira, jornal A Nova Democracia, novembro de 2003,
nº 14.
-
Artigo “Autonomia legal do Banco Central: uma tragédia
anunciada”, retirado do site www.rebelion.org.
-
Citado no artigo “Uma conversa a três: Aznar, Bush
e Néstor Kirchner”, de Luis Arce Borja, jornal
A Nova Democracia, nº 13 outubro de 2003.
-
Revista Isto é , agosto de 2003.
-
Revista Carta Capital, novembro de 2003, nº 268.
-
Publicado o site www.monthlyreview.org/1003amin.htm
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