- 41 anos depois:
- A
Édson Luís, Saudações Revolucionárias
Matéria publicada no JEP (Jornal
Estudantes do Povo) Nº 10

Corpo de Édson é
velado por seus companheiros
Edson Luís de Lima
Souto nasceu em Belém do Pará, no dia 24 de fevereiro de 1950.
Oriundo de uma
típica família pobre paraense iniciou seus estudos na escola
estadual Augusto Meira, aonde concluiu o ensino fundamental.
Devido à ausência de opções de ensino na sua região mudou-se
então para o Rio de Janeiro a fim de cursar o ensino médio no
Instituto Cooperativo de Ensino que funcionava no Restaurante
Central dos Estudantes, mais conhecido como “Calabouço”.
O Calabouço (apelido
dado devido à lenda de que ali teria existido uma prisão de
escravos) foi fundado em 1951 na sede histórica da UNE, no
bairro do Flamengo, mas logo no ano seguinte foi transferido
para as proximidades do aeroporto Santos Dumont exatamente no
centro da cidade. Apesar de formalmente administrado pelo
ministério da educação era a própria União Metropolitana dos
Estudantes (entidade secundarista) quem geria o local. Desde
então, e particularmente durante o ascenso de manifestações da
década de 60, a história daquele singelo lugar fundiu-se
definitivamente com a história do levante da juventude.
Manifestações contra o aumento das refeições, a favor da
educação pública e contra o regime militar encontravam ali um
verdadeiro centro de preparação e mobilização.
E, claro, seria
inevitável que no meio de tão intenso ambiente o jovem Edson se
encontrasse com aquele audacioso movimento estudantil, como
tantos e tantos jovens de sua geração. Apesar de não ter chegado
a ser uma liderança, Edson Luis nunca abandonou ou hesitou em
estar ao lado dos seus colegas sendo um bom exemplo do espírito
combativo do conjunto daquela juventude. Ajudava colando
cartazes e jornais nos murais, assistindo aos comícios, enfim,
porque compreendia muito bem a justeza daquela luta.
Mas um dia,
repentinamente, veio ligar seu nome à história.
Luta Contra o Fascismo
No fim da tarde do
dia 28 de março de 1968 mais uma manifestação estudantil ocorria
próxima ao Calabouço.Por volta das dezoito
horas, a Polícia Militar chegou ao local e tentou dispersar os
estudantes que, por sua vez, responderam com paus e pedras. A
polícia então recuou mas, temendo que os jovens seguissem com a
manifestação e apedrejassem o consulado norte-americano (o que
era comum, uma vez que essa é vizinha ao restaurante) logo
voltaram e invadiram o Calabouço. Os estudantes resistiram e o
confronto instalou-se. Como em todas as manifestações da época,
a polícia levava larga desvantagem até que um tiro seco irrompeu
no pátio. Subitamente a multidão abre e, no seu meio, jaz morto
com um tiro a queima roupa no peito aquele jovem que contava
então dezoito anos, chamado Edson Luis. Logo a batalha reinicia,
agora pelo corpo do estudante, uma vez que a polícia tentaria
sumir com o mesmo. Com fúria e vigor centuplicados os estudantes
vencem a batalha e saem pelas ruas da cidade carregando o
primeiro estudante assassinado pelo regime militar, seu colega
de manifestações, agora um de seus heróis. Um outro estudante,
Benedito Frazão, também foi atingido e morreu no hospital.
O
executor do crime chamava-se Aloísio Raposo, comandante da
operação. Mas o verdadeiro e maior responsável também era
conhecido pelos jovens, conhecido e repudiado, era o regime
militar fascista e todos os seus asseclas.Tanto que o velório de
Edson transformou-se num gigantesco ato de repúdio à repressão.
Centenas de cartazes foram colados por toda a cidade com
palavras-de-ordem como “Bala Mata Fome”? e “Mataram um
estudante-podia ser seu filho”!. Compareceram ao enterro 50 mil
pessoas e no período que vai do assassinato até a missa do dia
2 de abril ocorreram manifestações em todos os cantos do país.
Dois meses depois, no dia 26 de junho, como desdobramento do
assassinato do Edson Luis e da escalada da repressão ocorreria
outro marco importante daquele ano de 68, a passeata dos cem
mil.
Papel Revolucionário da Juventude
Passados 40 anos daqueles episódios é necessário lembrar e
render homenagem àquela juventude que tantas e tão belas páginas
de heroísmo e ousadia escreveu. Mas não bastam lembranças e
homenagens. É necessário principalmente aprender com seu exemplo
e entender que a essência daquele movimento, a fonte de seu
vigor e grandiosidade era exatamente a confiança firme de que
mais do que lutas pontuais o papel do movimento estudantil é
marchar lado a lado do povo brasileiro no caminho da
transformação cabal de nossa sociedade, no caminho da revolução
no nosso país. E torna-se ainda mais necessário reafirmar e
praticar tais principios quando todos os oportunistas e
“ex-lutadores” de plantão utilizam-se da imagem daqueles
valorosos jovens para negar e jogar lama sobre o que é essencial
em toda sua trajetória.
Oportunistas e Renegados
Não
têm faltado “Memoriais do Movimento Estudantil”, “Caravanas” e
todo tipo de falsidades realizados com o apoio do mesmo Estado
responsável pela perseguição e morte daqueles companheiros. Não
tem faltado também declarações da UNE no sentido de se apropriar
daquelas lutas quando na verdade esta entidade governamental
tudo o que faz é bajular “autoridades” como José Serra, José
Dirceu e até o ministro da justiça Tarso Genro, o mesmo que
mantém trancados muitos dos arquivos criminosos do regime
militar.
Tanto que no dia 28 de março desse ano de 2008 em conjunto com a
Secretaria de direitos humanos da Presidência da república e a
Prefeitura do Rio, UNE/UBES participaram da inauguração de uma
placa em memória a Edson Luis. No ato estavam “personalidades”
como Vladimir Palmeira, do PT, que logo disse que apesar da
importância daquelas lutas no passado,o movimento estudantil
chegou ao fim. A atual presidente da UNE, Lúcia Stumpf, também
“exaltou” o jovem Edson mas fez questão de ressaltar que a
realidade de hoje é “diferente” e que os estudantes se mobilizam
menos porque “têm menos tempo”. José Dirceu foi outro convidado
mas, talvez por medo da massa, não compareceu. A mãe do Edson
Luís, a sra. Maria de Belém Souto Rocha, de 84 anos, presente ao
ato, pouco falou mas deve ter se surpreendido com aquela
juventude adocicada e rendida, tão diferente em fala e em
espírito de seu filho e seus companheiros.
Mas
o caminho da rebelião e da luta consequente não chegou ao fim e
ainda que repetida mil vezes tal mentira não se tornará
realidade. O movimento estudantil segue de pé e não é devido à
“falta de tempo” dos jovens que a UNE é incapaz de mobilizar os
estudantes mas sim porque a linha conciliatória e oportunista
dessa sigla encontra cada vez menos eco entre a juventude. A UNE
de hoje é a própria antítese daquela União Nacional dos
Estudantes da década de 60. Mais do que nunca devemos celebrar
os acontecimentos de 1968 como imagens vivas de que o espírito
rebelde é o único capaz de mobilizar os jovens e que sempre que
encontram-se com tal espírito, sempre que chamados à luta, a
juventude responde com energia e entusiasmo. Foi a esse chamado
que o estudante secundarista Edson Luis de Lima Souto respondeu
e manter erguida no alto a bandeira vermelha da revolução,
bandeira sustentada há 40 anos atrás por aqueles jovens, é a
única forma concreta de homenagea-los e sauda-los hoje, amanhã e
até que juntamente com todo o povo a juventude conquiste não
esse arremedo de democracia purulenta que aí está mas a sua real
libertação!
Viva o Movimento Estudantil Secundarista!
Édson Luís, Presente!