| Os
reacionários e a criminalização da pobreza
O
exemplo do Setor Sonho Real - Goiânia

A
tentativa de criminalizar a luta popular é uma das mais
perigosas práticas fascistas do Estado reacionário.
Esta campanha anti-povo se evidenciou uma vez mais nas reportagens
dos monopólios comunicação sobre a luta dos
moradores do Setor Sonho Real, que resistiram a uma tentativa
de reintegração de posse feita pela Polícia
Militar e onde foram assassinados pelo menos dois trabalhadores.
Não demorou muito para os meios de comunicação
reacionários anunciarem que “havia suspeita de que
as mortes tinham sido provocadas pelos próprios moradores”,
que muitos que ali estavam já “tinham passagem pela
polícia”, etc. Publicamos a seguir um trecho do texto,
“Quando virá a rebelião?”, da jornalista
Elaine Tavares da OLA-UFSC, aonde denuncia a tentativa de criminalizar
a luta popular.
“As cenas na Tv não são do Iraque, nem da
Palestina. O povo que está ali, lutando - simploriamente
atirando pedras - é o nosso. Os meninos com estilingue
e os policiais fortemente armados. Aí a gente vê
também na TV, o ataque verbal, a atmosfera mental contra
os pobres, os feios, os sujos e malvados. Eles são os vilões.
Imaginem? Uma gentalha miserável que quer casa! Que coisa
mais abusiva! Quem são eles para quererem um pedaço
de terra para morar? As terras do país estão reservadas
para o reverendo Moon, que comprou todas as terras com nascentes
de água no pantanal. Ou para o Santander, o HSBC, ou outros
tantos grandes conglomerados multinacionais. Há que ter
dinheiro para comprar terra ou então jagunços para
grilar. Gente comum, não. A eles não é dado
esse ‘privilégio’.
Além disso, casa boa e digna é só para quem
trabalha. Vagabundo que não acha emprego num país
que optou pela economia de juros altos, super-exploração
do trabalho e monocultura de exportação tem que
morrer. E assim é por todo o país. O sem-teto é
o culpado por não ter trabalho, não ter onde morar.
E também por se arvorar ao direito de existir. Isso é
inadmissível para os que mandam no país. Ponham
a polícia para resolver, dizem. Matem, massacrem, arrebentem
as casas, afinal, gente como aquele homem que preferiu ser demitido
a destruir uma casa com a máquina, existe pouca. Os sem-teto
são não-seres. Os prescindíveis. Os que não
importam ao sistema. Que sejam eliminados, dizem.
Agora, já os empresários da aviação
que passam a mão no dinheiro de suas empresas, que faliram
por má administração, esses precisam ser
muito bem tratados. Eles dão empregos. Eles produzem para
um país melhor. Para eles, ao invés de soldados
fortemente armados, salas acarpetadas e reuniões com ministros.
Aos invés de aviões embargados, Leis de Falência
muito favoráveis para que possam seguir engrandecendo o
país. Experimente você, pessoa humana comum, deixar
de pagar o armazém da esquina, o seu condomínio
ou a prestação da sua casa própria. Você
é despejado, vilipendiado e chamado de picareta, estelionatário
e outros quetais. Para ti, pessoa humana comum, estão reservadas
as celas de cadeia, a desdita, a difamação, a morte
vil. Os pobres nesse país são culpados. A eles,
nada!!!
As cenas em Goiás não deixam dúvidas. Os
que resistem e insistem no direito de viver, são colocados
como bandidos. Daqui a pouco devem entrar na lista dos temíveis
‘terroristas’ e a sua eliminação vai
fazer parte da ‘guerra preventiva’, inventada pelos
estadunidenses e freqüentemente em voga em todos os lugares
do mundo. Aos pobres, que nada têm, além de seus
corpos nus - como já dizia o inesquecível repórter
Marcos Faermam - estão reservadas as balas, a morte, a
impossibilidade(...)”. (Retirado do site midiaindependente.org.br).
A
criminalização da luta camponesa
As
autoridades governamentais e os monopólios de imprensa
têm realizado em nosso país uma intensa campanha
de desarmamento, em nome de uma suposta busca pela paz. A todo
o momento vemos o povo pobre da cidade e do campo ser acusado
de marginais, promotores de instabilidade social. Programas e
reportagens sensacionalistas buscam causar um verdadeiro terror
em toda população, particularmente nas camadas médias,
lançando a idéia na opinião pública
de que é necessário fortalecer as polícias,
aumentar os seus recursos, armas e instrumentos de repressão
para “estabelecer a ordem” na sociedade “protegendo”
a população. O próprio presidente Luis Inácio
fez aprovar uma lei de desarmamento, criminalizando o porte de
armas, com a justificativa de que a culpa da violência social
está nas armas que estão nas mãos do povo.
Acontece
que a brutalidade desta sociedade está é nas mãos
das classes reacionárias, que na cidade e no campo tentam
impedir o povo de alcançar seus direitos. Ao mesmo tempo
em que toda esta campanha pela paz e desarmamento é realizada,
latifundiários posam livremente para a imprensa com suas
milícias armadas, muitas delas legalizadas sob a máscara
de “empresas de segurança”, como forma de ameaça
aos camponeses que lutam pela terra.
Nos últimos meses foram dezenas de prisões e assassinatos
camponeses de norte a sul do país. Um dos exemplos mais
gritantes foi no dia 20 de novembro de 2004, o assassinato de
cinco camponeses no município de Felisburgo no Vale do
Jequitionha, Minas Gerais. Os camponeses, organizados pelo MST,
que estavam num acampamento, há 3 anos, em terras comprovadamente
devolutas. Já haviam denunciado várias vezes as
ameaças que haviam sofrido do latifundiário e grileiro
da região Adriano Chafick Luedy. Nunca foram ouvidos. No
mês de agosto de 2004, em Patrocínio-MG, cidade do
Triângulo Mineiro, dezenas de camponeses foram presos e
torturados. Policiais bateram cabeça de um camponês
idoso em pedras no chão, exigindo que ele falasse quem
eram as lideranças desta tomada de terra organizada pela
Liga dos Camponeses Pobres do Centro Oeste. Crianças foram
atingidas com um pó químico que provocou sangramento
em suas mucosas. Quatro camponeses ainda foram condenados a dois
anos e dois meses de prisão. Os torturadores continuam
livres, ameaçando outros camponeses da região.
No dia 17 de dezembro, os camponeses Edenilson Rufino da Rocha
e Francisco Manuel de Lima foram executados após várias
ameaças dos pistoleiros da Fazenda Recreio, no município
de Passira no sertão de Pernambuco. No dia 28 de janeiro
de 2005, Pelé, liderança camponesa de Machadinho
do Oeste em Rondônia, foi preso através de articulação
de madeireiros da região. Ficou incomunicável por
vários dias sem ter ao menos o direito de conversar com
seus advogados. Enquanto assistimos camponeses serem presos e
assassinados, o latifundiário Antero Mânica, mandante
do assassinato de 4 fiscais do Ministério do Trabalho de
Minas Gerais que investigavam a existência de trabalho escravo
em suas terras, se torna prefeito de Unaí.
O governo Federal criou a “Comissão de Combate a
Violência no Campo”, com o objetivo de “intermediar
os conflitos no campo”, composta por órgãos
do governo, latifundiários e policiais. Esta comissão
em Rondônia tem servido para desapropriar os camponeses
das terras “solucionando conflitos” é claro,
sempre a favor dos grileiros e latifundiários da região.
Todos falam em defesa dos direitos humanos, mas o que vemos por
parte do Estado é a defesa dos ricos. Quando acontece alguma
tragédia como o caso de Felisburgo, logo o governo trata
de se apresentar solidário, disponibilizando a sua “comissão
de direitos humanos”, com Sr. Nilmário Miranda à
cabeça . Mas isto enquanto o assunto está na imprensa.
Nada fazem em relação aos milhares de crimes e ameaças
dos latifundiários contra os camponeses pobres. Da mesma
forma que colaboram com os torturadores de hoje, protegem e acobertam
os torturadores e assassinos do período do regime militar,
quando se negam a abrir os arquivos do antigo SNI.
“Guerra
preventiva” contra os pobres
Na onda reacionária do “combate a violência”,
o nível do fascismo dos gerentes deste apodrecido Estado
têm aumentado escandalosamente. A chamada política
de “tolerância zero” é a “guerra
preventiva” de Bush, aplicado pelos governantes de plantão
contra os pobres de nosso país. Os prefeitos disputam entre
si quem ataca mais o povo. César Maia, no Rio de Janeiro,
faz uma guerra declarada contra os camelôs; em São
Paulo, José Serra, manda a polícia espancar uma
manifestação pacífica de perueiros, em Belo
Horizonte, Fernando Pimentel tirou os camelôs do centro
e espalhou câmeras filmadoras na região central;
em Recife, os ambulantes foram proibidos de trabalhar no metrô
e o governo federal distribui cartazes incentivando as pessoas
a não comprarem seus produtos.
Hoje no Brasil basta ser pobre para ser criminoso. Tudo o que
o pobre faz é proibido. Não pode luta pela terra,
não pode lutar por uma moradia, não pode fazer greve
que a justiça condena o movimento como abusivo, não
pode montar nem uma banquinha para vender produtos na rua porque
é contrabando e sonegação fiscal, não
pode fazer passeata porque senão está atrapalhando
o direito de ir vir, menor de idade não pode ajudar no
sustento da casa senão é exploração
do trabalho infantil, e por aí vai. A maior demagogia do
mundo; o imperialismo afunda nosso país na miséria
e os governantes locais são totalmente coniventes. Então
não existe emprego, não existe trabalho, nem bico,
e, qualquer outra forma que o pobre arrume para sobrevier é
transformada num crime. Os perueiros são chamados de “transporte
clandestino”, os camelôs de “contrabandistas”
e os moradores das favelas que manifestam contra a morte de um
jovem pela polícia são presos e condenados de “associação
para o tráfico de drogas”.
O jornal “O globo” publicou recentemente uma reportagem
fascista que explicita bem os argumentos que sustentam a criminalização
da pobreza. O título era “Cortiço a céu
aberto na Atlântica” tratava do enorme número
de pessoas que não possuem casa e são obrigadas
a dormir nas ruas, no caso o calçadão de Copacabana.
“Em duas horas, 43 moradores de rua são flagrados
dormindo na orla de Copacabana”, é assim que a jornalista
Taís Mendes introduz sua matéria preconceituosa
que revela toda a repugnância que a burguesia sente pelos
pobres, repugnância que no íntimo justifica atitudes
brutais como o assassinato dos mendigos em São Paulo. A
jornalista tranqüilamente informa que “Por iniciativa
do 19º BPM (Copacabana), policiais fazem constantemente o
recolhimento.” Recolhimento de que dona Tais? Você
se refere aos moradores de rua, ao lixo ou aos cachorros sarnentos?
Indignada ela cita um responsável da prefeitura: “Nós
recolhemos, levamos para o abrigo, mas eles não são
obrigados a ficar e voltam para Copacabana.” Seria tão
bom se eles fossem obrigados a ficar, não é senhorita
Tais? A praia ficaria mais limpa para você e seus turistas,
não é mesmo? Horácio Magalhães, presidente
da Sociedade Amigos de Copacabana, citado na reportagem, afirmou
que: “Vamos reeditar a campanha ‘Não dê
esmola’, feita em 2000. A idéia é tentar gerar
uma consciência entre os moradores de que, ao dar esmolas,
estarão contribuindo para a manutenção das
pessoas nas ruas e atrapalhando a ação do poder
público.” Realmente, este pobres devem morar na rua
porque preferem as calçadas duras, frias e sujas do que
uma casa. Este senhorzinho deve achar que os mendigos são
atrevidos por pedirem esmolas, talvez proponha a César
Maia a criação de uma lei que proíba a “prática
da esmola e da caridade”. As legendas das fotos da reportagem
fecham o quadro reacionário e anti-povo: “Mendigos
usam o calçadão da Av. Atlântica como dormitório.
Ao fundo, uma patrulha da Polícia Militar faz a ronda”;
“A grama é ocupada enquanto freqüentadores se
exercitam”; “Já com banhistas na praia, a areia
serve de cama”. Conclusão os pobres também
estão proibidos de freqüentar e se banhar nas praias.
A professora Vera Malaguti, do Instituo Carioca de Criminologia,
fez um excelente estudo sobre a criminalização da
pobreza. Em uma recente entrevista ao Jornal A Nova Democracia,
afirmou: “O neoliberalismo cria a violência e depois
cria a criminalização da pobreza.”
E mais: “Na periferia do capitalismo — com toda a
herança da escravidão, com a reforma agrária
que nunca foi feita, com pouquíssimo Estado previdenciário
— a precariedade do trabalho é maior. Tudo numa perspectiva
de criminalizar tudo. Criminalizam, por exemplo, o movimento dos
sem-teto: seus integrantes recebem depois algum rótulo,
como o de “traficantes”. Uma coisa que tem que ficar
claro é o seguinte: não é que a pobreza produza
criminalidade; a pobreza é criminalizada. A estratégia
de sobrevivência do pobre é criminalizada. Quer dizer:
tudo é crime, menos entregar para o FMI o superávit
primário da nação inteira. O medo mantém
o controle social truculento mantendo a classe média com
medo, para que ela não reflita sobre as razões.”
Embaladas pelo discurso dos meios de comunicação,
a classe média pede paz quando sente a violência
morder seus calcanhares. Enquanto matarem somente os “favelados”,
tudo bem. Mas quando meninos ou meninas bem nascidos sofrem uma
violência, organizam passeatas, clamam pelo desarmamento,
ouriçam suas ONGs. E tudo continua na mesma.
“Movimentos como o Viva Rio, para mim, não têm
nenhuma eficácia no combate à violência —
critica Vera— Talvez só pelo fato de que algumas
ONGs vão ganhar um monte de dinheiro, que vai estar ligado
a um sistema de publicidade que também vai ganhar muito
dinheiro... Igual à campanha de Paz: cada vez que as elites
fazem passeata pela paz, pode esperar que se vai matar no morro.
A paz no Iraque que me interessa, por exemplo, é quando
as milícias ganharem dos USA. Não haverá
paz para a classe média numa sociedade de classes nessa
fase violentíssima do capitalismo.” |