| “A
resistência iraquiana triunfará!”
Passados
dois anos do início da ocupação de Bagdá,
as tropas imperialistas se confrontam dia a dia com a dura realidade
de um inimigo inabalável, a resistência popular iraquiana,
que com unhas e dentes, defendem o povo e suas riquezas dos saques
e agressões ianques.
Após seu período de ascenso no pós-guerra
o imperialismo norte-americano, inicia sua grave crise na década
de 70, desde então os EUA como centro do sistema capitalista
mundial, vêem sua economia afundar em recessão ano
após anos, em cíclicas crises internas. A fim de
dar sobrevida a sua economia utiliza como principal estratégia
a promoção de guerras de rapina e pilhagens, assim
como aprofundar sua dominação sobre colônias
e semi-colônias, em uma nova partilha do mundo. Após
as maquinações de 11 de setembro, dá se inicio
a uma nova etapa desta ofensiva contra revolucionária,
sob pretexto da guerra contra o eixo do mal, a ocupação
do Afeganistão e do Iraque, juntamente com a possível
intervenção na Síria ou no Irã, cumprem
parte da tentativa de freiar sua crise. Por outro lado, a intensa
espoliação a que submetem os povos faz crescer enormemente
a luta antiimperialista.
No
mês de janeiro esteve no Brasil, Sammi Alaa membro da Aliança
Patriótica Iraquiana, importante organização
da resistência armada iraquiana. O Movimento Estudantil
Popular Revolucionário esteve com Sammi Alaa, com quem
fizemos uma entrevista. Sammi esclarece e expõe importantes
fatos do que se passa hoje no Iraque. Mais tarde participamos
de um debate realizado pelo CEBRASPO (Centro Brasileiro de Solidariedade
aos Povos) e Confederação das Comunidades Árabes
do Brasil, onde Sammi recebeu a calorosa recepção
do coral de Crianças da Vila Corumbiara, além da
saudação de todos que entoaram palavras de ordem
antiimperialistas e de apoio à resistência.
JEP
(Jornal Estudantes do Povo): Fale um pouco sobre a atual situação
no Iraque. Sammi
Alaa: Desde a tomada de Bagdá têm sido um
dilema para os americanos o que fazer. Eles estão convencidos
agora que a resistência iraquiana triunfará. Eles
tentaram tudo nestes dois últimos anos: massacres, bombas
de Napalm, usaram em Falluja gases e armas químicas. Até
hoje, eles não têm sequer o total controle da cidade
de Faluja. 40% da cidade de Faluja ainda tem combates onde a heróica
resistência tem continuado. A administração
de Bush está muita desesperada e eles estão aproveitando
esta pequena vitória diplomática no Iraque para
promoverem essa falsa eleição, para dizer que foi
a vitória. Esta eleição é totalmente
ilegítima. É impossível haver uma eleição
no Iraque livre e democrática sob a ocupação
e a pata do imperialismo, mas a resistência continuará.
Este “governo” é totalmente recusado e rejeitado
pelo povo iraquiano.
Hoje no Iraque existem três principais grupos da resistência.
O primeiro é o Grupo Patriótico Iraquiano, grupo
secular e não é religioso. Participam deste grupo,
o Partido Baath, que é o partido de Saddam Hussein, e também
o agrupamento dos Comunistas Patrióticos. Diferenciamos
este do Partido Comunista Iraquiano (PCI), porque o chamado PCI
esta colaborando com a ocupação. Outro grupo é
constituído por militares e policiais iraquianos da época
de Saddam Hussein. Esses ataques mais sofisticados usando mísseis
e outras armas mais modernas são feitos por esse grupo
de militares anteriores a ocupação. No último
ataque eles derrubaram um helicóptero britânico.O
terceiro é um grupo religioso. Esse grupo é composto
por xiitas, sunitas, cristãos e todos nós respeitamos
muito este grupo religioso. Eles representam aproximadamente 10%
da resistência iraquiana.
A lealdade de todas essas organizações é
com o Iraque e o povo iraquiano. Nós temos bastante orgulho
da resistência de nosso povo. A resistência iraquiana
dá energia aos nossos irmãos palestinos, filipinos
e também na América Latina, em especial a Colômbia
e também aos Partidos e grupos antiimperialistas. Isto
porque o projeto americano no Iraque é um projeto imperialista
de domínio e de esfera mundial. Não poderíamos
esquecer que se os americanos alcançassem a vitória
no Iraque seria um grande perigo para toda humanidade. O imperialismo
não pensa duas vezes em levar toda a humanidade para a
sepultura. É nosso dever barrar essa catástrofe.
JEP:
Existe uma guerra entre sunitas e xiitas?
Sammi:
Eles querem ficar no Iraque, inventam todo tipo de desculpas.
Estão falando agora sobre xiitas e sunitas. xiitas e sunitas
conviveram em paz mais de 1000 anos. Existem muitas nacionalidades
no Iraque, os curdos, árabes e vários outros, também
há muçulmanos, judeus e cristãos vivendo
no Iraque. Em toda nossa história nunca tivemos conflitos
entre esses diferentes grupos. Por que teria que ser agora com
a invasão americana?
Os EUA dividiram o Iraque em três regiões. É
uma divisão muito estranha porque dividiram o Iraque entre
os xiitas, os sunitas e os curdos. Eles misturaram religião
com etnia, nunca mencionaram o árabe.
A despeito o Iraque é um Estado árabe, 85% da população
é árabe. Então eles dividiram os curdos em
uma dimensão à parte. Entre os curdos existem cristãos,
muçulmanos xiitas, muçulmanos sunitas. Na resistência,
nós nunca nos identificamos como muçulmanos xiitas,
sunitas ou que for. Nós somos iraquianos e é tudo.
JEP:
Nós assistimos os meios de comunicação classificarem
a Resistência Iraquiana como terroristas. O que você
tem a nos dizer sobre isto?
Sammi:
O alvo de todos os grupos é a ocupação, terrorismo
no Iraque é o imperialismo americano. Vocês sabiam
que um soldado foi para o Canadá e pediu asilo político?
Uma autoridade canadense perguntou a ele: “Por que você
veio a nós pedir asilo político?”. Ele disse:
“Nós não temos uma causa justa no Iraque”,
e deu um exemplo de terrorismo: apenas na sua companhia, onde
ele estava no Iraque, só ali ele presenciou a morte de
30 iraquianos crianças, mulheres e pessoas idosas. “Estas
30 pessoas, nunca nos agrediram e nem tinham condição
de participar da resistência” ele disse. Concordo
que a mídia americana o tempo todo fala de terrorismo quanto
à resistência iraquiana para confundir a cabeça
das pessoas. É porque se não fossem essas mentiras
todas, eles não teriam nenhuma razão para continuar
no Iraque. Em relação às ações
que consideramos terrorismo, um exemplo é a degola de pessoas.
Todos os grupos da resistência iraquiana condenam a degola.
Nós condenamos todas essas ações deste grupo
terrorista Al Qaeda, que são ações desumanas.
A resistência iraquiana não tem nada a ver com isto.Quem
estaria por trás deste grupo, por certo seria a CIA para
jogar a população e a comunidade internacional contra
a resistência.
De acordo com as reportagens ocidentais, há 58 mil mercenários,
de várias partes do mundo, que estão a serviço
da ocupação americana. Esses mercenários
são da América Latina, Índia, África
do Sul, de vários países. E eles estão lá
supostamente ajudando a reconstrução do Iraque.
Não foram ao Iraque para ajudar as crianças, nem
o povo, nem para construir o Iraque, nem algumas cidades.
JEP:
E sobre o “seqüestro” do engenheiro brasileiro?
Sammi:
Na realidade os verdadeiros seqüestrados são os 26
milhões da população do Iraque. Eles estão
sendo seqüestrados pela ocupação americana.
A respeito das pessoas que trabalham no Iraque: o nosso país
não é como o Rio de Janeiro, um local de turismo.
E também não é lugar para trabalhar; há
uma guerra, há uma ocupação e há uma
resistência. Neste clima não há como ir para
trabalhar. Essa gente toda tem sido levada para lá nestes
últimos dois anos.
Nestes últimos anos 120 pessoas foram seqüestradas.
Sendo que 102 dentro destes foram liberados depois. A resistência
iraquiana depois do seqüestro faz toda uma sindicância
para avaliar o que essas pessoas estavam fazendo lá, então
aqueles que não têm nenhuma colaboração
com a ocupação americana são libertados.
A situação mudou muito depois de abril do último
ano. Todo mundo viu no noticiário as duas freiras italianas
e dos dois jornalistas franceses que foram seqüestrados.
As duas mulheres italianas estavam na zona verde de Bagdá
que é o local mais protegido dentro do Iraque. A embaixada
americana e o quartel general americano tudo esta nesta área
de Bagdá.Foram seqüestradas por pessoas que não
estavam com o rosto coberto.
Essas duas freiras italianas quando foram libertadas e voltaram
para a Itália, deram uma entrevista à imprensa italiana.
Disseram que esse grupo que as seqüestrou não era
da resistência iraquiana, eram grupos ligados ou aos americanos
ou aquele governo fantoche do Iraque. A resistência iraquiana
não teria nenhum interesse em seqüestrar essas duas
freiras e esses jornalistas franceses. Elas têm dado suporte
e um apoio político à causa iraquiana e, particularmente,
os dois jornalistas franceses têm dado muito apoio à
causa palestina.
Se realmente o brasileiro não tem nenhuma colaboração
com a ocupação imperialista, ele será solto.
O Brasil não apoiou, não participou de nada com
relação à guerra. E o povo iraquiano não
tem nenhum interesse que alguma coisa pior aconteça a esse
brasileiro.
JEP:
Com relação à estratégia, o que foi
feito pelo governo de Saddam para preparar a resistência?
Sammi:
O governo preparou a resistência. Meses antes dessa invasão,
o governo iraquiano de Saddam abriu todos os depósitos
de armas e as entregou para o povo. A resistência iraquiana
não precisa de ajuda em armas atualmente. Supõe-se
que existem no Iraque cerca de 45 milhões a 50 milhões
de armas nas mãos da população. Quando os
americanos chegaram, não encontraram nenhuma peça
de arma nos galpões dos quartéis do Iraque. As armas
estavam nas mãos do povo iraquiano. Essa foi a estratégia.
Mao Tsetung escreveu que os lutadores são como os peixes
no mar; ele descreveu muito bem isto na revolução
chinesa. Gostaria de dizer que os guerrilheiros são apoiados
pelo povo iraquiano.
JEP:
Você acredita na promessa de retirada das tropas norte-americanas?
Como a resistência enxerga essa possibilidade?
Sammi:
Nós aceitamos somente uma coisa: retirada incondicional
de todos as tropas invasoras. A administração Bush
fala da retirada das tropas, mas continuariam as 14 bases americanas
dentro do Iraque. Legalmente eles vão falar que a ocupação
terminou, mas na realidade eles continuarão controlando
através das 14 bases no Iraque. Esta solução,
a resistência iraquiana não vai aceitar. A resistência
iraquiana não tem conversa com os EUA, é a retirada
incondicional, não há nehuma possibilidade de acordo
com os EUA que não seja a retirada incondicional de todas
as tropas invasoras.O único compromisso que nós
fazemos com eles é dar livre passagem para eles saírem
do Iraque. Se eles se retirarem não vamos atacar.
JEP:
Gostaríamos de fazer uma pergunta a respeito da participação
das mulheres iraquianas nesta luta pela libertação
nacional. Nós sabemos que não é possível
derrotar o imperialismo sem a participação das mulheres
nesta luta. Homens e mulheres juntos. E nós vemos algumas
fotos de guerrilheiras com fuzil na mão e isso nos emociona
e nos estimula muito. Nós queríamos saber como é
a participação das mulheres na resistência?
Sammi:
As ações de resistência acontecem nas cidades,
e as mulheres participam ativamente; existem cerca de 9.000 mulheres
presas, e não é apenas isso, a inteligência
da resistência é feita principalmente por mulheres.
Elas ajudam muito na espionagem, mas não muito diretamente.
Todas as mulheres iraquianas podem carregar armas. Todos os homens
e mulheres tinham treinamento de 3 meses de manuseio de armas,
na época de Saddan. As mulheres participam ativamente da
resistência iraquiana.
JEP:
Quais são as perspectivas da Aliança Patriótica
Iraquiana?
Sammi: Nós temos uma organização
política, que foi fundada no ano de 1992, na Suécia,
e esse partido fazia oposição ao governo de Saddam
Hussein. Mas com a agressão imperialista, então
as diferenças foram colocadas de lado. Nós consideramos
importante a união de nossa organização política
e do povo para defender o país. É muito mais importante
que diferenças que existem entre nós e Saddam Hussein.
Nós estamos apoiando, chamando, estimulando o povo a levantar
a defesa do seu país e do seu povo. Desde o início
da guerra nós dizíamos que somente a resistência
iraquiana vai nos libertar da agressão imperialista norte-americana.
Não temos a menor dúvida ou objeção
à resistência iraquiana, seja qual for. Todos eles
são nossos irmãos, nossos camaradas. Nosso trabalho
é um trabalho político, então após
a guerra o nosso propósito é trabalhar para o nosso
povo. Nosso propósito é fazer uma frente ampla de
todos os partidos e grupos da resistência iraquiana. Para
unificar todos eles, em uma ampla frente política de resistência,
pagamos um alto preço. O secretário geral do nosso
partido foi capturado no Iraque pelos norte-americanos, ele está
preso e não temos notícias dele, e os ianques não
dão nenhuma explicação nem para a mídia
nem para a anistia internacional a respeito do destino dele. Existem
80 mil prisioneiros no Iraque. O nosso partido trabalha dentro
e fora do Iraque, buscamos a solidariedade de partidos políticos
em todos os países, essa solidariedade internacional é
muito importante para a resistência iraquiana.
JEP: Que tipo de apoio pode ser dado pelos estudantes
brasileiros à resistência iraquiana hoje?
Sammi: O que é mais importante para a
resistência hoje é a solidariedade, nós não
precisamos de armas nem de homens, não precisamos de voluntários.
A única coisa que precisamos é de apoio político,
isto é a solidariedade, suporte político. Neste
aspecto da solidariedade os estudantes são a linha de frente.
Na sociedade o Movimento Estudantil se torna um elemento muito
forte de repercussão, podem influenciar a mídia,
podem influenciar a universidade. A resistência iraquiana
está muito necessitada deste apoio político para
ser legitimada de acordo com o direito internacional, com a Convenção
de Genebra e com a Declaração das Nações
Unidas. Um povo que é invadido é agredido.
Os estudantes universitários no Iraque são muito
ativos, inúmeras vezes os ianques invadiram as universidades
e entram no campus com tanques provocando os estudantes, especialmente
em Bagdá, onde destruíram documentos e computadores
das universidades. Como disse, a situação dos universitários
é muito difícil, 250 professores universitários
foram assassinados, muitos professores iraquianos tiveram que
ir para Jordânia, Síria, Iêmen e etc. Então
o nível de aprendizado caiu muito, os sistemas educacionais
do Iraque são os piores da região hoje.
JEP:
Os estudantes têm desenvolvido uma ampla campanha de solidariedade.
Você gostaria de enviar alguma mensagem aos estudantes do
Brasil?
Sammi:
Tenho conhecimento que os estudantes brasileiros têm muitas
atividades políticas e são muito conscientizados.
Inclusive esta campanha de solidariedade é inseparável
da luta pelos direitos estudantis, de todos os direitos nacionais
e, também, da luta contra as más condições
de educação. Tenho conhecimento que aconteceram
muitos ataques aos estudantes brasileiros, à educação
brasileira, e que muitos estudantes não estão conseguindo
manter um curso universitário. Todas essas reivindicações
dos estudantes e do povo brasileiro devido aos inúmeros
problemas que existem aqui, poderão ser ligadas à
campanha de solidariedade ao Iraque.
O inimigo é o mesmo: o imperialismo norte-americano que
lá está massacrando com armas e aqui pelo poder
econômico. Este capitalismo, este imperialismo tem diferentes
faces. De acordo com a situação ele age de uma maneira
diferente. Nós vamos vencer este império ianque
maldito. |