| VITÓRIA!
Colegiado
Aberto do Curso de Pedagogia da UFPR se posiciona pelo BOICOTE INSTITUCIONAL
ao ENADE/SINAES.
Centro Acadêmico de Pedagogia da UFPR – Gestão
Nadando Contra a Corrente
O
Colegiado Aberto do Curso de Pedagogia (estudantes, professores
e técnicos) da Universidade Federal do Paraná se reuniu
no dia 06 de setembro passado e decidiu não inscrever os
estudantes no ENADE – Exame Nacional de Avaliação
do Desempenho do Estudante, como forma de boicote institucional
ao exame. Também foi formada uma comissão que redigirá
documento explicitando as razões pelas quais o curso nega
a inscrever-se na prova, assim como utilizar todos os mecanismos
políticos e jurídicos para garantir que a autonomia
universitária seja respeitada.
O
Colegiado Aberto foi realizado depois de uma ampla discussão
acerca do tema. Foram realizados dois debates, sendo um com o representante
do MEC – Dilvo Ristoff (diretor de estatísticas e avaliação
do INEP e membro da CONAES), que foi convidado pela ex-coordenadora
do curso e outro com o professor Lafaiete Neves (professor de economia
política no curso de Serviço Social da PUC-PR, membro
do ANDES), convidado pelo Centro Acadêmico.
Essa
foi uma corajosa decisão do curso, visto que a lei que estabelece
o SINAES - Sistema Nacional de Avaliação do Ensino
Superior pune de forma rigorosa e arbitrária as instituições
que não se submetem à avaliação mercantilista
do ministério. A lei prevê suspensão do vestibular,
cassação de autorização para funcionamento
do curso e mandato judicial sobre o responsável pela instituição,
além dos estudantes do quarto ano correrem o risco de não
receberem o seu diploma. Mas todas essas punições
e ameaças anti-democráticas contidas na lei (que são
o melhor demonstrativo da concepção de avaliação
que ela aplica) não foram capazes de deter os mais de 110
estudantes, professores e técnicos que se reuniram no anfiteatro
do prédio da Reitoria. Decididos a barrar a implementação
da "reforma" universitária do governo Lula/Banco
Mundial, o curso de Pedagogia mais uma vez deu mostras de coragem
e ousadia. A votação foi quase unânime, apenas
duas pessoas se posicionaram a favor.
E
a luta tende a aumentar, pois outros cursos também estão
aderindo ao boicote este ano. No ano passado, as executivas de Serviço
Social e Educação Física zeraram a prova. Este
ano, o CEB da UFPR já aprovou o boicote e no dia 17 de setembro
se realizará um Seminário que debaterá sobre
o ENADE/SINAES e irá deliberar um plano de lutas. São
os estudantes se mobilizando para lutar contra a privatização
da universidade pública, mais uma vez. Só que desta
vez, livres da canalha oportunista da UNE (PcdoB/PT) que estão
defendendo a todo custo o ENADE e demais medidas da reforma. Eles
que fiquem no parlamento, estaremos livres dessa canalha!
No
ano passado, o Setor de Educação da UFPR foi o primeiro
a se posicionar contra a "reforma" universitária
do governo Lula. Neste ano de 2005, cerca de 600 estudantes e professores
da UFPR pararam por mais de 40 minutos o principal cruzamento de
Curitiba e, junto aos demais estudantes de Pedagogia de todo o país,
barraram o projeto de resolução do Conselho Nacional
de Educação, que transformava o curso de Pedagogia
em um curso Normal Superior, atacando a cientificidade e totalidade
da formação e reduzindo-a à lógica tecnicista
e mercantil imposta pelas políticas públicas atuais.
Os
estudantes foram vanguarda nestes movimentos, que estão tendo
cada vez mais a adesão de professores progressistas, comprometidos
com a educação pública e gratuita e com o progresso
nacional.
Veja
abaixo algumas das frases pronunciadas pelos presentes, que debatiam
o porquê de não realizar o ENADE:
"O
professor Dilvo havia dito em sua palestra que a avaliação
institucional é estratégica para um projeto de educação.
Quando questionamos a ele como era possível implementar a
avaliação antes de reformar o sistema ao qual ela
avalia, ele não soube nos responder".
"Aprovar
o SINAES via medida provisória e dizer que ele foi amplamente
aceito pela comunidade universitária, tendo inclusive o apoio
da UNE, é brincar com a nossa inteligência. Porque
ele não foi debatido pela comunidade universitária?
A UNE não nos representa".
"O
apoio da UNE não significa nada, pois ela não está
do lado dos estudantes e sim do governo. Sabemos que o Gustavo Petta
é membro da CONAES – Comissão que centraliza
todos os poderes – e que recebe mensalão para isso.
Queremos que os estudantes sejam de fato ouvidos".
"Está
na hora de pensarmos no interesse do coletivo e não no individualismo,
cada um fazendo o que quer. Cada um decidir se quer ou não
fazer a prova é individualismo, essa é a lógica
do capitalismo".
"Barramos
a resolução do CNE e porque não haveríamos
de barrar o ENADE em nosso curso? Não aceitaremos nenhum
tipo de punição, defenderemos nosso curso e a autonomia
universitária nas ruas, faremos manifestações,
entraremos na justiça, o que não faremos é
implementar a "reforma" universitária na nossa
universidade".
"A
diretora do Setor precisa comprar essa briga, pois foi eleita por
nós para nos representar perante o MEC e não para
representar os interesses do MEC aqui dentro, como ela disse".
"Estamos
nos formando como Pedagogas e enfretaremos nas escolas esta mesma
contradição: seremos obrigadas a implementar políticas
do ministério ou das secretarias que não concordaremos.
Abaixaremos a cabeça para tudo, seremos coniventes? Nos negamos
a ser pedagogos medíocres, estamos nos formando pedagogos
críticos, autônomos".
"A
avaliação deve buscar identificar as falhas para melhorar
e não punir os piores e premiar os melhores. Essa é
a lógica classificatória, que em nada contribue para
a qualidade de nossa formação. As instituições
mal avaliadas terão que firmar protocolo de compromisso e
realizar ações que visem a correção
das falhas. Qual a contrapartida do MEC, que é o provedor
da educação? As universidades estão sendo desmontadas
há dez anos e o MEC quer nos avaliar sem dar condições,
sem investir?"
"O
ranqueamento servirá para a distribuição dos
recursos, já que a "reforma" universitária
estabelece a indissociação entre o público
e o privado. Como as verbas públicas deixam de ser exclusividade
da universidade pública e o capital internacional pode investir
até 30% no ensino superior, é preciso ranquear as
melhores. É para isso que os SINAES serve, para privatizar
a universidade".
"Aluno
é para fazer prova, é assim que eles pensam. Essa
avaliação é punitiva e em nada contribue para
a emancipação dos sujeitos. Nos submeter a ela é
negar tudo que acreditamos em termo de avaliação formativa
e emancipatória".
"Não
podemos nos submeter às leis, esse Estado que aí está
legisla para a burguesia imperialista. Até no exército
reacionário existe um Regimento Disciplinar, onde tem uma
cláusula que diz: leis absurdas não se cumprem".
E terminamos com a brilhante frase de nossa nova coordenadora, que
assumiu em caráter de urgência:
"Não
temo nehuma ação judicial, enfrentarei as consequências.
Se o MEC me cassar, aqueles que ainda têm dúvida de
que vivemos uma ditadura, poderão ter certeza. No dia seguinte,
entro com um mandato de segurança. Contem comigo!".
Viva a união dos estudantes e professores progressistas!
A Pedagogia não faz ENADE! Por uma avaliação
de verdade!
Barrar a "reforma" universitária do governo Lula/Banco
Mundial!
Em defesa da educação pública, gratuita e que
sirva ao povo!
CARTA
ABERTA DO COLEGIADO DE CURSO DE PEDAGOGIA EM RELAÇÃO
AO ENADE/SINAES
O
Colegiado do Curso de Pedagogia da UFPR, conquanto evidencie a importância
dos processos avaliativos institucionais como mecanismos dialéticos
de transformação qualitativa na direção
do significado político-social possível/desejável
a uma concepção de Educação Superior
comprometida com os interesses das classes populares que constituem
a maioria da sociedade brasileira, posiciona-se contrariamente ao
Sistema Nacional de Avaliação da Educação
Superior (SINAES), por um conjunto de questões, dentre as
quais:
• A evidente vinculação histórica da
lógica deste sistema de avaliação aos propósitos
de desmonte da Universidade Pública Brasileira pela via de
sua inviabilização, num Estado que, progressivamente
se desobriga de sua manutenção, premido pelas exigências
do capital internacional que o expropria de sua soberania.
• Refletindo sobre a afirmação do Diretor de
Estatística e Avaliação Superior do INEP e
membro da Comissão Nacional de Avaliação da
Educação Superior (CONAES), em recente debate com
a comunidade acadêmica do Setor de Educação
da UFPR, de que “a avaliação é uma questão
estratégica”, pergunta-se: Que estratégia estaria
subjacente a um sistema nacional de avaliação que
se antecipa às próprias definições para
a Educação Superior que tal sistema pretende avaliar?
• O processo de instituição do SINAES, nascido
de uma Medida Provisória pela Lei Federal nº10.861 de
14 de abril de 2004, de sua regulamentação e constituição
da Comissão Nacional de Avaliação da Educação
Superior (CONAES), de forma centralizada e contando apenas com a
participação de consultores oriundos de Universidades,
porém, não necessariamente comprometidos com as lutas
históricas das alas progressistas de docentes, pesquisadores,
extensionistas, estudantes e funcionários. Portanto, à
revelia da discussão da questão pela base da comunidade
universitária nacional, caracterizando-se, assim, num processo
ilegítimo, denunciador do caráter antidemocrático
e compulsório de tal sistema de avaliação.
• A forma como, no âmbito da UFPR, o SINAES foi encaminhado:
logo após a aprovação da Lei Federal que o
instituiu, a UFPR em 04 de junho de 2004 institui sua CPA –
Comissão Própria de Avaliação, obedecendo
àquele dispositivo legal, antes mesmo que fossem emitidas
as legislações complementares que surgiram a partir
de julho de 2004. A adesão apressada da UFPR ao SINAES, deu-se
de forma destituída de crítica, não promovendo
internamente uma discussão ampliada nas bases da comunidade
acadêmica, ferindo mais uma vez o princípio constitucional
de autonomia universitária.
• A concepção de avaliação presente
no SINAES contra a qual nos posicionamos, é problemática
do ponto de vista do que seja a avaliação por definição,
ou seja, um processo dialético de avanço e aprimoramento.
Contrariamente, observa-se que a concepção de avaliação
do SINAES: é autoritária e não democrática
como apregoa, é unilateralmente punitiva e não emancipatória,
o que pode ser evidenciado pelo protocolo de compromisso contido
em seu Artigo 10; é quantitativa e classificatória,
com os decorrentes efeitos de estabelecer ranking e de passar por
alto aspectos qualitativos relevantes do ponto de vista da necessária
descrição e análise crítica da realidade,
visando transformá-la.
• O tratamento, de maneira indiferenciada para alguns efeitos,
da instituição privada e da pública, assume,
para outros efeitos, caráter persecutório em relação
às universidades públicas, como é o caso das
sanções previstas, nas quais, em havendo etapas não
cumpridas os dirigentes das instituições de educação
superior públicas receberão advertência, suspensão
ou perda de mandato, ou a instituição terá
cassação de autorização de funcionamento
ou de reconhecimento de cursos por ela oferecidos, não havendo
sansões correlatas no caso de instituições
privadas de ensino superior. (SINAES, Art. 10, Par. 2º).
• A concepção de avaliação do
SINAES é incongruente com os avanços teórico-metodológicos
alcançados no âmbito da pesquisa, da extensão
e do ensino desta questão como o têm assinalado os
estudantes nos diferentes momentos de debate que, presentemente
têm sido promovidos no Setor de Educação da
UFPR; é incongruente com a concepção da Universidade
Necessária à defesa dos interesses nacionais e até
com os objetivos do próprio sistema de avaliação,
conforme anunciados no Art. 1º, § 1º da Lei que o
institui.
Nesta
perspectiva, reafirma-se a necessidade de avaliação
institucional numa concepção organicamente vinculada
à qualidade da Educação Superior que responda
à necessidade de solução dos grandes problemas
nacionais, do ponto de vista dos interesses das classes populares
preponderantemente constitutivas da sociedade brasileira.
Deste ponto de vista, importa resgatar uma concepção
de avaliação institucional que de há muito
vem sendo estruturada no debate democrático no âmbito
da comunidade acadêmica comprometida com os interesses das
classes subalternizadas:
que tenha como objetivo rever e aperfeiçoar o projeto acadêmico
e sócio-político da instituição, promovendo
a permanente melhoria da qualidade e pertinência das atividades;
-
que tenha como princípios básicos: perspectiva de
totalidade em relação aos aspectos a serem considerados
no processo avaliativo, ou seja, todos os aspectos da vida de
uma universidade devem ser, em princípio, avaliadas; não-comparabilidade
dos resultados ou performance das universidades ou IES; respeito
à identidade institucional; não-premiação
ou punição (como conseqüência dos resultados
de avaliação); não incentivo à competição
entre as instituições; legitimidade política.
-
que tenha como forma de adesão a participação
voluntária das IES;
-
que o processo avaliativo constitua-se a partir de um projeto
de avaliação institucional (o qual poderá
focalizar um ou mais departamentos, um ou mais cursos de graduação,
questões curriculares, avaliação da performance
dos docentes, perfil dos estudantes, qualidade do ensino, aspectos
administrativos, etc.), que inclua auto-avaliação
da IES e a avaliação externa pelos pares definidos
pela instituição; que a avaliação
seja orientada para a instituição e centrada qualitativamente
nos processos formativos;
- que
o processo avaliativo seja coordenado pela instituição
ou comissão interna à instituição
(professores, chefes de departamentos, diretores, coordenadores
de cursos, pró-reitores ou seus representantes, estudantes,
etc.) designada democraticamente;
-
que tenha, básica e amplamente, caráter participativo
e emancipatório.
É
fundamental, ainda, que se indague:
-
Quanto ao ENADE constituir-se pela legislação referente
ao SINAES, em componente curricular obrigatório, seria
possível inserir um componente curricular a posteriori
em uma Proposta Curricular devidamente aprovada em todas as instâncias
cabíveis? Que dizer dos riscos, já verificados em
outros contextos, de que o ENADE, como uma das etapas do SINAES,
com as incongruências já apontadas, passe a orientar
o processo formativo?
-
Que conteúdos serão incluídos nas provas
do ENADE, na atual ausência de Diretrizes Curriculares Nacionais
para o Curso de Pedagogia? Ou, dar-se-ia o caso de uma inversão,
ou seja, de tais provas acabarem por informar a formulação
dessas diretrizes?
Assim
é que o Setor de Educação, com o respaldo teórico
do campo privilegiado de atuação de seus docentes
e estudantes, nas atividades de pesquisa, ensino e extensão,
por meio de Seu Colegiado de Curso, apresenta este posicionamento
e coloca-se, com esta Carta Aberta, como interlocutor no debate
da questão com a comunidade universitária da UFPR,
neste momento tão crucial de resistência pela Universidade
pública, gratuita e de qualidade.
O boicote institucional ao Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes
(ENADE), definido pelo Colegiado Aberto, reunido no dia 06 de setembro
de 2005, configura-se como um movimento na direção
dessa resistência.
|